Lecreu, sem
hesitação, fora o nome que recebera na Pia Batismal. A partir, de então, o seu
fadário aparatava todas as assertivas convincentes. Entretanto, não é o caráter
nominal que predestina o indivíduo. Há um somatorial de fatores intrínsecos e
implexos!
A princípio, o menino Lecreu fora
matriculado na Escola Militar, para que fizesse os cinco anos atinentes ao
Curso Primário. Sabe-se, de antemão, que é um Centro Educacional de maior
referência quanto ao aspecto de formação dos bons princípios, os quais estão
solidificados sob um ética basilar paradigmática. Realmente, aprendera polidez
e etiqueta em seus diferentes enunciados extrínsecos. Contudo, não conseguiu a
sazonalidade de como pensar sob uma diretriz de raciocínio escorreito. Tudo
nele melhorava com o tempo, menos a capacidade de refletir sobre o valor do ser
humano, principalmente quando este se encontrava em momento de perigo iminente.
De fato, Lecreu terminara o propalado
Curso Primário, que era o sustentáculo básico para a continuidade posterior de
todos os seus estudos... Lecreu termina de ingressar no antigo Ginásio dos
Irmãos Maristas, em Recife – Pernambuco. Todo o seu comportamento externo
melhorou muito, no entanto, a sua maneira de pensar e de agir permanece
indelével. Não cede a nada. Tampouco auxilia o colega nos cruciais momentos de
dúvidas. Permanece austero e pedante. Sente-se dono absoluto de todas as
situações ressurgentes. Parece ser sempre dono da verdade inquestionável!...
A sua postura no colégio era de sentar-se
bem na frente dos demais colegas, como se quisesse ignorar os demais. Foi se
tornando um egocêntrico de primeiríssima grandeza. A sua personalidade foi se
degenerando aos poucos. Alguns colegas mais solertes apelidaram-no de “rei da
cocada preta”! Ficava revoltado quando alguém o mencionava através desse
epíteto, o qual ele considerava mais atrevido, para aplicar-lhe um soco no
rosto. Isso só não acontecera devido o colega ser lépido quanto ao ato de
afastar a face da imane probabilidade do soco articulado.
Ao terminar o ginásio foi condecorado com
uma medalha de ouro, ao passo que, sem perplexidade, os demais colegas da turma
a receberam tanto de prata quanto de bronze. Aí, indubitavelmente, medrara o
mais sórdido de todos os sentimentos – a inveja!
Nesse caso, seria necessário utilizar a
psicoterapia junguiana. “A análise junguiana trata da alma das pessoas como uma
renda”, define Dulce Helena Briza, psicóloga analítica e membro fundadora do
Instituto Junguiano do Paraná e do Instituto de Psicologia Analítica de
Campinas (SP). “Trata-se de uma viagem pelo desconhecido, o inconsciente, que
por meio de mergulhos em camadas mais profundas retira o ‘ouro’ para uma vida
mais saudável e produtiva”.
A psicóloga junguiana Viviani Burke
complementa que o principal objetivo da psicologia analítica é auxiliar o
indivíduo no seu caminho rumo à individualização, já que para Jung, desde que
nascemos, ingressamos neste processo individual de autoconhecimento, da busca
por si mesmo e da sua verdade essência. Eis, então, que busquei este ensaio
para dar-lhes melhores dilucidações acerca de um processo psicanalítico de
altíssima complexidade.
Em alguns momentos, explica Viviani Burke,
a pessoa pode se desviar desse caminho de individuação por conta de angustias,
medos, insegurança, bloqueios e transtornos, logo, o papel da terapia analítica
é auxiliar o indivíduo a lidar com os seus conteúdos inconscientes, trazendo-os
à luz da consciência para que estes sejam compreendidos, ressignificados,
integrados e, com isso, desenvolva a sua individualidade e tenha uma vida,
reiteradamente, mais autêntica, equilibrada e saudável.
