sábado, 28 de abril de 2012

AS MARCAS DA SUPEROCUPAÇÃO


   Tirenoco, na casa do seu centenário, ficara insone a madrugada inteira, dando a impressão que estava expiando algum mal que praticara em sua sôfrega juventude. De fato, excogitava um novo caso de normoanormalidade. Ei-lo: que tipo de mania eclodiu em dias hodiernos, -- interpelava ele --, com a finalidade basilar de o indivíduo sentir-se sempre muito ocupado?!...
   O provecto senhor debruçou-se sobre vários compêndios, cujas páginas se encontravam assinaladas, mantendo-os junto a si, nos espaços amplos da sua vetusta estante colonial, que ostentava na lateralidade uma mesa de cabeceira portadora de três dimensões vastamente acopladas sob a forma flabelar.
   Liliputiciano, mestre de várias psiquiatrias, exarara com veemência: quiçá, as marcas estigmatizantes da superocupação estejam arraigadas no psiquismo egocêntrico de cada pessoa. Nesse caso, há comprovâncias de que a criatura superocupada cerra-se tal qual um caracol; e, depois de algum tempo procrastinatório, concentra-se hipersaturadamente no escopo do que presume ser, deveras, o seu maior desiderato.
   Com o passar do tempo, o elemento chega a elucubrar atividades inerentes às vacuidades de si mesmo, buscando várias tentativas artificiosas, capazes de preencher a morbidez do prazer exacerbante. De quando em quando, ressuma valetudinariedades de uma pseudo-exaustão. Então, tem, por ressudamento fremente, a basilar ofegação de uma continuada, persistente e crônica azáfama insuportável.
   A superocupação recrudesce a tal ponto nevrálgico, e, consequentemente, obicia os somitos dos segmentos presentes nos membros superiores, inferiores e intermediações articulares, fornecendo um falso aspecto de um arcabouço a desmoronar de tanto açodamento proporcionado pela própria pessoa, quando aparato o seu embuçalado estado de normoanormalidade.
   A cousa, que se denomina atarefante, entra em estado de degenerescência, e parece ser gravíssima; pois também, todos os pertuitos corporais estarão estorvados em seus diversos mecanismos fisiológicos, para que ninguém consiga romper o antro masmorréico do desatendimento comprobatório.
   Tirenoco, que é a personagem em tela, dá-nos a pseudo-impressão de correr desenvoltamente nas respectivas escalas da velocidade e da aceleração. De quando em vez, escafede-se do cerceamento numérico, e dá uma volta completa fora e dentro de si mesmo, desembocando num despenhadeiro cabalístico, sem probabilidade de reencontrar-se no final de cada dia.
   Natércia, a quinta mulher de Tirenoco, ostentava com galhardia a pujança do célebre desiderato de expugnar o infenso, que é o próprio tempo ocioso a carcomer o produto resultante da oxidação do ferro.
   De fato, a Tércia, como era chamada pelos mais íntimos, marcara o momento que escolhera, consoante o zodíaco, para que fosse atendida satisfatoriamente pela manicure. Jamais imaginara sair da cadeira, onde acomodara o seu almofadado glúteo, com as unhas sangrando nos seus respectivos cantos de percuciente encravamento. Outrossim, adorava que outra pessoa se ocupasse com ela, para que pudesse dizer especiosamente que estava exacerbada de labores, desses que a gente costuma cognominá-los de espectros. Realmente, o postulamento lídimo não requer óbices procrastinatórios.
   Dona Azoreta, por incrível que pareça, era a pior de todas, pois entortava-se toda na extensão de uma velha cadeira preguiçosa, e chamava para o redor de si as pessoas, em suas respectivas especialidades, que iriam cuidar-lhe do cabelo, do sincipúcio até o postremeiro dedo menor do pé. Assim, dava a vaga impressão de que estivesse sendo atendida por uma UTI Móvel onde um batalhão de especialistas, sem protraimento, procurava diligenciar cada segmento corporal da sua singularíssima pessoa, fazendo com que pudesse afirmar, com falácia, que estava superocupada!...

                                            Wilson Cerveira

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