Sim, minha futura mãe – Nély Martins
Cerveira veio de Alcântara para São Luís –MA, no segundo semestre do ano de
1940, com o objetivo de prosseguir os estudos iniciados na vetusta Escola
Primária de Alcântara – cognominada de “Régia”.
Ao chegar a São Luís, fora recebida, com
alacridade, pelo seu padrinho de Batismo – Francílio Leite Cerveira –
exatamente na Rampa Campos Melo. De lá, nas apropinquações, vislumbraram um
automóvel parado – do lado oposto ao cais – com a marca de “Prefex”. Nesse caso,
o móvel com suas características idiossincrásicas, dava-lhe a real impressão de
que estava realmente em São Luís do Maranhão.
É de bom alvitre exarar que foi nesse
período preludial, sem hesitação, antes dos prosseguimentos escolares, que
resolvera preparar-se para fazer – sob a precepção do Frei Ambrósio – a
“Primeira Comunhão”, realizada na Igreja do Carmo, na Praça João Lisboa. Para
ilar o que fora dito pristinamente, tendo por preceptor – de modo reiterativo –
Frei Ambrósio. De fato, a senhora minha mãe confidenciava-me todas as vezes que
íamos assistir à santa missa – na tradicional e consagrada Igreja do Carmo.
Ao adentrar à casa de seu padrinho –
Francílio Leite Cerveira; e, também, seu tio, pois era irmão do senhor seu pai
(meu avô materno – Pedro Leite Cerveira). Como qualquer pessoa que chega do
interior do Estado do Maranhão, mantém-se, quase sempre, cabisbaixa,
estranhando o inusitado contubérnio. Depois de algumas horas, foi-lhe
apresentada a senhora do Francílio, que era a austera – dona Odyxe Estrela
Cerveira.
Assim que foi apresentada, sofrera um
estarrecimento, e apertou-lhe a mão imprimindo nela certa força, determinação e
cumprimento integral dos deveres – fora de casa e dentro de casa.
De fato, minha avó materna – Maria das
Dores Martins Cerveira – preferiu que a minha futura mãe – Nély – estudasse
mais em casa, fazendo com que ela aprendesse por conta própria e, de igual
modo, com o auxílio de pessoas amigas. Quando chegou a São Luís – MA,
indubitavelmente, submeteu-se a um teste, na própria Escola Modelo Benedito
Leite, que funcionava onde fora inicialmente o famoso e tétrico “Palácio das
Lágrimas”; depois as Faculdades de Farmácia e Odontologia, e, por último, está
sendo construído nesse mesmo local, o tão devaneado “Palácio da Ciência”. Que
transformismo inopinado!...
Adendando, com certeza, alguém quer, à
força de dinheiro público extorquido, muito protraído pelo tempo de encetamento
da obra, paternizar-se perante a edificação tão evagada pela própria Universidade
Federal do Maranhão!...
Regressemos ao exame interno a que ela
fora submetida. E, de fato, fora aprovada com nota nove para o terceiro ano do
Curso Primário. Então, entraria com dez anos, e, logo depois, em 5 de maio,
completaria onze anos, precisamente no mesmo ano de 1941.
Para surpresa, Dona Odyxe Estrela Cerveira,
a austera senhora, era professora da tradicional “Escola Modelo”, onde mamãe
estudava e, por coincidência, lecionaria o mesmo terceiro ano!... Assim sendo,
a jovem criatura – Nély Cerveira Marques, a qual, sem hesitação, teria sempre
por perto a Professora Normalista – Odyxe Estrela Cerveira. Realmente, não
daria, jamais, para esmaecer; pelo contrário, seria sempre um incentivo quanto
ao ato de exortar-lhe a necessidade de fazer-se útil no porvir educacional!
É de salutar alvitre adir o pensamento de
André Mourois, ao traduzir a obra de Voltaire, quando dissera o seguinte: “Além
do mais, que significa a imortalidade, e que poderia ser uma alma que se
sentisse sem corpo, ouvisse sem ouvidos, cheirasse sem nariz e tocasse sem
mãos?”
Adendando, para melhor dilucidamento,
exarava: “Se as almas não são imortais, como poderão ser punidas ou
recompensadas depois da morte? Que fica sendo a crença no inferno e no
paraíso?” Sobre esse ponto, Voltaire não está longe de pensar como um padre
católico, cuja história ele conta, e que dizia a um ministro huguenote,
indulgente um pouco demais: “Meu amigo, eu também não creio no inferno eterno,
mas é bom que sua criada, sem alfaiate e mesmo seu procurador o creiam...”
Esqueçamos pensamentos de filósofos ateus,
já que somos cristãos desde o Batismo, e precisamos o alumbramento da Divina
Providência. Outrossim, o Criador não se esquece da criatura, mesmo que esta
não o reconheça. Esta frase foi vislumbrada por mim, em 1977, estando afixada
na antiga Faculdade de Farmácia, situada no Largo da Igreja de São João
Batista.
