sábado, 19 de outubro de 2013

REMINISCÊNCIAS NOSTÁLGICAS DO AMIGO ENGENHEIRO CIVIL -- DR. LUÍS CARLOS PINTO DIAS

    Vi-o, a princípio, no Centro de Ensino Médio – Almirante Tamandaré, -- naquela quarta-feira da segunda quinzena do mês de setembro de 1982. No encetamento da confabulação, não pôde haver vislumbração dos perfis atinentes a ambas as partes. Uma porta semicerrada obiciava meu constrito ângulo de visão, e vice-versa. O que ainda assomava na intersecção entre dois blocos de concreto, -- na penumbra fechada --, era-lhe a imagem esguia, que transcrevia através do fenótipo os seus três decênios e doze meses de vida presencialmente vivida. Naquele ínterim, ele já ostentava os títulos de Engenheiro Civil e Professor. E, amortecendo o passo acelerado, consegui transpor a diagonal que me conduziria em sua direitura, possibilitando cumprimentá-lo. Esboçou-me um sorriso esquálido, e disse-me confidencialmente: -- o que remanesce é resistir ao carencial de base em matemática! A maioria sente dificuldade em solucionar a problemática das quatro operações. A partir deste parâmetro implexo, tem-se a ideia do imane trabalho a ser propugnado, arduamente, em decorrência do combalimento primicial da vetusta aritmética.
     Em detrimento da degustação de dois minutos de silêncio, dirigi-lhe outra vez a palavra, numa atitude tácita de quem dilacera a vacuidade ao redor. Aturdi-me de súbito, e somente vim a reinteirar-me a respeito da inusitada recomposição do diálogo intermitente, quando lhe disse que eu era torcedor do MAC (Maranhão Atlético Clube), também denominado de “Bode Gregório”, ou, então: “O Demolidor de Cartazes”. E, destarte, dando um interregno ao resfôlego, vocacionou-me para junto de si, e deu-me um abraço fraterno.
     Depois de uma abdução procrastinante, reencontrei-o no Liceu Maranhense, no turno vespertino, precisamente no dia 09/05/1985. De pronto, lobriguei-o perfilado, no canto esquerdo da lousa, em uma das salas de aula do corredor correspondente ao andara superior. E, sob a latência de um delíquio abstrato, estive a perambular, oniricamente, em sentido oposto, quiçá obiciando o átimo de rever o amigo, o mesmo que perpetuei na memória, recompondo de modo indelével o somatorial das lembranças colhidas no interior do prédio da Escola “Almirante Tamandaré”.
     Estuguei os passos em sentido neutralizante, dando-lhes uma nova forma de açodamento, para a condução do material que fora armazenado, de modo acurado, com o escopo de ilustrar as aulas teóricas, conquanto ainda estivesse nas apropinquações dos atos macerativos e cerceantes!... 
     Após palmilhar várias linhas meândricas das cerâmicas do piso do corredor, posicionei-me afinal no parapeito da janela, exatamente naquela em que ele estava a ministrar a sua aula magistral: “equações exponenciais. Tinha por vezo colocar sempre duas mais difíceis, numa atitude de quem busca uma provocação jocosa. Estas, ele me disse sussurradamente, são para o Sued. Depois do reexame, gostava de ouvir-lhe dos lábios a seguinte frase:” – alunos do Luís Carlos Pinto Dias, se não me engano, transpuseram a barreira da normalidade, e não ficaram presos na pragmática do ramerrão, resolvendo apenas o óbvio, o ululante, sem entreveros sucursais!
     Esquadrinhando a efígie de Luís Carlos Pinto Dias, chegaremos a vetores que não convergem, mas que sofrem esgueiramentos ao longo da trajetória a ser palmilhada. Um não desvela a projeção do outro, empeçando – em revertério – um provável rebatimento do plano de épura. O engenheiro, o professor e a pessoa de Luís Carlos Pinto Dias  posicionam-se, de tal modo, como se as três projeções representassem um flabelo escancarado tridimensionalmente. Assim sendo, no mais dilucidatório ponto parametral, jamais haveria probabilidade de colimação. Ao passo que, de maneira vocativa, -- a pessoa – em dias hodiernos, está sobressaindo aos mais excrescentes dislates.
