quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O NECROLÓGIO DA PROFESSORA NORMALISTA - NÉLY CERVEIRA MARQUES



     Sim, minha futura mãe – Nély Martins Cerveira veio de Alcântara para São Luís –MA, no segundo semestre do ano de 1940, com o objetivo de prosseguir os estudos iniciados na vetusta Escola Primária de Alcântara – cognominada de “Régia”.
     Ao chegar a São Luís, fora recebida, com alacridade, pelo seu padrinho de Batismo – Francílio Leite Cerveira – exatamente na Rampa Campos Melo. De lá, nas apropinquações, vislumbraram um automóvel parado – do lado oposto ao cais – com a marca de “Prefex”. Nesse caso, o móvel com suas características idiossincrásicas, dava-lhe a real impressão de que estava realmente em São Luís do Maranhão. 
     É de bom alvitre exarar que foi nesse período preludial, sem hesitação, antes dos prosseguimentos escolares, que resolvera preparar-se para fazer – sob a precepção do Frei Ambrósio – a “Primeira Comunhão”, realizada na Igreja do Carmo, na Praça João Lisboa. Para ilar o que fora dito pristinamente, tendo por preceptor – de modo reiterativo – Frei Ambrósio. De fato, a senhora minha mãe confidenciava-me todas as vezes que íamos assistir à santa missa – na tradicional e consagrada Igreja do Carmo.
     Ao adentrar à casa de seu padrinho – Francílio Leite Cerveira; e, também, seu tio, pois era irmão do senhor seu pai (meu avô materno – Pedro Leite Cerveira). Como qualquer pessoa que chega do interior do Estado do Maranhão, mantém-se, quase sempre, cabisbaixa, estranhando o inusitado contubérnio. Depois de algumas horas, foi-lhe apresentada a senhora do Francílio, que era a austera – dona Odyxe Estrela Cerveira.
     Assim que foi apresentada, sofrera um estarrecimento, e apertou-lhe a mão imprimindo nela certa força, determinação e cumprimento integral dos deveres – fora de casa e dentro de casa.
     De fato, minha avó materna – Maria das Dores Martins Cerveira – preferiu que a minha futura mãe – Nély – estudasse mais em casa, fazendo com que ela aprendesse por conta própria e, de igual modo, com o auxílio de pessoas amigas. Quando chegou a São Luís – MA, indubitavelmente, submeteu-se a um teste, na própria Escola Modelo Benedito Leite, que funcionava onde fora inicialmente o famoso e tétrico “Palácio das Lágrimas”; depois as Faculdades de Farmácia e Odontologia, e, por último, está sendo construído nesse mesmo local, o tão devaneado “Palácio da Ciência”. Que transformismo inopinado!...
     Adendando, com certeza, alguém quer, à força de dinheiro público extorquido, muito protraído pelo tempo de encetamento da obra, paternizar-se perante a edificação tão evagada pela própria Universidade Federal do Maranhão!...
     Regressemos ao exame interno a que ela fora submetida. E, de fato, fora aprovada com nota nove para o terceiro ano do Curso Primário. Então, entraria com dez anos, e, logo depois, em 5 de maio, completaria onze anos, precisamente no mesmo ano de 1941.
     Para surpresa, Dona Odyxe Estrela Cerveira, a austera senhora, era professora da tradicional “Escola Modelo”, onde mamãe estudava e, por coincidência, lecionaria o mesmo terceiro ano!... Assim sendo, a jovem criatura – Nély Cerveira Marques, a qual, sem hesitação, teria sempre por perto a Professora Normalista – Odyxe Estrela Cerveira. Realmente, não daria, jamais, para esmaecer; pelo contrário, seria sempre um incentivo quanto ao ato de exortar-lhe a necessidade de fazer-se útil no porvir educacional!
     É de salutar alvitre adir o pensamento de André Mourois, ao traduzir a obra de Voltaire, quando dissera o seguinte: “Além do mais, que significa a imortalidade, e que poderia ser uma alma que se sentisse sem corpo, ouvisse sem ouvidos, cheirasse sem nariz e tocasse sem mãos?”
     Adendando, para melhor dilucidamento, exarava: “Se as almas não são imortais, como poderão ser punidas ou recompensadas depois da morte? Que fica sendo a crença no inferno e no paraíso?” Sobre esse ponto, Voltaire não está longe de pensar como um padre católico, cuja história ele conta, e que dizia a um ministro huguenote, indulgente um pouco demais: “Meu amigo, eu também não creio no inferno eterno, mas é bom que sua criada, sem alfaiate e mesmo seu procurador o creiam...”
