terça-feira, 30 de agosto de 2022

MEDECOS ESCROQUES

 

      A deseducação progride dia após dia, numa lidima desabridez e protérvia diuturnamente!... Hodiernamente, os medecos escroques assumem uma posição ímpar de iniquidade e nequicidade em todos os quadrantes vitais... No caso desses medecos, os quais se proliferam em todos os Estados e Países – ressumbram frágil conhecimento e cabal deseducação psicossomática.

   Há o medeco psicopata criminoso, chamado hipocritamente “anestesiologista”, que vinha sedando parturientes, aplicando-lhes altas doses de anestesia e realizava o seu instinto sexual abominável. Há o relato também do medeco da Bolívia que se dizia “cirurgião plástico”, que aleijava centenas de mulheres. Se era para realizar reparação do umbigo, o sacana fazia o deslocamento para o pescoço...

     E existia o Nerinildo. Casado com a senhora Francielda, costumava partir para a chácara, depois que ela se deslocasse da casa em direitura à trajetória que realizavam – desde o casarão onde moravam no centro da cidade de Belém do Pará, após percorrer cinco horas de deslocamento com uma velocidade de 100km/h.

     Em dias de domingo, Nerinildo, não parava para atender ninguém. Ele mudava de estrada. Para tanto, usava vidro fume bem escuro, além do seus óculos de lentes verdes! Esse sujeito era desalmado, perverso – no mais alto grau!...

     Outrossim, quando ele lobrigava um desastre, este tal medeco escroque acelerava ainda mais o carro, aumentando-lhe a velocidade; a fim de que não prestasse nenhum tipo de socorro às vítimas. Além de ter um conhecimento paupérrimo, aparatava uma deseducação catastrófica.

     A senhora mãe desse medeco nunca lhe deu nenhuma informação sobre polidez e etiqueta. Sujeito de caráter malévolo e de instrução péssima, a qual só servia para aniquilar a vida dos seus pretensos pacientes. De antemão, execro as atitudes hecatômbicas desse elemento medeco – também criminoso e de altíssima periculosidade abominável em todos os sentidos perquiridos.

     Apenas tomei um arquétipo dentre milhares de medecos escroques. Eles se acham dispersos no orbe, contaminando-o de nequícias ou iniquidades... Nerinildo, na casa dos cinquenta anos, tinha por esposa Francielda e duas filhas gêmeas univitelinas: Gertrudes e Gina, aparatando dez anos de vida.

     Nos dias de domingo e feriados, Francielda tomava o seu automóvel e partia primeiro, levando em sua companhia as filhas do casal – Gertrudes e Gina. Duas horas depois, Nerinildo em seu carro de luxo, ostentando vidro fumê bem escuro, além do seus óculos de lentes verde-escura, o escroque do tal medeco pisava no acelerador, recrudescendo a velocidade. Centenas de vezes deixou de socorrer muitas pessoas que morreram em virtude de horrendos acidentes via transito.

     O seu dia sinistro aparatava uma premonição fatídica e inelutável. Após chegar a sua bela chácara, recebera um telefonema nefasto. A voz – quase desconhecida – dilucidava o seguinte: ‘a sua mulher e suas duas filhas estão mortas aqui na calcada’ – com apropinquações à sarjeta, há mais de uma hora, visto que a ambulância da Prefeitura não está funcionando devido a problemas no motor.

     Quando Nerinildo chegou ao local, apanhou os corpos mortos, e os reconduziu ao necrotério para os respectivos exames cadavéricos a fim de que fossem liberados para o sepultamento no Cemitério Central da cidade de Belém do Pará. Um único ataúde albergava a mãe e as duas filhas gêmeas univitelinas. Ele pagava com a mesma moeda, a permissividade que vinha perpetrando no decurso impiedoso do tempo por agruras e acrimônias...

     Nerinildo, desgraçado humano, escolheu uma outra companheira – Laurinha, a qual reproduzia a mesmíssima rotina!... Dirigia o seu carro em direitura à chácara mais cedo, chegando duas horas antes do Nerinildo, iniquo médico ortopedista, porquanto não atendia acidentados em dias de domingo e feriados. Fazia com que não visse os acidentados estendidos nas calçadas que ladeavam o caminho...

