quinta-feira, 9 de abril de 2015

MESTRE DIQUINHO -- PARTE -- II

    Em Alcântara – MA só havia um Diquinho, com caracteres inalteráveis, e estando ele predisposto a exequir vários afazeres, em diferentes períodos do ano, e, de modo concomitante, a ressumbrar múltiplas propriedades. Ei-lo, então, sempre presente durante a queimação das palhinhas do velho presépio, tendo por data o dia seis de janeiro – Dia dos Santos Reis – também cognominado de Epifania. Rezava-se o epinício, praticamente em latim, desiderando saciamento aos que estavam envolvidos com outras azáfamas – tais como: o chocolate, o chá, o café, e outras iguarias, dependendo do volitivo dilucidado pelas suas primazias alimentares (adindo bolos de mandioca, batata doce, de goma e tapioca), ficando à disposição de todos os participantes da celebração religiosa.
     Durante os festejos do Divino Espírito Santo, o seu comportamento ia mudando, pouco a pouco, adequando-se aos rituais ressumados, geralmente nas primeiras semanas do mês de maio. Tínhamos a quinta-feira (levantamento do mastro, carregado por centenas de fieis, também dos que tinham assumido a responsabilidade atinente ao pagamento da promessa). Nesse interim, existem as visitas às casas dos festeiros da imperatriz ou do imperador, sendo algo alternadamente realizado desde o período em que começara a ser celebrada todos os anos, obedecendo a um período correspondente a maio até o início de junho, podendo haver variabilidades mediante o ano em apreço. Tudo se tornava solene, abrangendo como no postremeiro domingo, que era dedicado com exclusividade maior e fervorosa quanto aos diversos cerimoniais praticados nos salões ataviado, aprestados unicamente às celebrações álacres do Divino Espírito Santo.
      De quando em quando, jugulava os paroxismos palindrômicos atrelados aos vaticínios que tivera desde a puerilidade: anunciar a destinação peremptória dos que se denominaram com expressividade erudita –- os redundantes meios hediondos do escatológico. Todo final do ano, numa atitude de quem se submete aos sintomas do quadro delírio-alucinatório, reiterava com palavras sinônimas a mesmíssima tautologia ou palilogia.
     O leigo professor sentia-se em posição de refestelamento quando lhe era atribuída a capital função de representante de um magnífico cerimonial. Parecia outra pessoa, após o envergamento indumentário, em razão das diversas peças que lhe serviam de adendo. O fraque descia-lhe até às panturrilhas, enquanto a murça absconditava-se-lhe a calva; e, ele, então, se aprestava para monitorar-se à altura doas orelhas com aros bilaterais portando lentes de cor cinza. Por dentro, acima da camisa de mangas compridas, portando abotoaduras, e, posteriormente, assomava-se um colete contendo botões dourados que se estendiam, galhardamente, cerrando o decurso longitudinal do aparato torácico.
  Como companheiro de viagem não havia outra criatura que fosse igual a ele. Sabia acompanhar todas as faixas etárias. Dava conselhos quanto à manutenção do sistema disciplinar. Baniria as probabilidades que aduzissem a algum tipo de temeridade abrupta. Sabia apreciar as molduras resultantes das tauxias auferidas com esmero.

     Os seus passos, antigamente estugados, eram contados milimetricamente, e os olhos perlustravam as minudências das fechaduras ensambladas nas fímbrias da madeira. De fato, era uma aprendizagem adquirida em cada viagem, encerrando um curso de coligidas polimatias. Aprendia-se com ele a eficiência ostentada por um experimentador provecto, que sabia preencher todos os sentidos e direções plausíveis no âmbito da direitura aparatada pela cognoscibilidade irrestrita.


