terça-feira, 8 de dezembro de 2020

JOCOSIDADES MANICOMIAIS

      Ao descer o pátio do imane manicômio, deparamo-nos com o espairecimento vivido e sofrido por aqueles que lá residem, buscando mitigação para as suas  mais implexas síndromes mentais.

   De repente, vimo-nos cercados de casais e solitários, alguns provenientes da urbe, enquanto outros tantos advieram do orbe. De fato, o mundo está  se transformando num grande manicômio, uma vez que, decerto, os que estão aqui fora são mais estroinas do que uma pequena percentagem alojada naquele descomunal casarão para tratamento das mais diferentes etiologias oriundas de enfermidades  neuronais do sistema nervoso, notadamente da inserção dos nervos cerebrais.

        Ninguém, mais do que estes solertes elementos, sabia transfigurar, a despeito dos seus mais complexos distúrbios cerebrais; uma realidade que se processava aqui fora, quiçá, com o mesmo recrudescimento obsessivo.

        Luecas tentava mais uma vez reiterar as palavras de exortação emitidas pelo seu colega de manicômio -- cujo cognome era Nicolas -- tendo por certidão de Batismo e nascimento -- o nome de Nicolau. O afamado homem ficava  com a cabeça voltada em direitura ao chão, enquanto os pés se posicionavam em direção ao  teto. Assim sendo, ficava por mais tempo possível!...  Era inacreditável lobrigá-lo dessa maneira! Tínhamos a pseudo impressão que dormia ou dava sucessivas vertigens, se bem que não saía um milímetro sequer da posição de encetamento.

            Deveras, Nicolau, cognominado pelos  mais íntimos de Nicolas, aparatava um seriado de obsessões compulsivas. Esses "TOC"(transtornos obsessivos compulsivos) o ladeavam desde o apoteótico "Jardim da Infância". A sua professora Lourdes o observava atentamente, já que, também, exercia a psicologia clínica!...

             Lourdes, de quando em quando, tentava outro colimador, mas terminava retornando o olhar de modo perlustrativo  nesse seu aluno, o qual ostentava um comportamento cabalmente diferente dos demais colegas do primeiro período do "Jardim da Infância". Realmente, -- dizia a professora: ele tem algo muito diferente dos seus demais coleguinhas. As suas sensórias são reiterativas em quaisquer pronunciamentos que venha a tomar. Quando abre a bolsa, olha a fechadura -- de modo dessemelhante -- tentando reabri -la apertando todo o circunferencial  da mesma. Caso ela não estivesse, terminaria defeituando-a ou sacando-a, e,  desse modo, vai auferir um prejuízo deletério para o senhor seu pai ou para a senhora sua mãe.

             A sua cacografia nunca alcançou o grau de caligrafia. De fato,  o  menino de quatro anos cobria e recobria as letras inúmeras vezes!...            Não se conformava em escrever as letras uma única vez!... Não se conformava em escrever as letras uma única vez! Talvez, fosse a exceção mais marcante existente naquela pequena sala de aula, a qual comportava somente vinte alunos e a carteira da professora. Realmente, o espaço entre as cadeiras era muito restrito. Todos, sem inclusão ou exclusão , teriam  que passar lateralmente, pontuando a medida correta para chegar até a carteira mais distante, situadas nas apropinquações da janela do lado esquerdo ou direito. Nicolau, o pequeno Nicolas, era o único que não esbarrava em nenhuma mesinha; pois, a paciência fazia com que isso não isso em toda sua trajetória. Outrossim, a sua carteirinha não expendia nenhum arranhão! Se fosse para ganhar algum prêmio, fá- lo -ia de modo seguro, haja vista suas múltiplas solicitudes. Acuradamente, ia  harmonizando os espaços flexionando os pés levemente, isto é: à sorrelfa de quem se dispõe a exarar alguma cousa esfíngica, cabalística, enigmática ou misteriosa em todos os aspectos plausíveis!...

          As demais  criaturas ressumbram, de modo recôndito, suas anomalias desde que estejam vivas intra- uterinamente. As pesquisas recentes expendem esses fatores genéticos. A hereditariedade faz com que, decerto, esses estigmas venham abscônditos; e, a quaisquer  momentos, surdam como forma de surpreender a todos aqueles que desconhecem, cabalmente, o assunto relacionado ao genótipo humano!   Igualmente, com o passar vertiginoso das horas, o fenótipo vai sendo revelado, abrangendo caracteres bilaterais: paterno e materno.

          Nas crianças, de modo geral as garatujas e demais caricaturas constituem- se numa  jocosidade trivial. As traquinagens exacerbantes dão aspectos de lepidez reptativa. Essas habilidades motoras encobrem a maioria dos "TOC" (transtornos obsessivos compulsivos). O tempo fugaz não demonstra as disfunções que se farão presentes quando esta criatura chegar ao encetamento da maturidade plena!...

             Haverá, haja vista, uma série de distúrbios  à sorrelfa ou à socapa   ou sorrateiramente, num recrudescimento evolutivo e constante, independendo da  faixa etária estipulada. Dessa forma, a melhor maneira --  caso haja -- é tratá-los com o acompanhamento de psicólogos, neurologistas e psiquiatras. A medicação prescritas, até então, amaina a manifestação das síndromes paroxísticas palíndrômicas. A terapêutica sanativa está esperando o compasso e descompasso da própria tecnologia revelante; e, concomitantemente, relevante nestes nossos dias hodiernos. Ainda estamos na fase de mudar o continente, permanecendo com o conteúdo, que é representado pelo respectivo princípio ativo existente em todas as drogas farmacêuticas reinantes -- desde o hesterno, passando pelo hodierno, e partindo em direitura ao crástino promissor, segundo as graças e glórias concedidas por DEUS PAI -- TODO PODEROSO.

             Nicolau, o pequeno Nicolas, era superprotegido por seu avô paterno, cujo nome na certidão de Batismo constava da seguinte maneir: Tonico Ribeiro dos Santos. Costumava ser o avô dos melhores. Toda vez que vinha a São Luís, comprava - lhe três brinquedos novos novos. A tríade era uma constante, assim como, a tétrade. Falemos, dilucidatoriamente, a razão de ser três objetos. Conhecia bem o neto, notadamente, a razão de ser três brinquedos. Reconhecia - o, de modo ditatorial, o motivo lídimo e imprescindível, todas as vezes que um desses aparatos se quebrava. De fato, saía carpindo - de modo doidivanas - a metodologia de vê -lo sapateando pela casa ( dando a pseudo - impressão que o orbe estava chamas diuturnas e constantes) ao ouvir-se e presenciar-se em descomunais alaridos agudos e exortativos!... Então, para que isso não ocorresse comutava a ostentação estropiada por outro fato, estando em inusitada comutação. Desse modo, havia tempo suficiente para mandar consertá-lo, tendo em vista a a presença de uma terceira fase ostentatória imprescindível!...

             As suas babás eram quatro -- uma ficava na frente, a outra, indubitavelmente, situava-se atrás, enquanto, as outras duas -- posicionavam-se, bilateralidade, ladeando--o, e, também, reduzindo-o para uma percentagem de 0% a sua protrainte  probabilidade de um possível boléu na salsugem!... Na escola, onde aprendia as protótipas letras, cumpria com as obrigações quanto à escrita diariamente. Defronte do vetusto "Estabelecimento de Ensino", havia uma quitanda repleta de bombons "ioiô", que se prendia num elástico,, indo e realizando a ida e o regresso solertes. Como adorava esse tipo de bombom heteróclito. Ao chegar à casa, provida de "Mirante", habituara-se a reparar os dissensórios modelos de jocosidades vigentes, as quais lhe despertavam as mais divergentes curiosidades!... Estamos, realmente, partindo em direitura ao crástino, para que tenhamos a certeza ou incerteza do que está sendo, artificialmente, calculado!...

                                   São Luís,MA, 25 de novembro de 2020.

                                                                                                                                                          WILSON CERVEIRA

              

          

                   



sábado, 19 de setembro de 2020

RITUAIS DOS MEDICAMENTOS

             Esta cena se processa, lentamente, no pátio de um sorumbático manicômio, situado mum arrebalde distante. O protagonista principal foi um senhor de quarenta e cinco anos, cognominado, conforme a Certidão de Nascimento e a de Batismo, -- Lisboeta.

             Realmente, este senhor, acima mencionado, adentrou ao dito manicômio às sete horas da manhã. Fora logo atendido, com as graças de Deus --  Pai Todo Poderoso. Destarte, a enfermeira Juliete, que lhe prestou imediata assistência, trazendo- lhe um psicotrópico em cápsula. Antes mesmo de degluti-lo, reteve-o na palma da mão esquerda por algum tempo, ou, melhor dizendo, por uma procrastinação maior.

            A enfermeira Juliete, em cabal discernimento, pode esperar o resultado dessa minuciosa observação com  relação a cápsula que ele a mantinha no centro do recôncavo da sua mão esquerda. Assim sendo, Lisboeta perlustrava o medicamento -- tendo por referenciais os primordiais ângulos -- como se quisesse medi- lo, antes mesmo que o ingerisse!...

             Verificava, também, a coloração do remédio. Finalmente, fixava-se na droga -- por muito tempo -- como se quisesse  perquiri- lo sob todos os âmbitos plausíveis. Seria de eficácia para o seu organismo?!... Questionava, ensimesmado, a si próprio, como se fora auferir uma ilação contundente em concernência ao seu estado de saúde, que aparatava desiguais síndromes paroxísticas palindrômicas em toda a extensão orgânica!...