     Esqueçamos pensamentos de filósofos ateus, já que somos cristãos desde o Batismo, e precisamos o alumbramento da Divina Providência. Outrossim, o Criador não se esquece da criatura, mesmo que esta não o reconheça. Esta frase foi vislumbrada por mim, em 1977, estando afixada na antiga Faculdade de Farmácia, situada no Largo da Igreja de São João Batista.
     A partir deste dimensional de informações teórico-práticas, poderíamos traçar a distância compreendida entre a Rua das Flores, por detrás da Igreja de São João Batista, formando uma efígie de obliquidade diagonal com o prédio da vetusta Escola Modelo (antes Palácio das Lágrimas; depois, Faculdades: Farmácia e Odontologia), ambas dividindo equacionalmente os compartimentos do mesmo casarão, que, no crástino, passaria a ser o tão procrastinatório – “Palácio da Ciência”.
     Eu, na qualidade de autor desde necrológio, digo o que mais amaríssimo existe: “Melancolicamente – na vida – tudo passa, e o que remanesce são os lídimos sentimentos!...”
     Nesta ensancha, o espírita Francisco Cândido Xavier, em sua percuciente hermenêutica, exara o seguinte pensamento: “A vida no telúrico é uma passagem, o amor – uma miragem, mas a amizade é um “fio de ouro” que só se quebra com a morte. Você sabe? A infância passa, a juventude a segue, a velhice a substitui, a morte a recolhe. A mais bela flor do mundo perde sua beleza, mas uma amizade fiel dura para a eternidade. Viver sem amigos é morrer sem deixar lembranças!...
     Prossigo declinando o seguinte: “Sigo compungido com o perecimento da senhora minha mãe – Nély Cerveira Marques; e, aparatando síndromes paroxísticas palindrômicas recrudescentes...
     Meu luto não tem estremadura! Prossigo combalidíssimo com o fenecimento da pessoa que marcou a minha vida para sempre!... Reuniu, no decurso da vida, os acuramentos das mais generosas mães!... Outrossim, tenho por soer manter os lídimos sentimentos!...
     Mamãe, minha mestra, minha colega de Magistério e do Curso Básico de Língua Francesa; também, minha preceptora; e por desígnios abscônditos, que somente a Divina Providência saberá dilucidar, faleceu, e estou muito triste... Indubitavelmente, ela me fará falta pela vida inteira!
     Também, é de bom alvitre exarar que a lacuna constituída é um vurmo incicatrizável, pois perdi minha generosa, minha preceptora, minha Professora Normalista – desde o primeiro ao quinto ano “Primário”.
     Também, foi ela, decerto, que me acompanhou nas situações mais implexas! Também, tardiamente, fico a recordar as batidas do relógio e suas respectivas frases vocacionais, prontas para qualquer momento. Se o fizesse, agradeço-lhe antecipadamente, para toda a eternidade... Também, foi dona Nély Cerveira Marques, minha mãe – que me arrumou o meu primeiro emprego. Então, desfecha-se em mim os mais edificantes paradigmas traçados ao longo do tempo!
     Sereis, então, sempre lembrada!... E, destarte, em todos os lugares em que vós estiverdes – perto ou longe da “Casa do Pai Eterno”, ficarão os estigmas de vossos pés. Na Farmácia do “Bom Preço” ou na Extrafarma, localizada confronte. Tanto em uma, quanto em outra, indistintamente, sabíeis, de modo mnemônico, tudo o que queríeis.
     De fato, tudo o que pretendíeis, naquele comenos, era a ordenação dos medicamentos necessários, indicando desde o local onde se encontravam na prateleira, e, após, sem muitos protraimentos, nominava-os designando os respectivos proprietários. Seu filho Wilson Cerveira Marques, seu querido filho primogênito, de maneira cabalmente espontânea, ostentando as regalias dos diversos remédios que foram receitados para ambos, notadamente com relação às síndromes que os acometeram no decurso temporal da vida, vivida, experimentada e sofrida, ao sabor amaríssimo dos dissabores, sobremodo os invertidos e os inelucidáveis, em que a primazia surdia de maneira colapsal!...
     Com primazia, vamos à ordem hierárquica, em que costumara requestar ao adentrar na Farmácia do Bom Preço ou, então, Extrafarma, ambas situadas nas respectivas imediações.
     Ei-los, então: epocler-flaconetes – duas caixas, sendo uma delas para o seu filho amado – Wilson Cerveira Marques; enquanto a outra, decerto, é para minha mãe – Nély Cerveira Marques. Em seguida, depois de prolações percucientes, avocava o Tanakan, cujo princípio ativo – Ginko Biloba, destinado à manutenção da memória.
      Agora – disse ela – vamos atender a necessidade do Lipomax (1 caixa) para combater o colesterol e demais lipídios existentes em alguns alimento, conquanto os seus níveis, internamente, no organismo, com certeza, tenham condições de prosseguimento.
