quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O PATOLÓGICO DESLIGAMENTO

A mídia, em sua desfaçatez sem estremaduras, parece inevoluir a cada dia, propiciando contatos imediatos e, às vezes, instantâneos, independendo das distâncias consideradas. Tem-se a especiosa impressão de que o polo Norte intersectar-se-á ao polo Sul, fazendo com que as diagonais dos mapas se apropinquem quanto a uma possível direitura convergencional, estando falaciosamente sobreposta com relação aos díspares ângulos herméticos.
     As pessoas, em verdade, descomunicam-se por cabais intermediações desperceptivas, as quais são geradas por inúmeros percalços, funcionando quase de modo esfíngico para determinadas circunstâncias ininteligíveis. Os objetos eletrônicos chamam-nas através de formas diversificantes. Premoniciam-se toques com tonalidades acústicas diferentes – do som menos agudo ao mais estridente. E, todas essas perfunctoriedades cibernéticas funcionam diuturnamente, quase sem exceção, obedecendo ao compasso de uma abstracionalidade abrupta, de forma adrede e de maneira tendenciosa, visando o estado de perversidade irreversível etc...
     Há recursos cibernéticos para escolha particular do preferencial colimador. O usuário do aparelho determina o átimo de enviar, na condição de incipiente expedidor, os anúncios de voz ou de texto, com o escopo precípuo de atingir ao destinatário. Mesmo assim, o patológico desligamento recrudesce intervindo negativamente, no que concerne ao obicioso retorno parafraseante de um inusitado arauto, quase parábola, como redarguimento de premência!...
     Tu, Frenesita, tens os dedos nos gatilhos cabalísticos das cúspides em frenesi. Desde então, remanesce o perquirir de como perpetrar a manipulação quanto ao uso exclusivo dos dedos da mão direita, quando tentam remeter a consubstanciosa mensagem de voz, numa fonética lascivial a toda prova de percuciente especulatória. As passo que, em cabal intumescência epidérmica, com os dedos da mão esquerda, arremessas o estrugido, laborado pela madidez da cúspide de um hemiphalo, que é comandado pelo timoneiro da nau capitânea.
     É de muita perplexidade ressumbrar o autor da imputabilidade do abstruso desligamento. As caixas de mensagens continuam escancaradas. O remetente decreta, então, a vacuidade progressiva, mas com caráter prorregressivo. O tempo, no caso, torna-se inexorável em toda sua adimensionalidade.
     Neturino sofre de um sindrômico cognominado, genericamente, de patológico desligamento, no qual o individuo sente o mórbido prazer quando estorva o funcionamento dos seus aparelhos tecnológicos. Desse modo, interrompe a comunicação com o parceiro que tenta, de alguma forma, participar-lhe os laivos de uma noticia alvissareira.
     O dono do instrumento midial quer apenas sentir-se envolvido pelo clima da falaciosa interlocução. Para ele, em todos os sentidos da plausibilidade, tudo se torna indiferente tanto na recepção quanto na transmissão do arauto; por mais desiderato que possa causar no decurso da ansiedade depressiva do outro, principalmente daquele que enfrenta a prolação do tempo – espaço suficiente para promanar a fatídica volúpia do aborrecimento.
     Também, pode ocorrer a supersaturação auditiva, sobretudo no interregno, em que o indivíduo despercebe inintencionalmente o vocativo toque de acionamento da mensagem que emerge no visor do dispositivo móvel, de maneira rompante, não conseguindo a ressumbrática visibilidade dilucidativa – “se é de texto ou se é de voz” – ou ambas – podendo apresentar obliteração no decurso de vários esquadrinhamentos, abrangendo as adesões de outros inusitados pregões somatoriais!...
     Hodiernamente, parece ser normoanormal a atitude de inumar, segundo o Jeremias, os números telefônicos repassados. A morbidez de fazê-lo concretiza e conivencia, somatorialmente, aduzindo às condições exigidas por aqueles que ostentam esse tipo malévolo de comportamento estropiado.
     Os sujeitos remissos costumam, às vezes, absconditar o próprio aparelho, recolocando-o randomicamente em local inopinado; e, nesse caso, o sepultamento é completo, abrangendo o dispositivo móvel, de maneira cabal, – como se houvera --, de fato, perdido!... Pelo contrário, o instrumento tecnológico é resgatado através da disponibilidade proporcionada por outro mobile!...
     Às vezes, o sujeito se recondita em perfil extra telúrico, obiciando quaisquer probabilidades de se comunicar com os presumidos elementos. Eis, então, os sensacionalismos provocados pela volúpia de um especioso desaparecimento – jamais consignado nas laudas de canhenhos criptográficos!