              Em determinados comenos, recebia das solícitas mãos da enfermeira -- Juciara, um frasco delgado contendo apenas dois comprimidos. Neste ínterim, librava as equipolências de ambos os medicamentos -- como se fossem lhe despertar, de súbito, algum tratamento específico. Decerto, dificilmente,  obtivesse uma resposta convincente, uma vez que, para arrefecimento dos perquiridores, as complicações de tratamento variariam bastante, dependendo do tipo de organismo reinante.

             Não se sabia, ao certo, por quanto tempo, Lisboeta permaneceria com o comprimido na palma da mão esquerda. De fato, quereria, de qualquer  forma , sentir a sensação do tato sobre eles. Também, perlustrava-os com os olhos  atentos, como se existissem dois faróis fixados sobre o objeto perdido!...

            Em princípio, o que lhe era mais complicado, sem hesitação, é o que se cognominava coquetel de cápsulas diferentes. O frasco vinha lotado com catorze desses medicamentos. Eles agiriam, de modo sincrônico, visando o restabelecimento mais rápido da área que estava sendo afetada por fungos e bactérias, notadamente microrganismos  diversificados em todos os ângulos da cognosia humana!... Ei- los, então, a exercer as suas funções divergentes sobre os órgãos atingidos direta e indiretamente.

         A  cada dia, indubitavelmente, diz o Psiquiatra Breta, assistimos a um distinto cerimonial dos medicamentos, os quais estão prescritos para os pacientes Lisboeta e Listerino. Outrossim, os seus remédios, por excrescência, vêm numa pequena bandeja de prata legítima.

        Em especificado ínterim, veio-lhe um comprimido pela metade. Alguém o quebrou através da cisura. A finalidade, talvez, desse rompimento estivesse inerente ao modo, parcimonioso, tentando somatorizar o número de partes. Às vezes, quando a medicação é exígua, faz-se esse tipo de procedimento farmacêutico -- que é condenado por alguns profissionais da área da saúde. A parcimônia é sempre relevante, sobretudo para  aqueles que precisam tomá-lo duas vezes ao dia.

      Listerine consultou ao seu amigo Anatécio, querendo perscrutar-lhe a devida aquiescência. Destarte, sem perplexidade, o seu colega de profissão assentiu em gênero, número e grau, com o seu colega da mesma categoria funcional, o qual conviveu com ele desde o jardim da infância até o curso superior, e, posteriormente, com relação as respectivas pós-graduações realizadas no âmbito das ciências humanas.

              Para que a digressão não se tornasse procrastinativa, voltaríamos ao assunto do tal amplictil de 100 mg, que, a princípio  fora dividido ao meio, para que não se constituísse numa potência muito forte para o organismo do cliente, podendo estourar-lhe como se fora uma súbita bomba de efeito praticamente letal.

           No pátio interno do manicômio, vislumbravam-se implantações de tantos outros fatores, cujos agentes e reagentes medicamentosos poderiam deslibrar a homeostase orgânica em diversos pontos referenciais do esqueleto. As pernas e os braços iam se perdendo, pouco a pouco, na higidez dos seus variados movimentos articulatórios!...

              Todo o rocio das protótipas horas iam sucumbindo lentamente no que se trata das primeiríssimas articulações. Não havia como sustentar as tenazes impertinências das reações bioquímicas que iriam suplantando os encetamentos mais relevantes no que tange aos impulsos concernentes às diversificantes naturezas primordiais dos implexos equilíbrios ácido-básico.

                                                             São Luís, MA, 19 de setembro de 2020

                                                                                         Wilson Cerveira



              

             

              

             



quinta-feira, 2 de julho de 2020

A INOLVIDÁVEL DADÁ

              Somente Deus, o Altíssimo, que rege tudo neste mundo, poderia vaticinar o meu  nascimento, o local e a data em que se daria. E foi assim, na casa da Rua das Mercês, confronte a Ilha de Nossa Senhora do Livramento. Em meio as pessoas residentes naquele casarão, estava uma criatura toda especial -- a qual jamais poderia estar ausente, e que tinha o nome registrado em Cartório, sendo, então, chamada de Margarida Silva, afilhada de Batismo do meu avô -- Marcial Ramalho Marques.
             Margarida Silva, que recebera a carinhosa alcunha de Dadá, veio das baixadas dos campos de Pinheiro, em companhia do meu avô, após várias obsecrações feitas por ele à senhora sua mãe. Dona Esmeraldina relutava para que  ela não viesse, pois, com a idade de oito anos apenas, ia lhe fazer  imane falta. Das  filhas, apesar de pequena, era a que mais obedecia. Partia sempre em quaisquer direituras para o local em que fora mandada. Destarte, fazia todo serviço, menos a comida, e ainda cuidava das plantas e da bicharada situada no quintal de baixo, nas proximidades do poço de lavar as inúmeras peças de roupa.
             Não seria esta a primeiríssima vez que dona Esmeraldina recebera tal requestação por parte do meu avô. E esta senhora sempre dizia o seguinte: compadre, tenha calma, há tempo para tudo debaixo dos céus, como diz o eclesiastes. Se ela não for desta  feita, decerto, seguirá quando houver uma próxima oportunidade. Mesmo assim, o idôneo Marcial, perante toda inaceitabilidade, passava nervosamente  a mão na calva, e dava um pinote de cabal impaciência! Queria, em plena surdina, organizar todos os meios possíveis para que ela partisse em sua companhia, ainda hoje, 27 de setembro de 1927. Tanto assim, que Pinheiro poderia  ser comutada por Alcântara, a fim de que facilitasse a vida do provecto comerciante da cidade de Alcântara -- MA.
             O seu padrinho Marcial Ramalho Marques, agoniado como sempre o fora, rumou em direitura ao comércio, com finalidade de adquirir- lhe várias peças de roupa. E, para tanto, teria que comprar uma mala. E, dessa forma, alojaria toda  essa indumentária. Ao adentrar à casa da comadre Esmeraldina, com certeza, ressumbrar-lhe-ia os vestidos bonitos que houvera conseguido nas lojas de artigos finos.
               Todos esses artefatos encheram os olhos da pobre garota. Deste modo, não havia outra alternativa, a não ser seguir viagem em direção a cidade de Alcântara do Maranhão. Desta feita, estaria muito bem acompanhada, pois o seu padrinho de Batismo representava a sua estirpe paterna. De fato, a senhora sua mãe estava colocando a querida filha -- Margarida Silva, cognominada posteriormente de Dadá, e, de modo indubitável em boas mãos. O padrinho dar-lhe- ia a melhor destinação possível. Se bem que fosse um pouco recalcitrante, obedecia as ordens do seu tutor -- Marcial Ramalho Marques.
               Ao chegar a cidade de Alcântara- MA, vindo sob a custódia do seu padrinho de Batismo, não demorou tanto a se acostumar com os novos hábitos, principalmente os caseiros. Fora logo advertida do seguinte modo: aqui, fique sabendo, não se anda  sozinha pelas ruas desta cidade histórica, tal qual você fazia nos campos da Baixada de Pinheiro - MA. Lá, minha filha do coração,  o ermo comanda a soturnidade das noites!... Aqui, de quando em quando, há sempre algumas pessoas a perambular pelas ruas, becos  e travessas. E, através das venezianas semicerradas, olhos perlustram os passantes -- como se estivessem em prontidão guarnitiva. Os boatos correm lá fora, lepidamente,sem óbices de maiores entremeios. Deus nos livre das línguas tenebrosas e reptativas deste invidioso povo alcantarense!...
             Margarida, decerto, era o nome que meu avô a chamava quando queria que ela fizesse alguma coisa para ele. E, tudo isso, ocorria açodadamente, porquanto não esperava por muito tempo. Se não encontrasse o objeto perdido, ficaria desesperado. Margarida, minha filha, localiza essa droga seja  como for. Estou ficando irado cada vez mais. Ela se abaixava e punha a mão, o antebraço e o braço debaixo de cada móvel do quarto e da sala. Às vezes caia sem querer, e ele próprio chutava para o fundo dessas cômodas, camiseiros e guarda-roupas. De fato, após muita demanda e azáfama, terminava por encontrar o objeto desaparecido. E, finalmente, ele dizia: " Somente você é capaz de achar as minhas parafernálias".
               Quando aportou em Alcântara-MA, a pequena Margarida Silva, de apenas oito anos de idade, já sabia fazer muitas tarefas caseiras. Citemo-las: arroz, feijão, macarrão, descamação de peixes e suas respectivas aberturas. Também, sabia matar galináceos e, posteriormente, abri-los anatomicamente, seccionando todos os seus componentes internos: fígado, moela, coração, asas, coxas, peito etc. Aprendera desde cedo com a senhora sua mãe -- dona Esmeraldina. A culinária era o seu maior dom, embora escrevesse com dificuldade o seu próprio nome. Educava as suas filhas utilizando-se da "Cadeira de Prendas". Todas elas -- da menor a maior eram prendadas, pois a mãe as ensinava a fazer todas as cousas necessárias à sobrevivência de uma casa, sem que lhe faltasse alguma iguaria!...
              Dona Esmeraldina, a mãe de Margarida Silva, a quem chamei de Dadá, sabia de tudo um pouco, em que pese o seu apedeutismo. Também, teve a destreza de ensinar para a pequena Margarida, de tão-somente oito primaveras, a implexa atividade de  fazer rendas, bordados, tricô, croché etc. A pequena Dadá, decerto, conseguiu assimilar  apenas o abecedário; e, quanto ao remanescente fora deixado para desenvolver em Alcântara -- MA.
               Deus, com seu poder infinito, abençoou a pequena Margarida Silva, a quem eu dera, posteriormente, o nome dileto de Dadá. É de bom alvitre exarar que a Proteção Divina e a sorte a bafejaram, abrindo-lhes as percalciosas  veredas existenciais. Igualmente, a sua madrinha de Batismo, que era a minha avó paterna -- Ana Guimarães Marques, muito a ajudou, pois, entendia bastante a matéria relacionada a trabalhos manuais. E, desse modo, foi graduando em série o que seria estudado por ordem sequencial. Pegou inicialmente a almofada, os alfinetes e os famosos bilros. Sobre a almofada constituída por enxertos de fazenda, sendo recoberta por uma pequena lona, fixou uma placa de papelão resiliente. Nela, indubitavelmente,  enfiaria os diversos alfinetes entremeados com as respectivas linhas, as quais sustentariam os ditos bilros, de madeira leve e com uma espessa  dilatação nas extremidades. Esses elementos ou pauzinhos eram trabalhados com as mãos, arremessando-os de um lado para outro, num trocadilho de uma dança enigmática e impressionante. As linhas seriam novamente pontuadas com as comutações constantes dos alfinetes aprisionados às devidas pontuações da linhas, que, passo a passo, iriam confeccionado com maestria os diferentes tipos  de renda. O conjunto de bilros ficavam atrelados as linhas que perpassavam os alfinetes, os quais são permutados  conforme o bailado desses palitos de certa espessura. Outrossim, quanto aos demais trabalhos manuais, com certeza, seriam ministrados ao longo do tempo, calmamente, para  que ela, a pequena aprendiz, conseguisse absorver o pitoresco trabalho!...