     Em seguida, não nos esqueçamos de listar os seguintes medicamentos: Vecasten, Diosmin, Daflon etc. Além de utilizar o Hirudoid – em bisnaga – para satisfazer as respectivas drenagens linfáticas!...
     A quem devo, em caso de longa perquirição, fazer surdir no tímpano desses ouvidos – sempre valetudinários – esses bizarros estrugidos, que me deixam a sensação de vacuidade e dor constante, redundando na anodinia das substâncias medicamentosas inoculadas no organismo.
     Que lacuna! Que vurmo sentimental incicatrizável em todos os sentidos!... Mamãe – dizia quase sempre – (geralmente por escrito), estes são os remédios de que preciso com urgência. Vou incluir os de valor pecuniário sobejo. Tenha paciência, pois, não fui eu quem os indicou... A própria cervicopatia ladeada de osteófitos e outros sintomas prodrômicos existentes em alguns discos vertebrais em ritmo de protrusão, fazem com que eu não consiga conter a sanha da imane dorsalgia que me consome a região das costas, confidenciava-lhe em surdina, quando ia visitá-la, consuetudinariamente, todas as tardes dos sábados!...
     Eis, que eclode, também, uma fibromialgia, em que os paroxismos sinestésicos despertam mais ainda as consequências dolorosas das fibras nervosas – altamente sobrecarregadas de comoção infrene!...
     Em seguida, inopinadamente, fomos surpreendidos pelo fatídico, e, destarte, houve aquela consternação para com a pessoa querida, que perdemos para sempre, sem que haja laivos que perorem na percuciente inanição do ser – mesmo estando na condição dos mais fragilizados dentre os que já vi!
     Agora, em companhia do Henrique – seu motorista de preferência quanto ao ato de fazer as compras relacionadas às farmácias e aos supermercados. E, de inopino, surde-lhe na mente a premente carência do “Trusopt” – seu colírio de preferência há vários anos.
     Confessou-me, não só uma única vez, o seguinte: Meu filho, – Wilson, não me dou bem com esses genéricos e similares; e, então, prefiro os remédios de “marca” – que são patenteados!... Após alguns minutos de lasso silêncio ansioso, dirigi-me à sua singularíssima pessoa, e lhe disse: Mamãe – Nély, o que prevalece é o princípio ativo, pois, com certeza ele é o mesmo em todos. A senhora quer confutar os doseamentos das substancias componentes?!...
     Na época de um tal “FHC” – houve o maior de todos os derrames de remédios com dosagens adulteradas – adulteradíssimas. Esses espúrios dos tais três poderes recebiam a notícia com frialdade, uma vez que, eram atendidos por laboratórios farmacêuticos de altíssima confiabilidade!...
     Com relação ao tal colírio Trusopt, insistiu com o Oftalmologista Anselmo Filho, que não mudasse... Ele reiterava, quase sempre, dizendo-lhe: a senhora dona Nély tem um desgaste ou deterioração no nervo óptico, podendo ou não a vir a perdê-lo a qualquer momento. Tanto assim, que a senhora minha mãe rezava para Santa Luzia, protetora dos olhos! Minha mãe querida – conservai a minha visão até os postremeiros dias de minha vida. E, se for o contrário, não sei o que será de mim, na anuência total da visão... 
     As suas orações continuavam surtindo o efeito desejado – “Graças ao Pai Celestial – Deus Eterno, Misericordioso e Todo Poderoso, tende piedade de nós e do mundo inteiro”. É preciso rezar esta oração ao levantar, ao deitar e durante o dia, principalmente quando estamos nos deslocando pelas ruas...
     Enquanto Henrique persevera em ir para outro local de compra, ela o interrompia para dizer-lhe: Vamos atender a necessidade de adquirir o Lipomax para o meu filho Wilson Cerveira Marques, o Farmacêutico, o Biólogo, O pedagogo, o Escritor e o Poeta.     
     Em seguida, antes que partamos para outro local, não nos esqueçamos dos seguintes medicamentos; pois ambos servirão para mim e para Wilson. Vejamo-lo: Vecasten, Daflon etc. Além de utilizar o “Hirudoid” – na epitetada drenagem linfática, aplicada em todas as academias de fisioterapia. Por isso que reiterei o que houvera dito priscamente!...
     Desse modo, façamos até aqui o somatorial do montão dos remédios, sumamente precisos para atender as nossas diversas sintomatologias. Sendo uma delas – sem perplexidade confutatória – a fibromialgia, a mais recente, já que a cervicopatia vem de muito tempo!...
