OBS.: OS PERSONAGENS DESSE ARTIGO SÃO FICTÍCIOS, COM EXCEÇÃO DE CALCÍDIO, QUE ERA UM AMIGO MEU DOS TEMPOS DE ADOLESCÊNCIA, E QUE MORAVA NO MESMO ARREBALDE DENOMINADO DE SÃO PANTALEÃO.
Nos pródromos da década de 1970, o polêmico Calcídio cursava o “Colegial”, antigo curso
Científico, no tradicional “Liceu Maranhense”. E, desde então, sempre fora o
centro de atenção, não nos estudos, mas no que concernia ao mulherio, seu âmago-alvo
e de maior predileção. Conhecia-lhes as manhas, e sabia ser, com maestria de
primeiríssima grandeza, um imponente garanhão.
Gostava de posicionar-se no vértice do
edifício Caiçara, situado na rua Oswaldo Cruz, em São Luís do Maranhão, tendo
uma visão ampla da rua transversal; assim como, da mesma rua chamada de
“Grande”, exatamente esta que vem desde lá, daquele cruzamento superior, que
faz limite com o Ministério da Fazenda, constituindo o maior trecho, mormente
no que se refere ao vasto sentido longitudinal.
Há quarenta anos, um interregno imenso, aquele
que fora um guapo moçoilo, com bastante
especiosidade, tentava alucinadamente, manter junto a si a silhueta da eterna
juventude – um legítimo sindrômico palingenésico ---, conquanto tenha perdido
esse desiderato impossível, longe de ser concretizado, de maneira irrecorrente.
Realmente, Calcídio, o exímio garanhão,
sonhava e vislumbrava em sua intrinsidade, o sujeito multifário que sempre
fora, desde a epigenesia, no soçobro do seu próprio obscurantismo.
Procurava rever, em pleno devaneio, o
maneirismo que aparatava, desde o porte físico até a indumentária sedutora que
o vestia galhardamente. Ao passo que, de segundo a sexta-feira, o traje poderia
ser a própria farda do Liceu Maranhense; e, para surpresa, usava-a do seguinte
modo: gravata com laço baixo alcançando a altura do manúbrio, formando um tipo
de esfera, bem perceptível, cuja prontidão seria o aprisionamento da jugular.
Um dos pés ficava plantado no chão, à medida que o outro, apoiado na parede do
“ Edifício Caiçara, e, desse modo, experimentava a sensação de vê-lo dobrado
juntamente com a perna esquerda, como se fosse possível resolver o caso de um
provável tombo imprevisto, sem que houvesse algum tipo de substrato
resgateador.
A camisa de gala, aparatando as mangas
arregaçadas, no limite da articulação entre o braço e antebraço à medida que os
botões superiores iam se posicionando fora de suas respectivas casas, guardando
consigo os emblemas dos epinícios!... À altura do bolso da camisa, sem a
presença de hipérbole, não se lobrigava outro objeto díspar, a não ser uma
carteira de cigarro da marca – Minister ---, cujo arquétipo caracterizava a
longevidade da haste do tabaco. Prevalecendo-se dessa longitudinal abertura,
introjetava a mão no tórax, fazendo-a descer até a região pubiana, a fim de que
pudesse massagear levemente a glande do pênis, e, logo em seguida, erguê-lo em
sentido anti-gravitacional, mantendo a sua ereção sob a tutela da
vetorialização do tipo transversolongitudinal.
Na algibeira maior, ostentava o canhenho,
recurso emergial, para que tivesse condições suficientes para anotar telefones,
endereços e demais credenciais relacionados às mulheres que o paqueravam ao
passar, lançando-lhe um olhar de fogo, emanando um poderio inconteste de uma
cabal ardência voluptuosa!...
Calcídio tendia ao malabarismo
cabalístico, notadamente em suas entradas triunfantes nos salões de festa,
quando saía dançando desde o recinto contiguo até chegar à passarela dos
harmônicos meneios. Destarte, ensaiava passos mágicos, ora trazendo a bela
senhorinha para a intimidade frenética das suas pernas meândricas – como se
fora um instrumento de sopro deleitoso --, ora rodopiando em hemiciclo,
fazendo-a girar sobre si mesma, para que pudesse roçagá-la no aconchego
mitigante da orquestração sinérgica dos músculos torácicos. Dessa forma,
parecia exibir galhardamente um troféu de loiros incontáveis, desde o
primogênito átimo, à medida que ruborizava a si, e, de modo simultâneo, a dama
com quem exercia a arte magistral do bailado coreográfico.
De
maneira indubitável, Calcídio recendia perdição e metamorfismos naquelas
inesquecíveis noites de sábado atinentes aos três primeiros anos da década de
1970, ficando contido neles o registro dessas proezas, as quais serão sempre
lembradas por uma meia-dúzia de criaturas abnegadas e nostálgicas que lhe
faziam a devida corte.
A dança, para ele, era a melhor de todas
as ginásticas praticadas, pois representava o rediviver dos símbolos fálicos
enlanguescidos, sobremodo para os portadores de uma ignição copulatória
acrobática, aduzindo-os à culminância plangencial de todos os orgasmos
coligidos.
Ele, o grande conquistador de mulheres
calipígeas, freqüentava quase todas as festas realizadas nos clubes sociais de
São Luís do Maranhão. Deveras, fazia questão de chamar a atenção dos presentes,
através de vários itens fundamentais e imprescindíveis, tais como: o traje,
indo desde o que é considerado esportivo, propriamente dito, até chegar ao tão
decantado paramento a rigor; e, desse modo, ostentaria uma aparente opulência
luxuriosa.
