sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A SÍNDROME DA SUPEROCUPAÇÃO


    A percuciência patológica recrudesce, paulatinamente, os rigorosos estigmas proporcionados pela hiperocupação. Adiante, sem explicações plausíveis, eclodem outras marcas a partir dos diversos pontos nevrálgicos atinentes ao adimensional fastígio vicioso. E, quando se aborda sobre as consequências deletérias contidas nas cicatrizes da superocupação, os indivíduos ainda ostentam alguma aparência dissimulada de uma possível normoanormalidade.
    Na síndrome horripilante da superocupação, os sintomas, de modo comprobatório e irrefutável, exacerbam-se, sutilmente, e podemos detectar os seguintes transtornos comportamentais: em princípio, o individuo elucubra encontrar-se sempre ocupado, embora esteja sem realizar patavina; e o nada, mesmo na vacuidade, passa a ter alguma acepção, causando certa preocupação gramatical. E, a partir daí, teremos um pronome indefinido, dissílabo, paroxítona, tendo a sua semântica atrelada a “coisa alguma”. Na inversão barbarizante, terá alguma coisa a fazer, se bem que não realize nenhuma atividade vultosa.
    Malgrado aos afazeres, Leonora sente-se sempre muito ocupada, notadamente quando se acha trancafiada em seu quarto, diante de um baita espelho de seis faces projetivas. E, destarte, espera por vários momentos sequenciais: desde o realinhamento dos cabelos, passando pelos sobrolhos espessos, indo direção aos cílios dos olhos. Todo este aparato citado, sem tartamudeios, fica a depender de toda uma maquiagem nova, com a presença de outras mixagens mirabolantes a serem posteriormente adicionadas. Tudo isto seria feito com o auxílio de outras mãos; entretanto, a coquete prosseguia acossada perante a obsessão concernente ao estado mórbido de super-atarefamento, que era o simbolismo deflagratório e incontestável do próprio distúrbio!...
    O sindrômico da superocupação pode transpor as estremaduras da própria anormalidade, quando vivida sob as injunções intervenientes e ligadas por intermédio de fatores anormalíssimos. A pessoa em total descompensação psíquica, pode incluir as necessidades fisiológicas – basilares e imprescindíveis – como sendo uma ocupação extra, distanciada do âmago relacionado ao cabal domínio; e que as substâncias, na condição de substitutas, deveriam ser vocacionadas para interagir com o visceral, em se tratando do mecanismo orgânico metabólico, envolvendo, respectivamente, o anabolismo e o catabolismo.
    Os micrômegas, que se imaginam delusoriamente tão ocupados, sendo vítimas de pesadelos, não conseguem sair de um pequeno espaço de inserção pertencente ao eixo gravitacional, onde estão há muito situados, impossibilitando com isso o contato com os aparelhos eletrônicos. Nesse espaço adstrito, eles tangenciam verticalmente – através da ordenada – o plano horizontal do substrato, que é representado pela abscissa. 
    Assim sendo, as criaturas demonstram, por meio de meneios mistilínicos, que estão exercendo, com proficiência, a hiperfunção ergométrica em seus próprios corpos, encerrados hermeticamente no gráfico linear da lídima representatividade. Nesse caso, esses corpos que se acham sempre atarefados, costumam oscilar de baixo para cima e vice-versa, – ostentando os braços suspensos – como se pretendessem desairragamento com relação ao eixo gravitacional, partindo em seguida para o espaço levitacional.
     As laterais dos corpos não perderiam os movimentos pendulares dos próprios eixos, se bem que permanecessem no deslocamento balanceado – da esquerda para a direita, e vice-versa.
    Doravante, nesta progressividade das azáfamas consecutivas, a hiper-síndrome da superocupação chegará aos limites máximos demonstrados por derivadas que tendam aos mesmos pontos de congruência. E, quando isso ocorrer, voltar-se-á ao quadro do cataclismo impenitente, no qual a adustão do desvairo não exime os imane denodo perpetrado pelo ocupante, no que concerne ao átimo de uma ressumbradora palindromia.
    A insânia determinará o grau de paroxismo do sonambulismo, sobremaneira aquele em que a pessoa se levanta, se veste, e, lentamente, procura ocupar as dimensões atinentes aos membros superiores: mãos, antebraços, braços etc.
    De repente, sob a orquestração de um brado desvairante, teremos que assistir estarrecidos aos sinais e sintomas de uma estúrdia iminente, em que os pontos nevrálgicos e suscetíveis, ainda não plenamente comprometidos, vociferarão: “Estamos no zênite da especiosa ocupação, mesmo expiando a ausência total de quaisquer manifestações reinantes quanto ao ascensional do psicossomatismo, mormente o que está localizado no cerne do âmbito da vitalidade orgânica”.
    Neste comenos, Petrusco demanda os préstimos da sua mulher – Lierda. “Apesar do meu aniversário” – dizia ele – ser no “Dia das Comunicações”, prefiro não atender as inúmeras ligações telefônicas. Deixei-as, segundo Petrusco, ao encargo da minha companheira, mesmo dando a entender que foram, deveras, ultrapassadas todas as transigências plausíveis e não plausíveis da normoanormalidade – de caráter anormalíssimo – onde a ocupação passou a ser um lídimo desvario!...
    Porventura, exista alguém que saiba corroborar o tipo de moda, ou mania, que tem por hábito perambular, aleatoriamente, nos acrimoniosos dias hodiernos?!... Sendo, então, de complexa justificativa a ideia de estar sempre ocupado --- como  se fosse a efígie estropiada do factótum; e, pelo contrário, sem nada praticar de relevância, o sujeito vai adquirindo, de modo gradativo, uma heteróclita forma espectral que, sem testemunhas e testemunhos, embuçala o cotejamento aparatado pelas mais esdrúxulas circunstâncias infensas!...                 

