quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O "ISSO" DO MOTORISTA BOÇAL

    O tempo não expunge as capciosas máculas de um facínora, malgrado a sua etiologia genética confute por completo todos os labéus desolados no meio da senda, remanescendo resquícios de uma memória sensitiva, intensificada pelos emaranhados existentes nas variegadas redes neuronais.
     Este diminuto pródromo faz reacender aquela manhã soturna do dia quatro de abril de mil novecentos e sessenta e oito, em que, desde as três horas da madrugada, a chuva recrudescia em borbotões intermitentes. Um lidimo alardeamento realçaria a exídria declarativa, desde que as pancadas de chuva ressoassem em ritmo de tambores – “taróis” e “surdos” – sendo reorquestrados pelo interlúdio das cornetas. Estas retumbâncias provinham de um prisco que não fremia em cabalísticos suspensórios. Pelo contrário, progredia sempre, sem óbices, até alcançar a cadência das agulhadas de chuva, sempre em harmônicos compassos.
     A estesia, quando ocorre ao longo da existência consumada, parece exigir a presença de maestros mais enérgicos capazes de enfatizar a importância sucessiva das inúmeras gotas d’água sobre os vitrais de janelas e portas; assim como, sem tartamudeios nas vidraças dos automóveis que iam, pouco a pouco, perpetrando a ablação dos filetes de H2O, amplamente aglutinados em meio ao vento frio que assopra a partir do pólo sul. A impressão especiosa surde, de modo subitâneo, enlevando as situações mais atrozes – através das quais – todos nós passamos; e, às vezes, despercebidamente.
     Em meio a inúmeras laminas d’água, eu e meu pai fizemos com que parasse junto a nós um automóvel. Não havia condições de chegar ao antigo “Colégio Maristas”. Logo que adentramos, as portas automaticamente foram sendo cerradas uma a uma. O que se via e ouvia era o chover a cântaros, como se estivéssemos a experimentar um dilúvio em menor proporção.
     Após várias desmanches, no estabetamento das postremeiras laminas d’água, o automóvel conseguiu estacionar no átrio do Colégio Maristas, nas apropinquações da marquise maior, a qual se projetava até o terço medial da alfombra rociada pela chuva e, também, abrangendo a madidez de brumas subsequentes.
      Antes que descêssemos do carro, meu pai já havia efetuado o pagamento da corrida – espaço compreendido na distância estabelecida entre a “Praça do Cemitério”, cognominada de “Praça da Saudade” até o prédio onde fora localizado o Maristas, isto é, no intermédio superior da própria Rua  Grande, antiga “Quinta do Barão” – sendo um dos mais espaçosos terrenos, estando localizado na área nobre da cidade de São Luís.
     Meu pai estava sentado na frente, ao lado do motorista, enquanto a minha pessoa estava situada na cadeira subsequente e posterior ao motorista. No ato de descer do móvel, perquiri ao condutor do veículo, sem maiores hesitações, como se abria isso – “objeto metálico” da porta. De repente, para estarrecimento nosso, o motorista boçal estrugiu, sem que desse o testemunho do que fora dito pelo adolescente: – Como se abre “isso”?, o motorista boçal não tartamudeara em exarar: “Isso não é palavra que se diga!..., mocinho”. Meu pai, com o objetivo de calar a ira do motorista, dissera-lhe: “O senhor deve ficar sabendo que o vocábulo pronunciado pelo meu filho, de modo altissonante, não passa de pronome demonstrativo neutro, sem que haja conotação diferente. Está longe de ser um impropério, um vilipêndio, um vitupério, ou algo que venha a suscetibilizar quaisquer criaturas, por mais que aparatem a estesia do átimo em apreço”.
     Decerto, o motorista estaria pronto para ceifar uma vida, caso houvesse contundência quanto ao hábito de estabelecer quaisquer controvérsias entre a frase inocente do jovem rapaz, e a protérvia prolatada pela desabridez de um motorista boçalíssimo.