                                                          Wilson Cerveira


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

NO HODIERNO NÃO HÁ IDADE PARA DEGENERESCER

     Nos tempos de “Antanho”, ou, em tempos priscos mais recentes, para não ser antinômico contundente, exarava-se o desiderato, – do mais perfunctório ao mais percuciente, – demandando aplica-lo, posto que fosse de etiologia meândrica, de maneira premente. E, destarte, poderíamos vaticinar as ações e reações sob vários prismas – num equacionamento consoante aos diversificados circunstanciamentos presentes no organismo em reexame, tendo por fulcro basilar e imprescindível a faixa etária esboçada.
       Hodiernamente, as mutabilidades comportamentais incursionam-se em quaisquer direituras, infringindo até as premonições cominatórias. Há, então, um total desrespeito com relação aos sistemas normativos a serem seguidos – na condição de medianeiros sistemas, com alternatividade normativa, com relação ao modo de assunção dos condescompromissos patologicamente desassumidos nestes sorumbáticos átimos hodiernos, em que, – de forma desventurada – imputam o preceptor promiscuindo-o cada vez mais, não estabelecendo faixa etária para o cabal degenerescimento!...
     Os erros estão sendo somatorizados ao largo, como também reiterados a cada passo temporal, não oportunizando a recriação de inusitadas ensanchas refocilizantes! Assim sendo, as atitudes não ensejando comutações convincentes ou não – de conformidade com o parecer predeterminado. E, bem mais sem meios de cotejamento, marcham em ordem decrescente os milênios, as centúrias, anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos!...
      A criança não alcança à manutenção das fieis características de sua puerilidade. Esta pueril criatura não assiste aos programas correlacionados ao período vital ressumado. Todas as suas atitudes estão atreladas à fase adulta. Talvez, quem saberia dizer as causas dessas demudações imprevistas?!... A omissão, no caso, propiciaria variegados descaminhos em direitura aos pródromos etários!
      Também o adulto pode apresentar atitudes infantilizadas, caso não tenha se sazonalizado suficientemente, em decorrência de alguma anomalia segregada desde o período primicial – sem que houvesse uma profilaxia de obiciamento!...
     A puerilidade abscondita-se como forma de ser ressumbrada por alguém, no decurso de um espairecimento; enquanto o adulto demanda um valhacouto, a fim de que possa alvitrar o valor do resgate, que é o exatorial da pecúnia devida a outrem!
     Decerto, está havendo combalimentos no encetar da base educacional. E, desse modo, a volubilidade surde e grassa em todas as vetorialidades do etológico. Tanto assim, que a perpetração do correto – no ano prisco --, pode não se reiterar no ano seguinte (simbolizando o crástino recente).
     Sem motivação existencial, as lembranças se apresentam natimortas em circunstâncias fortuitas. Não se consegue detectar o local certo da sinestesia, já que se recôndita na inermidade da matéria sem cerne de manifestação vital. As brumas ofuscam as reticências dos variegados fulcros nevrálgicos, que traçam as retas intercruzantes atreladas aos meandros das insolucionáveis problematizações.
     Um homem de quarenta e oito anos, correto em seu modo de proceder, passou à abjeta condição de capadócio, sem que percebesse o mau caráter que lhe fora implantado, embora não costumasse a aparatar esse tipo esdrúxulo de degenerescência mais-do-que corroborada em dias priscos, onde ainda se reminiscência laivos de virtude na extensibilidade do comportamento aparentemente ilibado.
     O insidiador ergastula-se no intrínseco do caráter recessivo, e esse mesmo indivíduo aparata ressurdir do nada – ostentando as armas empunhadas! De repente, lacerando a taciturnidade da solidão, escuta-se o estrugimento de um disparo de uma pistola automática, sendo direcionado ao seu melhor amigo, ceifando-se, abruptamente, a vida sofrida – de maneira contundente e enigmática!
     Uma atitude louvável, praticada no hoje, pode ser totalmente revogada por outra, de modo sutil e infensa, com características ignominiosas – requerendo exprobrações prementes, com o intuito exclusivista de regeneração das deliquescências renascidas do cabalístico. Tanto assim, no sensato dilucidar, devamos examinar o Eclesiastes 3:12 – “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus. Tempo para nascer e tempo para morrer”.