                                  Wilson Cerveira

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A FARSA DO CARDÍACO DEMUDADO


    Laerth, ao chegar aos noventa anos, primaziou a síndrome da hipocondria, opcionando pela escolha da pseudocardiopatia, em detrimento de tantas outras; conquanto saibamos o grau de urgência, que é requerido em função das palindromias paroxísticas de arritmia...
    O nonagenário priorizou esse tipo de disfunção cardiovascular, haja vista vários referenciais significativos. As doenças cardíacas podem ser surpreendentes e fatais em quaisquer faixas etárias, abrangendo, também, o somatorial partitivo – horas, minutos, segundos e frações imperceptíveis contendo o coligimento assinalativo na cronometria determinante à cardiopatologia clarividenciada.
    O cardíaco, ou pseudo-cardíaco, ambos podem recorrer aos seguintes recursos, buscando-os no âmbito da especiosidade. Ei-los: delíquios em ocasiões apropriadas, brado estentóricos de morte – em plena via pública, com resvalo subitâneo, mormente onde havia maior concentração de pessoas. Ele, o pseudo-cardíaco, tinha o hábito de chamar a atenção, e, em seguida, avocar os devidos cuidados, os quais seriam prestados com exclusividade, em se tratando de sua singularíssima pessoa, uma lídima exceção dentre tantos arquétipos!...
    Quando se dirigia à barbearia do Gualberto, em principio, Laerth Azeredo manuscritava um lembrete – expendendo a sua condição de “cardíaco” – do tipo que sofre síncope mental, geralmente uma vez por semana, mostrando que a problemática deveria estar mais relacionada ao sintomatológico da epilepsia. No rodapé do bilhete, procurava exarar a frase macabra: “Caso eu morra no interregno do corte, mande deixar o meu descomunal corpo inerme no seguinte endereço: Rua X, quadra: Y, Casa: KY; e o entregue a “dona Iaiá”, que é a minha mulher, para que ultime o meu inumamento no jazigo da família Azeredo. Isto, a bem da verdade, ele dissera como se fossem as últimas palavras – antes que, de fato, prestasse a merencória cerimônia do adeus da eterna despedida da vida telúrica.
    Esse tal bilhete, mais do que qualquer documento, simbolizava suas credenciais, uma vez que o tinha sempre em número multiplicativo no bolso dianteiro da calça, sobretudo o que se localiza no lado esquerdo. Em princípio, quem o lesse se comoveria diante da periclitância de um inopinado paroxismo iminente. Assim sendo, ia embaindo a si e a todos que, através de pesadelos consecutivos, já o vislumbravam cabalmente encerrado no interior do esquife.
    Quando pressentia que as cópias estavam chegando ao fim, mandava xerocopiá-las de modo suficiente, para que remanescessem sempre em algum repositório, e, de alguma maneira, revogando o vocábulo – “falta”, talvez o mais traumático, em se tratando de quem não o admitisse!... Então, as credenciais vaticinatórias – de modo reiterativo – continuavam imprimindo-lhe no espírito as convalescenças impostas durante o longo período de restabelecimento de suas funções orgânicas, já afetadas progressivamente pela senescência celular.