            

segunda-feira, 25 de maio de 2020

FARMACÊUTICO DOS MAUS TEMPOS

            O senhor Chico Vara, alcunha que recebera nos tempos de adolescente. No entanto, o seu real nome é Capistrano dos Reis. Tivera um filho um filho cujo nome é Luecas Peixoto, embora fosse conhecido pelo epônimo de Luecas Ponderal. Desde o encetamento dos seus  estudos, o pai preferiu optar para que ele fosse algum dia -- Farmacêutico -- dos bons, sem que houvesse nenhuma  hesitação a tal respeito.
           O protótipo erro, geralmente de muitas famílias, é não deixarem que o filho opte pela carreira que desideraria  seguir. Outrossim, as consequências futuristas estão à espera do filho, e não dos pais. Se algo der errado, os genitores serão perenemente conivenciados -- desde o dia do mau agouro, o qual fizera tamanha arremetida no âmbito da área da saúde.
            Sabe-se, de antemão, que, hodiernamente, necessita-se de um capital de giro, para que haja a devida  manutenção compensatória com relação as primeiras investidas no campo farmacêutico. Os medicamentos recrudescem diariamente, de conformidade com o laboratórios que os manipulam. Se for de "marca", pior ainda. Mas a credibilidade não deixa de ficar um tanto abalada. Existem algumas dessas indústrias químicas de certa reputação, que o medicamento é cinco ou seis veze mais oneroso do que quaisquer laboratórios de menor expressividade com relação à produtividade da matéria prima necessária para a devida preparação farmacêutica, já que os insumos acresceram bastante no decorrer destes anos onde o capitalismo é desenfreado em todos os quatro cantos do exorbitante mercado financeiro.
          O que seria do Luecas Peixoto ou Luecas Ponderal?!... Felizmente, em meio a tantos desencontros, ostentava o nome atinente à ponderabilidade de situações inopinadas! Não poderia deixar-se sucumbir perante numeroso óbices reinantes.Caso contrário, soçobraria, melancolicamente, para nunca mais emergir  em concernência ao qualificativo funesto de farmacêutico dos maus tempos, constituindo as agonias provocadas pela arrecadação de muitas reptações no esdrúxulo e extorquidor setor das cruentas finanças de empréstimos a juros escorchantes!...  
            Capistrano dos Reis, também conhecido pelo epíteto de Chico Vara, aparatava uma pequena fazenda, e ainda alguma  ou diversas casas de aluguel, algumas já vendidas e outras para comercializar. Só dizia todos os dias, em voz altissonante, que o cara que é bom não precisa de recursos para se infiltrar no mercado do capitalismo desenfreado. A sua capacidade elucubrativa estaria acima de tudo. Esquecia, todavia, que os cérebros -- por melhor que sejam, aliás, até dos gênios, não ressumbram descomunal arraigamento impreenchível em todos os meandros, notadamente os existenciais!...
        Luecas Peixoto, que o mesmo Luecas Ponderal aparatava cizânia para com os demais membros de sua família. De fato, tinha razão cabal em detrimento das aleivosias que propagavam com relação a sua singularíssima pessoa. Somente, ostentava  a total convicção de que era filho legítimo de Capistrano dos Reis, que é apitetado por Chico Vara. Entretanto, a destinação não lhe dera o pai que almejaria ter; com a finalidade de ajudá-lo no sentido de incrementaar no imane cipoal de sua vida profissional de Farmacêutico labutante.
         Todavia, o experimentado, vivido e sofrido -- Luecas, com justa razão, aparatava percuciente orgulho de si mesmo, e jamais solicitaria ao referido pai auxílio financeiro, no caso de empréstimo bancário, para que pudesse montar condignamente o seu tão sonhado estabelecimento farmacêutico. Outrossim, sabia, de antemão, que a sua fazenda  estava sendo dilapidada, havendo escamoteações por parte de malfeitores da alta sociedade de São Luís do Maranhão, os quais esbulhavam o gado nas madrugadas soturnas! Cada ano que se passava, a fazenda ia ficando com um número menor de cabeças!...
             Possuía uma insanidade mental insofismável; pois, nunca pensara em beneficiar o próprio filho, uma vez que, preferia ser vítimas de assaltantes e ladrões. Quanto ao casario, nem se fala; aliás se observa o comportamento dos maus inquilinos. Pagam pouco e custam efetuar o devido pagamento. Dona Vitória, que deveria ter o nome de dona Derrota, recebera o encargo de ser a procuradora dos negócios. Cada mês era uma lídima exaustão para o seu porte físico franzino. De fato, o  nome dessa procurador das casas de aluguel era Vitória. No entanto, ela sofria mais derrotas que vitórias, já que os moradores ou inquilinos ostentavam caráter de facínoras em todos os âmbitos plausíveis!...
      Colocaram-lhe o epíteto de Chico Vara, em detrimento do que ele realizava diariamente. Quebrava mais varas, pois nunca aprendeu a carregá-las corretamente. Algumas conseguiam  ficar intactas, e outras não. Somente o fortuito saberia dilucidar tal comportamento artimanhoso, de quem não conhece as atividades atinentes de podar as árvores, impedindo que viesse atingir quaisquer dos seus colegas trabalhadores que faziam parte desse arrojo diário.
           Deveras, Capistrano dos Reis não se distanciava dos seus negócios, se bem que não soubesse os gerir quanto ao que se chama de produtividade própria. Ia aos poucos, perdendo tudo o que  lhe pertencia. Não pedia auxílio para o seu filho. Preferia fazer de modo que ninguém soubesse. Terminava, então, perpetrando mau negócio!...
         Luecas Peixoto, conhecido no seu arrebalde por Luecas Ponderal, acabara de concluir o doutorado referente ao Curso de Farmácia. É de bom alvitre exarar que não possuía rendimentos suficientes para montar uma simples botica, como se dizia antigamente, muito menos um laboratório com todos os seus aparatos tecnológicos. Após afastar-se do doutoramento, teria que procurar um serviço -- de qualquer maneira, já que ultrapassava, e muito, a maioridade. Além do mais, a lei obriga a ajudar o filho, até o ponto  em que este complete a devida emancipação. Depois de tanta demanda, e com o auxílio da Divina Providência, ele conseguiu um trabalho, ainda que a remuneração não fosse compensatória. 
             De modo  parcimonioso, guardava um pouco da pecúnia que recebia mensalmente. E, dessa maneira elucubrava os possíveis meandros a serem propugnados com denodo. Escorchava-se todo, a fim de que remanescesse um oitavo dessa exígua quantia. Como poderia sentir-se bem diante de tanta preocupação e muitos aborrecimentos?!... Não havia outra maneira, decerto, a não ser deprecar os préstimos da Divina Providência.
          De antemão, vislumbrou um anúncio de medicamentos com preços accessíveis, uma vez que, sem sombra de dúvidas, o prazo de prescrição duraria apenas doze meses, a contar do limite da respectiva aquisição por parte de demandante. Poderia seu -- ou não -- um bom negócio para quem entende as regras da comercialização!...
           Qual tipo de elucubração pode ser gerada sem um pequeno capital de giro?!... As comutações medicamentosas tornam-se difíceis, porquanto a capitalização do orbe hodierno requer essa pauta imprescindível. Mesmo assim, com muita dificuldade, partiu para experimentar uma vetusta  tática, em cabal obsoletismo.
            Luecas Peixoto, conhecidíssimo pelo cognome de Luecas Ponderal, deveria adquirir no mercado de medicamentos, notadamente os remédios mais demandados. Esses seriam colocados nas fileiras da frente de cada prateleira, com  seus respectivos distintivos. Anti-inflamatórios, analgésicos, antipiréticos, antibióticos, psicotrópicos etc. Os dois postremeiros exigiriam do Ponderal, de maneira indubitável maior diligência, visto que teria que pagar alguns profissionais da sua área de saúde, principalmente médicos, embora não fossem especialistas, para que lhe dessem, através  de receituários de controle especial -- os mais requisitados pela  população. Destarte, teria que lutar acirradamente, já que, em virtude da demanda, precisariam prescrever alguns  dos mais relevantes medicamentos existentes no variegado mercado farmacêutico.
            As caixas com medicamentos ocupariam as prateleiras em ordenação frontal e subsequente. Essas todas conteriam medicamentos. Seriam lacradas e com data de validade distanciada da expiração. Ao passo que, em função da carência do capital, as demais caixas, apresentar-se-iam totalmente  vazias, sendo colocadas na retaguarda das prateleiras dos renques posteriores. Ninguém entraria para balouçar uma pequena rocha em cada uma delas, evitando, desse modo a derrocada proporcionada pelo vento impetuoso!... Que sorte teria, meu Deus, pois era pobre, e, sendo assim, carente de recursos de primeiríssima  grandeza!...

