quinta-feira, 16 de abril de 2020

ÁTIMO MIRACULOSO

            Natividade, que viera dos tempos da severa escravidão, não tinha a ideia de quanto sofreria, já que era a postremeira filha de dona  Guilhermina. Ainda ostentava vinte e poucas primaveras. E, por isso, queria ter um descendente !...
            Em época alguma, divagara as consequências abscônditas de um parto normal. O Guilherme, em homenagem a dona Guilhermina, que era a senhora sua mãe, nascera sadio, sem problemas de saúde. O que  acrescia era a dificuldade de dormir durante a noite. Dormia à base de remédios; assim, não deixaria a sua cuidadora trespassar de, quando em quando, num cochilo.
            Natividade, que já expressa nascimento, não herdara a mesma  tranquilidade da mãe!... Num determinado dia, inopinadamente, ficara sem andar... Lamentavelmente, as pernas não firmavam o corpo, em posição Para  sortilégio, residia na casa do meu avô Marcial Ramalho Marques. Ele, por proteção divina, ostentava uma afilhada e filha de criação muito dedicada -- Margarida Silva, a qual tomou para si todas as responsabilidades de cuidar de Natividade e do seu filho Guilherme, um garoto de poucos meses de nascido.
             Natividade, como fora dito anteriormente, em regra geral, não havia como andar, pois suas pernas perderam a tonicidade quanto ao movimento. O seu sistema muscular e nervoso ficaram muito combalidos. Margarida, a inesquecível Dadá, a generosa em todos os aspectos plausíveis, dizia sempre: " Segure-se em mim, e destarte a senhora vai encetar as primeiras passadas, se Deus quiser, pois a Divina Providência vai ouvir suas preces e realizar este milagre. A senhora ficará curada; e, logo depois dará a  Nossa Senhora de Fátima o que ela bem merece, conforme o que formulara o seu pensamento, aparatando o mais dignificante zênite!...
              Sem muita tardança, ocorrera a ida  de seu padrinho e pai de criação -- Francílio Leite Cerveira -- até a  cidade de Alcântara -MA. Exatamente, nesse período, celebrava-se o festejo de Nossa Senhora de Fátima. Haveria a procissão da Santa Milagrosa -- mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, sem perplexidade, olharia a procissão passar debruçada no parapeito da janela principal da casa, que ficava em direção à Ilha do Livramento.
              No átimo em que a Santa -- Nossa Senhora de Fátima ia passando confronte à janela, na qual ela se encontrava em companhia de seu padrinho de Batismo e pai de criação -- Francílio Leite Cerveira, recebera os seus incentivos para que ficasse em pé! Vais suportar, minha filha, estou junto a você, e com bastante fé, para que alcancemos este miráculo. Não vais cair! A santa opera milagres em nome de Deus. Ela, a Natividade, muito emocionada, foi endireitando o corpo, mesmo com as pernas trêmulas, pôs- se de pé, junto a janela. Daí para frente, não sabia se haveria condições de dar as primeiras passadas -- no sentido de caminhar em pequena distância.
              A  junta médica -- constituída de Genésio Rego, Djalma Marques e Carlos Macieira -- ainda não sabia ao certo o que estava ocorrendo. Pois, o postremeiro diagnóstico corroborou   polineurite ou polinevrite nos membros inferiores da senhora Natividade. Alguns diziam ser problemas do parto,  outros, mais solertes, falavam de vento encanado e outros problemas inerentes a coisas ainda não ressumbradas! Sortilégios de mulheres benzedeiras falavam o contrário dos contrários. Elas persistiam dizendo que os benzimentos com galhos de arruda, deveriam continuar por tempo indeterminado. Mesmo que ela se recuperasse do problema inerente aos membros inferiores, as orações e os galhos de arruda não poderiam cessar jamais!...
             Ainda, no prenúncio de andar sozinha pela casa, custava-lhe mais algum tempo!... Os seus membros inferiores tremiam quando tentava dar maior número de passadas. Desta forma, teria que ir a São Luís- MA, a fim de consultar mais  uma vez a junta médica, que era constituída pelos médicos: Djalma Marques, Carlos Macieira e Genésio Rego.
             Logo que  desembarcou em São Luís, teve o devido acuramento de procurá-los o mais rápido possível. Precisaria de novos medicamentos, capazes de ajudar-lhe a desenvolver passadas prolongadas a uma certa distância. De fato, confabulou com o trio, e após longa conversação, chegaram a um novo diagnóstico. Deveria tomar banho de sol nas pernas durante as primeiras horas da manhã. Tomar, também, citoneurin de 5000mcg. A fé, quando grande, cura quaisquer males que nos aflijam, dizia Dr. Djalma Marques -- com a sua convicção de médico provecto. Igualmente, aconselharam-na expor as pernas na  água salgada -- ao sabor das pequenas ondas. Isto tudo deveria ser realizado de manhã cedo, nos primeiros raios de sol. As massagens deveriam continuar, com a finalidade de ativar a circulação sanguínea dos membros inferiores. De encetamento, deveria usar uma pequena bengala, que lhe ficasse à altura da cintura. Caso a perna fraquejasse, disporia de um apoio necessário para aquele instante de ligeiro desequilíbrio!...
           Assim sendo, retornou a sua cidade natal -- Alcântara -- MA. Lá chegando, foi assediada pelas benzedeiras do famoso raminho de arruda. À noite, para surpresa da Natividade, foram todas elas visitá-la, cada qual portando o seu galho de arruda e uma pequena vasilha com água. Sem muita delonga, iniciaram o benzimento coletivo, salpicando gotas de água sobre a perna, açoitando os distintos galhos de arruda. De quando em vez, abriam a boca exibindo sonolência, que era um gesto de banir dali os maus espíritos.
              A senhora Natividade sentiu-se muito gratificada pela visita das amigas, e pediu a elas que retornassem ao menos uma vez por semana, para que perpetrassem o benzimento. Com o decorrer do tempo, acrescendo a fé reinante, a jovem senhora de apenas vinte e quatro anos de idade, foi melhorando, pouco a pouco.
              As recomendações  da Junta Médica ajudaram-na bastante. As pernas foram se desembaraçando devagar. Destarte, conseguia caminhar com maior desenvoltura. A bengala apenas era um aparato para quaisquer instantes. Esses momentos de desequilíbrio não mais se reiteraram .
             Dona Natividade prometera dar a Nossa Senhora de Fátima -- mãe do Senhor Jesus Cristo -- uma coroa banhada a ouro. Jamais poderia esquecer daquele átimo miraculoso. Era um paradigma de gratidão para aquele comenos, notadamente quando a viu passar, e obteve a esperança de por-se em pé, pela primeiríssima vez !...
              

