O mestre doutor, filósofo e cientista,
abrangia o elucubrático em seu ícone
repleto de excentricidades. Jamais alguém evagaria que, logo abaixo de dois
pares de meia: um metido no outro, houvesse uma bússola aprisionada na perna
esquerda. Tudo isto se constituía uma necessidade basilar na direitura
educacional. Diante dos olhos desatentos e das cabeças carentes de
discernimento, as atitudes e os comportamentos do doutoríssimo eram
reconduzidos para o plano das estúrdias. Eram , na época, meras especulações
provindas de pessoas que ostentavam cabais vacuidades.
A bússola, segundo é sabido, é uma agulha
magnética móvel em torno de um eixo que passa pelo seu centro de gravidade,
montada, geralmente, em caixa com limbo graduado e usado para orientação;
agulha magnética. Assim sendo, há dois tipos de bússola: declinação (montada
com eixo vertical, permite determinar a declinação magnética, no local em que
se encontra ). A bússola de inclinação é a que tem o eixo horizontal e concede
estabelecer a inclinação magnética.
O mestre estava coberto de razão, pois em
se tratando de uma inopinada síncope mental, de quaisquer etiologias, ele
teria, logo após o paroxismo amnésico, condições de se localizar através das
linhas gráficas do seu referencial geográfico.
Dr. Dilermano mostrava diligência quanto
ao uso de material necessário à leitura diária: jornais e revistas. Tanto
assim, sem perda de tempo, mandou implantar um bolso retangular na
transversalidade da terceira camisa de manga comprida, caso fosse enumerada de
fora para dentro. Desse modo,, disporia de espaço para armazenar esses
consultores de notícias diversificadas. E, também, de uma forma ou de outra, serviriam de enxertos para o seu
escanifrado esqueleto torácico.
O doutoríssimo não tirava os olhos dos livros e demais artefatos de impressão.
Lia tudo o que estivesse ao alcance de
sua mão, ou, então, ia buscá-lo nas bancas, livrarias e papelarias. Trazia-os
sempre em triplicata, como se estivesse com medo de perdê-los, ficando com um
exemplar em cada uma de suas estantes colossais, estendendo essa biblioteca nos
amplos espaços dos aposentos da casa, propriedade particular da família. O
material gráfico começava na parte inferior da parede, e, progressivamente, ia
obedecendo o empilhamento seqüencial em direção ao teto, abrangendo toda a
dimensão geométrica do ápice.
Nos dias de semana, antes de sair de casa,
usava uma pequena balança, altamente sensível, para pesar os livros.
Separava-os por número de páginas, ou, então, contrabalançava-os,
proporcionalmente, engranzando os menos volumosos entre os de aspecto vultoso.
Saia de casa, de segunda a sexta, portando
inúmeros livros nas concavidades
bissetriciais dos ângulos formados
a partir da articulação do braço com o antebraço. O peso era o mesmo
para ambos os lados. Alguém, poderia pensar que um lado fosse mais pesado que o
outro, mas era apenas ledo engano, pois,
poderia conduzir dois compêndios do lado direito, e, simultaneamente;
cinco, do lado esquerdo, conquanto o fardo fosse equilibrado igualmente, não
pendendo nem tampouco alterando a higidez dos discos vertebrais , dispostos em
suas respectivas regiões do eixo de sustentação do corpo.
Reiterando
uma libração ainda maior, utilizava um suspensório escrotal, para que pudesse agasalhar os testículos, já um
tanto derreados em função das seis décadas vividas. Dessa maneira, não correria
o risco de maior alongamento dos cordões escrotais, sobretudo no momento em que
efetuasse um esforço bem mais expressivo, transpondo a capacidade de suporte
resistencial.
Em seguida, com discrição, o doutoríssimo
teve a nímia gentileza, mesmo na
estreiteza de um tempo colapsal, de ressumbrar as relíquias que guardava em sua
sala de aula prática. Destarte, reconditava vetustos utensílios cirúrgicos e
outros ostentórios usados em alguns experimentos científicos, como também, em
aulas práticas médico-farmacêuticas. De modo solícito, escancarou as portas
envidraçadas da velha estante, na qual armazenava seus imprescindíveis
instrumentos hospitalares, conservando-os, sem a presença da oxidação, durante
quatro decênios. Desse modo indelével, ei-los então: escalpelo ( bisturi de um
ou dois gumes, que é utilizado em dissecações ); lanceta ( instrumento
cirúrgico de dois gumes ); torniquete ( instrumento destinado a comprimir, ou a
cingir apertando ) ; fórceps ( tenaz ou pinça cirúrgica destinada à extração de
corpos estranhos contidos em um corpo orgânico. Também, instrumento que se
usava para extrair do útero a criança. Finalmente, mostrou os diversos tipos de
bisturi, desde o antigo até o mais modernizado tecnologicamente, aparatando
maior habilidade no manuseio, e, sobremaneira,
a faculdade de rigor na precisão utensorial. Nessa mesma sala, num canto
penumbroso, na posição apical da parede, vislumbrar-se-iam dois budas voltados de costa --- um para o outro;
assim como, uma velha pêndula com os ponteiros entortados nos respectivos
números indicadores de horas, minutos e segundos, registrando o exato instante
em que falecera o seu velho pai --- Raimundo Mattos.