     A deseducação tem sido o frivolitismo fulcrucial, nesta hodiernidade, para que, deveras, não haja idade para degenerescer. E, desse modo, crê-se que as criaturas tenham a devida necessidade de ser reeducadas constantemente, pois não foram educadas de maneira consolidada. Demudam-se, de modo estarrecedor, de forma vertiginosa, podendo ostentar vários tipos heteróclitos de metamorfoses degenerativas irreversíveis!... Caso seja adquirida nas primícias da vida, a única herança que remanesce até o postremeiro átimo vital, cognomina-se peremptoriamente de educação!...

                         Wilson Cerveira

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

FAZ UM ANO SEM DADÁ

     Muito dificilmente, em dias de acrimoniosa crucia, alguém teria a primazia não só de conhecer Margarida Silva, mas de tê-la ao seu lado, estando sempre disposta a atender quaisquer solicitações que a ela fossem feitas. E essa generosa criatura fora batizada – constando tanto no batistério quanto na certidão de nascimento – o nome de Margarida Silva (Dadá). Observando o necrológio depreendem-se plenamente os motivos que me levaram a chamá-la de Dadá. Reitero, e jamais sofreria qualquer exaustão em exarar o seguinte: “tudo o que eu lhe pedia, – por mais difícil que parecesse a todos --, ela conseguiria, após algum tempo, se bem que lhe custasse uma estrênua propugna acirrada”.
     Estava ela presente no momento do meu nascimento, em que eu fora colocado numa banheira de porcelana contendo uma série de peças de puro ouro – colares, pulseiras, anéis etc – para que uma ligeira ablução, minutos após a aminha expulsão do útero materno – naquela madrugada de vinte e cinco de dezembro de mil novecentos e cinquenta e três, precisamente quando o relógio de pendulo assinalava 3h:15mim:22s – e que a partir daquele átimo celebravam-se dois natais – o de Jesus Cristo, filho de Deus Pai; e da simples criança que era eu mesmo e que traria o nome de Wilson Cerveira Marques.
     Dadá, decerto, fica sabendo de que não me esqueci dos favores que me prestaste, desde as primícias da minha tenra idade, colocando em movimentos repetitivos os brinquedos de corda – dos mais requintados, – os quais eu recebia do meu avô Marcial –, que os comprava todas as vezes que vinha a São Luís (tendo como local de hospedagem o vetusto “Hotel Ribamar”) situado na esquina do “Beco da Pacotilha”, localizado num dos sobrados de Antanho, talvez o primeiro que fora erguido no mesmo renque dos demais casarios da Praça João Lisboa.
     Margarida, a prestimosa Dadá, desobstruía as cordas de alguns brinquedos; e, ao mesmo tempo, aplicava corda nos que se encontravam inermes, mergulhados nas penumbras alojadas nos cantos das salas e quartos, nesgas onde se achavam esparsos esses objetos fabricados pela tecnologia laborativa da metade do século XX, aproximadamente no interregno da década de 1940, e, de também na peroração dos anos de 1950.
     Tu eras de tanta confiança, que a senhora minha mãe, Nély Cerveira Marques, permitia que me levasses até a praia de banho. Lá chegando, não me soltavas um só momento dos teus braços. E, em caso de banho, prendia-me numa das mãos, deixando a outra livre, para que eu pudesse brincar um pouco com a areia da praia, construindo pequenos montes,  como se fossem abrigos para armazenar brinquedos de pequena expressividade, valhacoutando-os da ação esquálida do sol -- no decorrer do tempo de exposição aos raios ultravioleta.
     Os papagaios de papel ou pipas, se erguiam através de metros de linha, alcançando considerável altura na atmosfera. De quando em quando eram cortados perversamente por sujeitos que usavam uma goma de tapioca contendo fragmentos minúsculos de vidro socado em pilão de madeira.
     De longe, Dadá, de modo apreensivo, percebia os meus alaridos de aborrecimento e o meu choro convulsivo clamando pela presença dela com urgência. Não haveria dúvida quanto a sua chegada repentina ao local. Vinha acompanhada de tesouras graúdas portadoras de lâminas cortantes. E, sem pedir vênia ia cortando as linhas de pipas pertencentes aos demais brincantes. Todos ficariam sem os artefatos de empinar; e, sendo assim, tudo partiria do zero, decretando, com certeza, um prejuízo generalizado para os aficionados. Todos os moleques a respeitavam, pois conhecia seus familiares. Então, esses provocadores se acalmavam diante do sucedido, e nada diziam.
     Às vezes, portava um pequeno chicote na cintura e um pau, de aproximadamente 100 cm, para aquebrantar os mais afoitos ou, então, muito dificilmente, amainar o ímpeto de algum outro sujeito que mostrasse valentia, no momento em que a agressividade falava com fremências de loba faminta e sem controle, pronta para mostrar as falhas do domador no ato de ministrar-lhe certa educação comportamental.