                                             Wilson Cerveira

REALIDADE ESPECTRAL

     O sujeito diz uma determinada coisa a fazer, tal como: “marcaria presença”. No dia em que o evento fora indicado, o mesmo elemento palinodiou totalmente, e passou a asseverar: “não irei mais”. Ocorrera, de fato, a ausência. Momento algum tomou a iniciativa quanto ao ato de justificar-se, mesmo de modo embusteiro, engabelando a si próprio e ao outro – que ficou como sendo seu ouvinte!...
     O “X” pode avocar todas as datas, e na última hora, com um cinismo a toda prova, retratar tudo o que se dissera posteriormente, remarcando dia, hora e local. Insinua-se como se fosse capaz de perpetrar o feito. De repente, refuta e revoga a frase que escrevera ou pronunciara – como se não houvera dito: nem na mensagem de texto (acima rubricada), tampouco na mensagem de voz (estropiada de modo cabal), gerando, de maneira concomitante (estropícios e estrupidos).
     Jamais conseguira persuadir o “Y” (em constante estado de sujeito valetudinário enfermiço). As patologias respondiam a gravidade dos males acometedores. Reiterava as ações, sobremodo as maléficas e de amplo espectro deletério.
     Os pregões terapêuticos estavam direcionados à divulgação da droga, recentemente lançada pela “Indústria Farmacêutica”, ainda com a denominação de amostra grátis, o único exemplar infalível, pois se encontra em período de teste corroborativo.
     O elemento “Z” intercomunica-se com o elemento “K”, usando o seguinte pensamento externativo: “De onde falas, que quase não percebo o eco melancólico de tua voz!... Creio que tua boca ainda tenha lábios, para que possas me dizer, em cabal silencio da confissão abscôndita, o que ainda, omericamente pretendes me exarar em surdina, mesmo que eu tenha de me prosternar junto ao telúrico, numa apropinquação abrupta de todas as minhas sensórias coligidas!... Gentilmente, caso seja possível, desidero auscultar o retumbar da tua voz, quase em plena expunção!...”
     As circunstancias despauteriais do hodierno instigam a perquirição: “Estás doente? Tenho telefonado, e não tenho sido atendido. Educadamente aguardo resposta”. Para complementar: “Estou a estranhar a indelicadeza quanto ao ato de responder. Sempre o julguei bastante educado. Fico no aguardo de uma reflexão e uma resposta convincente. O amigo do hesterno, do hodierno e do crástino!...”
     Hoje, de modo estapafúrdio, não se responde mais nem as mensagens de aniversário. A culpa e a desculpa, ambas se restringem na superocupação, que é, também, um tipo de distúrbio obsessivo compulsivo. A pessoa, depois de algumas horas ou dias; ou meses, ou até mesmo ano; após ter visto a mensagem anterior relacionado ao natalício, resolve abrir a seguinte: “Pêsames pela tua desabridez, em decorrência de não teres respondido a mensagem natalícia. De fato, você degeneresceu, e não percebeu a tempo de tentar dissimular a sua demudação abrupta. Dificilmente, você terá o simulacro suficiente para redarguir o que está sendo arguido por possível reconhecimento em cartório – dizia reiteradamente o “Caburé”, apelido dado ao sujeito feio, desengonçado.
     Mui implexo, ouvir-se o seguinte: “Apesar de ter operado o olho esquerdo nesta manhã, não me esqueci da data do seu aniversário! Parabéns, felicidades. Se possível, aguardo acusação de recebimento”. O destinatário pode ser taciturno, ainda que não queira replicar de imediato o que fora reenviado para ele. Sendo assim, amigo não é aquela pessoa que faz alardeamento, mas a que você pode contar mesmo em cabal silencio. O amigo de hesterno, do hodierno e do sempre crástino. A aplicabilidade, de modo contundente, aflora na prostremeira e educacional requisição: “Donairosamente requesto redarguimento premente”.