                

               


                 
                
             

terça-feira, 12 de maio de 2020

MÁXIMO DELÍRIO ALUCINATÓRIO

            Egberto não poderia jamais experimentar uma imane sensação simulacral de posse. Sentia-se proprietário de um Edifício de vinte andares. Para tanto, precisava de um parceiro, e foi assim que  encontrou o Elesbão. Acompanhava-o, andar por andar, uma vez por mês. E, a remuneração nada mais representava do que a correspondente a três salários mínimos. Julgava-o ser arquiteto, visto que fosse apenas desenhista.Resumidamente, o único serviço correspondente representava o de companheirismo mensal. Ambos percorriam todos os compartimentos inerentes a cada andar. O beneficiado era, indubitavelmente, o Elesbão.
            De fato, o Egberto só fazia perder a pecúnia que obtinha de sua aposentadoria como almoxarife. Deveras, conseguia usufruir a síndrome paroxística palindrômica referente ao  máximo delírio alucinatório. Desta forma, psicose é uma síndrome associada a uma queixa do paciente (espontaneamente mencionada ou obtida mediante  entrevista) de vivências alucinatórias e/ou delirantes ou a observação, feita pelo médico, de comportamentos sugestivos.
            No primeiro caso, diz-se que alucinação e delírio ocorrem como sintomas. De forma, o binômio supracitado são distúrbios da vida mental em que o contato com a realidade mais formal e imediata está alterado. Alucinações são manifestações psicopatológicas da esfera senso-percepção definidas como percepções nítidas e objetivas de qualquer modalidade ( visual, auditiva, olfativa, táctil, ou um  conjunto destas) que habitam espaço externo na ausência de um percepto real. Quando, numa enfermaria em que não se ouvem ruídos, um paciente afirma ouvir vozes agudas de uma mulher vindas da sala ao lado, tal vivência constitui uma alucinação auditiva.
             Delírios são ideias ou crenças que centralizam sobremaneira a vida psíquica de uma pessoa, havendo situações em que  o paciente passa a viver em um mundo autístico, completamente absorto nessa "nova realidade". Os delírios constituem um falso juízo da realidade, possuindo uma forma psicopatológica própria, caracterizada por serem crenças não argumentáveis, incorrigíveis e não compartilhadas por indivíduos de  mesma  cultura e com alta significação pessoal. A temática dos delírios é extremamente variável ( grandeza, hipocondria persecutória, reivindicatória, ciúme, entre outros). Quanto maior o componente de "bizarrice" e  o  não- compartilhamento, mais provável é a hipótese de delírio. Por exemplo, a afirmação de um paciente de ter tido um chip implantado em seu olho para que o Pentágono pudesse espionar o governo brasileiro por meio de sua retina.
             Em outras formas de vivência delirante, o componente do delírio recai sobre como o paciente percebeu o conteúdo do delírio recai sobre como o paciente percebeu o conteúdo do delírio e não sobre  o componente de bizarrice ou estranheza. Por exemplo, uma paciente com esquizofrenia paranoide afirma que seu filho de nove anos está sendo molestado sexualmente molestado pelo pai com quem vive em outro país, neste exato momento( tal fato, em  si, não seria necessariamente impossível). Mas ao ser perguntada sobre como soube disto, ela refere que uma visão mental lhe revelou uma aparente verdade.
            Alucinação e delírio podem ocorrer juntos ou separados. Habitualmente associam-se manifestações psicóticas à esquizofrenia que foi descrita como iniciando em adultos jovens, levando a uma deterioração global das funções mentais. Foram descritos desde a antiguidade, mas começaram a ser sistematicamente publicados a partir do séc. XIX por Haslan (1810), Hecker ( 1871 ) e Kalhbaum ( 1874 ). Para distingui-los dos pacientes dos pacientes com quadros demenciais associados ao envelhecimento, o psiquiatra belga Benoit Morel, em 1860, denominou o quadro clínico de "démence precoce", termo latinizado como demencia  praecox por  Kraepelin. Kurt Schneider continuou a busca por sintomas patognômicos e, em 1948, classificou uma série deles como essenciais ou de "primeira ordem" para o diagnóstico. Vale lembrar que a manifestação de sintomas psicóticos não significa obrigatoriamente que se trata de esquizofrenia
             Uma importante tarefa diante de um paciente com quadro psicótico é estabelecer se deve-se a:
               -- transtorno mental primário ( como esquizofrenia )
             -- condição médica geral, como traumatismo, infecção, alteração tóxico- metabólica epiléptica.
             -- Uso de medicações ou substâncias psicoativas.
             -- Uma combinação dentre esses fatores.
      Egberto, cabalmente teleguiado pelo pressuposto arquiteto Elesbão, ficava na contingência de receber  as cédulas fraudulentas adquiridas pelo seu guia de descomunal infidelidade. Ao passo que, indubitavelmente, o seu avalista de "alta confiança" somente aceitava as cédulas lídimas, em plena circulação no mercado cambial, com numerações e marcas registradoras de real identificação  em todo o território nacional.
             Egberto continuava sendo um eterno perdedor, pois subtraia cada vez mais  a sua avara aposentadoria de seis salários mínimos. Restava-lhe apenas a metade -- que era de três mínimos, visto que a outra parte pertencia ao Elesbão, um capadócio dos maiores!
             Elesbão persuadia o pseudo dono do edifício de vinte andares, e sempre dizia-lhe da necessidade extrema de ir mensalmente ao prédio. De fato, Egberto não chegava a lobrigar a ressumação de tal falácia, porquanto guardava em cofre lacrado as falsificadas cédulas que recebia mensalmente. Consumia, estritamente, só aquelas que lhe sobravam da tacanha pecúnia atinente ao somítico almoxarifado pertencente a um Órgão Funcional do Estado do Maranhão.
               Não acatemos a ideia de Egberto viajar  para tratamento num manicômio especializado -- acabara de exarar Elesbão -- o seu confidente caviloso de muitos anos e, também, arquiteto perfunctório; isto é, nunca deixara de ser somente um simples desenhista.
            Após  muito tempo de preocupações e aborrecimentos, Elesbão contraiu para si a neurose do medo. Havia no seu intrínseco uma sensação heteróclita de sucessivas  perdas irreparáveis. Uma delas seria a desvinculação do trato que fizera com o Egberto, o qual vinha sendo vilipendiado há muitos anos. Outrossim, ainda não havia chegado às raias da extrema miséria devido ser parcimonioso para com suas despesas diárias, semanais e mensais!...
            De  repente, o Egberto poderia sucumbir ao estado de obnubilação que o deixava aparvalhado. Quem sabe se uma substância diferente atuaria na rede neuronal do cérebro dessa criatura, fazendo com que ele regressasse ao circunstancial de uma possível e aparente realidade não corroborada! Num desses testes ocasionais, a Ciência, mesmo em estado  de depauperação para  a maioria das doenças mentais, poderia, de súbito, retroceder. Destarte, ele passaria a reconhecer as cédulas fora de circulação que  recebia mensalmente do sacripanta, como se fora o recolhimento dos aluguéis dos apartamentos de cada andar do edifício " Luas do Prazer "
          De qualquer forma, esperava o Elesbão -- de modo quase convicto -- que  isso jamais viesse a ocorrer, já que se sentia remunerado em parte -- com a pecúnia que recebia do Egberto, no final de cada mês entrante. Sendo assim, reunia esses três salários com  uma pensão da filha mais nova -- e ia torcendo os empeceres que o orbe proporciona no ramerrão de situações funestas e inelucidáveis . Caso perdesse essa outra metade, sentir-se-ia desamparado, manco, precisando de duas bengalas para manter o corpo numa posição vertical, pronto para trilhar pequenas, médias e grandes distâncias.
             Quando Egberto retornava do manicômio, após alguns meses de hospedagem, corria à casa do amigo que o escorchava, com o propósito de averiguar a situação do fantasmagórico senhor de sessenta e oito anos de experimentação, vivência e sofrência -- uma trinomia que o conturbava ainda mais, com reações divergentes de síncopes ou delíquios recorrentes no decurso impertinente das horas registradas pelo arcaico relógio de pêndulo!...
            