    Com essa pseudopatocardio, conseguia persuadir os sujeitos pertencentes a diversas castas sociais, e, também, as situações aviltantes que se lhe deparavam rotineiramente, sendo geradas por pessoas que sobreviviam em plena vacuidade social.
    De súbito, para livrar a própria pele, prosternar-se-ia aos pés de facínoras: ladrões, assaltantes à mão armada, sequestradores, assassinos, mutiladores, esfoladores, fraudadores etc, que atravessavam o seu caminho, partindo em um direcionamento arrostado.
    Laerth, também, conseguiu libertar-se de despesas, principalmente quando simulava um desmaio – quase total – no término de um almoço servido em um restaurante de luxo; como também realizado em um casarão antigo, onde se procurava fazer a conjunção do binômio: jantar e dança!
    De igual maneira, Laerth apreciava os galanteios dirigidos às senhorinhas, em pleno aeroporto, -- antes da decolagem, ou, então, após a aterrissagem. Reiteradamente, sentia-se álacre quando emitia madrigais que lhe despertavam os momentos apoteóticos de uma mocidade absconditada no tempo sepulcral!...
    Ele, que pertencia aos bons tempos da família Azeredo, não conseguia banir as imprecações sociais – estigmas priscos, -- que decorrem de centúrias inumadas por uma sociedade que sempre fizera parte intrínseca do que se denomina comumente de espetáculo do constante simulacro.
    Quando projetava o corpo, fazendo-o jazer no substrato, Laerth Azeredo realizava, com proficiência, essa ação tétrica – tal qual a palindrômica sinestesia – coligindo os elementos que caracterizam, de modo coadjuvante, a tenebrosa síndrome da lipotimia: palidez completa, sudorese, gelidez nas extremidades, redução do ritmo cardíaco, pulsações, dispnéias etc, numa atmosfera especiosa de quem se encontra em outra dimensão – sob a condição inerente a um inusitado tipo vital.
    Quem o observasse atentamente, colhia a impressão de que ele --- o egrégio Azeredo --- estaria adentrando, à sorrelfa, no que concerne ao sindrômico que prodromiza a falência múltipla dos órgãos --- num indicativo comprobatório de pré-morte.
     Os assistentes, geralmente, deixavam-se hipnotizar, e, numa premonição perfunctória, mantinham os olhos marejados diante do ataúde. Caso fossem cardiopatas, correriam o sério risco de morrer em função do abalo sofrido com a tristiíssima notícia da inumação do homem que exibia, com perfeccionismo patológico, a farsa do cardíaco demudado. Mas, o que ele apresentava, realmente, em seu quadro sintomatológico --- era um tipo heteróclito de hipocondria --- nunca dantes manifestada, sendo forjada por artifícios aparatosos de um embuçalamento estupefaciente!...