A partir deste dimensional de informações
teórico-práticas, poderíamos traçar a distância compreendida entre a Rua das
Flores, por detrás da Igreja de São João Batista, formando uma efígie de
obliquidade diagonal com o prédio da vetusta Escola Modelo (antes Palácio das
Lágrimas; depois, Faculdades: Farmácia e Odontologia), ambas dividindo
equacionalmente os compartimentos do mesmo casarão, que, no crástino, passaria
a ser o tão procrastinatório – “Palácio da Ciência”.
Eu, na qualidade de autor desde
necrológio, digo o que mais amaríssimo existe: “Melancolicamente – na vida –
tudo passa, e o que remanesce são os lídimos sentimentos!...”
Nesta ensancha, o espírita Francisco
Cândido Xavier, em sua percuciente hermenêutica, exara o seguinte pensamento:
“A vida no telúrico é uma passagem, o amor – uma miragem, mas a amizade é um “fio
de ouro” que só se quebra com a morte. Você sabe? A infância passa, a juventude
a segue, a velhice a substitui, a morte a recolhe. A mais bela flor do mundo
perde sua beleza, mas uma amizade fiel dura para a eternidade. Viver sem amigos
é morrer sem deixar lembranças!...
Prossigo declinando o seguinte: “Sigo
compungido com o perecimento da senhora minha mãe – Nély Cerveira Marques; e,
aparatando síndromes paroxísticas palindrômicas recrudescentes...
Meu luto não tem estremadura! Prossigo
combalidíssimo com o fenecimento da pessoa que marcou a minha vida para
sempre!... Reuniu, no decurso da vida, os acuramentos das mais generosas
mães!... Outrossim, tenho por soer manter os lídimos sentimentos!...
Mamãe, minha mestra, minha colega de
Magistério e do Curso Básico de Língua Francesa; também, minha preceptora; e
por desígnios abscônditos, que somente a Divina Providência saberá dilucidar,
faleceu, e estou muito triste... Indubitavelmente, ela me fará falta pela vida
inteira!
Também, é de bom alvitre exarar que a
lacuna constituída é um vurmo incicatrizável, pois perdi minha generosa, minha
preceptora, minha Professora Normalista – desde o primeiro ao quinto ano
“Primário”.
Também, foi ela, decerto, que me
acompanhou nas situações mais implexas! Também, tardiamente, fico a recordar as
batidas do relógio e suas respectivas frases vocacionais, prontas para qualquer
momento. Se o fizesse, agradeço-lhe antecipadamente, para toda a eternidade...
Também, foi dona Nély Cerveira Marques, minha mãe – que me arrumou o meu
primeiro emprego. Então, desfecha-se em mim os mais edificantes paradigmas
traçados ao longo do tempo!
Sereis, então, sempre lembrada!... E,
destarte, em todos os lugares em que vós estiverdes – perto ou longe da “Casa
do Pai Eterno”, ficarão os estigmas de vossos pés. Na Farmácia do “Bom Preço”
ou na Extrafarma, localizada confronte. Tanto em uma, quanto em outra,
indistintamente, sabíeis, de modo mnemônico, tudo o que queríeis.
De fato, tudo o que pretendíeis, naquele
comenos, era a ordenação dos medicamentos necessários, indicando desde o local
onde se encontravam na prateleira, e, após, sem muitos protraimentos,
nominava-os designando os respectivos proprietários. Seu filho Wilson Cerveira
Marques, seu querido filho primogênito, de maneira cabalmente espontânea,
ostentando as regalias dos diversos remédios que foram receitados para ambos,
notadamente com relação às síndromes que os acometeram no decurso temporal da
vida, vivida, experimentada e sofrida, ao sabor amaríssimo dos dissabores, sobremodo
os invertidos e os inelucidáveis, em que a primazia surdia de maneira
colapsal!...
Com primazia, vamos à ordem hierárquica,
em que costumara requestar ao adentrar na Farmácia do Bom Preço ou, então,
Extrafarma, ambas situadas nas respectivas imediações.
Ei-los, então: epocler-flaconetes – duas
caixas, sendo uma delas para o seu filho amado – Wilson Cerveira Marques;
enquanto a outra, decerto, é para minha mãe – Nély Cerveira Marques. Em
seguida, depois de prolações percucientes, avocava o Tanakan, cujo princípio
ativo – Ginko Biloba, destinado à manutenção da memória.
Agora – disse ela – vamos atender a
necessidade do Lipomax (1 caixa) para combater o colesterol e demais lipídios
existentes em alguns alimento, conquanto os seus níveis, internamente, no
organismo, com certeza, tenham condições de prosseguimento.
