É de bom alvitre exarar a efígie do Mestre
serrão desde os pródromos dos seus vinte e dois anos, tempo em que cursava
Farmácia; e, aproveitando a ensancha viera a lecionar a disciplina Química no
Ateneu Teixeira Mendes, cujo proprietário era o Solano Rodrigues, mestre em
Ciências Exatas ou Matemática. Nesse comenos, ocupando um dos cômodos do
internato, precisamente em 1934, encontrava-se meu pai – Walter Ricardo
Guimarães Marques, estando, também, em companhia do seu primo de primeiro grau
– Constantino, afilhado de batismo do meu avô – Marcial Ramalho Marques.
De fato, a presença do Mestre Serrão era
avassaladora em todos os aspectos plausíveis. Desde a mesa e a cadeira do
professor; ambas ficavam atinadas sobre um estrado de madeira, um tanto alto em
concernência a sua verticalidade. Os objetos em si, ressumbravam a
superioridade do professor com relação aos diferentes níveis da turma. Assim
sendo, o lente aparatava uma visão geral e mais nítida de cada discente.
As turmas não ultrapassavam o número
limite de no máximo trinta alunos em cada turma. Então, os diários de classe
ostentavam devidos espaços, para que fossem registradas as explanações
imprescindíveis nas respectivas linhas que, decerto, não ultrapassavam a metade
da referida folha diarista.
Em face do Mestre Serrão ser um polímata,
que é aquele que apresenta instrução variada, não se podia olvidar de sua
capacidade ou competência de promanar aspectos diversificadas sobre assuntos
relacionados às demais disciplinas. Tanto assim, indubitavelmente, lia sempre
quase todos os livros. Jamais, em tempo algum, era visto sem um desses
livros!...
A incipiência dos seus discípulos fazia
com que não depreendessem o que ele desideraria exarar com o seu vasto
conhecimento sobre todas as matérias que compunham o “Curriculum escolar”,
sobremodo no encetamento do decênio dos anos de 1930 a 1940. Nesse interregno,
com certeza, cobravam-se dos alunos, com rigor, as lições atinentes, as quais
são requisitadas, diariamente, nos bancos escolares!... Caso contrário, vinham
os respectivos castigos.
Ei-los, então, sob forma de indisciplinado
ou desobediente punha-se de pé, voltado em direitura à parede, com o livro
aberto e segurado por ambas as mãos – estando em posição de sentido – no ponto
máximo – onde as pernas ficam, cabalmente, coladas uma a outra, não deixando
atravessar, sequer uma réstia de luz. O tempo de duração do castigo
correspondia a aprendizagem total das páginas designadas conforme o capitulo da
lição enumerada.
Mestre serrão, após longa ensancham deixou
de ministrar aula. Esse tempo, sem outra alternativa, correspondia ao termino
da Segunda Guerra Mundial. Dessa maneira, viajaria para o Rio de Janeiro – com
a finalidade de submeter-se ao vestibular para o Curso de Medicina. Após duas
fracassadas intervenções consecutivas, lograra êxito pela terceira vez.
A sua irmã – dona Maria José, também
professora, ficara álacre com o resultado obtido pelo seu querido irmão –
Mestre Serrão. Dessa maneira, ele lhe fizera uma missiva – tomando para si
todas as responsabilidades quanto a sua manutenção no Estado do Rio de Janeiro.
Então, mandar-lhe-ia a pecúnia necessária para as suas diversificadas despesas
ou dispêndios, abrangendo todos os itens – da alimentação, roupas, calçados e
livros!...
Das pessoas pertencentes à família, tinha
pela sua irmã – Mestre Maria José – uma deferência toda especial – digna de ser
escriturada em livros. Caso não fosse essa irmã querida, não teria a mínima
condição financeira de manter-se num pensionato simples, acrescendo os demais
dispêndios. Reparando bem, sem hesitação, quatro salários mínimos ainda era
insuficiente para tantas despesas!..., uma vez que estava na Cidade Maravilhosa
– Rio de Janeiro.
Após a conclusão do Curso de Medicina,
submeteu-se a uma residência cuja duração estaria estipulada para o prazo
correspondente a dois anos. Dessa maneira, permaneceria no RJ por mais dois
anos consecutivos. Os diferentes dispêndios foram sendo acrescidos cada vez
mais – ultrapassando – decerto quatro salários mínimos!...
É bíblico em toda a sua dimensão
religiosa, pois estava retirando das próprias necessidades basilares de
sobrevivência, enfrentadas pela Professora de Ciências – dona Maria José –
nesta cidade de São Luís – MA, que é tal qual uma Jerusalém, que há muito, vem
apedrejando os seus mais gabaritados profetas!...
