Doutor Calístenes,
em companhia de suas duas bengalas, acabara de atravessar a “Praça dos Prazeres”.
Porventura, uma região de sua mente ia obliterando o estado de perclusão. Nessa
ensancha, pensaria que, possivelmente, expiasse as limitações do seu próprio
corpo. Desde então, a partir dos quarenta, ficara a depender de um par desses
artefatos, os quais serviriam para impulsioná-lo em direitura à vanguarda.
Também, não perdera o hábito de ler quaisquer notícias, mesmo que o papel
divulgatório estivesse no chão. Com que sacrifício arrostava as dificuldades
oferecidas pelo ramerrão existencial. Há poucos dias, lera o artigo que falava
do ódio improcedente. Mais tarde, tornou a lê-lo, com acuramento, uma vez que,
decerto, a memória ia expungindo, pouco a pouco, redundando no olvido sempre
presente.
Hoje mesmo, de
maneira inopinada, Ladislau veio-lhe fazer uma visita amistosa. Após prolongado
silêncio, dirigiu a palavra ao Dr. Calístenes. De fato, o referido médico
psiquiatra era um leitor assíduo de vários psicanalistas. Destarte,
fundamentava-se quanto à discussão do mais bárbaro psicopatismo reinante.
Também, há anomalias mentais diversificadas. Não se pode, peremptoriamente,
determinar qual é a pior de todas, pois a extensibilidade é progressiva e
comutativa.
Deveras, na
concepção de ambos, Eletério era um tipo heteróclito, com predisposição ao mais
grave descontrole mental. Qual seria o mesmo, -- perguntar-se-iam, já que
existem muitas barbáries, as quais se dispersam por todo o orbe. A
criminalidade é um desvairo impressionante, independentemente de quaisquer
linhas de transmissão.
Dr. Calístenes
depreendia a disfunção gerada pelo arguto e arredio senhor das estúrdias, que
era um homem dedicado apenas aos hábitos diários ocorrentes na própria casa,
onde morava, perfazendo um interregno de tempo correspondente a seis decênios.
Assim, processava-se a vida do caseiro – Eletério. Então, o próprio psiquiatra
e psicanalista recordava-se de que o caseiro fora o assassino atroz – do homem
que o protegia. Mesmo sendo rapazola de pouco tempo, perlustrava-se que ele se
enchia de raiva incomum, quando contemplava uma fisionomia execrável em toda
sua concepção de vida humana. Quase todos nós, íamos acompanhando os passos
etológicos – de natureza patológica – relacionados ao âmbito de
valetudinariedade que o acometera abruptamente!... De quem herdara imane rejeição? – Decerto , pertenceria
à raiz paterna ou materna, e, talvez, ambas
contribuíssem para que ele odiasse,
gratuitamente, pessoas que ostentavam traços fisionômicos que lhe causavam
extrema e intransigente ojeriza.
O sujeito Eletério
passara trinta anos recolhido na cadeia pública da cidade de Alcântara do
Maranhão. Nesse caso, ele estava a expiar o crime que perpetrara contra o seu
próprio pai adotivo e patrão – Elisidério. De fato, o impostor ou implicante
resolvera dar cabo à existência continuada do patrão, matando-o com foice,
para, em seguida, cominuí- lo. Colocando os seus fragmentos dentro de um cofo!
Posteriormente, arremessou em direção à descomunal sarça, tendo, antes de tudo,
amarrado o aparato com vários cordões de barbante!...
Ao receber o
propalado indulto, que é o tal ato de clemência governamental, concedendo
desculpa ou remissão parcial – pelo ato perpetrado criminalmente, Eletério
prosseguia paranoica no que se refere a efígie enigmática. Absconditava-se em
sarças para observar acuradamente, de modo hiper-obsessivo, a passagem
perfunctória de um certo número de transeuntes, durante aquelas manhãs de
percuciente hesitação, em que as pessoas se deslocavam em direitura à Avenida
dos Consolos, a qual passava no centro dessas duas sarças de fogo cálido!...
A sua rejeição
quanto ao rosto pertencia a um determinado grupo de infensos gratuitos, ou
seja, ascendentes de várias gerações!... Algumas delas lembravam algumas
verossimilhanças de um grau de parentesco bem distante, ultrapassando a
vigésima camada genealógica; conquanto não houvesse nada que corroborasse
geneticamente. Outras, em número mais restrito, aparatavam as imagens
execráveis que o perseguiam diuturnamente, aduzindo-o ao estado de vigília
patológica...
Eletério, há
muito, decerto, não aparecia em público, para que não fosse reconhecido, e, a
posteriori, morto. Há meia centúria, sem perplexidade, os crimes hediondos
permaneciam intactos na mente, sobretudo em concernência ao grau de afinidade
amistosa...
O seu pai adotivo e patrão – Elisidério, com máxima
convicção, ainda possuía alguns parentes bilaterais, formando um eixo
dicotômico expressivo. E, também, a sua efígie ficasse a pulular diuturnamente,
e remanescesse à cata de algum outro, que viesse tomar-lhe as devidas
perquirições supracitadas...
As suas
premonições ressumbravam uma bala perdida vindo, paulatinamente, atingir-lhe a
cabeça ou o tórax – com destinação ao órgão cardíaco. Naquele momento em
diante, expungir-se-iam, de maneira peremptória, os seus caracteres físicos.
Ninguém da família do perecido redarguiria a este arquétipo humano!... Todos
encontravam-se predestinados e com o direito de exarar os auxílios prestados
através de uma cadeia de terceiros... Todos, sem exceção, regiam com maestria a
sua delirante orquestra, uma vez que o maestro, coluna vertebral de toda a arte
sinfônica, garantiria as minudências do ato mantenedor e harmônico dos
belíssimos clássicos...
Eletério cismou
com o Ladislau, amigo íntimo do Dr. Calístenes, quando dissera de modo
altissonante: “Este sujeito, cujo nome de Batismo, fora registrado em cartório
com as letras de Elisidério, seria capaz de cometer outro trucidamento. Desta
feita, com as características de um baita estroina, que procurava alguém, somente
pelo bel prazer de matar, sem que houvesse motivo algum!...
De nada mesmo,
adiantariam as mesuras, os bons tratamentos, uma boa oferta em pecúnia, e tudo
mais!... A psicopatia obsessiva compulsiva não permitiria tal procedimento.
Matar-se-iam os homens, sem motivo e sem razão alguma!... Simplesmente por uma
rejeição patológica com relação aos seus laivos fisionômicos, os quais ressumam
sempre inocuidade cabal.
O psicopata – o
mais perigoso de todos – é aquele que mata a pessoa sem reconhecê-la e sem
apreciar-lhe as numerosas virtudes que ela aparata no seu intrínseco!
Desse modo, o
inexplicável e o ininteligível, ambos ficam por conta do fragilismo da própria
psiquiatria nos dias hodiernos. Esse ramo importantíssimo da Ciência – neste
somatorial de redes neuronais – fica a dever revelações mais contundentes, e
capazes de mitigar as perturbações mentais que acalentam os neuropatas, deixando-lhe
uma porção infinita de meandros interligadores, propugnando as teorias dos mais
ferrenhos, sobremodo os que não querem reconhecer essa descomunal vacuidade,
abrindo espontaneamente a palma da mão, para a execução solene da melancólica
música da férula!...
Wilson
Cerveira