terça-feira, 12 de maio de 2020

MÁXIMO DELÍRIO ALUCINATÓRIO

            Egberto não poderia jamais experimentar uma imane sensação simulacral de posse. Sentia-se proprietário de um Edifício de vinte andares. Para tanto, precisava de um parceiro, e foi assim que  encontrou o Elesbão. Acompanhava-o, andar por andar, uma vez por mês. E, a remuneração nada mais representava do que a correspondente a três salários mínimos. Julgava-o ser arquiteto, visto que fosse apenas desenhista.Resumidamente, o único serviço correspondente representava o de companheirismo mensal. Ambos percorriam todos os compartimentos inerentes a cada andar. O beneficiado era, indubitavelmente, o Elesbão.
            De fato, o Egberto só fazia perder a pecúnia que obtinha de sua aposentadoria como almoxarife. Deveras, conseguia usufruir a síndrome paroxística palindrômica referente ao  máximo delírio alucinatório. Desta forma, psicose é uma síndrome associada a uma queixa do paciente (espontaneamente mencionada ou obtida mediante  entrevista) de vivências alucinatórias e/ou delirantes ou a observação, feita pelo médico, de comportamentos sugestivos.
            No primeiro caso, diz-se que alucinação e delírio ocorrem como sintomas. De forma, o binômio supracitado são distúrbios da vida mental em que o contato com a realidade mais formal e imediata está alterado. Alucinações são manifestações psicopatológicas da esfera senso-percepção definidas como percepções nítidas e objetivas de qualquer modalidade ( visual, auditiva, olfativa, táctil, ou um  conjunto destas) que habitam espaço externo na ausência de um percepto real. Quando, numa enfermaria em que não se ouvem ruídos, um paciente afirma ouvir vozes agudas de uma mulher vindas da sala ao lado, tal vivência constitui uma alucinação auditiva.
             Delírios são ideias ou crenças que centralizam sobremaneira a vida psíquica de uma pessoa, havendo situações em que  o paciente passa a viver em um mundo autístico, completamente absorto nessa "nova realidade". Os delírios constituem um falso juízo da realidade, possuindo uma forma psicopatológica própria, caracterizada por serem crenças não argumentáveis, incorrigíveis e não compartilhadas por indivíduos de  mesma  cultura e com alta significação pessoal. A temática dos delírios é extremamente variável ( grandeza, hipocondria persecutória, reivindicatória, ciúme, entre outros). Quanto maior o componente de "bizarrice" e  o  não- compartilhamento, mais provável é a hipótese de delírio. Por exemplo, a afirmação de um paciente de ter tido um chip implantado em seu olho para que o Pentágono pudesse espionar o governo brasileiro por meio de sua retina.
             Em outras formas de vivência delirante, o componente do delírio recai sobre como o paciente percebeu o conteúdo do delírio recai sobre como o paciente percebeu o conteúdo do delírio e não sobre  o componente de bizarrice ou estranheza. Por exemplo, uma paciente com esquizofrenia paranoide afirma que seu filho de nove anos está sendo molestado sexualmente molestado pelo pai com quem vive em outro país, neste exato momento( tal fato, em  si, não seria necessariamente impossível). Mas ao ser perguntada sobre como soube disto, ela refere que uma visão mental lhe revelou uma aparente verdade.
            Alucinação e delírio podem ocorrer juntos ou separados. Habitualmente associam-se manifestações psicóticas à esquizofrenia que foi descrita como iniciando em adultos jovens, levando a uma deterioração global das funções mentais. Foram descritos desde a antiguidade, mas começaram a ser sistematicamente publicados a partir do séc. XIX por Haslan (1810), Hecker ( 1871 ) e Kalhbaum ( 1874 ). Para distingui-los dos pacientes dos pacientes com quadros demenciais associados ao envelhecimento, o psiquiatra belga Benoit Morel, em 1860, denominou o quadro clínico de "démence precoce", termo latinizado como demencia  praecox por  Kraepelin. Kurt Schneider continuou a busca por sintomas patognômicos e, em 1948, classificou uma série deles como essenciais ou de "primeira ordem" para o diagnóstico. Vale lembrar que a manifestação de sintomas psicóticos não significa obrigatoriamente que se trata de esquizofrenia
             Uma importante tarefa diante de um paciente com quadro psicótico é estabelecer se deve-se a:
               -- transtorno mental primário ( como esquizofrenia )
             -- condição médica geral, como traumatismo, infecção, alteração tóxico- metabólica epiléptica.
             -- Uso de medicações ou substâncias psicoativas.
             -- Uma combinação dentre esses fatores.