     Em se tratando do Engenheiro Civil – Dr. Luís Carlos Pinto Dias, sempre assomava diante de mim, a criatura que se fazia ouvinte, prestando a máxima atenção no que eu lhe dizia. Antes de quaisquer dirimições, compulsava a minha singular pessoa da seguinte maneira: -- Dr. Wilson Cerveira Marques, meu nobre amigo, precisaria de que você me ajudasse a resolver uma questão de organismo, que é muito pior – conforme ele me dizia – do que qualquer quesito inerente aos percalços oriundos da geometria espacial. E, numa dialética intermitente, compunha a chama regenerativa de algum vislumbre resolutivo. Antes que nos despedíssemos, já havia colocado em suas mãos a chave conveniente, capaz de expungir as perplexidades predecessoras.
     É de bom alvitre exarar os recursos utilizados, não deixando de acompanhar-me – quase sempre – à soleira da porta de saída, para que pudesse reiterar o gesto de um breve adeus de despedida. Esta mesma ação foi se tornando crebra, conservando os laivos de uma etiologia inócua e amistosa – na suntuosidade do ser, quando em estado capitólico, prosternando-se ante a imagem maternal do perpétuo devir!...
     Em continuidade, trabalhamos juntos no Liceu Maranhense – de 1987 a 2000, sendo nove anos no turno vespertino, e, somente, quatro anos – no turno noturno. E, após o ato peremptório, fomos refocilando combalimentos priscos, e partimos em direções e sentidos opostos, sendo que, em contrapartida, tínhamos por receptáculo basal os colimadores de referência – a minha casa e a dele, e ambas nos serviam de égide. Em 2001, primeiro ano do séc. XXI, ele foi para o Lara Ribas; e, enquanto eu partia em direitura ao CEGEL.
     O alfarrábio que servia de preceptor – como timoneiro da destinação, reaproximou-nos mais uma vez, reconduzindo-o para o Colégio Bernardo Coelho de Almeida (BCA). No entanto, os turnos divergiam. Eu já me encontrava lecionando Biologia – no turno noturno, quando ele chegou para ministrar a disciplina Matemática – no turno matutino.
     De quando em quando, Luís Carlos Pinto Dias vocacionava-me para que pudesse colaborar com a anamnese orgânica, através dos paroxismos palindrômicos que apresentava no sistema digestivo, com especificidade entérica, todas as vezes que consumia hidroxilas presentes em bebidas contendo um recrudescente grau de fermentação. Novamente, depois de um silêncio prolongado, voltou a bater-me no ombro, bradando: -- Dr. Wilson Cerveira Marques, não posso mais tomar cerveja, pois passo três dias consecutivos com diarréia!... Aventei-lhe ser uma das parasitoses mais frequentes – e, numa chave dicotômica assinalei-as: giardíase ou amebíase. Disse a ele, na qualidade de profissional Farmacêutico, que fizesse, de imediato, exame parasitológico de fezes. Obedecia-me, e após dois ou, no máximo, quatro dias, trazendo-me o resultado de negativação suspenso na mão esquerda. E, agora, meu nobre amigo, o que devo fazer para descobrir esta irregularidade repetitiva?  Para efeito de complementação, caro amigo, deves proceder buscando outro tipo de exame, que é a coprocultura (cultura de fezes com antibiograma). Disse-lhe, estentoricamente, se for bactéria a localizaremos, no interregno de catorze dias, assim como, sem perda de tempo, saberemos o antibiótico específico, capaz de jugular a síndrome recidivante. Com dezoito dias, veio-me, outra vez, para dizer-me do seu enfado, pois o resultado era negativo, conquanto a sintomatologia intestinal recrudescesse com o decurso dos anos.
     Em 2009, primeira década do século XXI, submeteu-se a uma colonoscopia, cuja ilação diagnóstica a presença de quatro polipos, situados, circunscritamente, no colo intestinal. Depois da exérese, o cirurgião solicitou o exame histopatológico do material ablacionado. E, após o período regimentar de duas semanas, veio-lhe o diagnóstico laboratorial, apontando apenas um dos polipos como sendo de natureza neoplásica maligna. 
     Em 2011, esteve comigo na Noite de Natal, e degustou um “bodega privada”, vinho argentino – de boa qualidade. No ano seguinte, no meu aniversário, ele não pôde se fazer presente, como costumara ao longo de vários anos, e trazendo-me sempre uma dádiva. Desta feita, sem maiores dilações, houvera sido vítima de um heteróclito paroxismo palindrômico de tosse renitente.