                                                                    Wilson Cerveira

               
             

quinta-feira, 16 de abril de 2020

ÁTIMO MIRACULOSO

            Natividade, que viera dos tempos da severa escravidão, não tinha a ideia de quanto sofreria, já que era a postremeira filha de dona  Guilhermina. Ainda ostentava vinte e poucas primaveras. E, por isso, queria ter um descendente !...
            Em época alguma, divagara as consequências abscônditas de um parto normal. O Guilherme, em homenagem a dona Guilhermina, que era a senhora sua mãe, nascera sadio, sem problemas de saúde. O que  acrescia era a dificuldade de dormir durante a noite. Dormia à base de remédios; assim, não deixaria a sua cuidadora trespassar de, quando em quando, num cochilo.
            Natividade, que já expressa nascimento, não herdara a mesma  tranquilidade da mãe!... Num determinado dia, inopinadamente, ficara sem andar... Lamentavelmente, as pernas não firmavam o corpo, em posição Para  sortilégio, residia na casa do meu avô Marcial Ramalho Marques. Ele, por proteção divina, ostentava uma afilhada e filha de criação muito dedicada -- Margarida Silva, a qual tomou para si todas as responsabilidades de cuidar de Natividade e do seu filho Guilherme, um garoto de poucos meses de nascido.
             Natividade, como fora dito anteriormente, em regra geral, não havia como andar, pois suas pernas perderam a tonicidade quanto ao movimento. O seu sistema muscular e nervoso ficaram muito combalidos. Margarida, a inesquecível Dadá, a generosa em todos os aspectos plausíveis, dizia sempre: " Segure-se em mim, e destarte a senhora vai encetar as primeiras passadas, se Deus quiser, pois a Divina Providência vai ouvir suas preces e realizar este milagre. A senhora ficará curada; e, logo depois dará a  Nossa Senhora de Fátima o que ela bem merece, conforme o que formulara o seu pensamento, aparatando o mais dignificante zênite!...
              Sem muita tardança, ocorrera a ida  de seu padrinho e pai de criação -- Francílio Leite Cerveira -- até a  cidade de Alcântara -MA. Exatamente, nesse período, celebrava-se o festejo de Nossa Senhora de Fátima. Haveria a procissão da Santa Milagrosa -- mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, sem perplexidade, olharia a procissão passar debruçada no parapeito da janela principal da casa, que ficava em direção à Ilha do Livramento.
              No átimo em que a Santa -- Nossa Senhora de Fátima ia passando confronte à janela, na qual ela se encontrava em companhia de seu padrinho de Batismo e pai de criação -- Francílio Leite Cerveira, recebera os seus incentivos para que ficasse em pé! Vais suportar, minha filha, estou junto a você, e com bastante fé, para que alcancemos este miráculo. Não vais cair! A santa opera milagres em nome de Deus. Ela, a Natividade, muito emocionada, foi endireitando o corpo, mesmo com as pernas trêmulas, pôs- se de pé, junto a janela. Daí para frente, não sabia se haveria condições de dar as primeiras passadas -- no sentido de caminhar em pequena distância.
              A  junta médica -- constituída de Genésio Rego, Djalma Marques e Carlos Macieira -- ainda não sabia ao certo o que estava ocorrendo. Pois, o postremeiro diagnóstico corroborou   polineurite ou polinevrite nos membros inferiores da senhora Natividade. Alguns diziam ser problemas do parto,  outros, mais solertes, falavam de vento encanado e outros problemas inerentes a coisas ainda não ressumbradas! Sortilégios de mulheres benzedeiras falavam o contrário dos contrários. Elas persistiam dizendo que os benzimentos com galhos de arruda, deveriam continuar por tempo indeterminado. Mesmo que ela se recuperasse do problema inerente aos membros inferiores, as orações e os galhos de arruda não poderiam cessar jamais!...
             Ainda, no prenúncio de andar sozinha pela casa, custava-lhe mais algum tempo!... Os seus membros inferiores tremiam quando tentava dar maior número de passadas. Desta forma, teria que ir a São Luís- MA, a fim de consultar mais  uma vez a junta médica, que era constituída pelos médicos: Djalma Marques, Carlos Macieira e Genésio Rego.
             Logo que  desembarcou em São Luís, teve o devido acuramento de procurá-los o mais rápido possível. Precisaria de novos medicamentos, capazes de ajudar-lhe a desenvolver passadas prolongadas a uma certa distância. De fato, confabulou com o trio, e após longa conversação, chegaram a um novo diagnóstico. Deveria tomar banho de sol nas pernas durante as primeiras horas da manhã. Tomar, também, citoneurin de 5000mcg. A fé, quando grande, cura quaisquer males que nos aflijam, dizia Dr. Djalma Marques -- com a sua convicção de médico provecto. Igualmente, aconselharam-na expor as pernas na  água salgada -- ao sabor das pequenas ondas. Isto tudo deveria ser realizado de manhã cedo, nos primeiros raios de sol. As massagens deveriam continuar, com a finalidade de ativar a circulação sanguínea dos membros inferiores. De encetamento, deveria usar uma pequena bengala, que lhe ficasse à altura da cintura. Caso a perna fraquejasse, disporia de um apoio necessário para aquele instante de ligeiro desequilíbrio!...
           Assim sendo, retornou a sua cidade natal -- Alcântara -- MA. Lá chegando, foi assediada pelas benzedeiras do famoso raminho de arruda. À noite, para surpresa da Natividade, foram todas elas visitá-la, cada qual portando o seu galho de arruda e uma pequena vasilha com água. Sem muita delonga, iniciaram o benzimento coletivo, salpicando gotas de água sobre a perna, açoitando os distintos galhos de arruda. De quando em vez, abriam a boca exibindo sonolência, que era um gesto de banir dali os maus espíritos.
              A senhora Natividade sentiu-se muito gratificada pela visita das amigas, e pediu a elas que retornassem ao menos uma vez por semana, para que perpetrassem o benzimento. Com o decorrer do tempo, acrescendo a fé reinante, a jovem senhora de apenas vinte e quatro anos de idade, foi melhorando, pouco a pouco.
              As recomendações  da Junta Médica ajudaram-na bastante. As pernas foram se desembaraçando devagar. Destarte, conseguia caminhar com maior desenvoltura. A bengala apenas era um aparato para quaisquer instantes. Esses momentos de desequilíbrio não mais se reiteraram .
             Dona Natividade prometera dar a Nossa Senhora de Fátima -- mãe do Senhor Jesus Cristo -- uma coroa banhada a ouro. Jamais poderia esquecer daquele átimo miraculoso. Era um paradigma de gratidão para aquele comenos, notadamente quando a viu passar, e obteve a esperança de por-se em pé, pela primeiríssima vez !...
              

segunda-feira, 6 de abril de 2020

VARONILIDADE BÉLICA

            Marcial, indubitavelmente, jamais poderia deixar de ser o lídimo deus da guerra, na mitologia grega. De fato, o nome veio dar alforjamento à pessoa com características varonis desde o primeiro instante em que fora implantado no útero materno. A senhora sua mãe -- Dona Helionora, em confidência a uma amiga íntima, dizia que sentia o feto a bater-lhe com os pés -- numa atitude de quem se prepara para aplicar pontapés ( pontadas com as pontas de ambos os pés).
            Realmente, sem outros adendos, este seria o futuro homem, que recebera o nome: na pia batismal -- Marcial Ramalho Marques. Desde logo, do parto até agora, propugnava-se em tudo o que fazia, sem que retirasse sequer todas as medidas vitais. A sua determinação começara quando dera os seus primogênitos passos pueris.
           Quem o admirasse a certa distância tinha a impressão de que marchava em direitura ao protótipo clamor bélico estabelecido pela tropa vanguardista. Avançar sempre, sem recuar, foi o seu lema desde o vislumbrar ao expungir o facho da luz direcional de combate. Tudo era como se fosse um esquadrão à espera do infenso! Desde cedo na vida deitava-se ao chão, e atirava inicialmente com  a sua baladeira certeira no alvo em que planejara a detonação perfeita, sem erro e sob medida milimétrica corroborativa!...
            Aprendera a arte de bom colimador sem que marcasse com antecedência a direção e o sentido do projétil. Parece que trouxera no gene a frase: " Sou o marinheiro da destinação". E, deveras, sem demais alternativas, ia acertando os caminhos que conduzem ao ato de reptação de um guerreiro providente.
            Também, na montaria de animais de pequeno, médio ou grande porte, abrangendo o burro, o boi, o cavalo, o camelo, a girafa, o elefante etc. Subia no dorso desses animais utilizando-se de uma arrancada correta para perpetrar um único pinote no local onde deveria se posicionar!...
             Ascendia à região dorsal desses bichos, portando calção, bermuda até o terno de brim completo, com sapatos metidos nas respectivas galochas. Desde o verão, passando pelo inverno e se estendendo às demais estações do ano. Destarte, Marcial não dava nunca o tempo por perdido!
              Não escolhia a roupa de cavaleiro, e vestia qualquer uma com a mesma facilidade de sempre! E com a arma pronta à altura da cinta. Se surgisse quaisquer imbróglios estava preparado para responder de imediato, sem perda de tempo. Outrossim, passava de um animal para outro, sem que tocasse os pés no chão. E, com o decurso do tempo, ia se tornando exímio tanto na montaria quanto na precisão do ato de atirar com parcimônia máxima reservada a cada cartucho de balas. Não fazia prospectivas, pois acertava o alvo de uma só vez!...
             Não partia à procura do claro nem do escuro, o que apontasse seria bem sucedido! Ia ganhando admiradores por onde passava. Todos eram unânimes quando diziam: Este senhor nasceu com esta predestinação. As suas veredas já estavam traçadas, bastando apenas serem percorridas com esmero ao longo da trajetória!...
          Marcial Ramalho Marques sabia ser gentil com seus animais de montaria. Ele mesmo colocava comida nas cocheiras, e vocacionava os bichos através de um estalido nos dedos! De imediato, eles se aproximavam da ração. E quanto mais esperava, surprendia-os levando os focinhos em direitura aos alimentos. E, assim que começavam a comer a comer, ele ia passando os dedos da mão, carinhosamente, nas  laterais de suas barrigas, num gesto de intimidade e afeição. Dessa maneira, conseguia  domar a bicharada. Quando ele  se aproximava, eles pressentiam estar na hora da comida e da ternura oferecida, de modo blandicioso. Assim, adquiria certa afabilidade quanto ao trato de cada animal! Todos os bichos, sem exceção, eram reunidos diariamente no pátio de sua  casa residencial. Lá, eles saciavam a fome, que é o direito à nutrição vital. Igualmente, uma vez por semana, ele banhava esses burros, bois, cavalos etc. Era um verdadeiro frescor para aquelas peles grossas e repletas de bochornal acumulado no decurso dos dias.
             Na hora da montaria, os aprestamentos estavam sendo realizados, de maneira concomitante, para que o vetusto homem, seu domador, se predispusesse sobre eles. Antes de mais nada, recolhia seus respectivos "petromax", para colocar querosene em cada bojo. Assim que os enchia, ia bombeando cada candeeiro, e dando luz a cada camisinha contida no aparato envidraçado!
            Na montaria, ele ascendia ao dorso do animal, portando um facheiro  de luz abundante. Esses bichos, por demais afeitos ao dono, permitiam que ele os governasse somente  com uma mão, pois a outra se encontrava com o estabelecido petromax. Desse modo, produzia iluminação para o itinerário a ser percorrido!...
                Nos finais de tarde, no encetamento da noite, os animais descansavam à sombra dos arvoredos. Um zéfiro fino, frio e transparente refrescava-lhes as peles impregnadas de calor, em função da faina diária. Este tipo de lazer tornava-se imprescindível diariamente. Caso contrário, não suportariam a luta, pois carregavam cargas pesadas e pessoas nos seus respectivos dorsos. Também, a refrigeração, com ventiladores e outros aparelhos, restaurava-lhes a rubidez que traziam em suas peles crestadas de sol canicular.
               Marcial encomendara os bois e cavalos aos cuidados do Domingos, que muito entendia quanto à de aprestar esses bichos, para que o mínimo necessário fosse perpetrado, visando o custeio do dono e suas despesas para com os demais clientes. De quando em quando, parava e os hidratava. "Segundo a lenda, eles não eram como os antigos burros de Lisboa, os quais carregavam vinho o dia todo, e bebiam água à noite, com o propósito de não morrerem desidratados". No dia seguinte, estavam todos preparados para seguir caminho, portando as cargas, e, com isso, fazendo o transporte para seus destinos previamente determinados. Uns iam para uma distância menor, enquanto outros -- mais sacrificados partiam em direitura a um lugar bem mais afastado. Mesmo assim, sem perplexidade, aguentavam a trajetória de modo seguro, chegando aos seus lugares de entrega. Domingo, nesse caso, fazia a função de tropeiro -- mais do que necessário -- tanto assim, que trazia consigo a importância financeira de cada cliente, para que prestasse conta ao dono -- o senecto -- Marcial Ramalho Marques.
               O adestramento da bicharada fora feita toda na cidade de Pinheiro--MA. O deslocamento dos bichos dava-se diretamente nas cidades próximas, notadamente as que faziam circunvizinhança. Em alguns casos, partiam para localidades mais afastadas da cidade. O trajeto podia alcança, no máximo, três dias de retirada. Logo, ao chegarem permaneciam descansando mais dois dias, tempo mínimo necessário para que regressassem ao ponto de origem. Dessa forma, preenchiam as carências financeiras do proprietário. Outrossim, Domingos era o principal cabeça, com o objetivo de que tudo desse certo, e ele se mantivesse no trabalho por muitos e muitos anos!...