                                              Wilson Cerveira

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O CARDIOLOGISTA QUE NÃO PASSOU NO TESTE DO ESPECIALISTA


     Dr. Ladislau era a representação da lidimidade simbólica, ostentando, de fato, a presunção pinacular de quem se sente o doutoríssimo, o dono absoluto das verdades científicas no âmbito da cardiologia.
     Seria de bom alvitre que alguém exarasse para ele o seguinte: as titulações e pós-titulações não eximem quaisquer especialistas, mormente no que concerne ao banimento do fatídico.
     O que o cardiologista pode fazer em benefício próprio, assim como de milhares de pacientes, é a profilaxia do infarto. Em que pese as mais mirabolantes tecnologias de detectação das patologias cardiovasculares, e, também, há diversos tipos de infarto que absconditam, às vezes, os pródromos sindrômicos – e que são capazes de redundar em um momento abrupto de descompensação cardíaca fulminante.
     Para o vulgo, -- na generalização de suas ideias --, longe de averiguações mais condizentes, o cardiologista pode ter outro tipo de falência orgânica que o leve à morte, menos a causada por distúrbios cardiovasculares.
     Os ouvidos do Dr. Ladislau ainda guardavam a frase lapidar: “Salva-te a ti mesmo” – é uma prova bíblica, pois somente Jesus Cristo, filho de Deus Pai -- TODO PODEROSO – conseguiu resgatar a alma perante a fragilidade da matéria humana.
     Não há nada seguro debaixo do sol, e, então, não nos esqueçamos de memorizar nos escaninhos do subconsciente, mesmo à sorrelfa, que o cardiologista --- o melhor de todos quanto ao nível de pós-doutoramento ---, pode apresentar o somatório cabal das síndromes que caracterizam clinicamente um cardiopata inato, não importando que esteja na cadeira doutoral de cardiologista, aparatando borla e capelo!...
     O cardiologista Ladislau, ostentando o fastígio de sua carreira, também pode ser surpreendido por um enfarte de natureza fulminante. Nesse momento nefando, os seus clientes cardiopatas podem acudi-lo de imediato, evitando a sua queda no interior do consultório ou da própria clínica onde trabalha. Ademais, far-se-ão presentes no instante do seu inumamento, prestando-lhe comovidamente as postremeiras exéquias.
     Em tese, o cardiologista em tela, sente-se superior a todas as coisas que, possivelmente, estejam a seu redor. Em se tratando do conhecimento, no mais acendrado átimo, respeitado o píncaro das pesquisas recentes sobre cardiologia; --- e ele parece ser o dono absoluto de si mesmo, e, também, senhor carismático das demais verdades pululantes no polêmico âmbito da percuciente erudição científica.
     Dr. Ladislau, o exímio cardiologista, não respeitava os limites humanos, já que a sua embófia transcendia as narrativas priscas. O seu retrato especioso lembrava-nos a imagem de um demiurgo, simbolizando o nome do deus criador, na filosofia platônica. Com o passar dos anos, sem motivos plausíveis, foi se afastando cada vez mais de Deus. Nesse caso, o cardiologista tornou-se arrogante e afoito no que dissera, no que havia feito e no que escrevera. Dessa forma bisonha, as suas palavras coligidas de angústia têm a marca do pseudo-estrugido de uma peremptoriedade delusória quanto ao interminável silêncio sepulcral das eras!... E, em detrimento, tudo parecia estacionar esdruxulamente no meio adstrito e esfíngico da própria persona projetada na soturnidade duma cabal penumbra!...