Dessa maneira, sem maiores
procrastinações, haveria de regredir a São Luís – no final do ano de mil
novecentos e cinquenta e três, precisamente, sem quaisquer perplexidades
imaginéticas! E, com as graças do generosíssimo Deus, voltou à casa de sua
irmã, localizada na Praça da Alegria, confronte ao “Jardim de Infância”.
A Deus e a ela, o Mestre Serrão teria que
agradecer eternamente tudo o que conseguira, uma vez que a sua estada no Rio de
Janeiro correspondera um pouco mais de oito anos. A sua manutenção fora um
fardo pesado, visto que os dispêndios com livros ultrapassavam o limite basilar
de uma compra plausível!
Ao retornar definitivamente à cidade de
São Luís – MA, Dr. Serrão implantara um consultório provisório, que durara em
torno de dois decênios. O seu ideal, decerto, ostentava amplitude maior –
descortinando horizontes nosocomiais. Seria, uma ajuda de Jesus Cristo, Diretor
do famoso Hospital Geral. Lá, sim, comandaria os demais médicos e acadêmicos de
Medicina; e, também, prescreveria uma ou outra consulta, caso fosse de
premência, isto é, uma internação – por breve ou longo prazo.
Lá mesmo no dito Hospital Geral ministrava
aulas de Ética Médica, e, concomitantemente revisava os ensinamentos de
Farmacologia e Anestesiologia. Realmente, e com toda comprovância, era um
polímata dos mais aclamados!
Mestre Serrão exacerbava-se com a
desfaçatez de alguns alunos! Para tanto, desde a mocidade prevenia-se usando no
bolso interno do paletó uma bereta alemã... Outrossim, fiava-se nela,
sobremaneira ao lobrigar a sinistra possibilidade de uma tal discente – tipo
touro dissimulado – com uma massa muscular avantajada no tórax, estendendo-se
simultaneamente no braço, abrangendo bíceps e tríceps. Dessa forma, o sujeito
poderia a qualquer átimo, partira de onde estivesse em direção ao Mestre
Serrão, com a finalidade soqueá-lo abruptamente...
Se esse valentão se arrogasse, aparatando
tal atitude cretina, proteger-se-ia usando as balas contidas na bereta, para
furar-lhe a musculatura enfurecida! Seria, então, um ato de conter a fúria
exasperadora de um acadêmico cretino, e sem a mínima educação, pois, jamais,
seria adquirida em tempo algum!...
No encetamento da década de mil novecentos
e sessenta, o Mestre Serrão fora, com justa causa, um dos “Fundadores” da FUM
(Fundação Universidade do Maranhão). Outrossim, não seria qualquer outro tipo
de irrelevância que o expurgava da diretriz regente do Corpo desta Universidade
Federal do Maranhão.
Sobremodo, para melhores dilucidamento, os
anos básicos funcionariam no “Campos do Bacanga”. Ei-los: 1º, 2º, 3º e 4º
períodos – de todos os cursos – sem que houvesse – sequer nenhuma prerrogativa
de ordem extracurricular.
Malgrado os anos decorridos, lembra-me bem
daquela tarde, onde, fortuitamente, um burro adentrou ao pátio do Hospital
Geral. Nesse interim, todos os seus alunos se encontravam no local, e,
incontinenti, pediram-lhe que mandasse o vigilante retirar dali aquele
animal!... Prematuramente, a solicitação não fora acatada pelo Mestre Serrão.
De fato, ele era portador de uma opinião paradoxal em gênero, número e grau.
Enquanto os discentes relutassem, não mandaria – de hipótese alguma – expulsar
o burro, devidamente alojado no postremeiro compartimento do nosocômio!...
Ao anoitecer – num retângulo de papelão –
amarrado em um cordão escrevera com letras graúdas: “Sou acadêmico de
Medicina”, o qual pusera no pescoço do burro. Assim sendo, no dia seguinte, a
turma se deparou com estes ultrajantes dizeres! Alguns se revoltaram perante o
que viram, porém, não havia outro jeito... Com a continuidade do tempo
decorrido os discípulos foram obliterando aos poucos!...
Quando ninguém mais dizia absolutamente nada!...,
o Mestre Serrão requestou ao vigilante Luizão, com certa prestimosidade, que
soltasse o animal da corda, e o deixasse sair pela mesma porta em que houvera
adentrado ao referido “Hospital Geral”. E, sobretudo, tantas outras peripécias
foram se sucedendo no mencionado nosocômio, tendo por Diretor – o Mestre
Serrão.