            

sexta-feira, 20 de março de 2020

REGIME VESÂNICO

           Hodiernamente, a ciência é capaz de elucidar, sem paradoxo ou sem antinomia, os fatores que aduzem o organismo a ressumbrar desde o útero, as fortes contrações musculares e nervosas... A criança já nasce revelando essa predisposição! É sempre intranquila, custa dormir e demonstra fácil irritabilidade!... De quando em quando, as defesas orgânicas ficam combalidas, e o sistema orgânico capta todos os desequilíbrios condutores das múltiplas vulnerabilidades com relação as enfermidades oportunistas.
         Ao nascer, a criança ostenta um cuidado todo especial. Conquanto isto ocorra, o sistema de defesa orgânica permanece debilitado. Após a implantação de uma bacteriose ou virose, existe uma imane implexidade em concernência ao ato de jugular a valetudinariedade.
         Mesmo assim, o menino Marcial foi colocado em contato direto com a natureza. Nesse campo, ele vislumbrava a criação de bovinos, suínos e ovinos. Com dois anos, já arremessava uma pequena pedra em direitura a esses animais. Também, saia correndo com uma pequena vareta de bambu, dando a falsa impressão que quisera tanger tantos os bois como os porcos, e, igualmente, as ovelhas dispersas naquele estirão de campo alfombrado ou alcatifado.
               Filho de pais pobres, Marcial teria por obrigação ajudá-los quanto ao serviço diário imposto no campo por esses animais, os quais representavam toda a herança recebida pelos seus ascendentes, notadamente bisavós e avós, tanto paternos quanto maternos.
             Marcial, ao ficar descalço, sentiu as primogênitas picadas do capim na planta dos seus pés. Além do mais, os maruins e demais insetos picadores vieram imediatamente visitar-lhe o corpo inteiro. O menino começou a berrar alto, como se fosse algo descomunal. O tio José Maria, mestre para qualquer obra, procurou logo calá-lo, dizendo-lhe que o serviço de campo era duro, e só servia para pessoas valentes e que aparatassem ou alardeassem fortaleza, isto é, fossem lídimos baluartes para propugnar as intempéries promanadas avulsamente, sem que se soubesse a origem desses imensos desvairos existentes de modo improvisado ou imprevisto.
        Aos cinco anos, sem muita tardança, já acompanhava seus pais ao espaço campestre, sobremodo quando iam tanger os bois, a fim de que os colocasse no curral -- cercado por grossos arames farpados. Lá, eles se alimentavam na cocheira, tomavam água e defecavam. Desse modo, dava para enumerá-los, ferrando com signos os respectivos nomes dos seus destinatários. O garoto evoluiu para oito anos, e a partir de então, começava a exercer uma determinada função. Encetava pela mais fácil de todas, pois não daria para sacrificar o seu tempo de puerilidade! Preservam-se os momentos de jocosidade; tanto assim, que seus colegas já pressentiam os instantes de folgança do garoto.
            Ponderalmente, o garoto Marcial, com certeza, assumira uma função determinada no grupo da família, assim que completasse as suas dez primaveras. Faltam poucos meses para que isso se torne lídima realidade. E, finalmente, chegou o dia de assumir as suas tarefas, com a finalidade única e exclusiva de ajudar os seus pais -- pessoas pobres -- nascidas na beira campo da cidade de Pinheiro -- MA.
              A sua protótipa assertiva seria a de tropeiro mirim, que conduziria o gado até o curral, sobremaneira nos finais de tarde. Arrumou logo um pequeno chicotinho, com laço, para aprisionar-lhe ao braço, tanto direito quanto esquerdo. Dessa forma, conseguia agrupar o gado e as demais espécies de animais em seus respectivos celeiros. Lá, sim, teria como contar todas as cabeças, anotando sempre, para que não houvesse dispersão de nenhuma delas. Os prejuízos seriam contabilizados em sua conta mensal. Sofreria, no caso, dano, uma vez que já ganhava pouco, dando muito mal para o sustento e manutenção pessoal.
             Com o decorrer do tempo, a bicharada foi se acostumando com o tropeiro mirim. De longe, acionava-lhes o chicote, e os animais já o obedeciam. Não havia tentativa de dispersão no grupo formado por bois, porcos, carneiros, cabras etc. A criação era grande e dava trabalho. Ele, apesar de ser um tropeiro mirim, em sua fase inicial, dava conta suficiente. Parece que os animais o ajudavam, e com a proteção  da Divina Providência, iterava aquele ato de reunião dos bichos -- todos os dias da semana!...
            Com o passar das horas, aprendeu a montaria. Pedia auxílio ao seu tio -- José Maria. As suas curtas pernas não o ajudavam quanto ao salto em direitura ao dorso do animal de montaria. Antes, procurava amansar os bois e cavalos, para que eles colaborassem com o pequeno -- Marcial, que é o senhor deus da guerra, na mitologia grega. Realmente, o rapazola, aos quatorze anos já demonstrava ser um bom cavaleiro, capaz de competir com pessoas de sua faixa etária ou mais senescentes do que  ele. Somente aos dezoito anos concitaria uma competição de corrida de cavalos, pois estaria em pleno vigor físico, que seria  favorecido pelo ato decretado quanto a sua maioridade!
              Nos finais da tarde sacava um animal, geralmente um cavalo, para que exercesse os seus treinos diários. Após quatro anos, estaria a exibir a sua galhardia ou garbo para todos os assistentes. Cavalgava, também, em bois de várias subespécies. Geralmente, queria o mais dócil, isto é, o mais submisso e obediente. O trotear tornava-se harmônico, marcando todos os compassos preexistentes.
               Difícil é reorganizar o grupo, sobretudo no momento da comida depositada na cocheira, em um recipiente longo e de madeira, apropriado para que os animais se alimentassem dentro do padrão suficiente, para a subsistência de todos os bichos reunidos pelo rapaz -- Marcial Ramalho Marques.
          