     Em tudo, sem pestanejar, ela estava pronta para atender-nos – do café ao serviço mais incomodativo e pesado. De fato, foi feita para carregar o fardo até o calvário peremptório de nossas existências consumadas!...
     Sempre fui castigado por alguma morbidez orgânica. Caso estivesse doente, fazia questão de passar a noite inteira deitada no chão, debaixo da minha rede de lona, estendendo a mão sobre a minha coluna vertebral, estando eu em decúbito dorsal. Ia e vinha, passando suavemente os dedos em cada vértebra do meu esqueleto, indo da primeira cervical até a postremeira, que é a coccígea. A reversibilidade se fazia algo necessário; tanto que, na minha exação, eu não admitia um só sentido, uma só direitura como forma definitiva e irreversível! Exigia ambas as mãos, sem cessar, durante um interregno temporal de, no mínimo, trinta minutos. E, assim, com a musculatura do braço lânguida, Dadá não media esforços em permanecer debaixo da rede, enrolada num lençol de pano grosso, como se estivesse sempre de plantão, pronta para qualquer “choramingo”. Tornaria a realizar a mesma tarefa anterior, com a mesma satisfação, conduzindo-me a um próximo período de sono, a fim de que a madrugada se completasse em toda sua extensão, e, consequentemente, o dia raiasse sob a intensidade de um sol convidativo quanto ao ato de aprestar a condição de despertar do estremunhamento.
     Ali, nada mais era que o antigo restaurante do Bairro do Filipinho – o de esquina – o principal em relação aos demais. As árvores, ao longe, após o muro confronte, reminisciavam as penumbras lúgubres que se reconditavam ao redor do arvoredo que compunha o pomar da casa do meu avô paterno – Marcial Ramalho Marques, em Alcântara. Ele era um homem guerreiro por natureza, pois simbolizava o aparatoso “Deus da Guerra”, em sua magnitude extra exponencial, sem pestanejar com relação a quaisquer estremaduras reinantes!...
     Quando eu era criança, tive que pagar uma promessa feita pela senhora minha mãe – Nély Cerveira Marques – ao glorioso São Benedito. Ao meu lado, disposta para qualquer auxílio imediato, encontrava-se Margarida Silva, a minha querida Dadá, pronta para carregar-me durante uma boa parte do percurso realizado pela procissão, festejada solenemente e em ação de graça ao aniversário do miraculoso santo. Sim, não tínhamos perplexidade, que foi ele que me pôs curado, depois de sucessivas preces fervorosas feitas pela senhora minha mãe, quando se prosternou aos pés do glorioso São Benedito – de modo obsecrativo!
     O fogão de lenha mal recebia as primeiras madeiras apodrecidas, para que o fogo ateasse mais rápido. Dadá olhava para o céu aflita, pois naquele dia eu viria em companhia da senhora minha mãe, para São Luís do Maranhão, através de um frete feito pelo meu avô Marcial, com a autorização da “Companhia Aérea Aliança”, com a finalidade de vir até o campo de pouso de Alcântara, um dos seus vários teco-tecos; talvez o do experto piloto Galdêncio, a mesma aeronave que fazia linha com a cidade de Guimarães, já que tinha um contrato assinado com os padres e freiras canadenses.
     Se o avião estivesse com o horário previsto para às onze horas, subíamos em direitura ao campo desde às nove horas da manhã. De fato, ela me acostumou com muito mimo; tanto assim, que não hesitava em carregar-me, de modo árduo, nos ombros, levando-me satisfatoriamente, transpondo os cômoros da ladeira da Rua das Caravelas, tomando, de maneira definitiva a estreita senda que dava acesso ao improvisado campo de pouso, -- quase sempre cheio de bois e cavalos --, que impediam a aterrissagem, fazendo com que o avião monomotor sobrevoasse diversas vezes a cidade histórica de Alcântara do Maranhão, sobremodo o espaço compreendido entre a Igreja do Rosário e o tal campo de pouso, bastante arriscado!...
     Assim, daria tempo suficiente para que os enxotadores de animais os banissem daquele interregno reservado para esses pequenos aparelhos voadores.
     Se eu fosse contar toda a história de Margarida Silva, a extraordinária e imprescindível Dadá, teria, no mínimo, que compor dois volumosos compêndios. Ela, realmente, era uma criatura generosa e de uma prestabilidade insólita, não sabendo dizer “não” a ninguém, conquanto não conhecesse bem a pessoa que estava lhe pedindo algum favor. De qualquer maneira, fazia-o, quase sempre de graça, pois não estipulava preços nem tampouco especulava interesses de ordem pessoal!
     Margarida Silva, a minha Dadá, foi um exemplo de criatura cristã a ser seguido neste mundo cruento, no qual as desvirtudes e as deseducações passaram a imperar em todos os recantos do planeta – Terra, não obedecendo as linhas poligonais de um excêntrico sistema vetorial descaracterizado em sua terminologia, onde direção e sentido não perfazem a lídima direitura almejada ao longo da trajetória apenas pontilhada de perpétuas saudades, já que nos dizeres do egrégio Coelho Neto, -- “a eternidade é um oceano sem praias”.