     As dores fibromiálgicas ostentam paroxismos sinestésicos, não havendo local determinado para a sua localização. Detecta-se inicialmente na altura dos membros superiores; e, posteriormente, atingirão todas as regiões anatômicas dos membros inferiores. Adende-se que dona Nély Cerveira Marques – a minha mãe e Professora Normalista – aparatava trombose nas veias das pernas, fazendo com que elas permanecessem, diuturnamente, edematosas.
     Com a fratura transtrocantérica – na ligação fêmur-ilíaco – fora colocada pelo Dr. Roberto Freire uma estrutura sintética de aço. Houve rejeição do corpo estranho implantado, e ela começou a apresentar sintomatologias que a conduziram a UTI. Em determinado instante, confidenciou-me o próprio médico-cirurgião – José Roberto Freire, que a viu morrer; mas graças a Deus Pai Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, empeçou tal ocorrência funesta!
     Decerto, fico a lamuriar que, na eternidade, não há relógios prontos para despertar!... Não teve quem a acompanhasse mais, durante a vida inteira, de que a minha ímpar pessoa. Desde a idade de sete anos, íamos e voltávamos juntos, sempre em direitura à “Escola Inácio Raposo”. Dona Nély Cerveira Marques – Professora Normalista, com todas as letras corroborativas de uma polimatia, isto é, de uma vasta Cultura Geral.
     No decurso da vida, em plena sazonalidade, fomos colegas de turma no Curso de Francês – durante três anos consecutivos. Também, saíamos, sempre em companhia, em direitura aos consultórios dentário e médico. Parece que ela prestigiava sempre a minha pessoa, assim como as qualificações profissionais de: Farmacêutico, Biólogo, Pedagogo, Escritor e Poeta!
     Em plena senescência, prosseguíamos com as nossas caminhadas matutinas na Lagoa da Jansen – no mínimo duas vezes por semana. Além do mais, íamos duas vezes por mês ao Banco do Brasil – Agência Estilo, no Renascença II. Assim sendo, predispus-me ao longo da vida, de modo intimorato, a segui-la para onde quisesse. Estava sempre ao seu inteiro dispor. E, destarte, não media esforços nem distâncias, nem ambientes escolhidos previamente!...
      Mais uma vez, em seu silêncio sepulcral, o número 3235-1107, pertencente ao apartamento 603 do Luma – de sua inteira propriedade – situado na Rua dos Juritis– está inteiramente revogado, pois seu toque vocacional feneceu!...
     Na época em que o telefone funcionava, a sua exação encetara a mesma pontualidade, desde o tempo em que ingressara na Escola Modelo (confronte ao Templo de São João Batista). Ademais, houve uma refocilada aprendizagem educacional, porquanto a lição de casa era comutada com os estudos perpetrados em sala de aula. Realmente, esta libração harmônica e bilateral, sem hesitação, contribuiu para a fixação consolidada de todo um saber. Os anos ressumbravam – à guisa – o arquétipo, diuturnamente, através do qual fora assimilado no decorrer dos anos escolares.
     Reiterar os capítulos das diversas disciplinas – sem perplexidade – servem para evocar a importância dos conhecimentos jamais olvidados!... A senhora minha mãe – a Professora Normalista Nély Cerveira Marques – indubitavelmente, primava pela organização e cumprimento integral, tanto no estudo quanto no trabalho. Não sabia protrair o que tinha de exequir; pelo contrário, adiava o próprio horário de alimentação! Primeiro, a tarefa a ser executada, e, posteriormente, o regalo da subsistência castigada!
     Após tornar-se octogenária, errou em não aceitar mais empregadas, muito menos cuidadoras; e avocava para si mesma todas as azáfamas da casa – alimentação, e, a posteriori,  dedicando-se ao ato de lavagem em máquina, até chegar ao estágio proveitoso da limpeza, expurgando, destarte os ácaros que se proliferavam de modo exuberante, em todas as direções e sentidos plausíveis!
     Finalmente, ela não quis aceitar a ideia de que os serviços realizados extrapolavam a sua própria capacidade orgânica. De repente, desequilibrou-se de vez, vindo a sofrer uma fratura transtrocantérica – no encaixe do fêmur com o ilíaco.
     Após a cirurgia e inclusão de prótese de aço no local, houve por parte do seu organismo uma fortíssima rejeição! Mesmo na UTI, houve um momento, segundo o cirurgião Roberto Freire, que a vislumbrou agonizando – como se fosse fenecer naquele átimo. Com as graças de Deus, saiu da UTI – para o quarto Santa Maria do hospital Centro Médico. E, depois de receber alta, logo no dia seguinte a sua chegada, veio a fenecer em seu próprio apartamento – tendo como principal causa, conforme o atestado de óbito, uma embolia pulmonar!...



                                       Wilson Cerveira