     Nerinildo desideraria engravidar Laurinha. Após algum tempo, conseguiu o seu intento voluptuoso. Assim sendo teve um casal de filhos: Laurinéia e Lureto, ambos portadores da síndrome de Down. Teria, entretanto, que educá-los numa escola especial. Ela transformou-se, tornando-se mais humana e prestativa. A empatia é um santo remédio para aqueles que não se colocam nos lugares de tantos outros, carentes de maiores cuidados. Nesta ensancha a incúria tornou-se deletéria em gênero, número e grau!

     O Nerinildo, ortopedista impostor e altamente desumano, prosseguia da mesma maneira, como se nada tivesse ocorrido com o transcorrer efêmero do tempo ladeado! Esse “medeco escroque” era a representatividade máxima da desumanidade de caráter cabalmente execrável... Os filhos não representavam as anomalias! Dava-nos a falsa impressão que eram normoanormais de fato e de direito comprovados em todos os âmbitos da vida projetada!

     O tal medeco ortopedista criminoso prossegue no perpetrar da iniquidade. Domingo e feriados – em seu carro de luxo, continua a sua desídia quanto ao ato de não socorrer os mortos e paralíticos encontrados nas margens das calçadas.

     Nerinildo vai receber em comutação a incúria perpetrada nequicialmente! Não se sabe quase nada a respeito desse medeco deletério em todos os aspectos plausíveis. Mais uma vez, de modo inclemente, recebera um telefonema de um cliente seu, decerto exarando a morte de sua segunda mulher Laurinha e de ambos os filhos: Laurinéia e Lureto...

     Jesus Cristo, filho de Deus Pai, mostre-me quem é este monstrengo medeco de ferro, indiferente aos sofrimentos aleatórios e, também, os relacionados a sua própria família. Um baita de um ególatra deletério e execrável em todos os âmbitos vitais.

     Após trinta dias apenas, partia ao encontro da outra mulher, a qual faria parte integrante de um crástino fatídico. Não aprendia a lição – por ser de um egolatrismo obnóxio e amplamente abominável.

     Nerinildo, após um interregno de tempo, encontrou uma outra mulher – Nilenda, a qual, sem hesitação, também voltou a contrair matrimonio. O seu ex-marido Leopoldo morrera, vítima de um atropelamento, em cabal semana de núpcias! O volitivo do ortopedista era a manutenção da prole, uma vez que, sem exceção, todos pereceram de desastre, quando se encontravam quanto de suas respectivas matronas.

     Todos ególatras não importando a profissão, são metidos consigo mesmos, cabalmente ensimesmados! Se a senhora sua mãe encontra-se em companhia de um filho; e, se ele fraturar o pé, o sujeito ficará indiferente, já que o pé não foi dele.

     Assim, sucessivamente, vai desenvolvendo a sua psicopatia do egocentrismo. A recrudescência vai sendo cada vez mais percuciente... A sua rotina de medeco prosseguirá sempre a mesma. Mesmo na qualidade de medeco escroque, por tempo indeterminado, exercerá peremptoriamente os mesmos atos criminosos. A protótipa, antes do subsequente, é a de não prestar socorro às vítimas, visto que passou por todas as criaturas que jaziam ao longo das calçadas, formando o itinerário por onde trafegava em seu carro de luxo – notadamente aos domingos e feriados.

     Sempre a mesma senda: em direitura a sua chácara repleta da mais ostensiva pomposidade. Com a sua conduta espetaculosa e herege, fugia-se estugadamente de quaisquer probabilidades de caráter humanitário.

     Houve, em átimo fatídico, a sua horrenda morte, a qual fora proporcionada por um caminhão de carga – numa colisão frontal com seu carro de ampla opulência tecnológica. Perecera sem que pudesse receber nenhum tipo de socorro médico. O desastre automobilístico fatalizou o medeco Nerinildo, e fez com que seu automóvel remanescesse em fragmentos, uma vez que o choque frontal ocorrera em altíssima velocidade!...

 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

ALVITRES DO MESTRE SERRÃO


     É de bom alvitre exarar a efígie do Mestre serrão desde os pródromos dos seus vinte e dois anos, tempo em que cursava Farmácia; e, aproveitando a ensancha viera a lecionar a disciplina Química no Ateneu Teixeira Mendes, cujo proprietário era o Solano Rodrigues, mestre em Ciências Exatas ou Matemática. Nesse comenos, ocupando um dos cômodos do internato, precisamente em 1934, encontrava-se meu pai – Walter Ricardo Guimarães Marques, estando, também, em companhia do seu primo de primeiro grau – Constantino, afilhado de batismo do meu avô – Marcial Ramalho Marques.