                                          Wilson Cerveira

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O PSIQUIATRA E O PSICOPATA -- PARTE III

     Se conseguisse apossar-se do prontuário, Noberto recorreria ao “Tribunal de Justiça”, requerendo através de processo o agrilhoamento do Psiquiatra Eriberto, uma vez que todas as ressumbrações do seu estado de saúde estariam sendo inverídicas. Não passariam de calúnias, injúrias e difamações contra a pessoa do Noberto.
     A partir de então, todos os que souberam do ocorrido, amiúde, por intermédio da “Mídia”, passaram a tachá-lo de louco. Fora só uma experiência amaríssima, visando estudar a diferença existente entre os que se encontram tanto no interior quanto no exterior do “Manicômio Santo Antônio”, valhacouto destinado aos que precisam de ajuda para recuperar as disfunções de natureza psíquica.
     A protótipa liminar do juiz Dr. Schangrinolle Cuertis, sem a presença de outras digressões, foi a de impetrar a formação de uma junta médica – de no mínimo cinco psiquiatras, – que viriam de países diferentes --, e que colaborariam na dirimição do imane simulacro sindrômico.
      Noberto apresentaria as provas testemunhais que obiciassem a atuação do psiquiatra – Dr. Eriberto –, nos diversos prismas das ciências médicas abrangentes às disfunções neuropsíquicas. Destarte, a ética ampararia o profissional até o ponto em que estivesse em sã-consciência. E os testemunhos e as testemunhas requestariam a cassação de profissional, aparentemente aparatando uma pseudo normalidade, mas com diploma registrado no CRM (Conselho Regional de Medicina). Mesmo assim, o órgão de classe não teria pujança suficiente para deixá-lo, por tempo indeterminado, cometer várias arbitrariedades, redundando em crassos erros médicos!
     Quem diria que o Dr. Eriberto tivesse a capacidade de reunir em si mesmo ambas as atribuições – de psiquiatra e de psicopata. E, quanto ao relato dessa postremeira ressumbração, tudo ficaria mais implexo, jamais poderia clinicar nem auto clinicar; pois, estaria sendo vítima incondicional de uma insânia progressiva, já que ostentaria as obnubilações devidas, sobremodo as que o levassem à condição sorumbática de paciente de si mesmo, não importando os distúrbios verificados naqueles que estariam, possivelmente, ao seu redor, desde aquele período primordial da vida, em que inaugurara (coligindo os combalidos meandros atrelados aos vetores resultantes) o dessentimento involutivo das estesias consumadas.
     Noberto, até então, não declinara o seu grau de instrução nem tampouco os motivos que o aduziram ao manicômio. Talvez movido pelo tresvario ocorrendo em aberto lá fora. E, nesse caso, foi à cata do silêncio causado pela ação concomitante dos efeitos produzidos pelas substâncias psicotrópicas e entorpecentes – no interior dos diversificados organismos, divergindo quanto aos díspares graus de recrudescimento das resistências do sistema imunológico, já em estádio de debilitação a meio caminho das reações bioquímicas ocorrentes!...
     Em seu relatório, o Promotor de Justiça resolvera exarar que era, de fato, – Noberto Gumesino, e incluía todas as minudências colhidas por ele mesmo, em suas buscas constantes nos armários, nas gavetas da escrivaninha e nos escaninhos das estantes que pertenciam ao psiquiatra – Dr. Eriberto Casioto, que, na concepção do Gumesino, não representava uma só efígie, mas um duplo ícone – sendo simultaneamente uma baita imagem fusionada de um psiquiatra psicopata.