Em seguida, não nos esqueçamos de listar
os seguintes medicamentos: Vecasten, Diosmin, Daflon etc. Além de utilizar o
Hirudoid – em bisnaga – para satisfazer as respectivas drenagens linfáticas!...
A quem devo, em caso de longa perquirição,
fazer surdir no tímpano desses ouvidos – sempre valetudinários – esses bizarros
estrugidos, que me deixam a sensação de vacuidade e dor constante, redundando
na anodinia das substâncias medicamentosas inoculadas no organismo.
Que lacuna! Que vurmo sentimental
incicatrizável em todos os sentidos!... Mamãe – dizia quase sempre –
(geralmente por escrito), estes são os remédios de que preciso com urgência.
Vou incluir os de valor pecuniário sobejo. Tenha paciência, pois, não fui eu
quem os indicou... A própria cervicopatia ladeada de osteófitos e outros
sintomas prodrômicos existentes em alguns discos vertebrais em ritmo de
protrusão, fazem com que eu não consiga conter a sanha da imane dorsalgia que
me consome a região das costas, confidenciava-lhe em surdina, quando ia
visitá-la, consuetudinariamente, todas as tardes dos sábados!...
Eis, que eclode, também, uma fibromialgia,
em que os paroxismos sinestésicos despertam mais ainda as consequências
dolorosas das fibras nervosas – altamente sobrecarregadas de comoção
infrene!...
Em seguida, inopinadamente, fomos
surpreendidos pelo fatídico, e, destarte, houve aquela consternação para com a
pessoa querida, que perdemos para sempre, sem que haja laivos que perorem na
percuciente inanição do ser – mesmo estando na condição dos mais fragilizados
dentre os que já vi!
Agora, em companhia do Henrique – seu
motorista de preferência quanto ao ato de fazer as compras relacionadas às farmácias
e aos supermercados. E, de inopino, surde-lhe na mente a premente carência do
“Trusopt” – seu colírio de preferência há vários anos.
Confessou-me, não só uma única vez, o
seguinte: Meu filho, – Wilson, não me dou bem com esses genéricos e similares;
e, então, prefiro os remédios de “marca” – que são patenteados!... Após alguns
minutos de lasso silêncio ansioso, dirigi-me à sua singularíssima pessoa, e lhe
disse: Mamãe – Nély, o que prevalece é o princípio ativo, pois, com certeza ele
é o mesmo em todos. A senhora quer confutar os doseamentos das substancias
componentes?!...
Na época de um tal “FHC” – houve o maior
de todos os derrames de remédios com dosagens adulteradas – adulteradíssimas.
Esses espúrios dos tais três poderes recebiam a notícia com frialdade, uma vez
que, eram atendidos por laboratórios farmacêuticos de altíssima
confiabilidade!...
Com relação ao tal colírio Trusopt,
insistiu com o Oftalmologista Anselmo Filho, que não mudasse... Ele reiterava,
quase sempre, dizendo-lhe: a senhora dona Nély tem um desgaste ou deterioração
no nervo óptico, podendo ou não a vir a perdê-lo a qualquer momento. Tanto
assim, que a senhora minha mãe rezava para Santa Luzia, protetora dos olhos!
Minha mãe querida – conservai a minha visão até os postremeiros dias de minha
vida. E, se for o contrário, não sei o que será de mim, na anuência total da
visão...
As suas orações continuavam surtindo o
efeito desejado – “Graças ao Pai Celestial – Deus Eterno, Misericordioso e Todo
Poderoso, tende piedade de nós e do mundo inteiro”. É preciso rezar esta oração
ao levantar, ao deitar e durante o dia, principalmente quando estamos nos
deslocando pelas ruas...
Enquanto Henrique persevera em ir para
outro local de compra, ela o interrompia para dizer-lhe: Vamos atender a
necessidade de adquirir o Lipomax para o meu filho Wilson Cerveira Marques, o
Farmacêutico, o Biólogo, O pedagogo, o Escritor e o Poeta.
Em seguida, antes que partamos para outro
local, não nos esqueçamos dos seguintes medicamentos; pois ambos servirão para
mim e para Wilson. Vejamo-lo: Vecasten, Daflon etc. Além de utilizar o
“Hirudoid” – na epitetada drenagem linfática, aplicada em todas as academias de
fisioterapia. Por isso que reiterei o que houvera dito priscamente!...
Desse modo, façamos até aqui o somatorial
do montão dos remédios, sumamente precisos para atender as nossas diversas
sintomatologias. Sendo uma delas – sem perplexidade confutatória – a
fibromialgia, a mais recente, já que a cervicopatia vem de muito tempo!...
As dores fibromiálgicas ostentam
paroxismos sinestésicos, não havendo local determinado para a sua localização.