     De fato, a presença do Mestre Serrão era avassaladora em todos os aspectos plausíveis. Desde a mesa e a cadeira do professor; ambas ficavam atinadas sobre um estrado de madeira, um tanto alto em concernência a sua verticalidade. Os objetos em si, ressumbravam a superioridade do professor com relação aos diferentes níveis da turma. Assim sendo, o lente aparatava uma visão geral e mais nítida de cada discente.

     As turmas não ultrapassavam o número limite de no máximo trinta alunos em cada turma. Então, os diários de classe ostentavam devidos espaços, para que fossem registradas as explanações imprescindíveis nas respectivas linhas que, decerto, não ultrapassavam a metade da referida folha diarista.

     Em face do Mestre Serrão ser um polímata, que é aquele que apresenta instrução variada, não se podia olvidar de sua capacidade ou competência de promanar aspectos diversificadas sobre assuntos relacionados às demais disciplinas. Tanto assim, indubitavelmente, lia sempre quase todos os livros. Jamais, em tempo algum, era visto sem um desses livros!...

     A incipiência dos seus discípulos fazia com que não depreendessem o que ele desideraria exarar com o seu vasto conhecimento sobre todas as matérias que compunham o “Curriculum escolar”, sobremodo no encetamento do decênio dos anos de 1930 a 1940. Nesse interregno, com certeza, cobravam-se dos alunos, com rigor, as lições atinentes, as quais são requisitadas, diariamente, nos bancos escolares!... Caso contrário, vinham os respectivos castigos.

     Ei-los, então, sob forma de indisciplinado ou desobediente punha-se de pé, voltado em direitura à parede, com o livro aberto e segurado por ambas as mãos – estando em posição de sentido – no ponto máximo – onde as pernas ficam, cabalmente, coladas uma a outra, não deixando atravessar, sequer uma réstia de luz. O tempo de duração do castigo correspondia a aprendizagem total das páginas designadas conforme o capitulo da lição enumerada.

     Mestre serrão, após longa ensancham deixou de ministrar aula. Esse tempo, sem outra alternativa, correspondia ao termino da Segunda Guerra Mundial. Dessa maneira, viajaria para o Rio de Janeiro – com a finalidade de submeter-se ao vestibular para o Curso de Medicina. Após duas fracassadas intervenções consecutivas, lograra êxito pela terceira vez.

     A sua irmã – dona Maria José, também professora, ficara álacre com o resultado obtido pelo seu querido irmão – Mestre Serrão. Dessa maneira, ele lhe fizera uma missiva – tomando para si todas as responsabilidades quanto a sua manutenção no Estado do Rio de Janeiro. Então, mandar-lhe-ia a pecúnia necessária para as suas diversificadas despesas ou dispêndios, abrangendo todos os itens – da alimentação, roupas, calçados e livros!...

     Das pessoas pertencentes à família, tinha pela sua irmã – Mestre Maria José – uma deferência toda especial – digna de ser escriturada em livros. Caso não fosse essa irmã querida, não teria a mínima condição financeira de manter-se num pensionato simples, acrescendo os demais dispêndios. Reparando bem, sem hesitação, quatro salários mínimos ainda era insuficiente para tantas despesas!..., uma vez que estava na Cidade Maravilhosa – Rio de Janeiro.

     Após a conclusão do Curso de Medicina, submeteu-se a uma residência cuja duração estaria estipulada para o prazo correspondente a dois anos. Dessa maneira, permaneceria no RJ por mais dois anos consecutivos. Os diferentes dispêndios foram sendo acrescidos cada vez mais – ultrapassando – decerto quatro salários mínimos!...

     É bíblico em toda a sua dimensão religiosa, pois estava retirando das próprias necessidades basilares de sobrevivência, enfrentadas pela Professora de Ciências – dona Maria José – nesta cidade de São Luís – MA, que é tal qual uma Jerusalém, que há muito, vem apedrejando os seus mais gabaritados profetas!...

     Dessa maneira, sem maiores procrastinações, haveria de regredir a São Luís – no final do ano de mil novecentos e cinquenta e três, precisamente, sem quaisquer perplexidades imaginéticas! E, com as graças do generosíssimo Deus, voltou à casa de sua irmã, localizada na Praça da Alegria, confronte ao “Jardim de Infância”.