     A pessoa recebe um telegrama indicando a requisição de um livro. De posse do documento, a criatura desloca-se até à casa do expedidor. Ao abrir-lhe à porta, em meio passo, sendo o esquerdo no encetamento do vestíbulo; enquanto o direito posicionava-se no centro da soleira, sendo guarnecido pelos umbrais laterais e superior. O telegrama ostentava cópia confirmatória. Deveras, simbolizava uma completa deferência, uma vez que o convidado não pudera comparecer ao evento, – para o qual fora convidado –, tendo por natureza basilar o prisma da trilogia centurial: amizade -> amor -> amizade. O abstruso antinômico e heteróclito, em que todos os casos é sobrevir para a adequação do plano de épura.
     A realidade espectral nestes cruentos dias hodiernos, onde as demudações são diárias está alicerçada numa palinódia constante. O ato de retratação passa a ocupar um local primaziado, visto que os dispositivos eletrônicos, sem falta de retorno, aciona-se uma artificialidade a toda prova de complementação.
     É menos doloroso ter a inequívoca presença, somatorizando todas as minudencias existentes, desde o ombro, parte integral da cintura escapular até a prostremeira sentença da missiva, na qual a criança, o adulto, o pré-senescente, e os demais senescentes – 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª etc fases, isto é, sentem-se entre o telúrico, o libratório e o gravitacional.
     Nem mensagens de natividade são penhoradas; somente são respondidas quando palavras extremas vem complementar a protérvia: “Meus pêsames pela tua questão de assunção da terminologia: edudeseducacional em linhas que regulam a convergência, a divergência, o reversível e o irreversível, todos esses parâmetros em amplo espectro verificatório”!...
      Que realidade proterva nos agrilhoa por todos os lados; e, então, ficamos atônitos perante as criaturas. Deveras, as mensagens que evolam dessas bocas, sem lábios, não têm os mesmos caracteres de um pristino recente. Ostentam demudações abruptas incognoscíveis, independente do quadrante referencial a que se posicionam. Após sucessivas cominuições, umas partindo da direitura esquerda, enquanto outras surdem de uma vacuidade inelucidável. Não há como reconstituir essas efigies resseccionadas. A ablação de uma delas, por menor que fosse, não compensaria a outra – em dimensão alguma – ainda que a prostremeira remanescera em algum ponto abscôndito do prisma.
     Não haveria meios de identificá-las, mesmo estando em recintos herméticos, e tendo por perto a presença de testemunhas e testemunhos. Destarte, voltariam em átimos de um crástino recente. Sutilmente, expungiriam os estigmas expenditivos, não deixando sequer laivo capaz de preencher as imanes vacuidades existenciais vigentes.
     Ninguém assinaria o livro de ocorrência: diária, semanal, mensal, trimestral, semestral, anual. É um único compendio cuja divisão em partes, decerto, designará o sujeito ou o objeto, ambos em compasso harmônico, ou cizânico, sendo do tipo binário, terciário, quaternário etc.
     As fraudes são incontáveis em todas as páginas. Sofismas aduzem à vereda de muitas astúcias. Não há como contê-las, pois minam assustadoramente em âmbito semicerrado, e, desse modo, não proporcionando ensanchas ressumbratórias.

