Tirenoco, na casa do seu centenário, ficara insone a
madrugada inteira, dando a impressão que estava expiando algum mal que
praticara em sua sôfrega juventude. De fato, excogitava um novo caso de
normoanormalidade. Ei-lo: que tipo de mania eclodiu em dias hodiernos, --
interpelava ele --, com a finalidade basilar de o indivíduo sentir-se sempre
muito ocupado?!...
O provecto
senhor debruçou-se sobre vários compêndios, cujas páginas se encontravam
assinaladas, mantendo-os junto a si, nos espaços amplos da sua vetusta estante
colonial, que ostentava na lateralidade uma mesa de cabeceira portadora de três
dimensões vastamente acopladas sob a forma flabelar.
Liliputiciano, mestre de várias psiquiatrias, exarara com veemência:
quiçá, as marcas estigmatizantes da superocupação estejam arraigadas no
psiquismo egocêntrico de cada pessoa. Nesse caso, há comprovâncias de que a
criatura superocupada cerra-se tal qual um caracol; e, depois de algum tempo
procrastinatório, concentra-se hipersaturadamente no escopo do que presume ser,
deveras, o seu maior desiderato.
Com o
passar do tempo, o elemento chega a elucubrar atividades inerentes às
vacuidades de si mesmo, buscando várias tentativas artificiosas, capazes de
preencher a morbidez do prazer exacerbante. De quando em quando, ressuma
valetudinariedades de uma pseudo-exaustão. Então, tem, por ressudamento
fremente, a basilar ofegação de uma continuada, persistente e crônica azáfama
insuportável.
A
superocupação recrudesce a tal ponto nevrálgico, e, consequentemente, obicia os
somitos dos segmentos presentes nos membros superiores, inferiores e
intermediações articulares, fornecendo um falso aspecto de um arcabouço a
desmoronar de tanto açodamento proporcionado pela própria pessoa, quando
aparato o seu embuçalado estado de normoanormalidade.
A cousa,
que se denomina atarefante, entra em estado de degenerescência, e parece ser
gravíssima; pois também, todos os pertuitos corporais estarão estorvados em
seus diversos mecanismos fisiológicos, para que ninguém consiga romper o antro
masmorréico do desatendimento comprobatório.
Tirenoco,
que é a personagem em tela, dá-nos a pseudo-impressão de correr desenvoltamente
nas respectivas escalas da velocidade e da aceleração. De quando em vez,
escafede-se do cerceamento numérico, e dá uma volta completa fora e dentro de
si mesmo, desembocando num despenhadeiro cabalístico, sem probabilidade de
reencontrar-se no final de cada dia.
Natércia, a
quinta mulher de Tirenoco, ostentava com galhardia a pujança do célebre
desiderato de expugnar o infenso, que é o próprio tempo ocioso a carcomer o
produto resultante da oxidação do ferro.
De fato, a
Tércia, como era chamada pelos mais íntimos, marcara o momento que escolhera,
consoante o zodíaco, para que fosse atendida satisfatoriamente pela manicure.
Jamais imaginara sair da cadeira, onde acomodara o seu almofadado glúteo, com
as unhas sangrando nos seus respectivos cantos de percuciente encravamento.
Outrossim, adorava que outra pessoa se ocupasse com ela, para que pudesse dizer
especiosamente que estava exacerbada de labores, desses que a gente costuma
cognominá-los de espectros. Realmente, o postulamento lídimo não requer óbices
procrastinatórios.
Dona
Azoreta, por incrível que pareça, era a pior de todas, pois entortava-se toda
na extensão de uma velha cadeira preguiçosa, e chamava para o redor de si as
pessoas, em suas respectivas especialidades, que iriam cuidar-lhe do cabelo, do
sincipúcio até o postremeiro dedo menor do pé. Assim, dava a vaga impressão de
que estivesse sendo atendida por uma UTI Móvel onde um batalhão de
especialistas, sem protraimento, procurava diligenciar cada segmento corporal
da sua singularíssima pessoa, fazendo com que pudesse afirmar, com falácia, que
estava superocupada!...
Wilson Cerveira
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