     A Deus e a ela, o Mestre Serrão teria que agradecer eternamente tudo o que conseguira, uma vez que a sua estada no Rio de Janeiro correspondera um pouco mais de oito anos. A sua manutenção fora um fardo pesado, visto que os dispêndios com livros ultrapassavam o limite basilar de uma compra plausível!

     Ao retornar definitivamente à cidade de São Luís – MA, Dr. Serrão implantara um consultório provisório, que durara em torno de dois decênios. O seu ideal, decerto, ostentava amplitude maior – descortinando horizontes nosocomiais. Seria, uma ajuda de Jesus Cristo, Diretor do famoso Hospital Geral. Lá, sim, comandaria os demais médicos e acadêmicos de Medicina; e, também, prescreveria uma ou outra consulta, caso fosse de premência, isto é, uma internação – por breve ou longo prazo.

     Lá mesmo no dito Hospital Geral ministrava aulas de Ética Médica, e, concomitantemente revisava os ensinamentos de Farmacologia e Anestesiologia. Realmente, e com toda comprovância, era um polímata dos mais aclamados!

     Mestre Serrão exacerbava-se com a desfaçatez de alguns alunos! Para tanto, desde a mocidade prevenia-se usando no bolso interno do paletó uma bereta alemã... Outrossim, fiava-se nela, sobremaneira ao lobrigar a sinistra possibilidade de uma tal discente – tipo touro dissimulado – com uma massa muscular avantajada no tórax, estendendo-se simultaneamente no braço, abrangendo bíceps e tríceps. Dessa forma, o sujeito poderia a qualquer átimo, partira de onde estivesse em direção ao Mestre Serrão, com a finalidade soqueá-lo abruptamente...

     Se esse valentão se arrogasse, aparatando tal atitude cretina, proteger-se-ia usando as balas contidas na bereta, para furar-lhe a musculatura enfurecida! Seria, então, um ato de conter a fúria exasperadora de um acadêmico cretino, e sem a mínima educação, pois, jamais, seria adquirida em tempo algum!...

     No encetamento da década de mil novecentos e sessenta, o Mestre Serrão fora, com justa causa, um dos “Fundadores” da FUM (Fundação Universidade do Maranhão). Outrossim, não seria qualquer outro tipo de irrelevância que o expurgava da diretriz regente do Corpo desta Universidade Federal do Maranhão.

     Sobremodo, para melhores dilucidamento, os anos básicos funcionariam no “Campos do Bacanga”. Ei-los: 1º, 2º, 3º e 4º períodos – de todos os cursos – sem que houvesse – sequer nenhuma prerrogativa de ordem extracurricular.

     Malgrado os anos decorridos, lembra-me bem daquela tarde, onde, fortuitamente, um burro adentrou ao pátio do Hospital Geral. Nesse interim, todos os seus alunos se encontravam no local, e, incontinenti, pediram-lhe que mandasse o vigilante retirar dali aquele animal!... Prematuramente, a solicitação não fora acatada pelo Mestre Serrão. De fato, ele era portador de uma opinião paradoxal em gênero, número e grau. Enquanto os discentes relutassem, não mandaria – de hipótese alguma – expulsar o burro, devidamente alojado no postremeiro compartimento do nosocômio!...

     Ao anoitecer – num retângulo de papelão – amarrado em um cordão escrevera com letras graúdas: “Sou acadêmico de Medicina”, o qual pusera no pescoço do burro. Assim sendo, no dia seguinte, a turma se deparou com estes ultrajantes dizeres! Alguns se revoltaram perante o que viram, porém, não havia outro jeito... Com a continuidade do tempo decorrido os discípulos foram obliterando aos poucos!...

     Quando ninguém mais dizia absolutamente nada!..., o Mestre Serrão requestou ao vigilante Luizão, com certa prestimosidade, que soltasse o animal da corda, e o deixasse sair pela mesma porta em que houvera adentrado ao referido “Hospital Geral”. E, sobretudo, tantas outras peripécias foram se sucedendo no mencionado nosocômio, tendo por Diretor – o Mestre Serrão.

     O Mestre Serrão, também, fora – indiscutivelmente – preceptor do Escritor que vos fala nesta ensancha ou comenos: Wilson Cerveira Marques, quando ministrara aulas de Farmacologia na antiga Faculdade de Farmácia, situada defronte da Igreja de São João. Essas lidimas lições de vida eram acolitadas de per si por uma Cultura Geral do mais acendrado nível exponencial! Jamais o vi – em tempo algum – sem que estivesse lendo. Foi passando de um livro para outro. Lia Física, Química, Matemática, Biologia, Inglês, Alemão, Francês, Espanhol, Italiano..., assim também Farmacologia (sua especialidade desde em que terminara o Curso de Medicina – na Faculdade do Rio de Janeiro).