   O catedrático doutor era cardiologista-clínico, sendo considerado por ele e por um grupo de aficcionistas, e, dessa maneira o mais renomado dos que faziam parte do “Hospital da Beneficência Portuguesa”. Havia, no caso supracitado, um adendo que aparatava o hiperbolismo presuntório, pois sentia-se muito superior ao seu colega – Dr. Bráulio – cardiologista-cirurgião.
     Durante o sono havia sido surpreendido pelo sindrômico atinente ao binômio delírio-alucinatório!... Nesta mesma noite, tivera o vaticínio vislumbrático da possibilidade de estar operando determinadas regiões de um cardio impresso apenas nas folhas de uma cartolina ginasiana!...
     É preciso obtemperar que o Senhor do Universo, que é Deus, o qual está presente nas distinções do trinômio referencial: onipresente, onisciente, onipotente. Então, ila-se que a simplicidade pode evitar o exício abrupto do tal especialista, que se achava além da sua especialidade prioritária e reptativa.
     O especialista, por mais pós-doutoramentos, jamais conseguirá cominar os desígnios de Deus. Para tanto, terá que expiar cautelosamente todas as inequanimidades perpetradas no arrostamento às determinações divinas.
     Não adianta ficar sob o impacto da aflição exacerbada, doutor de borlas e capelos!... O desarraigamento das cousas terrenas, assim como a sua sobrevivência ou morte, decerto, dependerá unicamente da vontade do Creador. Fique em paz, embora exista por parte dos seus familiares o renegamento da intenção desejada neste interregno de lancinante desespero, sobremodo quando em pólos infensos de constante gládio abominável!...
     Reveja, por gentileza, o capítulo 6,25 do evangelho de São Lucas: “Infelizes são vocês, que agora se acham plenamente satisfeitos com os bens deste mundo, porque depois, na eternidade, terão fome dos bens espirituais. Infelizes vocês, que demandam somente os prazeres transitórios do mundo, porque hão de gemer e de chorar, quando perderem a verdadeira felicidade do céu”.
     Será que o cardiologista empafioso sofrerá um súbito infarto? -- Ou, então, após o evento fatídico, – caso consiga sobreviver --, passará a tratar os seus numerosos pacientes cardíacos, sem exceção, com mais simplicidade e atenção, desprezando as bazofias acumuladas ao longo de três decênios?!... Realmente, os mais sofisticados exames ressumbraram que o cardiologista é, também, cardiopata, e que usa a mesma medicação prescrita para os seus pacientes, sobremaneira os que correm o mesmíssimo risco cardiológico.
      Assim sendo, o tempo de recuperação dos pacientes cardíacos estaria registrado no cronômetro telúrico, ao passo que a enigmática exação da eternidade é atemporal, pois o exímio doutor estava a um passo da perenidade, e, desse modo, buscaria meios oratórios para que chegasse ao caminho labiríntico do átimo recôndito, o qual aduziria ao adestramento dos umbrais da perpetuidade espiritual.
     O especialista, que é o próprio cardiologista continua tomando, de modo reiterativo, o mesmo medicamento recente que fora administrado para o seu cliente cardiopata. E, em cabal silêncio, oculta essa lidimidade, pois pratica a autoprofilaxia. Gostaria no entanto, que o cliente cumprisse rigorosamente as determinações impostas. E, mesmo sabendo dos perigos iminentes, atravessaria, com parcimônia, os dédalos proporcionados pelas reações intrínsecas do organismo.
     Talvez, quem sabe, após sucessivas azafamas, buscaria – se possível fosse – meios propícios para converter o ódio, transformando-o num apaziguamento necessário para jugular as imprevisíveis mazelas vitais!...

