sábado, 7 de dezembro de 2013

SENTIMENTOS PARADOXAIS


    Por ordem das propelências projetivas, vocacionam-se as duas imanes tergiversações: culpas e desculpas. Durante uma nova crise sutil, o remorso de não ter assumido o ato, o mesmo que rutilou naquelas interregnidades, suspiros de eterno viver, ressumando o assomamento de uma canoa motorizada, na qual as criaturas têm os seus momentos sintomatológicos, e podem contactar com seus delírios alucinatórios.
   João José não erra nunca, apenas transfere para o outro as traumáticas e projecionais culpas atinentes a todos os seus fracassos vitais. Marieta, porém, é diferente, pois se desculpa diante do que fez de errado, mas, em tempo algum, sentiu-se conivente perante os transtornos evidenciados para com terceiros, vítimas de suas negligências no trânsito.
    Os comportamentos contrastantes evoluem a cada dia, acompanhando os heteróclitos sentimentos contraditórios. Há casos em que o individuo, em analise, somente é capaz de pagar o que ficara devendo, se a pessoa a quem ele deve, vier acolitada por outra, notadamente do sexo oposto. Assim sendo, o encalistramento, em presença de terceiros, impele-a ao ato de adimplimento compulsório.
    Hodiernamente, a inercia de pronunciar o vocábulo, por inteiro, com todos os afixos, faz com que a tropa de desestudantes – praticamente a maioria – estrangule-o usando os artifícios de aférese ou, então, da apócope. Dessa forma, o termo fica apenas com o seu cerne desvelado, que é o seu respectivo radical, podendo de quaisquer origens e idiomas ascendentes!
    O abominar sobre algo, em sua essência paradoxal, está a encargo de quem aprova ou reprova. Uma atitude, ora aceita, ora condenada, dependendo do que a pronuncie. A mesma palavra que fere, às vezes, está a depender dos lábios que a proferem, independente do clima que se constitui no interior ou no exterior das pessoas indicadas ou desindicadas para tal assunto de ordem educacional.
    Exarar que gosta antes da prelibação, e, após a consecutória lascívia, refutar o quanto havia de fruição no interregno, mostra a existência de uma palinódia patológica, justificando apenas a rejeição ao invite de permanência diuturna.
    A pior fissura pode estar na comissura de quem prioriza em plano de épura estabelecido para aquele lugar de implexo acesso regenerativo. Piora-se por não cumprir a finalidade reciproca do que está sendo perseguido reciprocamente, partindo em direitura com relação a um centro gravitacional estipulativo e inconfessionável.
    Ao chamar pelo nome completo – Maria Prolina dos Reis Firmino, pensa-se no correto, conquanto seja o secretário Pires Consuelo, que, já nos acenou dizendo do trauma que sofrera desde o instante em que ele morrera para o referencial telúrico.
    Mesmo em sala de aula, desculpa-se dizendo que é demais, e, após listas visuais, chama os alunos tendo por referencial as suas numerações em vez de ordenação completa dos seus respectivos nomes extraída das certidões de nascimento. Igualmente, o ato de nominar inteiramente a pessoa, dá-nos a impressão de que é um vocativo expresso por um delegado ou pelo próprio juiz.
    Que tipo de cristão sou eu, disse Petrúcio, que inverto a cada dia os sentimentos, refutando-os como se fosse um meio pertencente à terapia panacéica. É necessário que nos reparemos a cada instante, a fim de não incorrermos em erros contumazes, advindos de um prisco estigmatizado por traumas consecutivos e perdurantes.
    Que ruas são estas, com toponímias contrastantes?!... A Rua dos Remédios, por incrível que pareça, não tem farmácia; a do Passeio, de modo controverso, serve de corredor, para não sermos assaltados na esquina; na Praça da Alegria, se chora de solidão e tristeza; na Praça da Misericórdia, não se dá esmola; na Praça da Saudade, constrói-se a “Passarela do Carnaval da Cidade de São Luís – MA”. E tudo vai se conduzindo na orquestração desabrida dos sentimentos paradoxais.

    O sujeito de cútis branca, insolentemente, é denominado de “Bruno”; a pessoa que não manqueja um só instante é chamada de Cláudia; a criatura rústica, por natureza, ela é denominada de Urbano, e assim vão se constituindo todos os escândalos de uma sociedade sem visão, sem fumos de fidalguia, tampouco raciocínio de caráter percuciente. Finalmente, lavra-se o binômio – Amor e Desamor –, como forma de ocultar o sentimento palinódico de uma mente em estado de estertoramento progressivo.

                          Wilson Cerveira 

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