terça-feira, 17 de julho de 2012

VOCACIONAMENTO DE URGÊNCIA


   Ainda escuto, como se houvesse parado o tempo ao meu redor, a vibração do meu celular – que ocorrera às 9h 45min 2s do dia 11 de maio de 2012 --, precisamente localizado no ângulo superior do bolso esquerdo da calça. Incontinenti, examinei o mostruário do aparelho, e deparei-me com o nome de minha mulher – Maria do Socorro. Logo que toquei no botão de liberação sonora, assoumou-me-lhe a voz; e, então, pude escutá-la em confissão, desde o encetamento, imprimindo uma maior ressonância de timbre ao instrumento de comunicação. Destarte, disse-me, com oscilação vocálica, que sentia lancinante dor no olho esquerdo, e que ia, pouco a pouco, perdendo a acuidade visual da respectiva visão cuja aparência era menos comprometedora!... Este fato traumático sucedera 48 horas, depois do tempo mínimo da operação realizada no olho direito, notadamente no dia 09 de maio do ano em curso.
   Em princípio, uma arrebatadora onda de atonismo obiciou-me a capacidade de raciocínio, mas, mesmo assim, sob a luz da Divina Providência, mantive a homeostasia orgânica, e, resolutamente pedi a ela que se vestisse, de modo açodado, para que pudéssemos nos encontrar nos vestíbulo da Clínica Ocular. Naquele átimo premente, não existia outro itinerário a seguir, a não ser o que representava a refocilização do dispêndio perpetrado em dosagem duplicacional.
     Ao chegar ao salão principal da clínica de olhos, Socorro já sentia uma premente necessidade de emetizar. Logo, sem procastínios, foi atendida pelas auxiliares do médico oftalmologista --- Dr. Anselmo Filho.
     Ao tentar medir a pressão intra-ocular, por motivos justificáveis, veio-nos ao encontro em estado de estupefação inédita. O aparelho, de alta tecnologia e precisão, não conseguia precisar o valor, dando a pseudo-impressão de que estava com defeito. Minutos depois, com a administração do colírio pilocarpina, houve alguma condição de registrar a pressão intra-ocular, a qual já expressava uma numeração que aproximava de “50”, que é uma das características basilares de um glaucoma agudo. E, pela intercessão de Nossa Senhora de Fátima, continuou a enxergar um pouco, já que havia prosseguimento das sucessivas instilações de pilocarpina, obedecendo a um intervalo mínimo de 15 minutos entre uma e outra aplicação; e, depois obedecendo uma variância de 30 minutos. Concomitantemente, foram utilizados três tubos de manitol, um em casa soro fisiológico, com o escopo de baixar a altíssima pressão intra-ocular, que, ainda permanecia ostentando um valor elevadíssimo de pronto alerta.
     Ficamos – eu e minha esposa Maria do Socorro Araújo Cerveira Marques, durante o dia todo, no espaço restritivo de um prolongamento do salão da Clínica Ocular, após a prescrição do receituário contendo o número de vezes correspondentes às respectivas reiterações de substâncias medicamentosas necessárias para o ressumbramento minoritário do sindrômico.
     Nos pródromos da noite, sobretudo no cerramento da postremeira porção crepuscular a ser presenciada o horizonte distante; Maria do Socorro foi conduzida à ante-sala do centro cirúrgico, para que recebesse os aprestamentos exigidos no momento do pré operatório. Nesse interregno, eu havia vocacionado a nossa filha Gláucya Cerveira, para fazer-me companhia, sobremodo neste final prolativo a que nos submetemos durante 24 horas ininterruptas, enfrentando a ambivalência do psicológico, onde o nervosismo imperava em todos os sentidos e direções da vastidão orgânica.
     Pensava comigo, na quietude da sala sobre a incomensurável força do milagre operado por Deus, sob a intercessão de Nossa Senhora de Fátima, para que continuasse sempre a enxergar, uma vez que teve tudo para contrair uma cegueira.
     Ao sair da sala de cirurgia, fazendo o deslocamento em sentido inverso, deparou-nos ainda em posição estática, numa sintomatologia de percuciente angústia.
     Finalmente, vislumbramos a efígie de Maria do Socorro, que trazia um tampão no olho esquerdo. A partir desse reencontro no corredor da casa de saúde – de natureza particular, declarou-nos que havia anestesia ao redor de toda a região de todo o olho operado, reforçando ainda mais as outras substâncias colocadas diretamente no soro.
     O oftalmologista – Dr. Anselmo Filho --, confidenciou-nos de que estava perante a um caso inédito, já que, no interregno de 25 anos, nunca se deparara com um desconumal comportamento orgânico do tipo surpreendente.
     Posteriormente, solicitou regresso da paciente no sábado, -- dia 12 de maio de 2012, no expediente matutino; data esta que precedia as celebrações solenes: da Mãe Santíssima, e da mãe terrena.
     No domingo, pudemos agradecer a Deus e a Nossa Senhora de Fátima pelas inúmeras graças concedidas, pois aconteceu a presença do sobrenatural, que é a permanência da visão, reitero, em meio a um paroxismo extremo de glaucoma agudo.