O Mestre Serrão, também, fora –
indiscutivelmente – preceptor do Escritor que vos fala nesta ensancha ou
comenos: Wilson Cerveira Marques, quando ministrara aulas de Farmacologia na antiga
Faculdade de Farmácia, situada defronte da Igreja de São João. Essas lidimas
lições de vida eram acolitadas de per si por uma Cultura Geral do mais
acendrado nível exponencial! Jamais o vi – em tempo algum – sem que estivesse
lendo. Foi passando de um livro para outro. Lia Física, Química, Matemática,
Biologia, Inglês, Alemão, Francês, Espanhol, Italiano..., assim também
Farmacologia (sua especialidade desde em que terminara o Curso de Medicina – na
Faculdade do Rio de Janeiro).
Na metade da década de mil novecentos e
setenta, tempo correspondente no qual havia sido seu epígono, comportava-se da
melhor maneira possível, a fim de que eu pudesse absorver todo o
conhecimento... A erudição ostentada pelo Dr. Serrão, indubitavelmente,
tornava-se por demais polivalente – e de uma versatilidade a toda prova
cognitiva – escoimando ou acendrando a mais lidima e cabal poligrafia!
A sala na qual ele ministrava aula de
Farmacologia e de Cultura Geral, vivia quase sempre com as portas
hermeticamente cerradas; somente sendo abertas por ele; assim sendo como o
laboratório da aula prática. As chaves vinham-lhe presas na extremidade lateral
esquerda do seu descomunal cinto de couro legítimo.
Fiquei deveras estarrecido quando adentrei
pela primeiríssima vez no seu laboratório particular, o qual vinha mantendo no
interior da Faculdade de Farmácia, localizado notadamente nos baixos do prédio
– em confrontação posterior com a escada de cimento, a qual dava acesso aos
alunos, professores e demais servidores administrativos, vigilantes etc.
Cuidei que estava ao meio de uma
tribulação mística, com ares de museu e laboratório. Na parte central da parede
interna do fundo, localiza-se um vetusto relógio de pêndulo, portando seus
postremeiros entortados para o horário em que falecera alguém da sua família.
Outras tantas efigies exóticas pontilham as extremidades da descomunal pia, na
qual se faziam as devidas abluções do material utilizado, e, pronto –
certamente – para a reutilização imediata!...
Em certa distância, perlustrava-lhe a
imagem carismática e repleta de excentricidades!... Nunca lhe disse
absolutamente nada, pois, o que ele aparatava pertencia somente a si mesmo.
Dois bolsos superiores do casaco, cheios de canetas!... Mestre Serrão era
zeloso aos extremos. No ângulo superior da roupa externa, lobrigava-se uma
outra camisa de mangas curtas, e, sob ela, para incorporar os espaços com suas
respectivas vacuidades, ainda vislumbrava-se uma camiseta com o objetivo de
proteger-lhe a caixa torácica. Vários bolsos ostentavam essas peças de roupa.
Espaço suficiente para absconditar revistas e jornais. Os artigos científicos
se faziam aparatar em número proliferante!...
A calça comprida do Dr. Serrão ostentava
determinada invídia, uma vez que, decerto, comportaria caso fosse necessário os
seguintes instrumentos ou objetos de uso comum: um pequeno rádio de pilha, uma
lanterna e uma bereta alemã infalível, principalmente nos átimos mais preciosos,
decretando a defesa do corpo!
Reiterando, o que fizera anteriormente,
sempre fora afeito a chegar uma hora antes de encetar o seu horário de
ministração dos conhecimentos a serem abordados. Pontualmente às 13h
encontrava-se no interior da sala de aula, visto que o seu horário era o
primeiro, começando sempre às 14h.
Determinada feita um aluno cujo nome
denominara-se –Barbosa, adentrara à sala de aula muito tardiamente às 15h.
Desta forma, prorrompeu-lhe a entrada, lançando-o com força sobre o tórax o
pesado e volumoso livro de Farmacologia. De fato, caíra, cabalmente
desamparado. Não admitia nenhum tipo de atraso, no que tange ao adentramento à
sala de aula. Ficara aporrinhado com as atitudes. O tal sujeito Lucieto dava
mais atenção às aulas de musculação do que as de Farmacologia.
Outro dia, em pleno hesterno, Lucieto
dirigia-se à sala de aula – somente às 16h. desta feita, de braços
escancarados, assimilara um imane protraimentos de duas horas!... Reiterou-se
mais uma vez adentrando de braços bem abertos, indo em direitura ao Mestre
Serrão. Quando o catedrático Dr. Serrão percebeu aquele volume muscular
perpassar-lhe junto ao rosto. Ele – Dr. Serrão – não pensara duas vezes:
deu-lhe dois tiros de bereta alemã, perfurando-lhe o bíceps e tríceps.
