Perquire-se há
muito tempo, sem cerceamentos, o que vem a ser genialidade, e, ainda, não se
detectou o lídimo vetorial resultante, capaz de dilucidar a implexidade desta
imane síndrome fulgurante.
A genialidade
atende as demandas atinentes aos maus gênios, aos bons gênios; aos gênios do
bem, e, também, aos gênios do mal. E, sendo assim, a prodigiosidade máxima
transcende aos limites de quaisquer normalidades. Deveras, ressuma o que se
denomina de “transtorno de desenvolvimento”. É, de fato, a síndrome salutar dos
gênios!... Não é uma patologia propícia, mas uma extra normalidade
plausível!...
Os gênios, de modo
geral, estão nas estremaduras propinquatórias da síndrome do transtorno do
desenvolvimento. Então, esta fenomenologia rutilante da mente incrementa-se em
direção ao construtor, e, de igual modo, com relação ao destruidor peremptório.
E, comprovadamente, a inteligência aguçadíssima, transpondo todas as
estremaduras da hiper-capacidade, tem as cifras indicatrizes dos itinerários
impérvios, capazes de ressumbrar os enigmas postremeiros do elucubrático.
Segundo Temple,
Einstein (1879 a 1950) só aprendeu a falar aos três anos e não manifestou
nenhum sinal de genialidade na infância. Como muitas crianças autistas, era
hábil em decifrar charadas e quebra-cabeças. Ele próprio admitiu: “Algumas
vezes pergunto a mim mesmo: Como pude ter sido o único a desenvolver a teoria
da relatividade? A razão, segundo creio, é que um adulto normal jamais pararia
para pensar a respeito de problemas de espaço e tempo”.
Esporadicamente,
transtornos do desenvolvimento são acolitados de senso estético acendrado,
capacidade de fazer cálculos complicados e memória colossal. Isto se deu com o
americano Leslie Lemke que, aos dezesseis anos, tocou com perfeição o concerto
nº 1 para piano de Tchaikovsky, depois de ouvi-lo uma única vez em um filme que
passou na televisão. Ele nunca tinha tido aulas de piano, é cego e aprendeu a
andar apenas aos quinze anos, pois teve paralisia cerebral. Aos sessenta anos,
toca vários estilos musicais no instrumento e faz concertos nos Estados Unidos
e na Europa, nos quais improvisa e executa algumas composições próprias.
Morto em 2006, o
escocês Richard Wawro, diagnosticado com altísmo, surpreendeu um professor de
arte com os desenhos que fazia quando ainda era criança. Reconhecido por vários
críticos de arte, é descrito como artista que reúne “a precisão de um mecânico
e a percepção de um poeta”.
Por fim, o
americano Kim Peek inspirou o personagem interpretado por Dustin Hoffman no
filme Rain Man (1988). Ele memorizou
mais de doze mil livros entre a Bíblia e toda a obra de William Shakespeare.
Era capaz de ler duas páginas de um livro ao mesmo tempo, uma com cada olho, e
reter todas as informações. Também, conseguia dizer o dia da semana em que
qualquer pessoa nasceu com base na data de nascimento, e sabia os títulos de
milhares de peças de música clássica -- além do nome do compositor e a sua data
de nascimento. Tinha dificuldades motoras e dependia de ajuda para tomar banho
e fazer suas necessidades básicas até a sua morte, em 2009, aos 59 anos.
Lemke, Wawro e
Peek são casos de síndrome de savant, uma rara e intrigante combinação de
deficiência e brilhantismo intelectual relacionada a transtornos de
desenvolvimento. E, nesse casso, exames com neuro-imagens mostram que a
síndrome está atrelada a alterações no hemisfério esquerdo cérebro. Mesmo
assim, sabe-se pouco sobre a síndrome de savant, apesar de alguns casos aparecerem
na literatura científica desde o século XVIII.
