quinta-feira, 8 de março de 2012

OS DELÍRIOS FRENÉTICOS DE UM CALCÍDIO NOSTÁLGICO

OBS.: OS PERSONAGENS DESSE ARTIGO SÃO FICTÍCIOS, COM EXCEÇÃO DE CALCÍDIO, QUE ERA UM AMIGO MEU DOS TEMPOS DE ADOLESCÊNCIA, E QUE MORAVA NO MESMO ARREBALDE DENOMINADO DE SÃO PANTALEÃO.


      Nos pródromos  da década de 1970, o polêmico  Calcídio cursava o “Colegial”, antigo curso Científico, no tradicional “Liceu Maranhense”. E, desde então, sempre fora o centro de atenção, não nos estudos, mas no que concernia ao mulherio, seu âmago-alvo e de maior predileção. Conhecia-lhes as manhas, e sabia ser, com maestria de primeiríssima grandeza, um imponente garanhão.
      Gostava de posicionar-se no vértice do edifício Caiçara, situado na rua Oswaldo Cruz, em São Luís do Maranhão, tendo uma visão ampla da rua transversal; assim como, da mesma rua chamada de “Grande”, exatamente esta que vem desde lá, daquele cruzamento superior, que faz limite com o Ministério da Fazenda, constituindo o maior trecho, mormente no que se refere ao vasto sentido longitudinal.
     Há quarenta anos, um interregno imenso, aquele que fora um guapo  moçoilo, com bastante especiosidade, tentava alucinadamente, manter junto a si a silhueta da eterna juventude – um legítimo sindrômico palingenésico ---, conquanto tenha perdido esse desiderato impossível, longe de ser concretizado, de maneira irrecorrente.
     Realmente, Calcídio, o exímio garanhão, sonhava e vislumbrava em sua intrinsidade, o sujeito multifário que sempre fora, desde a epigenesia, no soçobro do seu próprio obscurantismo.
     Procurava rever, em pleno devaneio, o maneirismo que aparatava, desde o porte físico até a indumentária sedutora que o vestia galhardamente. Ao passo que, de segundo a sexta-feira, o traje poderia ser a própria farda do Liceu Maranhense; e, para surpresa, usava-a do seguinte modo: gravata com laço baixo alcançando a altura do manúbrio, formando um tipo de esfera, bem perceptível, cuja prontidão seria o aprisionamento da jugular. Um dos pés ficava plantado no chão, à medida que o outro, apoiado na parede do “ Edifício Caiçara, e, desse modo, experimentava a sensação de vê-lo dobrado juntamente com a perna esquerda, como se fosse possível resolver o caso de um provável tombo imprevisto, sem que houvesse algum tipo de substrato resgateador.
     A camisa de gala, aparatando as mangas arregaçadas, no limite da articulação entre o braço e antebraço à medida que os botões superiores iam se posicionando fora de suas respectivas casas, guardando consigo os emblemas dos epinícios!... À altura do bolso da camisa, sem a presença de hipérbole, não se lobrigava outro objeto díspar, a não ser uma carteira de cigarro da marca – Minister ---, cujo arquétipo caracterizava a longevidade da haste do tabaco. Prevalecendo-se dessa longitudinal abertura, introjetava a mão no tórax, fazendo-a descer até a região pubiana, a fim de que pudesse massagear levemente a glande do pênis, e, logo em seguida, erguê-lo em sentido anti-gravitacional, mantendo a sua ereção sob a tutela da vetorialização do tipo transversolongitudinal.
     Na algibeira maior, ostentava o canhenho, recurso emergial, para que tivesse condições suficientes para anotar telefones, endereços e demais credenciais relacionados às mulheres que o paqueravam ao passar, lançando-lhe um olhar de fogo, emanando um poderio inconteste de uma cabal ardência voluptuosa!...
     Calcídio tendia ao malabarismo cabalístico, notadamente em suas entradas triunfantes nos salões de festa, quando saía dançando desde o recinto contiguo até chegar à passarela dos harmônicos meneios. Destarte, ensaiava passos mágicos, ora trazendo a bela senhorinha para a intimidade frenética das suas pernas meândricas – como se fora um instrumento de sopro deleitoso --, ora rodopiando em hemiciclo, fazendo-a girar sobre si mesma, para que pudesse roçagá-la no aconchego mitigante da orquestração sinérgica dos músculos torácicos. Dessa forma, parecia exibir galhardamente um troféu de loiros incontáveis, desde o primogênito átimo, à medida que ruborizava a si, e, de modo simultâneo, a dama com quem exercia a arte magistral do bailado coreográfico.
     De maneira indubitável, Calcídio recendia perdição e metamorfismos naquelas inesquecíveis noites de sábado atinentes aos três primeiros anos da década de 1970, ficando contido neles o registro dessas proezas, as quais serão sempre lembradas por uma meia-dúzia de criaturas abnegadas e nostálgicas que lhe faziam a devida corte.
     A dança, para ele, era a melhor de todas as ginásticas praticadas, pois representava o rediviver dos símbolos fálicos enlanguescidos, sobremodo para os portadores de uma ignição copulatória acrobática, aduzindo-os à culminância plangencial de todos os orgasmos coligidos.
     Ele, o grande conquistador de mulheres calipígeas, freqüentava quase todas as festas realizadas nos clubes sociais de São Luís do Maranhão. Deveras, fazia questão de chamar a atenção dos presentes, através de vários itens fundamentais e imprescindíveis, tais como: o traje, indo desde o que é considerado esportivo, propriamente dito, até chegar ao tão decantado paramento a rigor; e, desse modo, ostentaria uma aparente opulência luxuriosa.