     Obliteram-se as sendas postas no crepúsculo ou no dilúculo, uma vez que as esfinges se proliferam em todos os sentidos e direções vetoriais.

                                          Wilson Cerveira

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

SILENCIOSA PRESENÇA ESFÍNGICA

     Levegildo, soçobrado em cabal tacitez, fora eximido de quaisquer estrupícios, frêmitos e mexericos – alarmantes ou não – desde o ínterim em que fora fecundado e gerado no terço médio das trompas de Falópio; e, adendando, para melhores dilucidamentos, durante a sua permanência de nove meses no interior do útero materno.
     Ao nascer, diferenciou-se das demais crianças, não emitindo vagido sob a forma de pranto. Depois, vinha sendo cercado pelas solicitudes maternas. Foi refocilado, quiçá, pelo choro coincidente de outra criança, nascida logo depois na casa contigua, que era a bisneta da senhora Florentina. Sabe-se, de antemão, que o ato de chorar é extremamente necessário durante o parto, já que é o basilar imprescindível para a abertura simultânea das massas pulmonares, representando uma oportunidade de desprendê-las ao nascer.
     Desde que nascera, tinha a santa paciência de esperara os horários das mamadas e dos mingaus, sem que emitisse um choro deblaterativo. Comportamento esse, totalmente diferente das demais crianças da maternidade. Aguardava também quando se encontrava com a fralda molhada de urina ou suja de excrementos. Por sinal, não incomodava as enfermeiras de plantão tampouco a senhora sua mãe e as respectivas babás.
     Durante o banho, com água quebrada da frieza, que é uma expressão muito usada pelas famílias interioranas, o recém-nascido Levegildo sorria um sorriso do tipo compassivo! Não batia as pernas e os pés no volume de água contida na banheira. Ao redor da bacia não deixava que se visse a vislumbração de alguns pingos d’água. O local em volta permanecia seco, não dando a demonstração da existência de ablução do corpo inteiro.
     Levegildo era uma criança saudável e providencial, pois não ocupava ninguém para que lhe pudesse calçar as meias, e, em seguida, enfiar-lhe os sapatos. As demais crianças do “Jardim de Infância” esperavam os providenciamentos das suas mucamas. A dependência de espera, assim como o círculo vicioso, ambos estavam formados, atendendo as demais crianças.
     O pequeno Levegildo não se fazia notar. Exibia sempre, em quaisquer locais que estivesse, a ad-rogação de uma fleugma impressionante. De fato, não era percebido em momento algum; tanto assim que pisava nas pontas dos pés, dando a falsa efígie de um detetive à cata de adendo de buscas informativas imprescindíveis. Cursou todo o “Curso Primário”, sem que desse algum trabalho para a sua professora. Aparatava versatilidade em todas as matérias, não deixando que suas notas ficassem abaixo de oito. Afeiçoava-se mais no interregno compreendido a partir de nove até dez. Fazia distinção tanto nas sabatinas intercaladas entre tabuada e verbos. Sobressaía sempre com louvor, ocupando o primeiro lugar com relação aos demais colegas. Todos os anos, sem exceção, recebia uma medalha de honra ao mérito.
     Aprazia-lhe como algo fulgurante tal condecoração, pois ressumava o grande esforço perpetrado durante todo o ano, abrangendo todas as matérias contidas no curriculum escolar vigente no final da década de sessenta do século XX, previamente determinado pela Secretaria de Estado da Educação.
     Não incomodava ninguém – nem a ele próprio! Quando tomava banho, forrava o banheiro com um tipo de fibra têxtil, que amortizava os pingos de água caídos sobre o piso do banheiro. Dava-nos a aparência penumbrosa da inexistência de qualquer criatura no interior do lavabo. Quando fazia as suas necessidades fisiológicas imprescindíveis, hermetizava-se completamente, não deixando ressudar o impacto das dejeções no fundo aquoso do sanitário. Para tanto, sentava-se na parte superior e circular do vaso, facilitando a descida silenciosa dos excretas através das paredes indinadas do aparelho adequado ao ato defecatório. As mercaptanas pareciam sair filtradas, sem acústica e sem odor. Obiciava serviços de má postura. Dessa maneira, assentava-se à beira do túmulo, e, por algum tempo respirava por ambos os lados das narinas.
     Os demais membros da nova Diretoria do Lítero, sem titubeação, devem prestar a devida atenção, já que não sofriam, aparentemente dos dois grandes males que assolam os dias de cruenta hodiernidade.
     Não admitiria escutar ruídos, zumbidos e quaisquer outros efeitos sonoros. Tinha-se por exemplo basilar em tudo que fazia com esmero. Eximia-se de quaisquer promiscuidades de seus estridentes, sobremodo os que não transmitem a vacuidade sentimental dos dislates proporcionados por aqueles que usam como defesa a palinódia, periodicamente transformada em caracteres degenerescentes.
     Onde estivesse – perto ou longe – Levegildo não causava nenhum, por acaso, tipo de estrépito. Quando se utilizava do aparelho mictorial, fazia-o de tal forma, que não se ouvia o jato de urina cair sobre o resto de água contido no fundo do vaso. De modo verossimilhante, deixava que a massa fecal resvalasse pelas inclinações do assento sanitário lentamente, até que chegasse ao fundo. Nada se percebia, e, com isso liberava a expressão produzida: “Não deixava marcas no fundo do vaso”.
     De quando em vez, vinha-lhe a nefasta nota fatídica. Um dos seus colegas de Primário, o João José, acabara de expirar fisicamente – “para nunca mais regressar sob a forma materializada”. No mundo das almas, decerto, não teria mais as preocupações reinantes. De fato, segundo Coelho Neto, “a eternidade é um oceano sem praias”. As novas almas soçobrariam pela imensidão do orbe espiritual. Sim, na vacuidade anímica não haveria apropinquações de grupos visando objetivos comuns. Contubérnios surdiriam em tempo prolatório. Nada mesmo se divagava, a não ser que fosse a voz cavernosa a eclodir entre os túmulos cerrados e semicerrados.
     Tudo o que realizava era com extrema solicitude, não remanescendo pegadas. Eles, alguns apenas, analisavam os estigmas labirínticos deixados na areia; enquanto o Levegildo não imprimia marca naquilo que realizava com acertado bom gosto.
     Não se sabia, ao certo, de quem eram os traços! Perdia uma boa parte do seu tempo, remodelando um calendário que se adaptasse as mais heteróclitas nuances.

                                             Wilson Cerveira