                                             Wilson Cerveira

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O MESTRE DIQUINHO

     Com este quasímodo cognome, seria muito difícil identificá-lo, mesmo morando numa cidade como “Alcântara do Maranhão” – de povo mesquinho, invejoso, e que tenta se assenhorear ilicitamente de tudo o que não lhe pertence – sem admitir protesto por parte de quem se arroga do direito de defender-se com unhas e dentes, como se fosse uma atitude assumida por trogloditas prístinos!...
       Somente em Alcântara – MA, sem perplexidade, este fato se reitera, que é o de ostentar invídia mórbida, – ocorrendo com uma trivialidade surpreendente --, e chegando a suplantar as mais hediondas mazelas localizadas em muitos quadrantes do planeta – Terra.
     O Mestre Diquinho aparatava hábitos bizarros. Era, como ninguém, afeito às divisões do tempo integral, não assentindo quaisquer promiscuidades inerentes aos diferentes tipos de ações, reações e afazeres. E, palindromiava sempre a mesma frase, principalmente quando dizia o que ouvira desde o período pueril: “a ocupação bane o ócio, expurgando-o por completo – sem deixar laivos de repugnância iminente”!...
     Pelas manhãs, de modo irrefutável, o propalado senhor Diquinho, um sessentão sem eira nem beira, posturava-se na qualidade de professor leigo, ministrando aulas em casas particulares – sobremodo de pessoas conhecidas –, evitando com isso novos conflitos. Cuidava apenas da seguinte trilogia erudicional: Português, Matemática, Conhecimentos Gerais (abrangendo, também, noções basilares de Ciências Naturais, sobremodo o que se refere ao corpo humano – com suas estruturas – células, tecidos, órgãos, sistemas ou aparelhos).
     O mestre de antanho ostentava esdruxulias dantescas, sobremodo no ínterim dedicado ao elucidatório do texto em questão. Ensinava todas as séries do antigo e nostálgico “Curso Primário”. Em um único salão, parecia aplicar uma verossimilhante análise combinatória. No canto – 1, de esconso, reunia em par os vinte alunos do 1º ano; no canto nº2, também à esquerda, congregava 15 discentes do 2º ano, no canto – 3, ainda de soslaio, coligia mais 13; no 4º, que ficava igualmente à direita, coligava 11 estudantes; no 5º canto, situado no centro do salão, mantinha apenas os remanescentes – 6 aprendizes – e que, de fato, eram aqueles que receberiam o diploma correspondente à fase basilar na qual os conhecimentos  adquiridos fossem bem consolidados, podendo chegar à indelebilidade, – enquanto rememorada --, até a senescência.
     Diquinho cobrava tudo, sem deixar escapar um acento, uma vírgula. Apreciava os sábados com suas sabatinas alternativas. Um, inapelavelmente, era dedicado aos acertos e desacertos da vetusta aritmética. Usava para tanto, sem acatar reclamações dos alunos. Trazia no bolso três palmatórias: pequena, média, grande. A extensão de cada uma não era o suficiente, mas o calibre diametral no que concerne à espessura, de fato, correspondia às expectativas do insólito Diquinho!...
     Não admitia erros: “nem de verbos – nem de números”. Ele mesmo aplicava a palmatoada merecida. A vermelhidão que ficava na palma da mão do aluno desatento, demonstrava a intensidade reiterativa da sua própria cincada. Se a pergunta vinha expressa em números mais elevados, pressupunha-se que a férula, em caso de equívoco, agia com maior esbravejamento, – determinando as quantificações do processo avaliativo e, concomitantemente, a qualidade do aprendiz – “se realmente estava aprendendo, definitivamente, a lição do mestre, sem que houvesse nenhum tipo de olvidamento no decurso prolongado do tempo”. A base eruditiva mantinha-se inviolável em todos os pontos de maior plausibilidade assimilatória.
     Nessa época de castigos pesados, todos aprendiam a lição. Ninguém se queixava de traumas nem de tantos outros sensibilismos hiperbólicos. O escopo vetorializava-se mesmo, beneficiando a família, a escola e o mercado de trabalho, dando-lhes os posicionamentos privilegiados. E, dessa forma, educava-se a criança, e essa educação ia se disseminando para outros períodos subsequentes, sendo a postremeira lição remanescente e inolvidável!
     Esse tal Diquinho, para alguns alunos insubordinados, era um tipo de peste execrável; pois, sem titubear, colocava-os prosternados em tampas de leite “Nestogeno”, contendo agrupamentos combinatórios de vários caroços de milho. E, nessa posição cilicial, permaneciam por longo tempo – sem gritar – até que aprendessem as tabuadas e os verbos regulares,  irregulares, anômalos, defectivos e abundantes!...
     Quando saíam do suplício, davam-nos a impressão especiosa de uma possível inserção realizada por esses frutos secos em suas epidermes patelares. De imediato, a vislumbração assomava-se, em função de usarem calças curtas complementadas com meias de algodão que lhe atingiam o terço médio da fíbula!...
