Não há
silencio que expunja soledade atroz, e que consiga preencher as vacuidades das
horripilantes noites de insônia inclemente! A dor, a preocupação exacerbante, o
enternecimento, a consternação daquela a imprevista visita, – de modo açodado
–, que fiz à minha sogra, na manhã do dia 19 de dezembro de 2015, em companhia
da minha mulher – Maria do Socorro Araújo Cerveira Marques, que, a todo custo,
queria, também, vislumbrar os paroxismos palindrômicos que estavam acometendo o
organismo da senhora sua mãe, notadamente o sistema cardiovascular de dona
Francisca Rodrigues dos Santos, internada provisoriamente no Hospital Djalma
Marques, situado na Rua do Passeio, no centro da cidade de São Luís do
Maranhão.
Logo que chegamos à casa nosocomial de
pronto atendimento, o atordoamento causado pelo sobejamento adrenalínico, e,
também, por falta de melhores dilucidações, não tivemos outra destinação, a não
ser partirmos em direitura à porta frontal do “Pronto Socorro – Dr. Djalma
Marques”. No entanto, gentilmente, o vigilante de plantão encaminhou-nos para o
portão que daria acesso, diametralmente, ao lado oposto correspondente ao fundo
da casa de saúde. De fato, de maneira instintiva, corroboramos que ela havia
sido transferida para o setor em que os pacientes são submetidos a diversos
tipos de exames.
Quando reexaminei a fisionomia de Socorro,
fiquei aturdido, sem saber dirimir os ultimatos que deveriam ser tomados
naquele átimo de imane apreensão. Estávamos, de modo arrostado, a um passo do
outro vigilante, o que guarnecia a porta do fundo do nosocômio. Devido nosso
desiderato quanto ao ato de adentramento, rogou-nos um pouco de paciência, pelo
menos que esperássemos pela prolação do transcorrer de três minutos; pois,
adentraríamos logo, mesmo que não esvaziasse um pouco. Ao transpormos os
umbrais que ladeavam a soleira da porta, assenhoriamo-nos dessa verdade
inconfutável!... Realmente o salão
estava superlotado e, com isso, cominava-se a lei inerente à impenetrabilidade
da matéria.
Mesmo assim, – Socorro –, ressumando um
estado de percuciente angústia, não se conteve, impulsionou o próprio corpo
esgueirando a lateralidade remanescida pelos espaços quase herméticos. Assim
sendo, só se sossegou quando pôde entrar em contato direto com a senhora sua
mãe, para, então, verificar de perto o seu real estado de saúde.
Naquele ínterim, a hesitação tomava a
cachimônia de quem se encontrava em volta da paciente – Francisca Rodrigues dos
Santos. O cardiologista, dentro de sua especialização, atendeu-a de modo
desidioso, uma vez que, mesmo orientado pelos resultados dos exames, mormente
os triglicerídeos, os quais vaticinavam o risco de infarto, não quis
arriscar-se a tomar as providencias prementes que o caso requeria; isto é, um
possível cateterismo, conquanto soubesse que a paciente ostentava a faixa
etária de oito décadas e um lustro.
Não houve tempo suficiente, decerto, para
que ela suportasse imane incúria do médico cardiologista que a atendeu de modo
antiético. Então, para que dona Francisca não sofresse por tempo
procrastinativo, a Divina Providencia a vocacionou para junto de si,
introduzindo sua alma por algum tempo no espaço etéreo transcendental, a fim de
que ela ressumbrasse os oráculos existentes entre o céu e a terra. Ao passo que
seu corpo inerme fora estudar a geologia dos campos santos; pois, desde o
dilúculo, encontrava-se a um passo da eternidade, que é um oceano sem praias,
no exarar do egrégio escritor – Coelho Netto.
Não há preenchimento que faça obliterar a
dimensão remanescida pela descomunal vacuidade proporcionada por sua perpétua
ausência, o despeito de estar implicada no cerne de tantas outras! De fato,
esta sua cadeira permanecerá vazia, mesmo que esteja sendo ocupada,
temporariamente, no imaginário espectral, pelo corpo gerado por uma condição
putativa.
Os objetos, depois de muitos anos,
impregnados por uma forma enigmática de energia prístina, afiguram-se de acordo
com as características psicossomáticas dos lídimos donos. Ao lobrigarmos a uma
certa distância os laivos do pretérito, tivemos a impressão fantasmagórica de
que estávamos vendo o senhorio do seu comportamento. Tanto assim, sem dubiedade
alardeante, inoculamos no intrínseco de cada uma das peças de museu, decerto, a
quantidade de energia necessária, a qual é somatorizada pelo próprio senhor que
a utilizava durante um longo período de tempo, correspondendo, sem mitras, ao
jubileu que estaria sendo – de há muito – apoteotizado. De repente, sucumbe a
pessoa responsável pela relíquia, mas ficará estigmatizada nela, por tempo
infinitivo, a quantificação energética que a coalescia ao dono. E, afinal,
remanesce o vislumbrar colimador da sua própria efigie, reconditada nos
escorços de uma penumbra reminiscente nostálgica!
As catarses realizadas nos divãs dos
melhores especialistas do orbe, ínclitos mestres em psicanálise, não aparatam a
condição de exprimir os traços indeléveis, sobretudo os que sobraram no
somatorial de muitas presenças repletas por uma ausência, simbolizada pela
individualização daquela cadeira vazia. Desse modo, guardemo-la em local
secreto, já que ela serve de inspiração para a estesia demonstrada por todos
aqueles que a amavam de corpo e alma, para que seja sempre lembrada. Assim
sendo, de maneira cabalística, sempre a teremos nos retratos e em nossa retina,
e vê-la-emos em vários locais contíguos à casa residencial, independendo do
momento que foram definidas, de modo simultâneo, diversas circunstâncias a
serem rememoradas na orquestração de segundos, minutos, horas, meses, anos,
décadas e centúrias!...
