Izídio, personagem de má destinação, perdera,
catastroficamente, antes do carnaval os seguintes entes queridos: pai, mãe,
irmãos, esposa, filhos, netos e bisnetos. Isto ocorrera na quarta-feira, dois
dias antes do primeiro baile de máscaras. Desta feita, muito diferente das
demais, ensandecera cabalmente, e não percebeu que ficara sozinho, pois todos
seriam sepultados no mesmo cemitério, ocupando espaços contíguos de covas em
comum!...
Desde
garoto, Izídio trazia o carnaval para si, de modo arraigado, buscando o gládio
acirrado das jocosidades momescas e do ritmo arrebatador dos tambores, das
cuícas, dos atabaques, tamborins e demais acessórios de percussão
proporcionados pelas baterias, com os seus respectivos puxadores dos
sambas-de-enredo!... De fato, ele era a simbologia máxima de um hiperfanatismo,
transpondo todos os cerceamentos coligidos nos percursos impérvios das sendas
energúmenas, nas quais prevalecem os mais horripilantes desvairos de uma folia
estroina e sem limites...
Realmente, a partir da quarta-feira pela manhã, um dia antes da imane
hecatombe, já havia consumido de uma garrafa de aguardente, sem solicitar a
presença de algum acompanhante. Deveras era pândego por natureza, pois
patrocinava as mais heteróclitas patuscadas, não importando onde estivesse a
exercer as suas patologias infrenes absconditadas no interior das exornações
que compunham as indumentárias carnavalescas das estúrdias que praticara a vida
toda neste período correspondente aos festins satânicos de Baco e Dionísio,
exemplares de todos os ébrios inveterados!...
Comprovadamente, bebia até cair em um grande porre, que o deixava
prosternado por quarenta e oito horas ou mais... Assim que recobrava às
condições de quem encetava os estremunhamentos surdidos na evagatória de um
percuciente inumamento de hidroxilas em grande quantidade, percorrendo-lhe a
circulação sanguínea, deixando em asfixia cerebral os numerosos neurônios –
transmissores da acetilcolina – comandantes gerais do equilíbrio neuromotor –
em conexão com os demais órgãos componentes do sistema orgânico.
Presume-se que, quando recebera a macabra notícia da morte coletiva de
todos os seus entes queridos, Izídio sofrera um delíquio, no qual pudera
constatar uma EQM (experiência quase morte).
Persuadiram-no
de que seria salutar a expiação, através das sensórias coligidas, corroborando
a veracidade da imane barbárie, já perpetrada, promovida pela ominosa
destinação do aniquilamento!...
Por
sinal, o fatídico Izídio havia sido excruciado por um abrupto delíquio, sem que
pudesse perceber a recrudescência sindrômica. Decerto, estaria sendo lancinado
por outra EQM. Porventura fosse a postremeira sincope no decurso impiedoso de
todas as suas agruras existenciais.
Naquele
átimo, indistinto, nada mais valer-lhe-ia alguma condição de continuidade
vital, já que perdera – de uma só vez – todos os membros de sua família,
abrangendo ascendentes e descendentes. E, dessa forma lúrida, como conseguiria
suportar a desesperadora situação de insulamento pleno?!...
A
componência da orquestração familiar e da sua imponente maestria, ambas haviam
expiado várias obliterações súbitas, sem que a destinação dilucidasse as
minudências inopinadas do descomunal inopinamento.
Feneceria, intimamente, caso visse os cadáveres reunido dos seus entes
queridos, ocupando o espaço de um único jazigo, recatando-os para a eternidade,
num adeus material para nunca regressar fisicamente.
Deveras, sem perplexidade sobeja, teríamos com exclusividade, ressudar a
seguinte veracidade: somente a alma, após determinado período no purgatório,
salvar-se-ia em decorrência dos ultimatos clementes da Divina Providência.
Destarte, estaríamos submetidos à regência maior, celestial em todas as
dimensões atinentes aos mais lídimos acendramentos vislumbrados.
Ao
adentrar ao manicômio, prosseguira indefinidamente o período momesco. Todo dia ele
desfilava, dando uma impressão especiosa, em detrimento da sua própria pessoa,
– folião vesânico – um maníaco dos batuques e das fantasias carregadas de um
“Momo” – estúrdio em todos os etológicos por ele exibidos!...
Um dia,
já no final de novembro, amanhecera estendido no pátio do nosocômio destinado a
pessoas com distúrbios mentais de diferentes níveis – do menos intrincado ao
mais complexo de todos. Morrera com o mesmo traje em que fora recebido na casa
de Orates – uma belíssima fantasia carnavalesca!
Wilson Cerveira