                                              Wilson Cerveira 

sábado, 8 de setembro de 2012

O OPERÁRIO DANIFICADOR


   -- Doutor, peço-lhe, encarecidamente, que não me olhe assim, com este seu olhar de reproche!... Nesse ínterim, sem que soubesse dilucidar as ideias que estavam sendo suscitadas no âmbito evagatório, -- o encanador Lorentino, no embuçalamento de uma lágrima, imaginava o que estaria se passando na mente peripecial do ínclito Doutor Esmerindo – um exator de compromissos – de máxima grandeza humana!
   -- Doutor, eu soube, através da Terezona, que o senhor é escritor também, isto é, há mais de cinco décadas, e assina diariamente uma coluna no tradicional “Jornal da Cidade”. Por favor, jamais publique um artigo contando minhas picardias. Caso contrário, estaria dispersando as minhas antigas clientelas. E, em um momento de sanha profunda, numa asfixia a toda prova, ainda dissera o Lorentino, sem a mínima perplexidade, a frase lapidar: “se o senhor resolvesse ressumbrar minhas astúcias, morreria à míngua, na ausência absoluta de pão e água”! E, desse modo agruroso, passaria pelos mesmos excruciamentos que Tântalo sofrera quando chegou aos pontos obiciários e labirínticos do inferno.
   Deveras, o encanador pedia dinheiro em excesso, com o objetivo de suprir quaisquer falcatruas que, por acaso, não dessem certo, mormente no átimo da implexa execução da obra de encanação reparatória. De fato, trazia o material encastoado – de tal sorte --, fazendo questão de desnudá-lo, à socapa, sobremodo quando estivesse em ponto de colimação – defronte dos olhos arregalados do cliente. O seu objetivo seria o de reconduzir os aparatos externos e reimplantá-los no próximo serviço, caso houvesse necessidade dessa façanha!
   Para tentar justificar o seu sofisma, dizia que o cilindro interno é que estava desgastado. Dessa forma, a impressão suscitada, a princípio, era a do cabal descartamento das demais peças acessórias.
   Chamei-o uma vez de Tementino em vez de Lorentino, em virtude da necessidade imperiosa de ser vigiado de perto, durante os serviços de reparação hidráulica, pelo dono do imóvel, que impedia o seu livre deslocamento para outro local da casa, pois ressumbraria como tendeciosidade malévola, o arruinamento abrupto de outra torneira fantasma, ou cano esfíngico, já que ainda se encontravam em plena integridade funcional quanto ao uso; e, destarte, demonstrando ser um repositório do material em análise.
    Em dias de frenesi recrudescente, seria aconselhável o agrilhoamento de um dos membros do temível operário, precisamente a mão que aparatava desocupação, evitando, dessa maneira, algum estropiamento criminoso de mais uma torneira que, fortuitamente, estivesse ao alcance dos seus dedos, ou, então, localizada no ângulo oposto ao diâmetro de extensão.
     O operário danificador era um ladrão variegado, isto é, multifacetado, pois larapiou uma peça contida em cada escaninho de velhas oficinas, e, postremeiramente, poliu-as de tal maneira, fornecendo aos olhos a especiosidade comprobatória de um ouropel. De fato, sem tartamudeios, a engenharia da trapaça estava arquitetada com todos os requintes imprescindíveis durante as peripécias executórias de uma imane extorsão. Realmente, costumava usar de ardis conjugados formando um cipoal losango de dados combinatórios: -- arranjos, permutações e combinações --, partindo das mais simples, passando pelas compostas, e direcionando-se ao mistilíneo das mais complexas resoluções atinentes às análias matemáticas comutativas, sobretudo as que estão relacionadas aos diversos elementos componentes dos grupos associativos somatorizados em inferências exativas. E, a partir desse meteórico átimo, pôde refestelar-se sob os auspícios de ser ele um ludibriador sacripanta, ostentando também o piramidal espetáculo do simulacro culminante e, de modo sub-reptício, manifestado nas sociedades construídas pelos mais controversos sistemas desavindos do hodiernismo desassenhoreante!...

