Dona Filadelfa, senhora respeitosa, jamais
olvidava o seguinte: “O tempo não remanesce nos campos santos, e, também, nas
amplitudes que as almas podem alcançar junto a Deus”. Este enigma temporal,
cabalmente esfíngico, soçobrará em resquícios nas cominuições do telúrico.
O tempo, profligador inexorável, não
aparata suficientemente o preconizar do desespero ostentado pelo senhor
Ladiceu. Nesta manhã macabra, ele teve o desprazer fatídico de inumar – de uma
só vez – toda a família, vítima de um catastrofismo automobilístico inopinado:
a mulher Túlia, e os filhos, Abnadab e Catalomeu. Destarte, de maneira
aturdida, ficou entregue, de modo pungente, as amaríssima acrimônias de uma
inclemente e horrenda soledade!...
Quem seria no próprio campo santo, após
soçobramento, capaz de dilucidar os contrastes verossimilhantes – entre a vida
e morte? Não soube exarar, após o súbito delíquio, quem era o sujeito que
representava a mortificação do ser, ou, então, a vivificação continuada ou
interrompida!...
Que desprendimento abrupto entre o corpo e
a alma! Se não houvesse este cabalístico temporal, iríamos sobreviver a todas
as antinomias, sem hesitação, por tempo indeterminado.
Chorar para madidar a terra ressequida,
não empeçando o surdimento de uma única flor. Ah! Meu Deus, com eles, os
mortos, decerto, precisam de ser lembrados diuturnamente, para que jamais
feneçam de corpo e alma. Nesse caso, é preferível perder o corpo, segundo a
Bíblia Sagrada, a perder a alma!...
Não sabíamos, realmente, que este tempo
existia no espaço etéreo da eternidade infinita. Ele singra, sem os
cerceamentos da velocidade e da aceleração. De fato, irrompe como se fosse
competir com a insólita velocidade da luz no vácuo – 300.000 km/s². Não se
lobriga uma sequer retumbância, pois os sussurros ultrapassam as ondas
acústicas que proporcionam as fortíssimas ondas de vento no espaço semiaberto,
indeterminado em toda sua extensibilidade de deslocamento veloz!...
Nem os mais rebuscados relógios – de
altíssima tecnologia, seriam capazes de ressumbrar os empeceres que aduzem aos contrastes
existentes nas razões e proporções temporais...
Quiçá, sejam lá as remissões de todas as
imprecações perpetradas no decorrer da vida existente no interregno telúrico.
Há, por isso, uma premente necessidade de libertação do ser, à qual poderá ser
efetuada através do terço, induzindo a termos um consolo diante da dor
percuciente que nos faz sorumbáticos –desde que extrapolamos as vicissitudes
valetudinárias que nos posicionam na qualidade de seres combalidos...
Quanto tempo passaremos por lá, sob a
objurgatória de todas as excrescências coletas no perquirir sobejo das
enciclopédias médicas! Reiteremos a premência de mitigação, uma vez que a
asfixia nos arrefece, aduzindo-nos a uma estase fisiológica dos demais sistemas
orgânicos – que trabalham sincronicamente na interligação orgânica de todas as
células, tecidos, órgãos e sistemas orgânicos. Vê-se, então, a significação
manutentória de todos os complexos intrínsecos e extrínsecos – mormente os que manobram
a homeostase!...
Para que marcar o tempo, já que sabemos
que a eternidade é um oceano sem praias!... Não há ancoradouro capaz de
delimitar a razão aparente entre o tempo e o espaço. As almas, entidades de uma
perpétua vacuidade, vivem a singrar os pontos nevrálgicos, estabelecedores dos
excruciamentos pelos quais perpassam os espíritos dos que partiram em
definitiva do orbe, à cata de melhores vislumbramentos premonitórios...
Não se sabe ao certo as características em
comum, porquanto nos campos santos, todos parecem remanescer de modo
expungitório os caracteres ressumbradores que os diferenciam dos demais fluidos
que se transportam ao longo da vida, como se fossem propináculos de reticências
de luz pelas veredas cruzadas do vetusto orbe, em lídimo declínio
senescente!...
Quais são essas noites de percuciente silêncio
monástico, onde não se reconhecem, após avassaladora putrefação, os caracteres
fisionômicos dos ascendentes. Mesmo assim, não os esqueci, guardei-os na
memória, de modo incólume, – como se fosse reconstituir os pormenores formados
desde os pródromos dos mais longínquos prístinos!
Se os perdesse, obliteraria os laivos
armazenados desde o período pueril, que é o melhor de todos os vitais, e é nele
que imprimimos e preservamos as lídimas reminiscências -- do que fomos durante
o longo período em que permanecemos absconditados no interior do útero materno
– de todas aquelas leais mulheres que nos ad-rogavam como mães – em todas as
dimensões temporais: hodierno, hesterno e crástino!...
Após exumação – de tempo exíguo –
admira-me a profligação da matéria tissular por vermes, bactérias e fungos – de
várias etiologias enigmáticas. Sei, do arquivo da memória implacável, os traços
fenotípicos daqueles que me auxiliaram desde o encetamento dos protótipos
vitais irremediáveis!...
Nesta madrugada, em que houve o delíquio
cabal dos sentimentos recônditos, não pude mais lobrigar os pares de lábios que
exprimiam o desiderato confessional de relatar, ressumbratoriamente, todas as
virtudes e defeitos encontrados ao longo temporário de vidas acumuladas,
submergidas nas mais lancinantes excruciações fatalísticas!
Deveras, sobressaem os modos de ternura,
todos efetuados ao longo de múltiplas perquirições... Este cronômetro, marcador
impiedoso, não prescinde o registro somatorizado de dores que sofrem sinestesia
no corpo inteiro, buscando presumir os mais estritos caracteres divergentes.
Ninguém tem a capacidade sortilégica de
cruzar os avanços propositórios, à cata de inusitadas demandas, com exceção,
daqueles que requeiram provimentos urgentes, para que haja uma cicatrização dos
estigmas, sinais determinantes de todas as características circunstanciais do
ser humano, muitos anos antes, sem perplexidade, que ele se definisse como
sendo primórdios de abertura de um acúmulo de anos sucessivos em seus
diferentes graus de catastrofismo.
Wilson Cerveira
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