     Telefonou-me, após noites de sono conturbado, meio aturdido, solicitando uma orientação. Disse-lhe que procurasse um pneumologista, e, através de exames radiológicos mais sofisticados, chegaria a um diagnóstico dilucidador.
     O especialista requereu o “PET”, como sendo a prova dos nove, segundo me confidenciara matematicamente. E, após o resultado pronto, me ligou com emergência, requestando a minha presença premente no Canto da Fabril, na Rua General Osório ou Catulo da Paixão Cearense, nº54, onde morava em companhia do seu irmão – Zeca Gordo, para os mais íntimos.
     Nesse dia, ao receber-me na soleira da porta lateral do terraço, a mesma que dava acesso ao seu quarto-de-estar, no qual permanecia a maior parte do tempo, em que se recolhia no valhacouto residencial; não esboçou o sorriso costumeiro, e sim uma tensão extrapolante, longe de quaisquer perspectivas de saída!...
     Com aspecto sorumbático, apresentou-me a ilação diagnóstica. Ficou em silêncio, tentando remediar o mal que o agredia sorrateiramente. Depois de um longo silêncio contristador, permaneceu macambúzio, -- ansiando sempre --, com o escopo de que lhe desse algum ânimo penumbral! As imagens me indicavam conspícuas infiltrações em ambos os pulmões!...
     Reiterei as mesmas atitudes que tomei quando ele fez a primeira cirurgia, passando a visitá-lo no espaço de quinze dias, e, durante esses interregnos, telefonava para o seu celular, com o escopo de manter-me atualizado quanto a sintomatologia – de natureza metastática – que se tinha decretado em seu organismo combalido. Entre silêncios intermitentes, perquiriu-me sobre as dosagens de quimioterapia que enfrentaria por doze vezes consecutivas.
      Andou em meio ao vazio da sala, demarcando a linha de uma bissetriz incompleta, para, em seguida, partir em diagonal direitura até minha singularíssima pessoa, e perscrutar-me se, desta feita, sofreria menos com as novas aplicações de quimioterapia. Não tentei iludir-lhe, apenas sopitei-o, visto que não havia outra saída diante do fatídico, suscitado negativamente pelo seu próprio organismo.
     As novas dosagens de aplicação quimioterápica, indubitavelmente, estavam lhe causando desconfortos maiores. A agressividade redobrou em meio ao depauperamento orgânico. Na quinta aplicação, após alguns dias, sentiu-se mal, com queda súbita da pressão arterial.
     Nas postremeiras visitas, por um motivo que foge ao controle de quem tenta agendar uma porciúncula de imperiosa significação. Caso ele telefonasse requerendo a minha presença, sobremodo em detrimento de outros afazeres, atender-lhe-ia, prestimosamente, rumando em direção a sua residência.
      Não pude dar-lhe o derradeiro adeus ao pé do túmulo, já que me encontrava na cidade de Santa Inês. E logo que lá cheguei, no dia 18 de julho de 2013, precisamente às vinte horas e trinta minutos, acionei o celular para que lhe compulsasse o estado de saúde, e pude ouvir-lhe a voz embargada por uma percuciente comoção de tristeza, ao confessar-me que não estava bem, pois sua pressão arterial oscilava para o grau de uma hipotensão deflagrada pela própria medicação contendo substâncias agressivas ao organismo.

     No sábado, dia 20 de julho de 2013 – dia do amigo – a notícia do seu trespassamento veio-me através do seu sobrinho Gustavo, que ficara em posse do seu telefone celular, e avisava a todos os seus conhecidos, colegas e amigos, que Luís Carlos Pinto Dias havia partido em direção ao oceano sem praias, com o escopo de estudar a geologia dos campos santos. E, destarte, num atonismo de abrupto luto, deixei resvalar sobre o chão, em aberto, a remanescente lágrima de eterna saudade!...

                                            Wilson Cerveira

Um comentário:

  1. Lindo texto, lindas palavras, você está de parabéns Wilson.

    Luis Carlos Pinto Dias - Saudades Eternas.

    Atenciosamente,

    Gustavo Dias Ferreira

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