Conheci-a fortuitamente ao lado de seu irmão -- Schalcher, em direitura ao lineamento vetorial que dava acessibilidade a um dos guichês dos Correios e Telegraphos, precisamente em junho de 2000, na tentativa de requestar perquirições sob as normativas de um possível concurso público para a Previdência Social. Nessa manhã de sol canicular, eu estava na companhia da minha mulher -- Maria do Socorro em uma fila paralela a sua, com o escopo de remeter algumas correspondências para o Sudeste. E, ensejando os meandros da própria disposição das pessoas, conseguimos certa aproximação com relação a nesga situacional de ambos; e, em seguida, empertigamo-nos para que pudéssemos olhá-los de soslaio. E, num gesto automato, toquei-lhes na omoplata, e, incontinenti, volveram-se circunscrevendo um ângulo restritivo em nossa direção, facultando a apresentação reciproca. E, a partir daquele átimo, o donaire ressumbrou entre nós a lidimidade a ser cultivada através dos anos subsequentes.
No ano seguinte, invitei-a para que viesse congratular-me no dia do meu natalício -- 25 de dezembro. Preferiu dizer-me em tom corroborativo, que se faria presente, não ponderando as probabilidades de paroxismos palindrômicos de um tipo de colite, de cunho emocional, que a persecutava desde a casa dos trinta anos. No dia de Natal, mormente em 2001, primeiro ano do século XXI, telefonou-me com a finalidade de escusar-se diante da ausência proporcionada, exarando apenas os sinceros votos de parabéns pelo telefone. Após 3 anos percorridos, resolveu cumprir a promessa, comparecendo espontaneamente em dezembro de 2004, já que eu havia reiterado o convite prístino. Conquanto sabendo que pertenço a efeméride de dois natais, sendo um deles uma apoteose para a Igreja Católica, a qual, solenemente, celebra há mais de dois milênios o nascimento de Jesus Cristo, também comemoro, com simplicidade o meu natal.
Numa determinada tarde, dessas que o crepúsculo sofre oclusão vertiginosa, ao descerrar o postigo, lobriguei-a na ascensão da ladeira que se perpendiculariza com a Rua de São João, antiga Treze de Maio. E, sem procrastinação, descortinei a janela, deixando-a semiaberta. E, nesse ínterim, cumprimentei-a usando a seguinte interpelativa: -- Amélia, estás a morar, novamente, nas contiguidades da casa em que resido?!... --- Não hesitou um só instante, e redarguiu-me que estava, interinamente, prestando os seus serviços de funcionária pública na Escola Benedito Leite, antiga Escola Modelo. De antemão, adiantou-me que não estava em sala de aula, e sim na biblioteca do mencionado Centro de Ensino Fundamental e Médio, situado na Praça de Santo Antônio, também denominada de Antônio Lobo.
Em um interregno de cinco minutos de dialética, sem que pudesse lhe dar mais atenção, uma vez que o telefone vocacionou-me lá fora, na varanda da casa. Então, despedi-me dela com o aceno de mão esquerda, pleno de cordialidade, prometendo visitá-la na própria escola, num prevalecimento de fugaz comenos. Não tardou muito, para que eu subisse os degraus que aduzem ao interior do educandário, e logo me dirigisse ao espaço circunscrito, onde fica o salão de leitura da referida biblioteca, e, em seguida, conseguisse acionar a sirene, afixada no caixilho externo da porta. Percebi que alguém abruptamente, aplicava duas voltas anti-horárias na fechadura da porta. Assim que a hemibanda se escancarou, a pessoa de Amélia da Guia Schalcher Pereira assomou na soleira da porta, exatamente no centro de cerramento dos artefatos de madeira. Recebeu-me discretamente exibindo um ar de aprazimento acolhedor. Mandou-me sentar, e, durante um silêncio prolativo, pude concatenar as palavras que comporiam o contexto da nossa lacônica confabulação, já que estávamos no interior do recinto de trabalho.
Em outra ensancha, disse-me, numa mussitação de lábios emotivos, que vinha sofrendo há bastante tempo as agruras proporcionadas pela síndrome palindrômica de uma colite crônica ---- de natureza emocional acrimoniosa. De pronto, aconselhei-a a que contivesse os arrebatamentos das comoções, procurando, também, realizar uma dieta alimentar, e, principalmente, a que lhe permitisse a abjuração da carne vermelha. --- Abjurar, professor Cerveira; o termo empregado é ótimo, mas não em questão de disciplina alimentar!... Disse-me isto, com fisionomia plangente, depois de perlustrar-me acuradamente a face.
De modo louçã, veio-me também fazer uma visita, sendo solicitamente acolhida por minha mulher --- Maria do Socorro, antes mesmo que me manifestasse, pois não me encontrava, naquele átimo, nos aposentos do lar.
Declarava, com solicitude, que não deixava morrer em pleno mostruário do celular as minhas ligações nem as mensagens que lhe enviava, usando o telefone celular como meio de comunicação atualizado. Outrossim, dizia a quem quisesse e tivesse ouvidos para escutar o seguinte: Wilson Cerveira é a única pessoa que requesta, com galhardia, redarguimento premente das emissões que realiza diuturnamente.
Após ter o seu quadro clínico recrudescido, não deixava de postular-me conselhos sobre medicamentos que deveria tomar ou não, apesar de ter assistência médica do seu gastroenterologista.
Na peroração da sua vida material, encerrado no dia 25 de julho de 2010, no dia seguinte ao seu natalício de quarenta e quatro anos. E, então, um ano antes da eterna despedida física, apresentou-me um punhal de dois gumes, que é o tratamento quimioterápico, o qual poderia restabelecê-la ou, em cabal dualismo, matá-la.
No postremeiro ensejo, sem que nenhuma providência pudesse ser mais tomada. é que fui avisado açodadamente, pois, Amélia da Guia, nessa hora de extrema angústia, já se encontrava em seu leito de morte, somente aguardando a chegada do esquife, para que lhe agasalhasse o corpo inerte!
Wilson Cerveira
Obrigado pela lembrança meu amigo!
ResponderExcluirobrigado pela lembrança meu ex professor de Biologia
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