segunda-feira, 6 de abril de 2020

VARONILIDADE BÉLICA

            Marcial, indubitavelmente, jamais poderia deixar de ser o lídimo deus da guerra, na mitologia grega. De fato, o nome veio dar alforjamento à pessoa com características varonis desde o primeiro instante em que fora implantado no útero materno. A senhora sua mãe -- Dona Helionora, em confidência a uma amiga íntima, dizia que sentia o feto a bater-lhe com os pés -- numa atitude de quem se prepara para aplicar pontapés ( pontadas com as pontas de ambos os pés).
            Realmente, sem outros adendos, este seria o futuro homem, que recebera o nome: na pia batismal -- Marcial Ramalho Marques. Desde logo, do parto até agora, propugnava-se em tudo o que fazia, sem que retirasse sequer todas as medidas vitais. A sua determinação começara quando dera os seus primogênitos passos pueris.
           Quem o admirasse a certa distância tinha a impressão de que marchava em direitura ao protótipo clamor bélico estabelecido pela tropa vanguardista. Avançar sempre, sem recuar, foi o seu lema desde o vislumbrar ao expungir o facho da luz direcional de combate. Tudo era como se fosse um esquadrão à espera do infenso! Desde cedo na vida deitava-se ao chão, e atirava inicialmente com  a sua baladeira certeira no alvo em que planejara a detonação perfeita, sem erro e sob medida milimétrica corroborativa!...
            Aprendera a arte de bom colimador sem que marcasse com antecedência a direção e o sentido do projétil. Parece que trouxera no gene a frase: " Sou o marinheiro da destinação". E, deveras, sem demais alternativas, ia acertando os caminhos que conduzem ao ato de reptação de um guerreiro providente.
            Também, na montaria de animais de pequeno, médio ou grande porte, abrangendo o burro, o boi, o cavalo, o camelo, a girafa, o elefante etc. Subia no dorso desses animais utilizando-se de uma arrancada correta para perpetrar um único pinote no local onde deveria se posicionar!...
             Ascendia à região dorsal desses bichos, portando calção, bermuda até o terno de brim completo, com sapatos metidos nas respectivas galochas. Desde o verão, passando pelo inverno e se estendendo às demais estações do ano. Destarte, Marcial não dava nunca o tempo por perdido!
              Não escolhia a roupa de cavaleiro, e vestia qualquer uma com a mesma facilidade de sempre! E com a arma pronta à altura da cinta. Se surgisse quaisquer imbróglios estava preparado para responder de imediato, sem perda de tempo. Outrossim, passava de um animal para outro, sem que tocasse os pés no chão. E, com o decurso do tempo, ia se tornando exímio tanto na montaria quanto na precisão do ato de atirar com parcimônia máxima reservada a cada cartucho de balas. Não fazia prospectivas, pois acertava o alvo de uma só vez!...
             Não partia à procura do claro nem do escuro, o que apontasse seria bem sucedido! Ia ganhando admiradores por onde passava. Todos eram unânimes quando diziam: Este senhor nasceu com esta predestinação. As suas veredas já estavam traçadas, bastando apenas serem percorridas com esmero ao longo da trajetória!...
