Vi-o, a
princípio, no Centro de Ensino Médio – Almirante Tamandaré, -- naquela
quarta-feira da segunda quinzena do mês de setembro de 1982. No encetamento da
confabulação, não pôde haver vislumbração dos perfis atinentes a ambas as
partes. Uma porta semicerrada obiciava meu constrito ângulo de visão, e
vice-versa. O que ainda assomava na intersecção entre dois blocos de concreto,
-- na penumbra fechada --, era-lhe a imagem esguia, que transcrevia através do
fenótipo os seus três decênios e doze meses de vida presencialmente vivida.
Naquele ínterim, ele já ostentava os títulos de Engenheiro Civil e Professor.
E, amortecendo o passo acelerado, consegui transpor a diagonal que me
conduziria em sua direitura, possibilitando cumprimentá-lo. Esboçou-me um sorriso
esquálido, e disse-me confidencialmente: -- o que remanesce é resistir ao
carencial de base em matemática! A maioria sente dificuldade em solucionar a
problemática das quatro operações. A partir deste parâmetro implexo, tem-se a
ideia do imane trabalho a ser propugnado, arduamente, em decorrência do
combalimento primicial da vetusta aritmética.
Em detrimento da degustação de dois
minutos de silêncio, dirigi-lhe outra vez a palavra, numa atitude tácita de
quem dilacera a vacuidade ao redor. Aturdi-me de súbito, e somente vim a
reinteirar-me a respeito da inusitada recomposição do diálogo intermitente,
quando lhe disse que eu era torcedor do MAC (Maranhão Atlético Clube), também
denominado de “Bode Gregório”, ou, então: “O Demolidor de Cartazes”. E, destarte,
dando um interregno ao resfôlego, vocacionou-me para junto de si, e deu-me um
abraço fraterno.
Depois de uma abdução procrastinante,
reencontrei-o no Liceu Maranhense, no turno vespertino, precisamente no dia 09/05/1985.
De pronto, lobriguei-o perfilado, no canto esquerdo da lousa, em uma das salas
de aula do corredor correspondente ao andara superior. E, sob a latência de um
delíquio abstrato, estive a perambular, oniricamente, em sentido oposto, quiçá
obiciando o átimo de rever o amigo, o mesmo que perpetuei na memória,
recompondo de modo indelével o somatorial das lembranças colhidas no interior
do prédio da Escola “Almirante Tamandaré”.
Estuguei os passos em sentido
neutralizante, dando-lhes uma nova forma de açodamento, para a condução do
material que fora armazenado, de modo acurado, com o escopo de ilustrar as
aulas teóricas, conquanto ainda estivesse nas apropinquações dos atos
macerativos e cerceantes!...
Após palmilhar várias linhas meândricas
das cerâmicas do piso do corredor, posicionei-me afinal no parapeito da janela,
exatamente naquela em que ele estava a ministrar a sua aula magistral:
“equações exponenciais. Tinha por vezo colocar sempre duas mais difíceis, numa
atitude de quem busca uma provocação jocosa. Estas, ele me disse
sussurradamente, são para o Sued. Depois do reexame, gostava de ouvir-lhe dos
lábios a seguinte frase:” – alunos do Luís Carlos Pinto Dias, se não me engano,
transpuseram a barreira da normalidade, e não ficaram presos na pragmática do
ramerrão, resolvendo apenas o óbvio, o ululante, sem entreveros sucursais!
Esquadrinhando a efígie de Luís Carlos
Pinto Dias, chegaremos a vetores que não convergem, mas que sofrem esgueiramentos
ao longo da trajetória a ser palmilhada. Um não desvela a projeção do outro,
empeçando – em revertério – um provável rebatimento do plano de épura. O
engenheiro, o professor e a pessoa de Luís Carlos Pinto Dias posicionam-se, de tal modo, como se as três
projeções representassem um flabelo escancarado tridimensionalmente. Assim
sendo, no mais dilucidatório ponto parametral, jamais haveria probabilidade de
colimação. Ao passo que, de maneira vocativa, -- a pessoa – em dias hodiernos,
está sobressaindo aos mais excrescentes dislates.
Em se tratando do Engenheiro Civil – Dr.
