sábado, 14 de abril de 2012

O DOUTORÍSSIMO E SEUS APARATOS -- PARTE FINAL


     O mestre doutor, filósofo e cientista, abrangia o elucubrático  em seu ícone repleto de excentricidades. Jamais alguém evagaria que, logo abaixo de dois pares de meia: um metido no outro, houvesse uma bússola aprisionada na perna esquerda. Tudo isto se constituía uma necessidade basilar na direitura educacional. Diante dos olhos desatentos e das cabeças carentes de discernimento, as atitudes e os comportamentos do doutoríssimo eram reconduzidos para o plano das estúrdias. Eram , na época, meras especulações provindas de pessoas que ostentavam cabais vacuidades.
     A bússola, segundo é sabido, é uma agulha magnética móvel em torno de um eixo que passa pelo seu centro de gravidade, montada, geralmente, em caixa com limbo graduado e usado para orientação; agulha magnética. Assim sendo, há dois tipos de bússola: declinação (montada com eixo vertical, permite determinar a declinação magnética, no local em que se encontra ). A bússola de inclinação é a que tem o eixo horizontal e concede estabelecer a inclinação magnética.
     O mestre estava coberto de razão, pois em se tratando de uma inopinada síncope mental, de quaisquer etiologias, ele teria, logo após o paroxismo amnésico, condições de se localizar através das linhas gráficas do seu referencial geográfico.
     Dr. Dilermano mostrava diligência quanto ao uso de material necessário à leitura diária: jornais e revistas. Tanto assim, sem perda de tempo, mandou implantar um bolso retangular na transversalidade da terceira camisa de manga comprida, caso fosse enumerada de fora para dentro. Desse modo,, disporia de espaço para armazenar esses consultores de notícias diversificadas. E, também, de uma forma  ou de outra, serviriam de enxertos para o seu escanifrado esqueleto torácico.
     O doutoríssimo não tirava os olhos  dos livros e demais artefatos de impressão. Lia tudo o que estivesse  ao alcance de sua mão, ou, então, ia buscá-lo nas bancas, livrarias e papelarias. Trazia-os sempre em triplicata, como se estivesse com medo de perdê-los, ficando com um exemplar em cada uma de suas estantes colossais, estendendo essa biblioteca nos amplos espaços dos aposentos da casa, propriedade particular da família. O material gráfico começava na parte inferior da parede, e, progressivamente, ia obedecendo o empilhamento seqüencial em direção ao teto, abrangendo toda a dimensão geométrica do ápice.
     Nos dias de semana, antes de sair de casa, usava uma pequena balança, altamente sensível, para pesar os livros. Separava-os por número de páginas, ou, então, contrabalançava-os, proporcionalmente, engranzando os menos volumosos entre os de aspecto vultoso.
     Saia de casa, de segunda a sexta, portando inúmeros livros nas concavidades  bissetriciais dos ângulos formados  a partir da articulação do braço com o antebraço. O peso era o mesmo para ambos os lados. Alguém, poderia pensar que um lado fosse mais  pesado que o  outro, mas era apenas ledo engano, pois,  poderia conduzir dois compêndios do lado direito, e, simultaneamente; cinco, do lado esquerdo, conquanto o fardo fosse equilibrado igualmente, não pendendo nem tampouco alterando a higidez dos discos vertebrais , dispostos em suas respectivas regiões do eixo de sustentação do corpo.
     Reiterando  uma libração ainda maior, utilizava um suspensório escrotal, para  que pudesse agasalhar os testículos, já um tanto derreados em função das seis décadas vividas. Dessa maneira, não correria o risco de maior alongamento dos cordões escrotais, sobretudo no momento em que efetuasse um esforço bem mais expressivo, transpondo a capacidade de suporte resistencial.
     Em seguida, com discrição, o doutoríssimo teve a  nímia gentileza, mesmo na estreiteza de um tempo colapsal, de ressumbrar as relíquias que guardava em sua sala de aula prática. Destarte, reconditava vetustos utensílios cirúrgicos e outros ostentórios usados em alguns experimentos científicos, como também, em aulas práticas médico-farmacêuticas. De modo solícito, escancarou as portas envidraçadas da velha estante, na qual armazenava seus imprescindíveis instrumentos hospitalares, conservando-os, sem a presença da oxidação, durante quatro decênios. Desse modo indelével, ei-los então: escalpelo ( bisturi de um ou dois gumes, que é utilizado em dissecações ); lanceta ( instrumento cirúrgico de dois gumes ); torniquete ( instrumento destinado a comprimir, ou a cingir apertando ) ; fórceps ( tenaz ou pinça cirúrgica destinada à extração de corpos estranhos contidos em um corpo orgânico. Também, instrumento que se usava para extrair do útero a criança. Finalmente, mostrou os diversos tipos de bisturi, desde o antigo até o mais modernizado tecnologicamente, aparatando maior habilidade no manuseio, e, sobremaneira,  a faculdade de rigor na precisão utensorial. Nessa mesma sala, num canto penumbroso, na posição apical da parede, vislumbrar-se-iam dois  budas voltados de costa --- um para o outro; assim como, uma velha pêndula com os ponteiros entortados nos respectivos números indicadores de horas, minutos e segundos, registrando o exato instante em que falecera o seu velho pai --- Raimundo Mattos.