     Em determinadas ocasiões, o grau de metamorfismo que apresentava no sentido de se tornar aliciante, ultrapassava as expectativas das estremaduras. Tanto assim, diante do heteróclito espelho de três faces, o qual não mais o identificaria como arquétipo, tendo por referencial as suas próprias características peculiares. Nesse caso, sofreria uma cabal demudação. Também, quem o conhecia há bastante tempo correria o grande risco de não poder identificá-lo, como sendo o mesmo Calcídio, sujeito impulsivo, que dançara sábado passado, precisamente naquele salão engalanado da Antiga Associação do Banco do Brasil (AABB), que ficava contigua ao prédio do vetusto Colégio Marista.
     Dependendo da mulher: solteira, casada ou desquitada, que vinha, quase sempre, trazendo à tira-colo, procurava a todo custo, tomar as devidas precauções, evitando, de quaisquer modos, um tiro a queima-roupa, com pontaria certeira e fatal. Para tanto, usava peruca,  bigode artificial, óculos de lentes negras, películas deformantes, e demais aparatos que serviriam para manter a descomunal especiosidade demonstrada pela sociedade do espetáculo dissimulatório.
      Para que adentrasse ao salão do Jaguarema, em companhia da Nadir, teria que se embuçalar bastante, de tal forma que, em hipótese alguma, poderia deixar sombra de identificação pessoal, uma vez que a mencionada mulher era a esposa do coronel Ludimiero, um exímio atirador de elite, capaz de acertar, com precisão milimétrica, a cabeça de um alfinete. E, ao saber dessa façanha, o garanhão, o homem dos passos mirabolantes, já tremia na base, mas o desejo patológico, infrene, persistia diante do risco recrudescente!...
      Outrossim, o tal coronel não se importava que a sua mulher dançasse com “bichas desvairadas”, já que elas exibiam apenas especiosidades, e nada faziam, a não ser coreografias. Assim sendo, estava preparada para se adamar em pleno salão de festa, caso o militar --- de alta patente ---, assomasse, e ele tivesse tempo de vislumbrar-lhe a imagem. Deveras, o coronel Ludimiero não perdoava nenhum tipo de bruxo, mesmo que fosse estrangeiro, manco, cego, doido, com a síndrome de Alzheimer, demência total, surdo-mudo, portador da síndrome de Down, etc. Todos, sem exceção, seriam capazes de copular de alguma forma artificializada, a venusta mulher do coronel, menos aqueles que ele chamava de “maricas”, que é o que se sente fêmea, chamando o ânus de vagina.
     De quando em quando, em plena festa, enquanto descansava as pernas enlanguescidas de ginásticas rítmicas consecutivas, Calcídio cofiava o bigode de pêlos avermelhados, e passava, amiúde, a mão sobre o sincipúcio encalvecido, como se quisesse avaliar o percentual probabilístico de um fatídico acontecimento durante essa travessia periclitante.
     Em um dia de sábado, especialmente ele, o astuto Calcídio, se fazia acompanhar da langorosa Dulcinéia, a mais nova viuvinha, ex-mulher do capitão Euclides, falecido há uma década, parecia sorridente perante o clima de liberdade que lhe tomava conta d’alma. Realmente,  ninguém imaginava a satisfação que lhe enchia o peito nesse afã da dança, que o deixava em contato direto com o seu corpo a exibir as formas cálidas e hirtas da lubricidade, contidas na dinâmica colossal dessa sua sedutora  namorada, uma lídima e deslumbrante tetéia de carne e osso. Todos queriam tê-la junto a si, num revigorar avassalador de forças concupiscenciais determinantes quanto ao arquétipo referencial ilativo. De fato, o liceísta, o que se enamorava em presença de mulheres bonitas,  expiava apenas dois ou três dias de insônia renitente, para que não se sentisse em estado paradisíaco. Assim, o espírito do seu ex-marido, conquanto o corpo estivesse consumado integralmente na terra fria e indiferente dos campos santos, objurgava-o com severidade, imprecando-o de todas as maneiras, tendo por testemunhas os testemunhos tácitos das formas incorpóreas, e que, às vezes, nos surpreendem com suas manifestações de iniqüidades letais.
     Assim, em cabal incúria, Calcídio ia passando os seus dias de juventude álacre. Tinha por quartel-general as paredes laterais do vetusto edifício Caiçara. Lá, refesteladamente, recebia mensagens, informações e encontros fortuitos com mulheres das mais diferentes idades, com predileção ao grupo das ninfetas, sobretudo as que apresentavam volúpia exacerbante!...
       Depois de trinta anos, sofrera um pesadelo de alta precipitação, e voltara, numa manhã de sábado, ao mesmo ponto onde permanecia por longas horas, naquele período em que era colegial. Mas, arrependeu-se profundamente,  pois ninguém mais o olhava com ares de sedução. Com a perda definitiva da mocidade, a pré-senescência não lhe dera a mínima condição de respirar a plenos pulmões, para que ainda pudesse flertar, sem medo, com as mulheres que já conviviam com a fase de pós-climatério!...
                                                                        
                                                                      Wilson Cerveira
      






Um comentário:

  1. Anônimo9/3/12

    Um belo conto sobre o tempo e de como ele nos ataca impiedosamente.

    Carlos H. G. Medeiros

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