Luís Carlos Pinto Dias, sempre assomava diante de mim, a criatura que se fazia
ouvinte, prestando a máxima atenção no que eu lhe dizia. Antes de quaisquer
dirimições, compulsava a minha singular pessoa da seguinte maneira: -- Dr.
Wilson Cerveira Marques, meu nobre amigo, precisaria de que você me ajudasse a
resolver uma questão de organismo, que é muito pior – conforme ele me dizia –
do que qualquer quesito inerente aos percalços oriundos da geometria espacial. E,
numa dialética intermitente, compunha a chama regenerativa de algum vislumbre
resolutivo. Antes que nos despedíssemos, já havia colocado em suas mãos a chave
conveniente, capaz de expungir as perplexidades predecessoras.
É de bom alvitre exarar os recursos
utilizados, não deixando de acompanhar-me – quase sempre – à soleira da porta
de saída, para que pudesse reiterar o gesto de um breve adeus de despedida.
Esta mesma ação foi se tornando crebra, conservando os laivos de uma etiologia
inócua e amistosa – na suntuosidade do ser, quando em estado capitólico,
prosternando-se ante a imagem maternal do perpétuo devir!...
Em continuidade, trabalhamos juntos no
Liceu Maranhense – de 1987 a 2000, sendo nove anos no turno vespertino, e,
somente, quatro anos – no turno noturno. E, após o ato peremptório, fomos
refocilando combalimentos priscos, e partimos em direções e sentidos opostos,
sendo que, em contrapartida, tínhamos por receptáculo basal os colimadores de
referência – a minha casa e a dele, e ambas nos serviam de égide. Em 2001,
primeiro ano do séc. XXI, ele foi para o Lara Ribas; e, enquanto eu partia em
direitura ao CEGEL.
O alfarrábio que servia de preceptor –
como timoneiro da destinação, reaproximou-nos mais uma vez, reconduzindo-o para
o Colégio Bernardo Coelho de Almeida (BCA). No entanto, os turnos divergiam. Eu
já me encontrava lecionando Biologia – no turno noturno, quando ele chegou para
ministrar a disciplina Matemática – no turno matutino.
De quando em quando, Luís Carlos Pinto
Dias vocacionava-me para que pudesse colaborar com a anamnese orgânica, através
dos paroxismos palindrômicos que apresentava no sistema digestivo, com
especificidade entérica, todas as vezes que consumia hidroxilas presentes em
bebidas contendo um recrudescente grau de fermentação. Novamente, depois de um
silêncio prolongado, voltou a bater-me no ombro, bradando: -- Dr. Wilson Cerveira
Marques, não posso mais tomar cerveja, pois passo três dias consecutivos com
diarréia!... Aventei-lhe ser uma das parasitoses mais frequentes – e, numa
chave dicotômica assinalei-as: giardíase ou amebíase. Disse a ele, na qualidade
de profissional Farmacêutico, que fizesse, de imediato, exame parasitológico de
fezes. Obedecia-me, e após dois ou, no máximo, quatro dias, trazendo-me o
resultado de negativação suspenso na mão esquerda. E, agora, meu nobre amigo, o
que devo fazer para descobrir esta irregularidade repetitiva? Para efeito de complementação, caro amigo,
deves proceder buscando outro tipo de exame, que é a coprocultura (cultura de
fezes com antibiograma). Disse-lhe, estentoricamente, se for bactéria a
localizaremos, no interregno de catorze dias, assim como, sem perda de tempo,
saberemos o antibiótico específico, capaz de jugular a síndrome recidivante.
Com dezoito dias, veio-me, outra vez, para dizer-me do seu enfado, pois o
resultado era negativo, conquanto a sintomatologia intestinal recrudescesse com
o decurso dos anos.
Em 2009, primeira década do século XXI,
submeteu-se a uma colonoscopia, cuja ilação diagnóstica a presença de quatro polipos,
situados, circunscritamente, no colo intestinal. Depois da exérese, o cirurgião
solicitou o exame histopatológico do material ablacionado. E, após o período
regimentar de duas semanas, veio-lhe o diagnóstico laboratorial, apontando
apenas um dos polipos como sendo de natureza neoplásica maligna.
