quinta-feira, 23 de novembro de 2017

MARCADORES DO TEMPO FUNÉREO



     Dona Filadelfa, senhora respeitosa, jamais olvidava o seguinte: “O tempo não remanesce nos campos santos, e, também, nas amplitudes que as almas podem alcançar junto a Deus”. Este enigma temporal, cabalmente esfíngico, soçobrará em resquícios nas cominuições do telúrico.
     O tempo, profligador inexorável, não aparata suficientemente o preconizar do desespero ostentado pelo senhor Ladiceu. Nesta manhã macabra, ele teve o desprazer fatídico de inumar – de uma só vez – toda a família, vítima de um catastrofismo automobilístico inopinado: a mulher Túlia, e os filhos, Abnadab e Catalomeu. Destarte, de maneira aturdida, ficou entregue, de modo pungente, as amaríssima acrimônias de uma inclemente e horrenda soledade!...
     Quem seria no próprio campo santo, após soçobramento, capaz de dilucidar os contrastes verossimilhantes – entre a vida e morte? Não soube exarar, após o súbito delíquio, quem era o sujeito que representava a mortificação do ser, ou, então, a vivificação continuada ou interrompida!...
     Que desprendimento abrupto entre o corpo e a alma! Se não houvesse este cabalístico temporal, iríamos sobreviver a todas as antinomias, sem hesitação, por tempo indeterminado.
     Chorar para madidar a terra ressequida, não empeçando o surdimento de uma única flor. Ah! Meu Deus, com eles, os mortos, decerto, precisam de ser lembrados diuturnamente, para que jamais feneçam de corpo e alma. Nesse caso, é preferível perder o corpo, segundo a Bíblia Sagrada, a perder a alma!...
     Não sabíamos, realmente, que este tempo existia no espaço etéreo da eternidade infinita. Ele singra, sem os cerceamentos da velocidade e da aceleração. De fato, irrompe como se fosse competir com a insólita velocidade da luz no vácuo – 300.000 km/s². Não se lobriga uma sequer retumbância, pois os sussurros ultrapassam as ondas acústicas que proporcionam as fortíssimas ondas de vento no espaço semiaberto, indeterminado em toda sua extensibilidade de deslocamento veloz!...
     Nem os mais rebuscados relógios – de altíssima tecnologia, seriam capazes de ressumbrar os empeceres que aduzem aos contrastes existentes nas razões e proporções temporais...
     Quiçá, sejam lá as remissões de todas as imprecações perpetradas no decorrer da vida existente no interregno telúrico. Há, por isso, uma premente necessidade de libertação do ser, à qual poderá ser efetuada através do terço, induzindo a termos um consolo diante da dor percuciente que nos faz sorumbáticos –desde que extrapolamos as vicissitudes valetudinárias que nos posicionam na qualidade de seres combalidos...
     Quanto tempo passaremos por lá, sob a objurgatória de todas as excrescências coletas no perquirir sobejo das enciclopédias médicas! Reiteremos a premência de mitigação, uma vez que a asfixia nos arrefece, aduzindo-nos a uma estase fisiológica dos demais sistemas orgânicos – que trabalham sincronicamente na interligação orgânica de todas as células, tecidos, órgãos e sistemas orgânicos. Vê-se, então, a significação manutentória de todos os complexos intrínsecos e extrínsecos – mormente os que manobram a homeostase!...
     Para que marcar o tempo, já que sabemos que a eternidade é um oceano sem praias!... Não há ancoradouro capaz de delimitar a razão aparente entre o tempo e o espaço. As almas, entidades de uma perpétua vacuidade, vivem a singrar os pontos nevrálgicos, estabelecedores dos excruciamentos pelos quais perpassam os espíritos dos que partiram em definitiva do orbe, à cata de melhores vislumbramentos premonitórios...
     Não se sabe ao certo as características em comum, porquanto nos campos santos, todos parecem remanescer de modo expungitório os caracteres ressumbradores que os diferenciam dos demais fluidos que se transportam ao longo da vida, como se fossem propináculos de reticências de luz pelas veredas cruzadas do vetusto orbe, em lídimo declínio senescente!...
     Quais são essas noites de percuciente silêncio monástico, onde não se reconhecem, após avassaladora putrefação, os caracteres fisionômicos dos ascendentes. Mesmo assim, não os esqueci, guardei-os na memória, de modo incólume, – como se fosse reconstituir os pormenores formados desde os pródromos dos mais longínquos prístinos!
     Se os perdesse, obliteraria os laivos armazenados desde o período pueril, que é o melhor de todos os vitais, e é nele que imprimimos e preservamos as lídimas reminiscências -- do que fomos durante o longo período em que permanecemos absconditados no interior do útero materno – de todas aquelas leais mulheres que nos ad-rogavam como mães – em todas as dimensões temporais: hodierno, hesterno e crástino!...
     Após exumação – de tempo exíguo – admira-me a profligação da matéria tissular por vermes, bactérias e fungos – de várias etiologias enigmáticas. Sei, do arquivo da memória implacável, os traços fenotípicos daqueles que me auxiliaram desde o encetamento dos protótipos vitais irremediáveis!...
     Nesta madrugada, em que houve o delíquio cabal dos sentimentos recônditos, não pude mais lobrigar os pares de lábios que exprimiam o desiderato confessional de relatar, ressumbratoriamente, todas as virtudes e defeitos encontrados ao longo temporário de vidas acumuladas, submergidas nas mais lancinantes excruciações fatalísticas!
     Deveras, sobressaem os modos de ternura, todos efetuados ao longo de múltiplas perquirições... Este cronômetro, marcador impiedoso, não prescinde o registro somatorizado de dores que sofrem sinestesia no corpo inteiro, buscando presumir os mais estritos caracteres divergentes.
     Ninguém tem a capacidade sortilégica de cruzar os avanços propositórios, à cata de inusitadas demandas, com exceção, daqueles que requeiram provimentos urgentes, para que haja uma cicatrização dos estigmas, sinais determinantes de todas as características circunstanciais do ser humano, muitos anos antes, sem perplexidade, que ele se definisse como sendo primórdios de abertura de um acúmulo de anos sucessivos em seus diferentes graus de catastrofismo.






                                                                  Wilson Cerveira 
  

Nenhum comentário:

Postar um comentário