Lucieto dirigiu-se ao Pronto Socorro, com
a finalidade de fazer a extração dos dois projéteis localizados na musculatura
do braço esquerdo. Em seguida, deslocara-se até a Reitoria para poder
confabular com o Reitor Dr. Pires.
O magnifico reitor Dr. Pires tentava a
persuadir o aluno Lucieto. Peço-te, caro jovem, que retire a queixa – quase
crime – que fora dada na Delegacia Central da cidade de São Luís do Maranhão.
Após várias persuasões, chegou a persuadi-lo para que o fizesse, pelo amor do
Nosso Senhor Jesus Cristo. Prometeu-lhe uma bolsa para seu futuro
pós-doutoramento.
Reitero em exarar-lhe o seguinte –
conforme o Magnifico Reitor Dr. Pires. Ouça-me meu acadêmico Lucieto – o Dr.
Serrão – Mestre de Várias Gerações, hoje, neste comenos, neste átimo, nesta
ensancha está a expender uma percuciente provectude. Também, não haveremos de
olvidar a sua participação efetiva quanto aos ímpetos basilares da Fundação
Universidade do Maranhão, sendo, um dos maiores expoentes!...
Na antiga Faculdade de Farmácia – como
sabemos, tinha uma sala exclusiva para ministrar suas aulas de Farmacologia;
assim como, sem hesitação, um laboratório de aulas práticas, uma vez
reiterados. Outrossim as chaves de ambos os compartimentos eram de privacidade
exclusivista do Mestre – Dr. Serrão. Antes de quaisquer possíveis anomalias,
frequentávamos com seriedade as aulas práticas ministradas pelo Mestre Serrão.
Ele montava os reagentes e os produtos resultantes. Fazia as devidas análises:
quantitativa e qualitativa, respectivamente.
Um becilóide acadêmico de Farmácia, e, por
maldição secreta, ostentava o errôneo epiteto de “Gentil” cominou inúmeras
vezes o Mestre Serrão, fazendo-lhe somente o execrável átimo torturante! O
badernista Gentil pintou o armário branco do Mestre Serrão – com tinta preta,
imprimindo-lhe o retrato do abominável escroque – ‘Lula’. Com certeza fora uma
provocação das maiores, uma vez que tinha lidima rejeição dos aspectos
fisionômicos facínoras desse tal elemento – de altíssima rejeição com relação
ao Dr.
Serrão – “Mestre” de sucessivas gerações no decurso compadecido do próprio
tempo...
Dr. Serrão não pensou duas vezes, subiu a
escada que dava acesso ao interior da Faculdade de Farmácia, portando uma
potente bereta automática alemã. No decurso da caminhada, fora contido pelos
professores: Garrido e Pecegueiro, os quais conseguiram sustentar-lhe os
braços, um de cada lado, evitando que o Mestre executasse o tiro horizontal. De
braços para cima, formando uma perpendicular com o chão, adentrou à sala de
aula, em que estava o insubordinado discente Gentil – dando deste modo alguns
tiros em direitura ao teto – numa atitude legitima de respeito.
Mestre Serrão não admitia a desfaçatez, a
ignomínia, o opróbio, e tudo mais que o levasse ao grau de desonra. Não pudesse
– no caso – resolver a braço, puxava, então a bereta alemã, e disparava contra
a massa muscular do sujeito valentão!
Durante toda sua vida, Mestre Serrão,
mantinha seus hábitos de colecionar centenas de livros diversificados. Não
importava o conteúdo, pois lia todos os compêndios: Química; Física; Biologia;
Matemática; Cálculos I, II, III e IV. A Farmacologia direcionou-se somente as
aulas que ministrava diuturnamente na Faculdade de Farmácia e Medicina.
O Mestre saía da Faculdade – exatamente –
às 18h, e partia em direitura à casa de sua irmã Professora Maria José. Ela, de
fato, o aceitava do modo que ele era. A mulher que o desposou não deu certo,
pois rejeitava os seus hábitos de ser!
Dr. Serrão dormia de sete da noite até
meia noite. Acordava, então para ler os múltiplos livros contidos em sua
Biblioteca particular. Caso fizéssemos o somatório de todos os compêndios,
teríamos uma média aproximada de vinte mil livros. As bibliotecas estendiam-se
pela casa inteira, tanto assim, sem perplexidade, as prateleiras iam até a
cozinha...
Nunca vi, na vida, quem gostasse mais de
ler! Lia com prazer descomunal. Enquanto usasse a saciedade da leitura,
afastava de si mesmo a chamada volúpia do aborrecimento!...
São Luís, MA, 25 de
julho de 2022
Wilson Cerveira