sábado, 26 de janeiro de 2013

O REGRESSO MERENCÓRIO DO GATO "MIMI"



   É de bom alvitre exarar que o gato “Mimi” era nosso, embora opcionasse pela permanência na casa do meu vizinho Zacarias, notadamente assenhoreando-se da cozinha de dona Frinélida, sua esposa.
   Mimi chegava sempre, de modo pacato, e não dava a impressão de que no final da visita, sem hesitação de outra ordem, prestaria um total desserviço. Quando não avistava a presença de alguma pessoa por perto, pulava sorrateiramente, alcançando o anteparo do fogão, região onde estavam congregadas as panelas, cada uma com sua devida iguaria.
   Este fato ocorrera em Alcântara - MA, em um determinado dia do mês de setembro, atinente ao ano de 1963. Outrossim, meus pais foram vocacionados pelo casal, para que fossem comunicados quanto aos prejuízos acumulados ao longo de vários anos consecutivos!...
    Seu Zaca, como era chamado, veio à nossa casa, situada na esquina da Praça Gomes de Castro, aqui em Alcântara, acompanhado de dona Frine (sua senhorinha), na qualidade de testemunha.
    -- Seu Walter e dona Nély, trouxemos na bolsa uma lista de glutonarias estróinas praticadas pelo gato, durante vários anos de aceitação, contendo as respectivas datas e preços correspondentes. A somatorização ultrapassava uma multa correspondente ao valor de seis salários mínimos, abrangendo multas e correções monetárias ao longo dos anos.
   O gato “Mimi” exibia sempre uma atitude de lorde, pois não comia carne crua de espécie alguma, preferindo-a cozida, com todos os condimentos necessários ao paladar!...
   A família Cerveira Marques infligiu-lhe um baita de um castigo: banimento residencial. E, para tanto, foi colocado no interior de dois sacos de estopa, com as aberturas invertidas, tipo alforje. O carregador conduziu-o até a Praia da Itatinga, bem afastada do centro da cidade de Alcântara – MA.
   A praia de Itatinga é cabalmente desolada, ostentando em torno de si um arroio (pequeno curso d’água permanente). Estes dois fatores infensos dificultariam ainda mais o retorno do gato Mimi à casa da Coletoria Federal, de onde houvera sido expurgado, com o escopo de expiar as suas inúmeras imputabilidades.
   O gato impressionou a todos, sem exceção, pois no sexto dia, regressou merencoriamente ao mesmo ambiente, posicionando-se na soleira da porta que divide as duas varandas. Exibia, naquele átimo um olhar tristiíssimo, como se fosse a expressão fisionômica de um lúgubre adeus, com todas as mímicas inerentes a uma perpétua despedida. (Jamais me saiu da retina a expressão desse olhar de profunda taciturnidade!...)
   Imagina-se como seja a argúcia de um gato, sabendo-se que o bichano tem o hábito de olfatar os objetos deixados na casa dos alojamentos, que é um recinto repleto de meticulosidades, conquanto represente apenas a prática de espairecimento, com vistas ao exercício da criatividade despertada!...
   A partir daquele retorno misterioso, o gato “Mimi” não mais visitou as residências contíguas, com o objetivo de dar-lhes uma inquietação permanente. Pelo contrário, obedecia aos ditames prescritos, numa nova educação, sem concorrentes metamorfoseadores aparentes!...
   Após bizarra façanha, o gato poderia ser identificado da seguinte maneira, conforme taxa de registro: é um mamífero carnívoro da família dos felídeos, que apresenta visão noturna bem desenvolvida, bigodes sensíveis e unhas retráteis.
   O gato Mimi não quis mais saber se havia outro caminho a percorrer, pois permanecia sempre dentro de casa. Ora dormia sobre as cadeiras, ora adormecia nos cantos da sala, como se locais fossem suas diversificadas opções de repouso.
   Os animais, após serem cominados em suas condutas, começam a apresentar outro tipo de comportamento. Dão-nos a impressão de que sofreram o mesmo estado valetudinário dos humanos, – a terrível neurose do medo!... E, sem possibilidade de cura, em dias hodiernos, esta síndrome prossegue em estádio de reptação para com os conhecimentos científicos recentes.

                                      Wilson Cerveira

2 comentários:

  1. Anônimo26/1/13

    Interessante o artigo sobre o gato mimi. Observa-se a relação entre o homem e os outros animais. Em todas as espécies é possível vislumbrar algo que pode fornecer respostas; e merecem análise para a compreensão das ações identificadas nessas relações.

    Luís Carvalho.

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  2. Anônimo27/1/13

    Muito bom ,os gatos são animais muito interessantes e inteligentes.

    João Cerveira.

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