                   Wilson Cerveira

sexta-feira, 6 de julho de 2012

UM EPITÁFIO REMINISCENCIAL DEDICADO À AMIGA AMÉLIA DA GUIA

     Conheci-a fortuitamente ao lado de seu irmão -- Schalcher, em direitura ao lineamento vetorial que dava acessibilidade a um dos guichês dos Correios e Telegraphos, precisamente em junho de 2000, na tentativa de requestar perquirições sob as normativas de um possível concurso público para a Previdência Social. Nessa manhã de sol canicular, eu estava na companhia da minha mulher -- Maria do Socorro em uma fila paralela a sua, com o escopo de remeter algumas correspondências para o Sudeste. E, ensejando os meandros da própria disposição das pessoas, conseguimos certa aproximação com relação a nesga situacional de ambos; e, em seguida, empertigamo-nos para que pudéssemos olhá-los de soslaio. E, num gesto automato, toquei-lhes na omoplata, e, incontinenti, volveram-se circunscrevendo um ângulo restritivo em nossa direção, facultando a apresentação reciproca. E, a partir daquele átimo, o donaire ressumbrou entre nós a lidimidade a ser cultivada através dos anos subsequentes.
     No ano seguinte, invitei-a para que viesse congratular-me no dia do meu natalício -- 25 de dezembro. Preferiu dizer-me em tom corroborativo, que se faria presente, não ponderando as probabilidades de paroxismos palindrômicos de um tipo de colite, de cunho emocional, que a persecutava desde a casa dos trinta anos. No dia de Natal, mormente em 2001, primeiro ano do século XXI, telefonou-me com a finalidade de escusar-se diante da ausência proporcionada, exarando apenas os sinceros votos de parabéns pelo telefone. Após 3 anos percorridos, resolveu cumprir a promessa, comparecendo espontaneamente em dezembro de 2004, já que eu havia reiterado o convite prístino. Conquanto sabendo que pertenço a efeméride de dois natais, sendo um deles uma apoteose para a Igreja Católica, a qual, solenemente, celebra há mais de dois milênios o nascimento de Jesus Cristo, também comemoro, com simplicidade o meu natal. 
     Numa determinada tarde, dessas que o crepúsculo sofre oclusão vertiginosa, ao descerrar o postigo, lobriguei-a na ascensão da ladeira que se perpendiculariza com a Rua de São João, antiga Treze de Maio. E, sem procrastinação, descortinei a janela, deixando-a semiaberta. E, nesse ínterim, cumprimentei-a usando a seguinte interpelativa: -- Amélia, estás a morar, novamente, nas contiguidades da casa em que resido?!... --- Não hesitou um só instante, e redarguiu-me que estava, interinamente, prestando os seus serviços de funcionária pública na Escola Benedito Leite, antiga Escola Modelo. De antemão, adiantou-me que não estava em sala de aula, e sim na biblioteca do mencionado Centro de Ensino Fundamental e Médio, situado na Praça de Santo Antônio, também denominada de Antônio Lobo.
     Em um interregno de cinco minutos de dialética, sem que pudesse lhe dar mais atenção, uma vez que o telefone vocacionou-me lá fora, na varanda da casa. Então, despedi-me dela com o aceno de mão esquerda, pleno de cordialidade, prometendo visitá-la na própria escola, num prevalecimento de fugaz comenos. Não tardou muito, para que eu subisse os degraus que aduzem ao interior do educandário, e logo me dirigisse ao espaço circunscrito, onde fica o salão de leitura da referida biblioteca, e, em seguida, conseguisse acionar a sirene, afixada no caixilho externo da porta. Percebi que alguém abruptamente, aplicava duas voltas anti-horárias na fechadura da porta. Assim que a hemibanda se escancarou,  a pessoa de Amélia da Guia Schalcher Pereira assomou na soleira da porta, exatamente no centro de cerramento dos artefatos de madeira. Recebeu-me discretamente exibindo um ar de aprazimento acolhedor. Mandou-me sentar, e, durante um silêncio prolativo, pude concatenar as palavras que comporiam o contexto da nossa lacônica confabulação, já que estávamos no interior do recinto de trabalho.
     Em outra ensancha, disse-me, numa mussitação de lábios emotivos, que vinha sofrendo há bastante tempo as agruras proporcionadas pela síndrome palindrômica de uma colite crônica ---- de natureza emocional acrimoniosa. De pronto, aconselhei-a a que contivesse os arrebatamentos das comoções, procurando, também, realizar uma dieta alimentar, e, principalmente, a que lhe permitisse a abjuração da carne vermelha. --- Abjurar, professor Cerveira; o termo empregado é ótimo, mas não em questão de disciplina alimentar!... Disse-me isto, com fisionomia plangente, depois de perlustrar-me acuradamente a face.
     De modo louçã, veio-me também fazer uma visita, sendo solicitamente acolhida por minha mulher --- Maria do Socorro, antes mesmo que me manifestasse, pois não me encontrava, naquele átimo, nos aposentos do lar.
     Declarava, com solicitude, que não deixava morrer em pleno mostruário do celular as minhas ligações nem as mensagens que lhe enviava, usando o telefone celular como meio de comunicação atualizado. Outrossim, dizia a quem quisesse e tivesse ouvidos para escutar o seguinte: Wilson Cerveira é a única pessoa que requesta, com galhardia, redarguimento premente das emissões que realiza diuturnamente.
     Após ter o seu quadro clínico recrudescido, não deixava de postular-me conselhos sobre medicamentos que deveria tomar ou não, apesar de ter assistência médica do seu gastroenterologista.
     Na peroração da sua vida material, encerrado no dia 25 de julho de 2010, no dia seguinte ao seu natalício de quarenta e quatro anos. E, então, um ano antes da eterna despedida física, apresentou-me um punhal de dois gumes, que é o tratamento quimioterápico, o qual poderia restabelecê-la ou, em cabal dualismo, matá-la.
     No postremeiro ensejo, sem que nenhuma providência pudesse ser mais tomada. é que fui avisado açodadamente, pois, Amélia da Guia, nessa hora de extrema angústia, já se encontrava em seu leito de morte, somente aguardando a chegada do esquife, para que lhe agasalhasse o corpo inerte!
     
                                                   Wilson Cerveira