Lecreu, portador de uma esquizofrenia
paranoica, prossegue com a ideia de ser sempre o primeiro aluno da turma,
independente de quaisquer concorrentes. E, realmente, fora nesse ano de 1965. O
ginásio dos Irmãos Maristas lhe atribuiu uma medalha de ouro, contendo o
seguinte dizer: “Honra ao Mérito”. De fato, alcançara o primeiro lugar da turma
em todas as matérias. Fora um exemplo salutar para todos os seus colegas. Os de
maior invídia, ficaram tristes com esse resultado individualista.
A linha do Lecreu encetou a ter uma
predestinação edificante, pois – a maioria – não acolheu o resultado com
aprazimento, já que ele parecia mais uma evidência em pessoa, querendo eclodir
em quaisquer situações, como sendo o resolutor de todas as circunstâncias
reinantes.
Agora mesmo, tendo o seu lugar assegurado
como o primeiro aluno da classe – garantiria banir as suas imanes azáfamas
neste imbróglio vital !...
No ano seguinte, começou, então, o
Científico, pretendendo avançar muito mais com os seus projetos, uma vez que,
com a desmedida ambição, pretendia fazer um curso superior de destaque entre os
que, também, almejavam galgar um lugar ao sol – destaque de disputa invidiosa.
Roberto, o mais displicente, requeria a
prestimosidade da besta, pois não conseguia, isoladamente, vencer e ultrapassar
todos os óbices que lhe serviriam de problemas irresolúveis durante a vida de
trabalhador incansável!
O dissimulante e discente Lecreu, de modo
insofismável, permanecia com suas falcatruas recrudescentes. Quando tirava uma
nota mais baixa, persuadia o professor, de tal modo, para que fizesse uma outra
prova com ele, ou, nesse caso, uma arguição oral. Pois, a sua intenção era
manter-se sempre na vanguarda. Queria ser sempre o monitor. Os demais, por mais
que não quisessem viriam na retaguarda. Destarte, vinha, pouco a pouco, se
fechando sob o comando dos preceitos egocêntricos. Se existissem incômodos,
decerto, estes pertenceriam a outros elementos invidiosos.
Incorre que o egocentrismo é o maior de
todos os males preconceituosos. A pessoa vive, inteiramente, em função de si
própria. Tudo que ela aparata é superior aos demais indivíduos. Sente-se,
então, dona do orbe. A sua convivência, sobremodo em internatos, é deletéria
sob todos os pontos de vista. Até a sua maneira de olhar reflete superioridade.
Quando tira uma fotografia acompanhada com outras pessoas, suprime as demais,
só enxergando a sua própria pessoa. E, também, quando se põe defronte do
espelho, ladeada por dois elementos, elimina ambos, ficando apenas com os seus
traços fisionômicos na memória. Desperta, igualmente, apenas comodismos. Tudo
se torna causa de reclamação constante. Quer ser sempre o vencedor em todas as
situações reinantes. Não admite divisões, pois somente o inteiro a ela
pertence. Nas congratulações, cabe-lhe a maior de todas as dádivas. Tem sempre
alguma cousa para adendar ao acerto registrado. Não admite correções, de
hipótese alguma, tampouco repreensões de terceiros.
Finalmente, o acadêmico de Medicina –
Lecreu --, após tanta procrastinação, colou o grau na profissão que abraçara.
Daí, por diante, teria que se submeter a vários cursos de especialização –
tanto aqui no Brasil quanto na França. Escolhera como paradigma a psiquiatria.
Num mundo em que há milhões de deprimidos e outros tipos de patologias
associadas ao sistema nervoso, jamais poderia expungir do seu diário essa extrema
necessidade de ajudar a todos, sem exceção, que sofrem desse arquétipo de
conturbação nervosa.
Após trinta anos de atendimento diário,
não haveria meios de prescindir os estudos correlatos desses imanes óbices do
sistema nervoso, conduzindo esses pacientes a um período de internação
prolongada.