Em 1789, o médico americano Benjamim Rush descreveu a incrível
habilidade de cálculo de Thomas Fuller, um rapaz com deficiência mental que
nunca havia tido aulas de matemática. Quando perguntaram a ele quantos segundo
um homem teria vivido ao completar 70 anos, 17 dias e 12 horas de vida, ele deu a resposta correta de 2.210.500.800
em um minuto e meio, levando em conta 17anos bissextos. Um século depois, o
médico John Langdon Down, conhecido por identificar a síndrome que leva seu
sobrenome, descreveu 10 casos de savants ao longo de três décadas em que
trabalhou em um centro psiquiátrico em Londres.
É de bom alvitre exarar que, como o autismo, a síndrome de
savant é cinco vezes mais frequente em homens. Pode ter origem genética ou ser
adquirido algum dano cerebral ou doença que atinge o órgão, como encefalite. As
faculdades despertadas são, em sua maior parte, muito específicas e
correspondem a áreas do hemisfério direito associadas a habilidades simbólicas,
artísticas, visuais e motoras. Por isso, a maioria deles se destaca na música,
arte, formas de cálculo e atividades que demandam aptidões mecânicas e
especiais. Em contraste, apresentam deficiência nas capacidades ligadas ao
hemisfério esquerdo, mais sequenciais, lógicas e simbólicas, como a linguagem e
a especialização da fala.
Pode-se, no
entanto, corroborar que savants com aptidões musicais como Lemke, conseguem
distinguir sons com perfeição e tocam instrumentos com facilidade
impressionante. Alguns são capazes de criar composições complexas. Por algum
motivo, a genialidade musical vem muitas vezes acompanhada de cegueira e
deficiência mental. Um dos mais conhecidos savants foi Blind Tom (“Cego Tom”)
Bethune, que viveu de 1849 a 1908. Naquela época, chegou a ser referido como “a
oitava maravilha do mundo”. Embora não falasse mais que umas poucas palavras,
era capaz de tocar muito bem mais de 7(sete) mil peças para piano, inclusive
várias de suas próprias obras, algumas delas gravadas pelo músico John Davis e
lançadas em CD.
Os autistas
visuais savant, por sua vez, dominam formas artísticas, embora geralmente se
expressem por meio de desenhos e
esculturas. O americano Alonzo Clemons, por exemplo, consegue esculpir, em
menos de 20 minutos, réplicas de cera de animais que vê na TV. Seus modeles são
exatos em pormenores e proporções. Também, por arquétipo, temos a americana
Ellen Boudreaux, cega, que pode se orientar em florestas densas e outros
espaços que não conhece, sem que bata em objetos. Ela tem percepção perfeita da
passagem , conquanto não tenha acesso a um relógio, mesmo em braile. Essa habilidade se desenvolveu no dia em que sua
mãe a deixou ouvir o serviço de hora
certa por telefone. Depois de escutar por certo tempo a voz gravada dizer
a hora e os segundos. Ellen, aparentemente, acertou seu relógio interno. Desde
então, é capaz de dizer a hora com precisão de segundo, não importando a
estação do ano.
Em alguns casos
analisados, o conhecimento sindrômico dos savants está relacionado a uma
memória, especiosamente, ilimitada, baseada na reiteração habitual. Às vezes, o
armazenamento de informações, entretanto, não é acompanhado da compreensão do
conteúdo. Alguns dos primeiros observadores chamaram esse fenômeno,
oportunamente, de “memória sem reconhecimento”. Já Down usava a expressão
“aderência verbal” para caracterizá-lo. Um de seus pacientes era um menino que
leu nada menos que os seis volumes que compõem a obra História do declínio e
queda do Império Romano, de Edward Gibbon ---, ele conseguia recitá-los de trás para frente, palavra por
palavra, posto que fizesse isso ser ter qualquer compreensão do que se tratava.
Finalmente,
estamos diante de uma estarrecedora narrativa, onde temos a ensancha de
contemplar a infinitude existente neste orbe enigmático, que fica situado nas
estremaduras do brilhantismo e da síndrome do transtorno do desenvolvimento.
Wilson Cerveira