O significado atrelado à pessoa, em sua
acepção maior, personifica o próprio objeto! Deveras, não era uma cadeira vazia
qualquer, e, sim, um espaço ocupado por uma energia apaziguadora, servindo de
fanal durante todos os seus anos de existência consumada!
Todos nós temos preferências – uns mais e
outros menos – o que realmente interessa é a estratégia usada para preencher
diferentes espaços – menores, regulares ou maiores; trazendo, quase sempre,
consigo, a mesma cadeira de plástico duro, aparatando os braços respaldadores.
Ostentava uma maneira ímpar de posicionar-se de forma precisa, sem que houvesse
necessidade de demover um objeto maior, e, por isso, dava acesso ao referido
assento de quatro pernas. São nesses materiais, por pior que sejam, que se
vislumbram as melhores reapropinquações de criaturas humanas, uma vez que se
desconheçam as lídimas características somatoriais dessas pessoas e dos seus
objetos de extrema sentimentalidade.
Minha sogra, Francisca Rodrigues dos
Santos, deixou um vazio merencório em meio aos vários preenchimentos de
aparência fugaz. Ninguém conseguiria manipular o mesmo utensílio, tampouco posicioná-lo
no seu devido lugar, dando a ensancha de prestar atenção em quem vinha de
dentro para fora, ou, então, fazia o inverso enigmático!
De fato, sentia-se bem quando pesquisava
em volta de si mesma, as pessoas com as quais se habituara conversar tanto na
calçada de defronte quanto no anteparo de cimento, que é a própria calçada, que
dava acesso à soleira próxima ao reposteiro que ladeava os umbrais da porta
principal da casa, que já ressumava alguns exícios laborativos do implacável
tempo a exercer a sua ação deletéria e irreversível, identificada com a
perpetuidade de um percuciente estigma consumativo!
Dona Francisca Rodrigues dos Santos, mãe
da minha mulher – Maria do Socorro Araújo Cerveira Marques, não demonstrou
laivos de desiderato quando fora convidada pela sua filha Terezinha Marcolino
de Araújo, para que viesse passar o Natal e o Ano Novo, respectivamente, em São
Luís do Maranhão. Minha sogra, dona Francisca, preferia, postremeiramente,
ficar mais tempo em Santa Inês a vir a São Luís do Maranhão!
Hoje, à tardinha, neste encetamento de
obumbração noturna, mesmo que a calçada de sua casa residencial estivesse
repleta de cadeiras preenchidas por outras pessoas, a ausência de minha sogra,
com certeza, expungiria no diário de chamadas, de uma só vez, todas as
presenças coligidas. Então, reteríamos no imaginário nostálgico uma fortíssima
lacuna reminiscencial de sua perene ausência!... E, ao redor da descomunal
vacuidade, não lobrigaríamos nenhuma das priscas presenças registradas no
arquivo indelével do tempo inexorável, exercendo a sua ação deletéria, numa dimensão
vetorial onde sentidos e direções se intercruzam nas horizontais e verticais do
vetusto plano de épura!
Naquela manhã de sábado do dia 19 de
dezembro de 2015, partimos em direitura ao Ipase, precisamente ao endereço da
casa de seu irmão – José Rodrigues dos Santos. Nesse comenos, tínhamos por
finalidade precípua, antes de quaisquer outras averiguações, saber sobre o
sindrômico orgânico de dona Francisca, uma vez que, a partir da sua saída de
Santa Inês, já vinha se queixando de um certo ofegamento e de uma determinada
pressão torácica. Em princípio, o Enfermeiro e, também, seu neto Danilo, sem
hesitação, conduziu-a ao hospital situado no bairro do Bequimão, a fim de que
ela pudesse tirar um Raio X do tórax, descartando, destarte, quaisquer indícios
de uma sorrateira pneumonia.
Em seguida, sem procrastinação, resolveu
levá-la ao Pronto Socorro Central, para que fosse examinada por um médico
cardiologista. Antes de quaisquer pronunciamentos, o referido especialista
requereu alguns exames atrelados ao sistema cardiovascular. Naquele ínterim,
obnubilados estávamos todos nós; pois, não vislumbramos a ensancha
probabilística, sem que houvesse muitas hesitações, de ela vir a perecer nas
primeiras horas do domingo, exatorialmente, no dia 20/12/2015. De fato, não
esperou pela segunda-feira, conforme fora orientada pelo próprio cardiologista
desidioso, com o propósito de aventamento de um possível cateterismo...
Quando o telefone tocou às duas horas da
madrugada, vaticinávamos, sem outra alternativa, que seria o Danilo, o seu
neto, que trazia a contristada notícia do seu fenecimento! Fomos impulsionados
por uma súbita dosagem de adrenalina na corrente sanguínea, e a nossa Socorro
não se conteve perante a forte comoção, deixando as lágrimas inundarem a face e
o próprio corpo, indicando um percuciente suspiro de tristeza infinita!...
Ninguém premoniciava que ali, ao redor da
casa uma horripilante coruja chamada de rasga-mortalha ensaiava o seu voo
rasante sobre a cumeeira da casa. E, no postremeiro adejo, essa ave ominosa deu
um pio lôbrego anunciando a morte súbita de dona Francisca Rodrigues dos
Santos. E, a partir desse funéreo átimo, todos ouviram o cantochão a ressudar a
melancolia de um perpétuo adeus.
Wilson Cerveira