          Marcial Ramalho Marques sabia ser gentil com seus animais de montaria. Ele mesmo colocava comida nas cocheiras, e vocacionava os bichos através de um estalido nos dedos! De imediato, eles se aproximavam da ração. E quanto mais esperava, surprendia-os levando os focinhos em direitura aos alimentos. E, assim que começavam a comer a comer, ele ia passando os dedos da mão, carinhosamente, nas  laterais de suas barrigas, num gesto de intimidade e afeição. Dessa maneira, conseguia  domar a bicharada. Quando ele  se aproximava, eles pressentiam estar na hora da comida e da ternura oferecida, de modo blandicioso. Assim, adquiria certa afabilidade quanto ao trato de cada animal! Todos os bichos, sem exceção, eram reunidos diariamente no pátio de sua  casa residencial. Lá, eles saciavam a fome, que é o direito à nutrição vital. Igualmente, uma vez por semana, ele banhava esses burros, bois, cavalos etc. Era um verdadeiro frescor para aquelas peles grossas e repletas de bochornal acumulado no decurso dos dias.
             Na hora da montaria, os aprestamentos estavam sendo realizados, de maneira concomitante, para que o vetusto homem, seu domador, se predispusesse sobre eles. Antes de mais nada, recolhia seus respectivos "petromax", para colocar querosene em cada bojo. Assim que os enchia, ia bombeando cada candeeiro, e dando luz a cada camisinha contida no aparato envidraçado!
            Na montaria, ele ascendia ao dorso do animal, portando um facheiro  de luz abundante. Esses bichos, por demais afeitos ao dono, permitiam que ele os governasse somente  com uma mão, pois a outra se encontrava com o estabelecido petromax. Desse modo, produzia iluminação para o itinerário a ser percorrido!...
                Nos finais de tarde, no encetamento da noite, os animais descansavam à sombra dos arvoredos. Um zéfiro fino, frio e transparente refrescava-lhes as peles impregnadas de calor, em função da faina diária. Este tipo de lazer tornava-se imprescindível diariamente. Caso contrário, não suportariam a luta, pois carregavam cargas pesadas e pessoas nos seus respectivos dorsos. Também, a refrigeração, com ventiladores e outros aparelhos, restaurava-lhes a rubidez que traziam em suas peles crestadas de sol canicular.
               Marcial encomendara os bois e cavalos aos cuidados do Domingos, que muito entendia quanto à de aprestar esses bichos, para que o mínimo necessário fosse perpetrado, visando o custeio do dono e suas despesas para com os demais clientes. De quando em quando, parava e os hidratava. "Segundo a lenda, eles não eram como os antigos burros de Lisboa, os quais carregavam vinho o dia todo, e bebiam água à noite, com o propósito de não morrerem desidratados". No dia seguinte, estavam todos preparados para seguir caminho, portando as cargas, e, com isso, fazendo o transporte para seus destinos previamente determinados. Uns iam para uma distância menor, enquanto outros -- mais sacrificados partiam em direitura a um lugar bem mais afastado. Mesmo assim, sem perplexidade, aguentavam a trajetória de modo seguro, chegando aos seus lugares de entrega. Domingo, nesse caso, fazia a função de tropeiro -- mais do que necessário -- tanto assim, que trazia consigo a importância financeira de cada cliente, para que prestasse conta ao dono -- o senecto -- Marcial Ramalho Marques.
               O adestramento da bicharada fora feita toda na cidade de Pinheiro--MA. O deslocamento dos bichos dava-se diretamente nas cidades próximas, notadamente as que faziam circunvizinhança. Em alguns casos, partiam para localidades mais afastadas da cidade. O trajeto podia alcança, no máximo, três dias de retirada. Logo, ao chegarem permaneciam descansando mais dois dias, tempo mínimo necessário para que regressassem ao ponto de origem. Dessa forma, preenchiam as carências financeiras do proprietário. Outrossim, Domingos era o principal cabeça, com o objetivo de que tudo desse certo, e ele se mantivesse no trabalho por muitos e muitos anos!...