     Na metade da década de mil novecentos e setenta, tempo correspondente no qual havia sido seu epígono, comportava-se da melhor maneira possível, a fim de que eu pudesse absorver todo o conhecimento... A erudição ostentada pelo Dr. Serrão, indubitavelmente, tornava-se por demais polivalente – e de uma versatilidade a toda prova cognitiva – escoimando ou acendrando a mais lidima e cabal poligrafia!

     A sala na qual ele ministrava aula de Farmacologia e de Cultura Geral, vivia quase sempre com as portas hermeticamente cerradas; somente sendo abertas por ele; assim sendo como o laboratório da aula prática. As chaves vinham-lhe presas na extremidade lateral esquerda do seu descomunal cinto de couro legítimo.

     Fiquei deveras estarrecido quando adentrei pela primeiríssima vez no seu laboratório particular, o qual vinha mantendo no interior da Faculdade de Farmácia, localizado notadamente nos baixos do prédio – em confrontação posterior com a escada de cimento, a qual dava acesso aos alunos, professores e demais servidores administrativos, vigilantes etc.

     Cuidei que estava ao meio de uma tribulação mística, com ares de museu e laboratório. Na parte central da parede interna do fundo, localiza-se um vetusto relógio de pêndulo, portando seus postremeiros entortados para o horário em que falecera alguém da sua família. Outras tantas efigies exóticas pontilham as extremidades da descomunal pia, na qual se faziam as devidas abluções do material utilizado, e, pronto – certamente – para a reutilização imediata!...

     Em certa distância, perlustrava-lhe a imagem carismática e repleta de excentricidades!... Nunca lhe disse absolutamente nada, pois, o que ele aparatava pertencia somente a si mesmo. Dois bolsos superiores do casaco, cheios de canetas!... Mestre Serrão era zeloso aos extremos. No ângulo superior da roupa externa, lobrigava-se uma outra camisa de mangas curtas, e, sob ela, para incorporar os espaços com suas respectivas vacuidades, ainda vislumbrava-se uma camiseta com o objetivo de proteger-lhe a caixa torácica. Vários bolsos ostentavam essas peças de roupa. Espaço suficiente para absconditar revistas e jornais. Os artigos científicos se faziam aparatar em número proliferante!...

      A calça comprida do Dr. Serrão ostentava determinada invídia, uma vez que, decerto, comportaria caso fosse necessário os seguintes instrumentos ou objetos de uso comum: um pequeno rádio de pilha, uma lanterna e uma bereta alemã infalível, principalmente nos átimos mais preciosos, decretando a defesa do corpo!

     Reiterando, o que fizera anteriormente, sempre fora afeito a chegar uma hora antes de encetar o seu horário de ministração dos conhecimentos a serem abordados. Pontualmente às 13h encontrava-se no interior da sala de aula, visto que o seu horário era o primeiro, começando sempre às 14h.

     Determinada feita um aluno cujo nome denominara-se –Barbosa, adentrara à sala de aula muito tardiamente às 15h. Desta forma, prorrompeu-lhe a entrada, lançando-o com força sobre o tórax o pesado e volumoso livro de Farmacologia. De fato, caíra, cabalmente desamparado. Não admitia nenhum tipo de atraso, no que tange ao adentramento à sala de aula. Ficara aporrinhado com as atitudes. O tal sujeito Lucieto dava mais atenção às aulas de musculação do que as de Farmacologia.

     Outro dia, em pleno hesterno, Lucieto dirigia-se à sala de aula – somente às 16h. desta feita, de braços escancarados, assimilara um imane protraimentos de duas horas!... Reiterou-se mais uma vez adentrando de braços bem abertos, indo em direitura ao Mestre Serrão. Quando o catedrático Dr. Serrão percebeu aquele volume muscular perpassar-lhe junto ao rosto. Ele – Dr. Serrão – não pensara duas vezes: deu-lhe dois tiros de bereta alemã, perfurando-lhe o bíceps e tríceps.

     Lucieto dirigiu-se ao Pronto Socorro, com a finalidade de fazer a extração dos dois projéteis localizados na musculatura do braço esquerdo. Em seguida, deslocara-se até a Reitoria para poder confabular com o Reitor Dr. Pires.