     O médico especialista, que tinha o sobrenome de Casioto, passou a noite inteira insone. Não sabia concatenar as ideias que lhe vinham aos borbotões à mente. A síndrome delírio-alucinatória apoderou-se do psiquiatra, deixando-o demudado. A sua fisionomia parecia uma geena, pois todos os pensamentos demoníacos eram-lhe impressos de modo obsessivo.
     Não havia noite que lhe proporcionasse alguma letargia, tampouco assistiria ao seu próprio estremunhamento. O tremeluzir da velha lamparina não impedia que o provecto médico vislumbrasse o descortino da protótipa luz nascente do dilúculo, antes mesmo que o juiz arbitrasse o dia em que seria julgada a sentença, cujo processo foi instaurado pelo Noberto, que era um Promotor de Justiça atrelado aos moldes da competência e do relacionamento saudável, facilitando, desse modo, o açodar do trâmite da questão, a qual já se fazia sentir em seu amago mais contundente.
     Dr. Eriberto, em sua tacitez angustiante, tomava café e fumava, de instante em instante, desbragadamente. Logo, sem hesitação de maior monta, dava-nos a falaciosa impressão de que resolveria as questões pendentes e as interpelações feitas no decurso impiedoso de várias centúrias, mesmo no aparato das mais rebuscadas tecnologias, sobremaneira as que ressumbrariam os diferentes e complexos mecanismos dos órgãos internos!
     Reitera-se que o Noberto Gumesino precisaria congregar todas as provas necessárias para o momento em que o seu advogado de defesa fosse vocacionado pelo juiz, para que pudesse prestar as devidas delações, e que sustentariam as proliferantes calúnias, agravando ainda mais os erros perpetrados pelo médico psiquiatra.
     Assim, com muito denodo, obteve os mais lídimos testemunhos. De igual maneira, sem tergiversações excrescentes, o promotor de justiça – o ínclito Gumesino --, teria que ser estrênuo ao máximo, a fim de que não permitisse a evasão das práticas mais contundentes e aberrantes, desde que esses deletérios foram perpetrados através da má fé exercida pelo profissional da área de saúde, no âmbito em que concerniria  aos possíveis controles dos distúrbios mentais, os quais viessem se recrudescendo paulatinamente nestes dias de hodiernidade volubilizada, onde as atitudes se convergem para o adimensional campo das agressividades máximas, surdidas abruptamente, sem que houvesse o mínimo motivo aparente, para que esses capciosos argumentos fossem justificados em princípio!
     A partir do terceiro mês de internação, Noberto guardava consigo os diversos frascos contendo uma média de dez a quinze produtos medicamentosos, todos etiquetados com as devidas indicações escritas com letra minúscula e legível, cabendo numa estreita  faixa de papel branco, a qual cingia cada depósito, caracterizando o prescricional médico, abrangendo o nome comercial e químico do remédio, juntamente com suas respectivas dosagens e estabelecidos horários, a serem obedecidos rigorosamente.
     Segundo o Promotor, Dr. Noberto Gumesino, após compulsar muitos manuais de ciências médicas, chegou á ilação de que algumas dessas substâncias medicamentosas serviriam, temporariamente, como paliativos e placebos!...
      O paciente tomava-as na convicção de que eram constituídas por eficazes propriedades terapêuticas. Ledo equívoco, então, se formara ao longo do tempo das diversificadas pesquisas científicas!