     Pelo turno Vespertino, destituía-se da condição de “Mestre Primariano”, e assumia o papel, – em principio –, nunca dantes lobrigado, que era o de jornal ambulante da cidade de Alcântara – MA, uma terra em que o fuxico corre de boca  em boca, falaciando em seus trâmites, e, de modo concomitante, ressumbrando as recrudescências dos acontecimentos do hesterno, do hodierno e do crástino – numa lídima epidemia grassante, não havendo exórdio nem peroração para que chegasse ao peremptório inumante.
     O Diquinho era o próprio jornal de Alcântara. Apreciava o disse-me-disse, a intriga, o leva-e-traz constante, sem que deixasse vazar nenhuma minudência. Colecionava-as em pequenos blocos de papel que conduzia nos bolsos da calça. Escrevia essas anotações a lápis, com uma caligrafia de causar inveja com relação às garatujas dos doutores, os quais nunca souberam o que é educação nesse sentido, notadamente em se tratando dos caracteres de uma bela escrita!
     De longe, no assomamento do seu próprio vulto descendo a ladeira da Rua das Mercês, já se presumia o que ele vinha a contar para o meu avô – Marcial Ramalho Marques. Conforme a notícia, no que concerne ao  grau de provocação insuportável, estugava os passos, e punha os dedos da mão direita a segurar o cinto da calça – meio frouxa – quase a desabar no meio da rua; enquanto o seu lado esquerdo, totalmente penso, dava-nos um aspecto falacioso de uma muleta com pontas – simplesmente ostentando os devidos apoios dos artelhos – como se quisessem perceber as diferenças proeminentes das incertas pedras que compunham o paralelepípedo em pleno desgaste centurial.
     Lembro-me, com nostalgia, daquela noite de 1961, em que meu avô Marcial, segurando-me por uma das mãos, fazia com que eu girasse em círculos concêntricos pelo balcão da sua “Casa Comercial”, -- indo e voltando sem parar! De repente, na penumbra da noite; logo na ladeira abaixo, assoma a imagem do Mestre Diquinho. Gritei ao meu avô, dizendo que aquele homem de cabelos encanecidos e de mente ensandecida estava caindo aos poucos, como se uma força divina estivesse a controlar o grande tombo iminente. Mas, isso não ocorrera jamais, pois era uma maneira que arrumara para açodar  as pessoas, principalmente quando ele se preparava para contar uma grande intriga!...
     – Disse-lhe, a princípio, o seguinte: - Seu Marciá, deveras, fique sabendo que o Santas Paulinas anda chamando o senhor de um grande sacana!... – Meu avô – Marcial Ramalho Marques, que vivia, diuturnamente, armado, replicou num encetar de uma ação violenta – dando um soco no petromax, exatamente no que estava bombeando, jogando-o no meio da rua. Nesse ínterim súbito, caso Diquinho não tivesse a destreza de afastar o corpo, cairia juntamente com candeeiro, -- que remanesceu em tassalhos!  O velho fuxiqueiro ficaria aleijado ou morreria na hora; já que o impacto do soco foi tão brutal, que lhe provocou sangria no terço-médio superior da mão direita. Meu avô era de muita coragem, deixando o sangue fluir até a formação do coágulo – sinal de cessação da hemorragia, que fora decretada em função do golpe sofrido, assim que entortou o êmbolo do petromax, aparatando camisa e manga cintilantes.
     Volte lá, agora, e diga para esse desgraçado que eu estou esperando por ele -- até 11h da noite -- aqui na “Casa Comercial”, com todas as portas escancaradas! – Se ele for homem, esse canalha, que desça o mais rápido possível, que o enfrentarei arrostadamente. Ele subirá a ladeira apoiado numa única perna, pois a outra ficará paralisada para sempre!... Permaneceu, como sempre, o Santas Paulinas, um facínora pusilânime, a ostentar um comportamento de “um cachorro que late mas não morde!”
     O Diquinho sabia de todas as noticias más e boas, que eram divulgadas na cidade de Alcântara – MA, sendo um palrador enérgico. Fazia toda essa fuxicada de graça, somente para fruir do prazer mórbido de fazê-lo.
     Às noves da noite, partia em direção à casa onde residia, e, ao adentrar o primeiro salão, não perdia tempo quanto ao ato de dirigir-se à tenda que construíra num velho quartinho – situado no fundo do quintal – para converter-se numa lídima entidade, e, assim sendo, confabular com os seus guias espirituais – alguns dos seus orixás –, pedindo-lhes proteção no sentido de enfrentar novas aventuras periclitantes, mas que nenhuma fosse a responsável direta pelo ceifamento da sua vida, dividida em três capítulos – de mestre leigo, de licuteiro intrigante e de bruxo enlutado!...

                                                                                    
                                                    Wilson Cerveira