sábado, 24 de março de 2012

O DOUTORÍSSIMO E SEUS APARATOS -- PARTE I

     Dr. Dilermano, já velho e cansado, não perdera as suas características primitivas. Prosseguia como sempre o fora, intemerato em todas as atitudes que praticara no decurso vital. Não assinava promessas de pagamento, pois só adquiria o que estava ao seu alcance. Fazia questão de pagar à vista, no exato momento da compra. Saía com a nota fiscal carimbada, tendo por chancela o vocábulo --- "Pago". Pregava-a no verso do objeto, e, antes que a pusesse, tinha o vezo de tirar no mínimo três cópias de cada comprovante do objeto adquirido, evitando desse modo, tergiversações assacadilhadas a respeito de sua singularíssima pessoa, um lídimo arquétipo pundonoroso e irrefutável.
     O doutoríssimo, como era cognominado pelos amigos mais íntimos, aparatava direituras prescritas pelos cronômetros que usava discretamente, de modo a reconditá-los sob as orlas dos punhos das três camisas de manga comprida que lhe serviam de anteparo e enxerto torácico, dissimulando o seu próprio emaciamento proeminente. De certo modo, demandava as leis da proporcionalidade matemática, ostentando três relógios em cada braço. No final do dia, sem hesitação, efetuava a média aritmética dos horários exibidos pelos diversos ponteiros, ressumbrando a discreta diferença estabelecida entre esses marcadores do tempo inexorável. 
     Além dos relógios, tinha afinidade por outros objetos de suma importância. No bolso interno da primeira camisa, conseguia agasalhar duas dúzias de canetas de diversos tipos, exibindo diferentes cores de tinta. Estava apto para assinar e escrever quaisquer artigos, sem que sofresse a interrupção da escrita por carência de fluido. 
     No bolso abscôndito do cós da calça, portava uma bereta alemã, afim de que a utilizasse em determinadas ocasiões emergentes e possíveis eventualidades. De ante mão, sabia que a decrepitude, pouco a pouco, ia abstraindo-lhe a pujança da mecênica muscular. Destarte, como meio compensatório, precisaria de uma arma de fogo urgente, para que pudesse deter a iracúndia do flagelado discente. Assim sendo, tornava-se respeitado perante alguns cominadores mais ousados. Decerto, se desferisse algum projétil, seria no caso extremo de legítima defesa, em que se mata para não morrer gratuitamente. Suportava ao máximo as provocações dos alunos facínoras, evitando que espiasse exulcerações posteriores e indeterminadas procrastinações quanto aos díspares graus de aleivosia.
     De uma forma ou de outra teria que abdicar ao uso da bereta alemã, já que havia completado o seu octogésimo aniversário. Ritualisticamente, devaneara um modo matemático de fazê-lo. Então, sem perplexidades, traçou igneamente o eixo cartesiano. No encetar, desferiu um tiro na vertical, e, logo em seguida, numa posição ascendente mais privilegiada, após subir dois lanços de escada, desfechou outro projétil, desta feita, na direitura que rege o vetor horizontal. Depois, riu alto, no momento em que se deparou mentalmente com a incandescência de ambos os eixos: ordenada e abscissa. Deu-lhe a impressão de ter chegado ao fastigio enigmático de um prístino devaneio. Quiçá, fosse a sua última ação a ser perpetrada quanto ao manuseio do tal instrumento de fogo. 
     De súbito, lembrou-se do fato que o aduziu a comprá-la colapsalmente. De fato era um artefato de primeiríssima qualidade, com traves e retraves aderentes em ambos os arcabouços balísticos. Deveras, a arma, de tamanho pequeno, teve uma vida média de seis décadas, somente nas mãos do doutoríssimo, que, com devido enternecimento, presenteou-a ao Zelesbão, seu pedreiro de inteira confiança, desde a época em que seu avô ministrava os ofícios intrincados das negociações marítimas.




                                        Wilson Cerveira

Um comentário:

  1. Anônimo24/3/12

    Sobre o "Doutoríssimo e seus aparatos" percebe-se o modo de viver de alguém que está sempre se precavendo contra fatos que possam alterar seu modo de vida. A segurança pessoal é o que importa nesta personagem e a estabilidade. Do amigo Luís Carvalho

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