     O magnifico reitor Dr. Pires tentava a persuadir o aluno Lucieto. Peço-te, caro jovem, que retire a queixa – quase crime – que fora dada na Delegacia Central da cidade de São Luís do Maranhão. Após várias persuasões, chegou a persuadi-lo para que o fizesse, pelo amor do Nosso Senhor Jesus Cristo. Prometeu-lhe uma bolsa para seu futuro pós-doutoramento.

     Reitero em exarar-lhe o seguinte – conforme o Magnifico Reitor Dr. Pires. Ouça-me meu acadêmico Lucieto – o Dr. Serrão – Mestre de Várias Gerações, hoje, neste comenos, neste átimo, nesta ensancha está a expender uma percuciente provectude. Também, não haveremos de olvidar a sua participação efetiva quanto aos ímpetos basilares da Fundação Universidade do Maranhão, sendo, um dos maiores expoentes!...

     Na antiga Faculdade de Farmácia – como sabemos, tinha uma sala exclusiva para ministrar suas aulas de Farmacologia; assim como, sem hesitação, um laboratório de aulas práticas, uma vez reiterados. Outrossim as chaves de ambos os compartimentos eram de privacidade exclusivista do Mestre – Dr. Serrão. Antes de quaisquer possíveis anomalias, frequentávamos com seriedade as aulas práticas ministradas pelo Mestre Serrão. Ele montava os reagentes e os produtos resultantes. Fazia as devidas análises: quantitativa e qualitativa, respectivamente.

     Um becilóide acadêmico de Farmácia, e, por maldição secreta, ostentava o errôneo epiteto de “Gentil” cominou inúmeras vezes o Mestre Serrão, fazendo-lhe somente o execrável átimo torturante! O badernista Gentil pintou o armário branco do Mestre Serrão – com tinta preta, imprimindo-lhe o retrato do abominável escroque – ‘Lula’. Com certeza fora uma provocação das maiores, uma vez que tinha lidima rejeição dos aspectos fisionômicos facínoras desse tal elemento – de altíssima rejeição com relação ao Dr.
Serrão – “Mestre” de sucessivas gerações no decurso compadecido do próprio tempo...

     Dr. Serrão não pensou duas vezes, subiu a escada que dava acesso ao interior da Faculdade de Farmácia, portando uma potente bereta automática alemã. No decurso da caminhada, fora contido pelos professores: Garrido e Pecegueiro, os quais conseguiram sustentar-lhe os braços, um de cada lado, evitando que o Mestre executasse o tiro horizontal. De braços para cima, formando uma perpendicular com o chão, adentrou à sala de aula, em que estava o insubordinado discente Gentil – dando deste modo alguns tiros em direitura ao teto – numa atitude legitima de respeito.

     Mestre Serrão não admitia a desfaçatez, a ignomínia, o opróbio, e tudo mais que o levasse ao grau de desonra. Não pudesse – no caso – resolver a braço, puxava, então a bereta alemã, e disparava contra a massa muscular do sujeito valentão!

     Durante toda sua vida, Mestre Serrão, mantinha seus hábitos de colecionar centenas de livros diversificados. Não importava o conteúdo, pois lia todos os compêndios: Química; Física; Biologia; Matemática; Cálculos I, II, III e IV. A Farmacologia direcionou-se somente as aulas que ministrava diuturnamente na Faculdade de Farmácia e Medicina.

     O Mestre saía da Faculdade – exatamente – às 18h, e partia em direitura à casa de sua irmã Professora Maria José. Ela, de fato, o aceitava do modo que ele era. A mulher que o desposou não deu certo, pois rejeitava os seus hábitos de ser!

     Dr. Serrão dormia de sete da noite até meia noite. Acordava, então para ler os múltiplos livros contidos em sua Biblioteca particular. Caso fizéssemos o somatório de todos os compêndios, teríamos uma média aproximada de vinte mil livros. As bibliotecas estendiam-se pela casa inteira, tanto assim, sem perplexidade, as prateleiras iam até a cozinha...

     Nunca vi, na vida, quem gostasse mais de ler! Lia com prazer descomunal. Enquanto usasse a saciedade da leitura, afastava de si mesmo a chamada volúpia do aborrecimento!...

 

 

São Luís, MA, 25 de julho de 2022

Wilson Cerveira