                        Wilson Cerveira

sábado, 1 de setembro de 2012

AS DEGENERESCÊNCIAS DO MOTORISTA SETENTÃO


  Genivaldo devaneara, desde a fase pueril, com a possibilidade de celebrar o seu septuagésimo natalício, e, concomitantemente, o período concernente aos trinta e cinco anos de vida funcional. E, logo que adentrou ao mercado de trabalho, em que pese a coarctação da pecúnia que lhe fora imposta, conseguira com muito sacrifício amealhar uma reserva condizente ao ato de adquirir o imprescindível. Em princípio, sem maiores hesitações, agradaria a todos os convidados igualmente, sem as preferenciais exceções.
    Recostado no espaldar da cadeira de vime, o motorista sempre sonhava com aquele momento apoteótico e repleto de epinícios inimagináveis. Porém, não sabia o que a ferrenha destinação, à socapa, ia, pouco a pouco, lhe desfechando de modo inopinadamente nefasto.
    De maneira despercebida, começou a apresentar certa predileção obsessiva pela garoupa, isto é, a nota de cem reais. A princípio, dava uma pseudo-impressão de que estivesse a demonstrar reações fóbicas com relação às pequenas distâncias. Tanto assim, ele se esgueirava das pessoas que residiam em áreas circunvizinhas ao “Posto Leste de Táxi”, onde trabalhava há mais de vinte anos.
    De fato, o lesto Genivaldo, sem titubear, desvencilhou-se dos intrusos que vinham, sorrateiramente, obiciando-lhe as sendas multivariegadas – já atendentes à imperviabilidade de percursos forjados. Desde então, passava a divagar, com espaços maiores e distâncias quilométricas, o que seria a concretude dessa grande utopia!...
    O motorista – Genivaldo – também apresentava primazias no que concernia ao uso exacerbado das grandezas cinéticas: velocidade e aceleração. Há muito que se sentia dono do volante, não medindo os riscos que corria em situações em que experimentava uma ultrapassagem perigosa. Não media esforços nem prudências, quando dispunha dos auxílios simultâneos da embreagem e do acelerador, ambos sob os domínios dos seus pés, numa atitude cabalística de comprovada insensatez. Deveras, ele delirava com a aceleração – como se estivesse num estado percuciente de patologia a toda prova; e, mesmo assim, posicionando-se como vanguardista, superando todos os concorrentes de uma desvairada corrida automotobilística.
    Nesses últimos anos, obsedou-se pelas corridas equivalentes a cem reais. De fato, detestava pequenas distâncias, que, aparentemente, simbolizavam parâmetros infensos quanto aos possíveis indicadores: velocidade, aceleração e estipêndio.
    Recentemente, fez reiterar o sonho que tivera na infância – o de comemorar concomitantemente: setenta anos de vida física, e trinta e cinco, exercendo a função de motorista, sendo legalmente habilitada para a tarefa escolhida por ele próprio – no desumano mercado de trabalho.
    Quinze dias antes de seu aniversario – único que pretendera festejar – fora chamado por três bandidos, no “Próprio posto Leste de Táxi”, onde trabalhava por tempo indeterminado durante as vinte e quatro horas, para que os levasse em direção ao Olho d’Água. Sendo assim, não vacilou em aceitar a proposta, mesmo sendo de modo incauto. Ao chegar ao local – amplamente deserto – fora recepcionado, de modo criminoso, por mais três bandidos que estavam reconditados nas sarças ao derredor, perfazendo o número de seis escroques.
    Não tiveram tempo suficiente de esforlar-lhe a pele, já que a flagelação deixara-o hospitalizado durante um período de, aproximadamente, trinta dias na UTI do Hospital São Domingos, no setor especializado em reparos de epiderme, conforme as técnicas aplicadas pela cirurgia plástica.
    A família do Genivaldo, após exaustivo trabalho e dispêndio financeiro, tinha por objetivo a confecção dos convites apergaminhados. De repente, após a distribuição de mais de trezentos invites, -- a tristeza preconizada em detrimento do fatídico --, tomou conta do espaço destinado à atmosfera febricitante do hipotético evento malogrado.
    Ao receber alta do hospital, providenciou, com premência, uma assistência psicológica, pois os estigmas traumáticos eram percucientes, atingindo-lhe de permeio os pontos nevrálgicos do psicossomático.
    A equipe médica formada de: psiquiatra, psicólogo, psicopedagogo, farmacêuticos, enfermeiros etc, recebeu-o com aprazimento na primeira sala do corredor da ala esquerda. Ele contou para os profissionais o que ocorrera com a sua pessoa naquele dia, em que buscava, em cabal contumácia, atender ao seu ego, pois estaria mais uma vez diante da cédula de sua preferência obsessiva – a de cem reais.
    Em seguida, o psiquiatra – Teotônio, sem maiores perplexidades, fez questão de submetê-lo ao teste das demais notas pecuniárias, obedecendo a ordem decrescente. Dessa forma, apresentou-lhe, de começo, a garoupa (... e ele sorriu); em seguida, a onça (momento em que perdeu e expressão sorridente); no instante do mico-leão-dourado, (a sisudez tomou-lhe conta do rosto em pergaminho); quando chegou a vez da arara (sentiu a ocorrência inopinada de uma demudação plena); por último, no átimo da imagem da tartaruga-marinha (ele entortou, de modo enfesado, o lado esquerdo da face e uma parte lateral do lábio correspondente, dando a especiosidade de uma colapsal trombose). E foi assim, desse modo horripilante, que a sina traçou-lhe a vereda macabra, alijando de sua mente, -- para sempre --, o tresvario da comemoração atinente à visionária data de programação festiva!...

                                       Wilson Cerveira