    Quando o doutoríssimo, nas décadas de quarenta e cinqüenta, houvera sido professor de Ciências Biológicas, no antigo Liceu Maranhense, havia um aluno por nome – Salustiano, o qual ostentava um lipoma, cuja representação era do tipo mediano, estando localizado no centro da testa. Isto , talvez, tenha sido o suficiente, no mau sentido do termo, para que o Dr. Dilermano aparatasse um grau de rejeição crescente. Tanto assim que, gratuitamente, ficara a seu inteiro dispor, com o objetivo de realizar a exérese daquele acúmulo de gordura, dando o aspecto de uma pelota de massa flácida, cuja averiguação requereria, se fosse possível, uma certa apalpação de reconhecimento tátil. Relutava, quase sempre, para que o Salustiano sufragasse a idéia relacionada ao desiderato de uma provável ablação, a qual havia sido aventada desde tempos prístinos!...
     O doutoríssimo, por mais que se contivesse, não refutaria que fora vítima de um tipo de esquizofrenia que o acompanhara desde o período em que era colegial. Com o tempo, o seu quadro clínica tendia a recrudescer quanto ao grau de obsessão adquirida, aduzindo-o a um estado de exacerbação paranóica.
     Depois de vinte anos, o seu ex-aluno – Salustiano -- , regressou a São Luís do Maranhão, a fim de que revisse a família, as pessoas do seu relacionamento amistoso e as coisas que por aqui deixara, todos entregues à penumbra inolvidável da nitescente reminiscência. E, para melhorar, disporia de gravações episodiais processadas através através dos sistema  operacional computadorizado em quase toda a sua plenitude cibernética patente. E, aquiescendo aos comenos colagelatinos, viria, sorrateiramente, ao hospital --- Geral, com a intenção única e exclusiva, de rever o velho mestre liceísta, tendo por memória reflexiva os laivos cognitivos. E, numa dessas ensanchas  reiterativas, o doutoríssimo não perdera um tempo de maior procrastinação. De modo resoluto, pedira ao auxiliar que ressumasse essas mirabolâncias, quase sem exceção, armazenadas nos escaninhos  latentes do subconsciente. Depois, teremos que reexaminá-las acuradamente, no intuito de extirpá-las colapsalmente. E, dessa maneira, terminou ficando sem as precatações feitas em presença do infando edaz.
     Finalmente, para reiterar, o douto ministrou aulas de Ciências Biológicas, Química, Farmacologia, desde o grau primeiro até o terceiro grau, tendo vários discentes por clientela. Dessa maneira, haveria apenas o combalimento da efígie do exímio lente. Além do mais, os alunos ainda iriam tripudiar esse ícone, deixando-o em elevado estágio de melindrosidade. Decerto, transfeririam as suas mazelas instrucionais, e, posteriormente, em tempo crástino próximo, serviriam de inoculo basilar infando, com o objetivo aviltante de ignominizar a inimputabilidade do pundonoroso mestre.
     Nesse caso, de complexa ininteligibilidade, temos por desiderato a seguinte premissa irrefutável: de que modo se poderia direcionar a cognoscibilidade de um polímata, e, também polígrafo?!... Em princípio, sabemos que, em função do qualitativo, é todo aquele que aparata erudição vasta, abrangendo os múltiplos do conhecimento, sem que se possa cerceá-los na direitura. Teria, indubitavelmente, de se apropriar de diversos assuntos, para, então, dissecá-los de maneira preceptiva, tendo por égide a concomitante digressão. Não existiria outro mecanismo didático. A única condição seria o refocilamento do substrato cognitivo dos seus mais heterogêneos alunos. Ele, na particularidade de mestre dogmático, jamais poderia sofrer algum tipo de mudança. Eram somatorizados todos  os tempos empregados na faina da educação e da saúde, redundando um interregno integral de meia-centúria.                                                                                                                                                                                                                                   
                                       
                                               Wilson Cerveira

2 comentários:

  1. José Araújo15/4/12

    Dizem que todo gênio é excêntrico.O virtualíssimo Dilermando não fugia a regra.

    ResponderExcluir
  2. O HETEROCLITISMO É NATO DO GÊNIO, DESDE OS PRIMÓRDIOS DO ORBE.
    WILSON CERVEIRA.

    ResponderExcluir