Em 2011, esteve comigo na Noite de Natal,
e degustou um “bodega privada”, vinho argentino – de boa qualidade. No ano
seguinte, no meu aniversário, ele não pôde se fazer presente, como costumara ao
longo de vários anos, e trazendo-me sempre uma dádiva. Desta feita, sem maiores
dilações, houvera sido vítima de um heteróclito paroxismo palindrômico de tosse
renitente.
Telefonou-me, após noites de sono
conturbado, meio aturdido, solicitando uma orientação. Disse-lhe que procurasse
um pneumologista, e, através de exames radiológicos mais sofisticados, chegaria
a um diagnóstico dilucidador.
O especialista requereu o “PET”, como
sendo a prova dos nove, segundo me confidenciara matematicamente. E, após o
resultado pronto, me ligou com emergência, requestando a minha presença
premente no Canto da Fabril, na Rua General Osório ou Catulo da Paixão
Cearense, nº54, onde morava em companhia do seu irmão – Zeca Gordo, para os
mais íntimos.
Nesse dia, ao receber-me na soleira da
porta lateral do terraço, a mesma que dava acesso ao seu quarto-de-estar, no qual
permanecia a maior parte do tempo, em que se recolhia no valhacouto
residencial; não esboçou o sorriso costumeiro, e sim uma tensão extrapolante,
longe de quaisquer perspectivas de saída!...
Com aspecto sorumbático, apresentou-me a
ilação diagnóstica. Ficou em silêncio, tentando remediar o mal que o agredia
sorrateiramente. Depois de um longo silêncio contristador, permaneceu
macambúzio, -- ansiando sempre --, com o escopo de que lhe desse algum ânimo
penumbral! As imagens me indicavam conspícuas infiltrações em ambos os
pulmões!...
Reiterei as mesmas atitudes que tomei
quando ele fez a primeira cirurgia, passando a visitá-lo no espaço de quinze
dias, e, durante esses interregnos, telefonava para o seu celular, com o escopo
de manter-me atualizado quanto a sintomatologia – de natureza metastática – que
se tinha decretado em seu organismo combalido. Entre silêncios intermitentes,
perquiriu-me sobre as dosagens de quimioterapia que enfrentaria por doze vezes
consecutivas.
Andou em meio ao vazio da sala,
demarcando a linha de uma bissetriz incompleta, para, em seguida, partir em
diagonal direitura até minha singularíssima pessoa, e perscrutar-me se, desta
feita, sofreria menos com as novas aplicações de quimioterapia. Não tentei
iludir-lhe, apenas sopitei-o, visto que não havia outra saída diante do
fatídico, suscitado negativamente pelo seu próprio organismo.
As novas dosagens de aplicação
quimioterápica, indubitavelmente, estavam lhe causando desconfortos maiores. A
agressividade redobrou em meio ao depauperamento orgânico. Na quinta aplicação,
após alguns dias, sentiu-se mal, com queda súbita da pressão arterial.
Nas postremeiras visitas, por um motivo
que foge ao controle de quem tenta agendar uma porciúncula de imperiosa
significação. Caso ele telefonasse requerendo a minha presença, sobremodo em
detrimento de outros afazeres, atender-lhe-ia, prestimosamente, rumando em
direção a sua residência.
Não pude dar-lhe o derradeiro adeus ao pé
do túmulo, já que me encontrava na cidade de Santa Inês. E logo que lá cheguei,
no dia 18 de julho de 2013, precisamente às vinte horas e trinta minutos,
acionei o celular para que lhe compulsasse o estado de saúde, e pude ouvir-lhe
a voz embargada por uma percuciente comoção de tristeza, ao confessar-me que
não estava bem, pois sua pressão arterial oscilava para o grau de uma
hipotensão deflagrada pela própria medicação contendo substâncias agressivas ao
organismo.
No sábado, dia 20 de julho de 2013 – dia
do amigo – a notícia do seu trespassamento veio-me através do seu sobrinho
Gustavo, que ficara em posse do seu telefone celular, e avisava a todos os seus
conhecidos, colegas e amigos, que Luís Carlos Pinto Dias havia partido em
direção ao oceano sem praias, com o escopo de estudar a geologia dos campos
santos. E, destarte, num atonismo de abrupto luto, deixei resvalar sobre o
chão, em aberto, a remanescente lágrima de eterna saudade!...
Wilson Cerveira