            
            
            

terça-feira, 10 de março de 2020

AS TRANCAS DO MEU AVÔ MARCIAL

            Meu avô, que sempre fora o marinheiro da destinação, nascera em Pinheiro -- MA, no final do século dezenove. Outrossim, os seus ascendentes portugueses sofriam do sistema nervoso -- de ambos os lados -- e dessa maneira não poderia escapar dessa imane herança maldita!
           Prendeu-se ao Comércio -- de corpo e alma -- tanto assim, sem hipérbole, abria- o às seis horas em ponto, e, somente trancava as suas portas onze horas da noite. Era um apego exacerbado, visto que a sua clientela era diminuta. Restringia-se quanto à demanda de produtos. As suas mercadorias usuais eram farinha, açúcar, arroz, feijão etc. Nas prateleiras vislumbravam-se peças de fazenda, sendo a maioria do tecido brim, o qual ostentava sua predileção maior, uma vez que seus ternos, quase sem exceção, eram todos confeccionados com essa fazenda. Vestia-os, diariamente, quando partia em direitura à Casa de Comércio. 
        Na concepção dele, indubitavelmente, não havia domingos nem feriados! Com certeza, todo dia teria que se fazer presente no balcão, não importando os regulamentos da folhinha. Mas havia um dia durante o ano inteiro em que cerrava as portas, e esse amanhecer correspondia ao Corpus Christi, o qual se fazia presente quanto ao acompanhamento da procissão, disposta em fila indiana, respeitosamente e em cabal silêncio, desde o encetamento até a peroração.
          Quanto ao uso das trancas da sua comedida Casa de Comércio, somente ele sabia dos psicodelismos que tinha de enfrentar diariamente, sobremodo no horário em que as fechava -- onze horas da noite -- como costumava se exprimir ao falar com os mais íntimos. Outrossim, eram nove portas de tamanho descomunal. Ele ia de canto a canto de parede, colocando as trancas de ferro -- uma a uma -- em suas argoletas transversais. E, para que isso ocorresse, meu pai Walter Ricardo -- punha o petromax à altura de suas linhas sincipuciais. Também, no decurso do tempo, sentia a extrema necessidade de mudar o candeeiro a querose, com camisinha e bombeamento --da mão direita para a esquerda -- fazendo que cada braço descansasse um pouco, visto que permanecia três minutos em cada porta!
          Apenas Marcial Ramalho Marques -- de modo incólume -- , seria capaz de posicioná-las adequadamente, sem que houvesse afastamento de um único milímetro. Esse episódio meticuloso se processava no interior da Casa de Comércio -- Ramalho Marques. Doravante, sem perda de tempo, vamos acompanhar o ritual que ocorria do lado de fora do mencionado estabelecimento de comercialização. Destarte, Walter Ricardo voltava a pôr o petromax à altura de ambos, obedecendo a linha sincipucial da cachimônia. E, dessa maneira,  meu avô ia experimentando porta por porta. Colocava em cada uma as duas mãos cerradas, e ia sacudindo uma a uma, para que tivesse a cabal certeza de que todas estavam, deveras, fechadas, e sem perigo iminente de invasão por parte de pessoas estranhas e inescrupulosas, com desfaçatez a toda prova.
     O mesmo ritual se processava ao chegar na Casa Residencial. Com o petromax erguido, o seu filho ia dando iluminação suficiente, para que ele experimentasse todas as janelas e portas da casa de moradia, numa atitude peremptória de quem aprecia o que se denomina de segurança. As janelas mais altas, testava-as através de um longo abridor dos ferrolhos de janela, que era um simples pau com  abertura na extremidade mais larga, facilitando, desse jeito, o volver dos ferrolhos mais inclinados!
    Todavia, sem muita tardança, outros rituais iam acontecendo no interior da Casa Residencial, numa atitude de quem vive sempre estarrecido. Essas manias, quer queiramos ou não, eram salutares no que concerne a preservação íntegra da casa onde morava juntamente com ambas as famílias -- a sua e a do filho -- Walter Ricardo.
      Quando ele adentrava ao casarão onde residíamos, geralmente, eu já estava dormindo, pois ostentava tenra idade. O seu chegar à sorrelfa fazia com o relógio de pêndulo badalasse onze e meia da noite, como era afeito a exarar; conquanto saibamos que o certo é vinte e três horas e meia.  
     Aqui, nesta cidade de Alcântara- MA, tudo é diferente com relação as demais; pois quem manobra os alcantarenses são os fantasmas que se acumulam em suas residências de portas e janelas praticamente cerradas!   
     Meu avô, antes de tudo, dormia na cadeira de lona, durante trinta minutos. Assim sendo, sua afilhada e filha adotiva -- Margarida Silva -- providenciava colocar sobre a mesa de jantar -- o que realmente ele queria: doce de buriti, murici; doce de batata doce ou doce de jaca etc. Quando não, representava o próprio fruto, cortado  ou dividido em suas respectivas fatias ou bagas. Assim, sem hesitação, ia degustando pouco a pouco cada especiaria!... Passava uma hora e meia sentado ao redor da mesa. Saboreava com lentidão! Além do mais, remanesciam no interior da sua cavidade bucal uma meia dúzia de dentes, bastante combalidos.
    Após essa  ceia módica, voltava a sentar-se na cadeira de lona. E, quando a pêndula batia duas horas da madrugada, a prestimosa afilhada chamava- lhe a devida atenção, iterando amiúde: -- meu padrinho, meu padrinho, vocacionava em voz estridente, dizendo -- chegou a hora de transportar-se lá para dentro -- para seu quarto de dormir. Agora sim, tirava o paletó; em seguida, a camisa de manga comprida; as calças, e, igualmente, o revólver calibre 38, cano longo, que trazia aconchegado ao cinto à altura da cintura. Em seguida, num gesto desabrido, puxava a calça e os sapatos, dando a impressão que queria arrancá-los de uma só vez!...
    Ademais, antes de dormir, afeiçoou a dar tiros, apoiando o cotovelo no parapeito da janela do quintal em direitura aos diversos pares de bananeiras que se cruzavam no fundo da extensão da casa residencial. Sabia que poderia ser surpreendido a qualquer momento, por um bandido foragido da Penitenciária de Alcântara -- MA. Geralmente, desferia seis  tiros, abrangendo os pontos mais estratégicos onde poderiam estar localizados.
      Quando pensava que iria se deitar um pouco na cama, os relógios da imane casa, sem distinção, já badalavam quinze minutos para as  cinco horas da manhã. Desse modo, encetava  a se ajeitar; quando Margarida silva, colaboradora assídua, começava a bater na porta do quarto do meu avô: meu padrinho, meu padrinho -- cinco horas em ponto, e está na hora exata de levantar-se. Ele já havia vestido o seu tradicional terno de brim,e, também, colocado na cintura, através do cinturão, o seu revólver de calibre -- 38-- cano longo!
       Seis horas, já estava  na soleira da porta da rua, após ter tomado o seu café preto com uma única banda de pão torrado! Também, após três minutos, já se encontrava no interior da Casa de Comércio. Lá sim, antes de abrir as portas, retirando tranca por tranca de cada argola, suscitava o comenos ou a diminuta ensancha para confabular com os seus espectros. De modo que, sem hesitação, somente abria as portas da Casa de Comércio -- Ramalho Marques -- quando a pêndula batia sete horas, uma vez que havia chegado às seis horas em ponto. Quando chovia forte, calçava uma bota à altura do joelho, e conduzia consigo um descomunal chapéu de chuva, impedindo que as gotas de água de chuva lhe molhasse as barras inferiores do surrado terno da marca brim!...
          





            

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

ATITUDES DESVAIRADAS III

            O velho Olegário, se não me falha a memória, vinha trazendo nas cordas  vocais um pseudo microfone embutido! A sua voz denunciava tal artifício esfíngico. De fato, quem o ouvia a certa distância, tinha a impressão de que ele estava falando diretamente no microfone, o qual costumava trazer pendurado no pescoço por um pequeno laço de cordão grosso. Como aprendera usar tal recurso, já que a complicação era das maiores, testemunhadas em dias hodiernos, onde a técnica sobrepuja todos os meios improvisatórios.

     José das Cabras, cognome de Olegário Mariano, vinha trazendo um vozeirão inexplicável, como se realmente tivesse mandado instalar um microfone sem fio na garganta. A sua voz dispersava-se de modo a um timbre auditivo correspondente a uma escuta de alguns metros de comprimento e largura.Deveras, as pessoas ficavam boquiabertas perante tal proeza ou façanha de timbre vocálico.

     Realmente, o Olegário morria de amores por um microfone, mesmo que não funcionasse a contento de suas expectativas. Colocava no pescoço tal qual uma gravata, que é imprescindível para aqueles que gostam de usar ternos diariamente...

         O maluco do homem não podia ver microfone! Endoidecia no mesmo instante em que lobrigava tal aparelho sonoro. Esquecia de tudo, até do alimento! A sua família morria de fome, pois ele não ganhava absolutamente nada, pelo fato de manusear o respectivo aparelho -- amplificador de um determinado eco a certa distância, podendo ser ouvido até em países estrangeiros. A telefonia em dias hodiernos, aparata os mais  labirínticos artifícios, que fornecem as quantificações altissonantes!...

         Todos os sábados, sem exceção, corria o risco de ser testado pelos diversos riscos que a vida oferece. Em tempos de chuva intensa, atravessava a esburacada avenida com água que lhe ultrapassava os joelhos, molhando-lhe os testículos decaídos  através da idade. Para um homem de mais de setenta anos, tudo isto não passava de uma imane insânia, no seu mais elevado grau de distúrbio mental!

         Ninguém sabe, porém, quem é o mais louco de todos os seres humanos. Todos são portadores de distúrbios ou disfunções mentais. Outrossim, gostar do que faz é obra rara nestes dias de intensas patuscadas ou pândegas desabridas! As protérvias prosseguem indefinidamente, e fica-se sem saber qual seria o mais louco de todos os loucos existentes em urbes e orbes!...

      Sem saber ao certo que atitude tomar; se bem que soubesse que todas eram de percuciente estúrdia, não poderia eximir-se do microfone -- artefato preparado por ele -- e colocado no pescoço como se fora um cordão de pérolas preciosas. Poderia lhe faltar tudo, menos o tal do microfone !...
       João Francisco, cognominado José das Cabras, era o pai de Olegário Mariano. De fato, o filho herdara do seu genitor essa mania por microfone. Quando se falava em alguma outra cousa, vinha-lhe logo à memória o transmissor e receptor de vozes, abrangendo curta, média e longa distância.
         A família de ambos ostentava muitos descendentes. Outrossim, quase todos estavam desempregados. Viviam em função de minguados salários mínimos. Em detrimento da maioria, a minoria ia escapando no ato  de contar cédulas para a aquisição de alimentos. Deveras, o Olegário Mariano aparatava sempre o objeto de seus devaneios. O aparelho acústico preenchia as suas descomunais vacuidade. As azáfamas iam se dispersando ao longo do tempo, fazendo com que esquecesse completamente os gêneros de primeiríssima necessidade.