Em determinadas ocasiões, o grau de
metamorfismo que apresentava no sentido de se tornar aliciante, ultrapassava as
expectativas das estremaduras. Tanto assim, diante do heteróclito espelho de
três faces, o qual não mais o identificaria como arquétipo, tendo por
referencial as suas próprias características peculiares. Nesse caso, sofreria
uma cabal demudação. Também, quem o conhecia há bastante tempo correria o
grande risco de não poder identificá-lo, como sendo o mesmo Calcídio, sujeito
impulsivo, que dançara sábado passado, precisamente naquele salão engalanado da
Antiga Associação do Banco do Brasil (AABB), que ficava contigua ao prédio do
vetusto Colégio Marista.
Dependendo da mulher: solteira, casada ou
desquitada, que vinha, quase sempre, trazendo à tira-colo, procurava a todo
custo, tomar as devidas precauções, evitando, de quaisquer modos, um tiro a
queima-roupa, com pontaria certeira e fatal. Para tanto, usava peruca, bigode artificial, óculos de lentes negras,
películas deformantes, e demais aparatos que serviriam para manter a descomunal
especiosidade demonstrada pela sociedade do espetáculo dissimulatório.
Para que adentrasse ao salão do Jaguarema, em
companhia da Nadir, teria que se embuçalar bastante, de tal forma que, em
hipótese alguma, poderia deixar sombra de identificação pessoal, uma vez que a
mencionada mulher era a esposa do coronel Ludimiero, um exímio atirador de
elite, capaz de acertar, com precisão milimétrica, a cabeça de um alfinete. E,
ao saber dessa façanha, o garanhão, o homem dos passos mirabolantes, já tremia
na base, mas o desejo patológico, infrene, persistia diante do risco
recrudescente!...
Outrossim, o tal coronel não se importava que a sua mulher dançasse com
“bichas desvairadas”, já que elas exibiam apenas especiosidades, e nada faziam,
a não ser coreografias. Assim sendo, estava preparada para se adamar em pleno
salão de festa, caso o militar --- de alta patente ---, assomasse, e ele
tivesse tempo de vislumbrar-lhe a imagem. Deveras, o coronel Ludimiero não
perdoava nenhum tipo de bruxo, mesmo que fosse estrangeiro, manco, cego, doido,
com a síndrome de Alzheimer, demência total, surdo-mudo, portador da síndrome
de Down, etc. Todos, sem exceção, seriam capazes de copular de alguma forma
artificializada, a venusta mulher do coronel, menos aqueles que ele chamava de
“maricas”, que é o que se sente fêmea, chamando o ânus de vagina.
De quando em quando, em plena festa,
enquanto descansava as pernas enlanguescidas de ginásticas rítmicas
consecutivas, Calcídio cofiava o bigode de pêlos avermelhados, e passava,
amiúde, a mão sobre o sincipúcio encalvecido, como se quisesse avaliar o
percentual probabilístico de um fatídico acontecimento durante essa travessia
periclitante.
Em um dia de sábado, especialmente ele, o
astuto Calcídio, se fazia acompanhar da langorosa Dulcinéia, a mais nova
viuvinha, ex-mulher do capitão Euclides, falecido há uma década, parecia
sorridente perante o clima de liberdade que lhe tomava conta d’alma.
Realmente, ninguém imaginava a
satisfação que lhe enchia o peito nesse afã da dança, que o deixava em contato
direto com o seu corpo a exibir as formas cálidas e hirtas da lubricidade,
contidas na dinâmica colossal dessa sua sedutora namorada, uma lídima e deslumbrante tetéia de
carne e osso. Todos queriam tê-la junto a si, num revigorar avassalador de
forças concupiscenciais determinantes quanto ao arquétipo referencial ilativo.
De fato, o liceísta, o que se enamorava em presença de mulheres bonitas, expiava apenas dois ou três dias de insônia
renitente, para que não se sentisse em estado paradisíaco. Assim, o espírito do
seu ex-marido, conquanto o corpo estivesse consumado integralmente na terra
fria e indiferente dos campos santos, objurgava-o com severidade, imprecando-o
de todas as maneiras, tendo por testemunhas os testemunhos tácitos das formas
incorpóreas, e que, às vezes, nos surpreendem com suas manifestações de
iniqüidades letais.
Assim, em cabal incúria, Calcídio ia
passando os seus dias de juventude álacre. Tinha por quartel-general as paredes
laterais do vetusto edifício Caiçara. Lá, refesteladamente, recebia mensagens,
informações e encontros fortuitos com mulheres das mais diferentes idades, com
predileção ao grupo das ninfetas, sobretudo as que apresentavam volúpia
exacerbante!...
Depois de trinta anos, sofrera um
pesadelo de alta precipitação, e voltara, numa manhã de sábado, ao mesmo ponto
onde permanecia por longas horas, naquele período em que era colegial. Mas, arrependeu-se
profundamente, pois ninguém mais o
olhava com ares de sedução. Com a perda definitiva da mocidade, a
pré-senescência não lhe dera a mínima condição de respirar a plenos pulmões,
para que ainda pudesse flertar, sem medo, com as mulheres que já conviviam com
a fase de pós-climatério!...
Wilson Cerveira