Entretanto, o Dr. Lecreu adquirira um
péssimo hábito, provavelmente, em decorrência do seu próprio descalabro –
denominado egocentrismo em grau maior. Tudo refletia em si: das pequenas a
grandes cousas. Sentia-se dono das boas e más coisas, não importando o quanto
tempo iria despender para amainar desproporcionalidades e desatenções
exacerbantes!...
Quiçá, o Dr. Lecreu congregasse em sua
pessoa duas graves patologias: abulia e aprosexia. Nesse caso, o esburnimentos
ou má vontade vinha somatorizar-se a cabal desatenção para com o que estivesse
ocorrendo ao redor de si próprio. E as demais patologias que reunia em seu
organismo, o qual já vinha sendo orquestrado por uma baita depressão nervosa!...
Em
que pese ser Ortopedista, não atendia a desastres automobilísticos. Somente,
quando a colisão se dava com o automóvel dele. Isso ressumbra o quanto era
egocêntrico e de má índole. A sua maior preocupação não estava com a pessoa que
vinha dirigindo o outro carro; mas com o prejuízo financeiro que lhe seria
imposto pela oficina mecânica. O máximo que poderia fazer era o de encaminhar o
homem do volante para um Pronto Socorro mais próximo, para que ele recebesse os
primeiros atendimentos emergenciais.
Na
casa do Traumatologista o que não faltava eram diferentes modelos de veículo.
Numa família de quatro pessoas, havia uma completa correspondência biunívoca.
Outrossim, até o caseiro ganhou como presente de aniversário um carro.
Aos domingos todos se dirigiam a uma
chácara distante, que era de inteira propriedade da família, desde o tempo do
seu bisavô paterno.
Cada qual ia no seu carro. Tipo de
megalomania excrescente. O postremeiro veículo a se deslocar da imane garagem
da mansão, sem perplexidade, era o do imponente Ortopedista egocêntrico. As
vidraças do carro davam uma tonalidade de cor hermética. Além de tudo, gostava
de óculos de lentes bem escuras. Desse modo, nada se vislumbrava ao derredor.
Decerto, a lobrigação se tornava extremamente difícil. Os fatídicos passavam-se
despercebidos. De fato, o tal do Médico ególatra não atendia sequer nenhum
vocativo. As pessoas iam morrendo tragicamente, sem que houvesse atendimento
médico. Poderia morrer a senhora mãe do Ortopedista, e, mesmo assim, ele se
comportava como um lídimo xenófobo. A partir de então, tornava-se mouco, perdia
a visão e a voz, de maneira sorrateira.
Num determinado domingo, de modo
inopinado, houve um terrível desastre – à margem do caminho – fatalizando
minutos depois, sem que ele soubesse, a mulher e os filhos do Médico. O seu
telefone foi acionado uma série de vezes, por um vizinho que conhecia a família
do Médico. Realmente, ele perdia, somatorialmente todos os membros de sua
família: a esposa e dois filhos de menor idade. Tinha por cronicidade um péssimo
hábito: “O telefone poderia tocar desesperadamente, mas ele nunca atendeu de
modo algum. A sua omissão fora responsável pelo não socorro, após o sinistro.
Se houvesse atendimento de imediato!... Realmente, não houve socorro
emergente!... Caso tivesse havido, livraria a mulher e o casal de filhos da
morte!...
Como se podia elucidar o ato de viver num
orbe, notadamente, na urbe, onde as pessoas são insensíveis e indiferentes. Se
o Traumatologista agia assim com os seus próprios familiares, como se poderia
divagar o pseudos paradigma com relação aos estranhos!...
A predestinação veio com todos os ardores
infernais. Pois, somente um indivíduo satânico poderia se comportar de uma
maneira acerba e com todas as premonições nequiciais. Sobremaneira, sem
hesitação, acatar-se-iam todas as iniquidades mundanas!...
Wilson
Cerveira Marques