          Os mais novos não entendiam nem aceitavam essa obsessão do avô. Queriam ver o alimento na mesa, com a finalidade  de preencher-lhes o vazio estomacal. Realmente, o homem da fome não depreendia a desatenção dos netos para com a pessoa dele. Para os menores, o tal aparato não existiria, já que sabiam da carência proporcionada pela falta de alimento -- por menor quantidade que fosse!...

        De repente, surgiu-lhe a estúrdia percuciente, e desta feita ele queria alimentar-se através de um tubo, desses que ostentam a dissimulada aparência de microfone!...
            
        Olegário Mariano, indubitavelmente, apegou-se de todo ao microfone, esquecendo todos os demais serviços inerentes à manutenção da própria casa. A mulher, os filhos e os netos passavam necessidade. Pois, o microfone lhe proporcionava um prazer patológico, totalmente destituído de quaisquer pecúnia. De fato, a emissora de rádio perpetrava uma cominação imputável. A delação seria  necessária, mas ele tinha medo de perder o contato com o microfone. Ele mesmo já fabricava de cartolina, de papel comum. Os seus lábios precisavam patologicamente desse instrumento. As notícias, de modo geral, seriam repassadas ao público daqui e de lugares distantes.

       Olegário preparou um quarto para guardar todos os seus aprestamentos. Nesse recinto, fechado a cadeado, ninguém adentrava, a não ser ele -- Olegário Mariano. Improvisou diversos furos, capazes de penetrar em cada um, isoladamente, um microfone artificial. Perfunctoriamente, ia  exercendo a sua valetudinariedade. Ao redor do recinto, ouvia-se o choro clamoroso de toda uma família, decerto, a passar precisão. O alimento, por último, era comprado através de espórtulas dos próprios e resumidos amigos, os quais dispunha ao longo da vida. Sábado, partia para locupletar o seu esquipático desejo, e o reproduzia ao chegar.

            Falava ao mundo por meio de onirismos existentes; tanto assim, sem dubiedade, sentia-se orgulhoso ao fazê-lo. Mesmo dessa maneira, ia convocando as emissoras distantes, para que repassassem as devidas notícias! Realmente, a cada pregão ia dissimulando ainda mais a sua aspiração: -- ia morrer com um microfone à altura do aparelho bucal. 

            Delirava noite e dia, independentemente, de quaisquer circunstâncias!... E, de repente, ouve-se um grito espantoso!... O apaixonado pela radiofonia, Olegário Mariano, indubitavelmente, enforcou-se com o próprio fio do microfone que trazia ao redor do pescoço!...



            

            








            
            




quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

ATITUDES DESVAIRADAS I I

        O capadócio do Jacaré, que é o apelido de Raimundo Santana, sem mais nem menos, desapareceu em companhia das caixas de papelão, que tinha solicitado para ele, com certa urgência!

     A gente encontra sempre facilidade com relação as dificuldades sofridas pela outra pessoa! De fato, ele deve sofrer um tipo de sadismo, o qual procura piorar a situação, conduzindo-o ao estado de desespero. Assim sendo, é melhor chamá-lo de "Jacaré", uma vez que não tem palavra nem tampouco identidade que o reconheça com este nome espúrio de "Raimundo Santana".
        
     A irresponsabilidade e a falta de reconhecimento fazem parte integrante deste orbe hodierno desfigurado, onde as pessoas se aniquilam sem motivo, apenas pela  simples aparência sob a forma de asco, embora sejam cabalmente enigmáticas. Ninguém se atreve a combater esse tipo de doença mental gravíssima!...

     A postremeira vez que ele veio falar comigo, estava com ambos os bolsos da calça, tanto o esquerdo quanto o direito, ambos ostentavam um certo número de telefones celulares!

       Sem muita procrastinação, perquiri-lhe qual a dificuldade sofrida, neste comenos, para que eu pudesse manter o contato com ele pelo celular, já que havia me fornecido vários números inválidos! No seu mais altissonante grau de vesânia, sempre tentava persuadir exarando: este, que o senhor está lobrigando, atende mesmo, e começava falando ele mesmo, com a boca colada ao telefone,dando- nos a impressão de que estava dissimulando sob  todas as formas falcatruosas existentes e aberrantes!...  

    Houve um final de tarde que encheu o bolso de tantos celulares, que me deu a impressão de uma hérnia estrangulada! Foi desta feita, sem outros recursos, que exigí da pessoa dele o seguinte: retira, por favor, um a um dos diversos aparelhos eletrônicos, os quais vens acumulando em todos os bolsos da calça...

       O número que ele me forneceu era o mesmo, conquanto o aparelho aparatava aspecto diferente. Outrossim, é de bom alvitre reiterar a frase que fora exarada no parágrafo anterior: "A gente encontra sempre facilidade com relação as dificuldades sofridas pela outra pessoa!"

       Inopinadamente, meteu a mão no bolso esquerdo, primeiramente, e foi retirando de um a um, todos os telefones celulares. Pedi que ele me desse um deles, para que eu mesmo fizesse o teste. Alguns, nos píncaros ou auges de sua imane vesânia, não aparatavam mais o conteúdo, apenas o continente. Ele, em situação de cabal desvairamento, queria somente ressumbrar a descomunal quantidade de celulares! Sempre fora um espertalhão de primeiríssima grandeza; tanto assim, que dissimulava de tal maneira dizendo que a sua comunicação poderia ser feita na hora, independente do celular acionado. Realmente, ele não sabia que era  um baita de um psicopata!... Ostentava a síndrome do delírio alucinatório, um dos mais recrudescentes, dentre todos eles, há muito conhecidos desde o pretérito. Esse tal Gereba era  de engabelar a sua própria mãe, -- senhora dos noventa e cinco anos!

      Num arroubo de raiva incontida, dilacerou as carcaças dos aparelhos na sua testa, cominuindo de um a um, até que houvesse o sangramento da epiderme que reveste o frontal. Estava sendo ludibriado, através da infuncionabilidade geral! A agressividade foi tamanha, que lhe deixou a testa cheia  de hematomas!...  

       Jacaré desideraria afirmar ao Elilton, abrangendo todas as maneira plausíveis, que não tinha culpa do que estava ocorrendo. Pois é, toda conivência tem o seu grau de implicação ou envolvimento. Deveras -- não somente o propalado Elilton --,mas também o Egberto, ambos haviam telefonado para ele, amiúde, e nunca foram atendidos. Deram-lhe uma centena de comunicados. Uns foram orais; outros, por escriito; alguns através, e, também, lembretes, por meio de vídeos! Entretanto, jamais foram atendidos quanto aos seus inúmeros reclames! Todas as vezes que, fortuitamente, se encontravam com o tal Raimundo Santana -- vulgo Jacaré, comunicavam-lhe os reiterados telefonemas, sem que houvesse acordo de ambas as partes. O sacana do tal Jacaré, desavergonhadamente, não deixava de fornecer um falso novo número. Pelo contrário, deveria mudar de aparelho, alteração de um único algarismo que seja!

     As dificuldades proliferavam-se cada vez mais, sem que se saiba ao certo tal fenomenologia heteróclita!. Ele, o dono dos cem celulares, fez somente uma descomunal farsa. Embusteiro como sempre o fora: ontem, hoje e amanhã. Jamais, em tempo algum, quis  ceder a mão a palmatória de pau duro!... Preferia ficar, indubitavelmente, esquecendo as razões implausíveis sob todos os aspectos!...

        O que, então, poderíamos fazer?!... Não sabíamos o endereço dele. Hoje, o eletrônico é o mais fácil. No caso desse moço, tornou-se o mais difícil, já que ele, em verdade, não o possuia. O que ele ostentava era uma síndrome exacerbante de delírios e alucinações. Ninguém conseguia detectá-lo em ponto algum da urbe tampouco do orbe.

       Realmente, segundo o Zacarias. que fora o seu antigo vizinho, ele aparatava um imane saco contendo apenas os continentes, isto é, os invólucros ou carcaças desses aparelhos celulares mais recentes.

       As fragmentações proliferavam-se, mas -- a cada dia recrudesciam os números desses pseudo ciborgues simples, pequenas máquinas -- apenas comercializadas nos cantos das ruas -- através de vendedores ambulantes! O estróina do Jacaré, que era o Raimundo Santana, não queria o conteúdo, apenas os numerosos continentes desses aparatos, constituindo uma cabal vacuidade!... Gostava mesmo, no limite de sua imane vesânia, de armazená-los em vários sacos de papelão!... Apreciava ouvir-lhe os estrépitos causados pelas pelos encontrões e estropelias reinantes!...
      
     O Jacaré, há muito, vinha engabelando os seus clientes. E, no protótipo contato, fornecia logo alguns números, os quais dizia serem pertencentes aos seus múltiplos telefones fantasmagóricos.

       Realmente, a pessoa podia telefonar várias vezes, e nunca seria atendida! Uns diziam, simplesmente, deixe o recado na caixa postal. Outrossim, tudo isso era engodo em todas as situações reminiscentes!... Os atos de ludibriações, em todos os cantos da cidade, deixavam-no em evidência cabal.

       Esse Raimundo Santana -- vulgo Jacaré -- carregava sacolas e mais sacolas de celulares afuncionais , que, precisamente, poderiam ser reciclados em locais apropriados. Deveras, o Jacaré -- não passava de um crônico maníaco, pois tinha o hábito de cavilar os outros -- como se ele fosse o máximo da mais requintada engambelação.