Detecta-se inicialmente na altura dos membros superiores; e, posteriormente,
atingirão todas as regiões anatômicas dos membros inferiores. Adende-se que
dona Nély Cerveira Marques – a minha mãe e Professora Normalista – aparatava
trombose nas veias das pernas, fazendo com que elas permanecessem,
diuturnamente, edematosas.
Com a fratura transtrocantérica – na
ligação fêmur-ilíaco – fora colocada pelo Dr. Roberto Freire uma estrutura
sintética de aço. Houve rejeição do corpo estranho implantado, e ela começou a
apresentar sintomatologias que a conduziram a UTI. Em determinado instante,
confidenciou-me o próprio médico-cirurgião – José Roberto Freire, que a viu
morrer; mas graças a Deus Pai Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, empeçou
tal ocorrência funesta!
Decerto, fico a lamuriar que, na
eternidade, não há relógios prontos para despertar!... Não teve quem a
acompanhasse mais, durante a vida inteira, de que a minha ímpar pessoa. Desde a
idade de sete anos, íamos e voltávamos juntos, sempre em direitura à “Escola
Inácio Raposo”. Dona Nély Cerveira Marques – Professora Normalista, com todas
as letras corroborativas de uma polimatia, isto é, de uma vasta Cultura Geral.
No decurso da vida, em plena sazonalidade,
fomos colegas de turma no Curso de Francês – durante três anos consecutivos.
Também, saíamos, sempre em companhia, em direitura aos consultórios dentário e
médico. Parece que ela prestigiava sempre a minha pessoa, assim como as
qualificações profissionais de: Farmacêutico, Biólogo, Pedagogo, Escritor e
Poeta!
Em plena senescência, prosseguíamos com as
nossas caminhadas matutinas na Lagoa da Jansen – no mínimo duas vezes por
semana. Além do mais, íamos duas vezes por mês ao Banco do Brasil – Agência
Estilo, no Renascença II. Assim sendo, predispus-me ao longo da vida, de modo
intimorato, a segui-la para onde quisesse. Estava sempre ao seu inteiro dispor.
E, destarte, não media esforços nem distâncias, nem ambientes escolhidos
previamente!...
Mais uma vez, em seu silêncio sepulcral,
o número 3235-1107, pertencente ao apartamento 603 do Luma – de sua inteira
propriedade – situado na Rua dos Juritis– está inteiramente revogado, pois seu
toque vocacional feneceu!...
Na época em que o telefone funcionava, a
sua exação encetara a mesma pontualidade, desde o tempo em que ingressara na
Escola Modelo (confronte ao Templo de São João Batista). Ademais, houve uma
refocilada aprendizagem educacional, porquanto a lição de casa era comutada com
os estudos perpetrados em sala de aula. Realmente, esta libração harmônica e
bilateral, sem hesitação, contribuiu para a fixação consolidada de todo um
saber. Os anos ressumbravam – à guisa – o arquétipo, diuturnamente, através do
qual fora assimilado no decorrer dos anos escolares.
Reiterar os capítulos das diversas
disciplinas – sem perplexidade – servem para evocar a importância dos
conhecimentos jamais olvidados!... A senhora minha mãe – a Professora
Normalista Nély Cerveira Marques – indubitavelmente, primava pela organização e
cumprimento integral, tanto no estudo quanto no trabalho. Não sabia protrair o
que tinha de exequir; pelo contrário, adiava o próprio horário de alimentação! Primeiro,
a tarefa a ser executada, e, posteriormente, o regalo da subsistência
castigada!
Após tornar-se octogenária, errou em não
aceitar mais empregadas, muito menos cuidadoras; e avocava para si mesma todas
as azáfamas da casa – alimentação, e, a posteriori, dedicando-se ao ato de lavagem em máquina,
até chegar ao estágio proveitoso da limpeza, expurgando, destarte os ácaros que
se proliferavam de modo exuberante, em todas as direções e sentidos plausíveis!
Finalmente, ela não quis aceitar a ideia
de que os serviços realizados extrapolavam a sua própria capacidade orgânica.
De repente, desequilibrou-se de vez, vindo a sofrer uma fratura
transtrocantérica – no encaixe do fêmur com o ilíaco.
Após a cirurgia e inclusão de prótese de
aço no local, houve por parte do seu organismo uma fortíssima rejeição! Mesmo
na UTI, houve um momento, segundo o cirurgião Roberto Freire, que a vislumbrou
agonizando – como se fosse fenecer naquele átimo. Com as graças de Deus, saiu
da UTI – para o quarto Santa Maria do hospital Centro Médico. E, depois de
receber alta, logo no dia seguinte a sua chegada, veio a fenecer em seu próprio
apartamento – tendo como principal causa, conforme o atestado de óbito, uma
embolia pulmonar!...
Wilson
Cerveira