Manhã de 1968, aula
do Irmão Hipólito, o maior aplicador de castigos, notadamente quando o aluno
não tinha condições de apresentar dissertação sobre o capitulo que ele
determinara na aula anterior. A protótipa providencia era colocar o discente em
pé, voltado para a parede, obedecendo a posição vertical erecta, com os
calcanhares colados, ostentando um livro de História do Borges Hermida,
suspenso até a altura da cabeça, fixando os olhos no sequenciar das frases
componentes – sem alteração ordenativa das palavras, na ausência cabal de uma
possível sinonímia, não dando azo a uma possível reinterpretação do texto no
sentido de compor o sistema de parafraseamento (paráfrase).
O castigo quase morto incorreu na pessoa
do aluno alcunhado de “Bispo”, nome que recebera após ter sofrido um imane
desastre de carro, aduzindo a um tipo de incisão circular na região superior
das têmporas, dado a falaciosa impressão de estar aparatando um solidéu a
ocupar a extensão periférica do sincipúcio.
Esse tal Bispo, indisciplinado por
natureza, deseducado a partir da casa onde vivera a receber as primeiras
desinformações e maus exemplos como herança de pior qualificação. Ele era,
segundo a herança genética quantitativa, um negro de cor clara, estando a
usufruir a sua terceira repetência, indicativo de sua postremeira ensancha de
permanecer no “Colégio Maranhense dos Irmãos Maristas”.
Decerto, aquele aluno não poderia preterir
o comenos de permanecer no colégio Maristas, já que havia limitação de dois
anos de reiteração na mesma série. Segundo o parecer do Mestre Hipólito, a retórica
dava-lhe o fulcro de lembrar trechos dos textos arguidos, tendo como fontes
principais os livros de História ou o de Geografia do Brasil.
Quase todos os dias, o vulgo bispo, aluno
das notas baixas, baixíssimas, ia percorrendo as diversas salas de aula, sendo
acolitado por outros colegas irresponsáveis. Irmão Hipólito conduzia-os, de
forma indisposta, em sua companhia, perfazendo uma turma de alunos malandros,
sem a ínfima condição para o ato de estudar as disciplinas escolares! --
Com certeza, naquela manhã de outubro de 1968, o Irmão Hipólito, desde o
momento protótipo do estremunhamento, já apresentava uma fortíssima acidez
acompanhada de uma enxaqueca fortíssima, cuja dor hemicraniana dava a impressão
de dividir-lhe o sincipúcio em dois hemisférios corporais distintos.
Irmão Hipólito não se deixava abater
quando lhe vinha à ideia a permanência na sala de aula. Na metade da manhã a
sua cabeça ainda rolava, apontando uma tontura de quem vai adentrar ao
paroxismo denominado de delíquio. De fato, não poderia ser diferente, pois os
seus nervos estavam a aflorar, somatorizando várias exacerbações
acumulativas...
Ao chegar à sala de aula, prossegue com o
ritual da famosíssima arguição, chamando os alunos sorteadamente, pelos seus
respectivos números de eleição quanto ao ato vocacional de natureza
alternativa. Ei-los: números 1, 10, 20, 35, 38; todos em pé, ao redor da
cátedra magisterial, sendo o numero 10, o do bispo – Paulo Salustiano, o
primeiro a ser expendido. Ele, como sempre, tremia tal qual vara verde, pois
desaprendia a lição já vista preteritamente, em decorrência de suas
reprovações!
Ninguém o conhecia pelo nome de Paulo
Salustiano Figueiras da Mota. Todos o chamavam de “bispo”, o apelido que
recebera, e quero aqui fazer alusão, após o desastre que o abatera, deixando a
incisão da calota ao redor da sua carapinha, formando uma cintura em forma de
solidéu sobre a proeminência sincipucial.
Num dia de fortíssima azia, Ir. Hipólito
colocou-o de castigo, como sempre o fazia, de cara para a parede, com o livro
de História aberto no capítulo em que não conseguira aprender a lição (a
incúria era o seu grande mal). A punição, na minha época de estudante, requeria
determinados posicionamentos. O corpo – abrangendo cabeça, braços e pernas –
manter-se-ia na posição erecta de sentido, sem que houvesse deflexão das partes
componentes da estrutura esquelética.
Realmente, simbolizava um paradigma para
todas as idades, uma herança imorredoura para quem quisesse obedecer aos
princípios basilares da educação, que, quando adquirida, é a única cousa que
remanesce nos momentos peremptórios e postremeiros de existência vital!...
Finalmente, reitero em dizer que tudo isto
ocorrera numa determinada manhã do segundo semestre de 1968, quando o Ir.
Hipólito, -- , “Mestre Angular” no âmbito da História e da Geografia,
surpreendeu-o, de esconso, desobedecendo as suas ordenanças quanto ao
posicionamento corporal que lhe fora infligido. Um, apenas, desses escarmentos,
de modo geral, serve para erectar o esqueleto, mantendo os calcanhares colados
em suas lateralidades; ao passo que a cabeça fique erguida à altura de uma
linear distância contida nos ângulos que distanciam a perpendicular de ambas as
coxas: direita e esquerda. O conjunto dá-nos a especiosa impressão de amarras
reais cingidas.
A fotografia fabricada, com a faculdade
perlustrativa, ressumbra-nos um sujeito, no caso o próprio aluno alcunhado de
“bispo”, com as mãos em ângulo hermético à altura da cintura, e as pernas em
compasso aberto, bastante separadas, como se partissem para uma aventura
sinistra de uma inopinada hérnia escrotal, com vastas possibilidades de
estrangulamento.
Para mostrar-lhe a posição correta,
levantou-se à sorrelfa da cadeira; e, sem que percebesse, arrebatou-o com uma
acertada rasteira. Em consequência, por heteroclitismo, fê-lo levitar a certa
distância da força gravitacional, tendo como fadário a destreza de pegar-lhe em
uma das mãos, girando como se fosse um disco voador, esgueirando a gravidade do
seu corpo, amplamente suspenso, girando em forma circular, com cabal
impregnação de energia flutuatória.
A expectativa sensorial formada naquele
ínterim era outra, totalmente diferente das anteriores. Suponhamos que o Mestre
Hipólito não conseguisse manter o corpo do “estudante”, rotatoriamente, por
algum tempo, sempre soerguido, sem que houvesse a mínima probabilidade de
soltar-lhe das mãos! De outro modo, projetá-lo-ia fatalmente de encontro as
espessas paredes da sala. E, nesse caso, seria uma catástrofe fatídica, pois,
com lamúrias, o esquartejaria, de maneira cominuída. De fato, adentraríamos ao
tétrico, quando o vislumbrássemos, após a tragédia, plenamente metamorfoseado,
de maneira mirabolante e enigmática, tendo como resultante insofismável a
cognominação de inusitado “bispo jabuti”.
Wilson Cerveira