      Egberto, cabalmente teleguiado pelo pressuposto arquiteto Elesbão, ficava na contingência de receber  as cédulas fraudulentas adquiridas pelo seu guia de descomunal infidelidade. Ao passo que, indubitavelmente, o seu avalista de "alta confiança" somente aceitava as cédulas lídimas, em plena circulação no mercado cambial, com numerações e marcas registradoras de real identificação  em todo o território nacional.
             Egberto continuava sendo um eterno perdedor, pois subtraia cada vez mais  a sua avara aposentadoria de seis salários mínimos. Restava-lhe apenas a metade -- que era de três mínimos, visto que a outra parte pertencia ao Elesbão, um capadócio dos maiores!
             Elesbão persuadia o pseudo dono do edifício de vinte andares, e sempre dizia-lhe da necessidade extrema de ir mensalmente ao prédio. De fato, Egberto não chegava a lobrigar a ressumação de tal falácia, porquanto guardava em cofre lacrado as falsificadas cédulas que recebia mensalmente. Consumia, estritamente, só aquelas que lhe sobravam da tacanha pecúnia atinente ao somítico almoxarifado pertencente a um Órgão Funcional do Estado do Maranhão.
               Não acatemos a ideia de Egberto viajar  para tratamento num manicômio especializado -- acabara de exarar Elesbão -- o seu confidente caviloso de muitos anos e, também, arquiteto perfunctório; isto é, nunca deixara de ser somente um simples desenhista.
            Após  muito tempo de preocupações e aborrecimentos, Elesbão contraiu para si a neurose do medo. Havia no seu intrínseco uma sensação heteróclita de sucessivas  perdas irreparáveis. Uma delas seria a desvinculação do trato que fizera com o Egberto, o qual vinha sendo vilipendiado há muitos anos. Outrossim, ainda não havia chegado às raias da extrema miséria devido ser parcimonioso para com suas despesas diárias, semanais e mensais!...
            De  repente, o Egberto poderia sucumbir ao estado de obnubilação que o deixava aparvalhado. Quem sabe se uma substância diferente atuaria na rede neuronal do cérebro dessa criatura, fazendo com que ele regressasse ao circunstancial de uma possível e aparente realidade não corroborada! Num desses testes ocasionais, a Ciência, mesmo em estado  de depauperação para  a maioria das doenças mentais, poderia, de súbito, retroceder. Destarte, ele passaria a reconhecer as cédulas fora de circulação que  recebia mensalmente do sacripanta, como se fora o recolhimento dos aluguéis dos apartamentos de cada andar do edifício " Luas do Prazer "
          De qualquer forma, esperava o Elesbão -- de modo quase convicto -- que  isso jamais viesse a ocorrer, já que se sentia remunerado em parte -- com a pecúnia que recebia do Egberto, no final de cada mês entrante. Sendo assim, reunia esses três salários com  uma pensão da filha mais nova -- e ia torcendo os empeceres que o orbe proporciona no ramerrão de situações funestas e inelucidáveis . Caso perdesse essa outra metade, sentir-se-ia desamparado, manco, precisando de duas bengalas para manter o corpo numa posição vertical, pronto para trilhar pequenas, médias e grandes distâncias.
             Quando Egberto retornava do manicômio, após alguns meses de hospedagem, corria à casa do amigo que o escorchava, com o propósito de averiguar a situação do fantasmagórico senhor de sessenta e oito anos de experimentação, vivência e sofrência -- uma trinomia que o conturbava ainda mais, com reações divergentes de síncopes ou delíquios recorrentes no decurso impertinente das horas registradas pelo arcaico relógio de pêndulo!...
            
                                                                    Wilson Cerveira

               
             

4 comentários:

  1. Anônimo16/5/20

    Interessante texto sobre as questões mentais, notadamente relacionado à esquizofrenia. As visões mentais criam realidades virtuais para o paciente, nas quais fatos e imagens se confundem, numa extrema ação fatídica, por vezes incontroláveis; na formação de um "mundo" à parte.
    Luís Carvalho. 16 de maio de 2020.

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  2. Texto denso, em uma linguagem pouco coloquial, rebuscada é demonstrativa da qualidade científica do articulista. As definições são muitas e mostram, também, a qualidade de um pesquisador das dúvidas e desencontros da alma humana.
    Não é uma leitura de fácil entendimento, mas uma boa e agradável leitura.

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  3. Texto que trás um misto de Ciência e Literatura que embora pertencerem a domínios diferentes, tal aproximação revelam entretanto a riqueza do olhar do autor dentro de seu sentimento de mundo.

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  4. Interessante texto que tem como pano de fundo a saúde mental. Tema tão em voga nos dias atuais.

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