     Dr. Eriberto Casioto aprendera, no interior de onde residia, a manipular as consagradas pílulas de erva-de-bicho, recobrindo-as com farinha de trigo. Representavam algo mágico, e se tornaram legítimas panaceias (drogas que servem para a cura de todos os males). Comportava-se mais como um intrujão, com todas as letras maiúsculas, olvidando por completo a ética a ser cumprida durante o exercício da profissão de médico, com especialidade direcionada ao setor da psiquiatria!...
     Ainda, para não obliterar, aplicava o óleo de rícino(chamado de azeite de carrapato, pois é extraído da semente de mamona, que se verossimilha a esse referido animal quanto ao aspecto externo). Dizia que o laxativo servia para expurgar os resíduos tóxicos que remanesciam na intimidade das células componentes, estando atrelados aos emaranhados interstícios presentes nas múltiplas vilosidades intestinais.
     Os aparelhos de receptação das imagens do psiquiatra, em seus diversos procedimentos, estariam todos arquivados nas microcâmeras e nos demais instrumentos de reprodução, servindo como meio fac-simile do eco, que é gerado pela labiação dos fonemas, separadamente, formando sílabas ou, então, na conjunção de frases, períodos, orações, sentenças e demais expressões derivativas do pensamento, só faltando a cabalística máquina portadora de mecanismos capazes de fotografar, de modo lídimo, todos os criptogramas das mais engenhosas evagações oníricas!
     Naquela manhã, o Dr. Noberto Gumesino adentrou ao manicômio como se fosse um mendigo a ostentar várias síndromes neuropsíquicas acompanhadas de fases intermitentes. Cogitava-se, pouco a pouco, que o paciente melhoraria quanto aos diferentes tipos de parestesia, assim que fosse submetido aos tratamentos de psicoterapia realizada em grupo. Ou, então, pelo contrário, o seu escopo era o de colher informações sobre as muitas denúncias recebidas sobre a atuação e o comportamento do médico psiquiatra – Dr.Eriberto Casioto.
     A refrega encetaria a partir do dia seguinte, e os entreveros estariam à mercê das circunstâncias subitâneas. O juiz, ao assentar-se na cadeira principal, ornado de toga, borla e capelo, necessitaria com premência a composição dos elementos que fariam parte da mesa (promotores, advogados de acusação e defesa, assim como os demais membros integrantes da defensoria pública).
     O psiquiatra Casioto estava sendo interpelado na condição de réu primário, com direito de defesa por parte de seu advogado Ptolomeu Catenus. E, assim sendo, a cena ultrajosa vinha se reiterando com o transcorrer do tempo inexorável!...
     O meritíssimo juiz – Dr. Schangrinolle Cuertis foi lacônico em exarar o seguinte veredicto: (“O Senhor Dr. Eriberto Casioto está, a partir deste momento, impedido de exercer as suas funções de médico psiquiatra”). Vossa pessoa tem sido acusada constantemente quanto à prática contumaz de erros médicos estapafúrdios! Decerto, solicitarei ao Conselho de Medicina a cassação do seu diploma, de modo irrevogável!...
     Num descuido por parte dos seguranças do Tribunal, o psiquiatra não hesitou em puxar do bolso interno da calça uma bereta alemã, para, em seguida, detonar, certeiramente, três tiros. O primeiro ceifou a vida do juiz; o segundo, a vida do promotor de justiça, enquanto o terceiro disparo, á queima roupa, deu cabo definitivo à sua própria existência, anulando, de maneira peremptória, o processo judicial!...

                                            Wilson Cerveira