Quando o doutoríssimo, nas décadas de
quarenta e cinqüenta, houvera sido professor de Ciências Biológicas, no antigo
Liceu Maranhense, havia um aluno por nome – Salustiano, o qual ostentava um
lipoma, cuja representação era do tipo mediano, estando localizado no centro da
testa. Isto , talvez, tenha sido o suficiente, no mau sentido do termo, para
que o Dr. Dilermano aparatasse um grau de rejeição crescente. Tanto assim que,
gratuitamente, ficara a seu inteiro dispor, com o objetivo de realizar a
exérese daquele acúmulo de gordura, dando o aspecto de uma pelota de massa
flácida, cuja averiguação requereria, se fosse possível, uma certa apalpação de
reconhecimento tátil. Relutava, quase sempre, para que o Salustiano sufragasse
a idéia relacionada ao desiderato de uma provável ablação, a qual havia sido
aventada desde tempos prístinos!...
O doutoríssimo, por mais que se
contivesse, não refutaria que fora vítima de um tipo de esquizofrenia que o
acompanhara desde o período em que era colegial. Com o tempo, o seu quadro
clínica tendia a recrudescer quanto ao grau de obsessão adquirida, aduzindo-o a
um estado de exacerbação paranóica.
Depois de vinte anos, o seu ex-aluno –
Salustiano -- , regressou a São Luís do Maranhão, a fim de que revisse a
família, as pessoas do seu relacionamento amistoso e as coisas que por aqui
deixara, todos entregues à penumbra inolvidável da nitescente reminiscência. E,
para melhorar, disporia de gravações episodiais processadas através através dos
sistema operacional computadorizado em
quase toda a sua plenitude cibernética patente. E, aquiescendo aos comenos
colagelatinos, viria, sorrateiramente, ao hospital --- Geral, com a intenção
única e exclusiva, de rever o velho mestre liceísta, tendo por memória
reflexiva os laivos cognitivos. E, numa dessas ensanchas reiterativas, o doutoríssimo não perdera um
tempo de maior procrastinação. De modo resoluto, pedira ao auxiliar que
ressumasse essas mirabolâncias, quase sem exceção, armazenadas nos
escaninhos latentes do subconsciente.
Depois, teremos que reexaminá-las acuradamente, no intuito de extirpá-las
colapsalmente. E, dessa maneira, terminou ficando sem as precatações feitas em
presença do infando edaz.
Finalmente, para reiterar, o douto
ministrou aulas de Ciências Biológicas, Química, Farmacologia, desde o grau
primeiro até o terceiro grau, tendo vários discentes por clientela. Dessa
maneira, haveria apenas o combalimento da efígie do exímio lente. Além do mais,
os alunos ainda iriam tripudiar esse ícone, deixando-o em elevado estágio de
melindrosidade. Decerto, transfeririam as suas mazelas instrucionais, e,
posteriormente, em tempo crástino próximo, serviriam de inoculo basilar
infando, com o objetivo aviltante de ignominizar a inimputabilidade do
pundonoroso mestre.
Nesse caso, de complexa ininteligibilidade,
temos por desiderato a seguinte premissa irrefutável: de que modo se poderia
direcionar a cognoscibilidade de um polímata, e, também polígrafo?!... Em
princípio, sabemos que, em função do qualitativo, é todo aquele que aparata
erudição vasta, abrangendo os múltiplos do conhecimento, sem que se possa
cerceá-los na direitura. Teria, indubitavelmente, de se apropriar de diversos
assuntos, para, então, dissecá-los de maneira preceptiva, tendo por égide a
concomitante digressão. Não existiria outro mecanismo didático. A única
condição seria o refocilamento do substrato cognitivo dos seus mais
heterogêneos alunos. Ele, na particularidade de mestre dogmático, jamais
poderia sofrer algum tipo de mudança. Eram somatorizados todos os tempos empregados na faina da educação e
da saúde, redundando um interregno integral de meia-centúria.
Wilson Cerveira
Dizem que todo gênio é excêntrico.O virtualíssimo Dilermando não fugia a regra.
ResponderExcluirO HETEROCLITISMO É NATO DO GÊNIO, DESDE OS PRIMÓRDIOS DO ORBE.
ResponderExcluirWILSON CERVEIRA.