terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A EXAÇÃO NA ESCOLA TRADICIONAL

                       
   A princípio, aprendia-se o cumprimento dos horários concernentes à entrada e saída do ambiente escolar, não podendo jamais transgredir – para mais ou para menos – o que o tempo havia assinalado de modo exatório. Para tanto, havia uma caderneta especial, com a finalidade precípua de exarar as infrações dos retardatários e dos que se escafediam nos interregnos dos horários de recreio. Essas denúncias de descumprimento eram rubricadas pelos pais ou responsáveis desses alunos, através dos seus vistos e de suas respectivas estigmatizações.
   Outro ponto basilar – de caráter referencial – estaria atrelado ao ato de assunção dos horários estabelecidos para as diversas disciplinas, os quais seriam inquiridos no decurso exprobratório do ano letivo. Respeitava-se a cronologia de cinquenta minutos – no projeto “hora aula”, como se apenas o tempo, o inexorável período alegado – em sua regência maior – representasse o maior divisor das matérias relacionadas a uma percuciente erudição.
   Então, os aprendizes iam, pouco a pouco, recebendo e assimilando, construtivamente, os ensinamentos contidos nas geratrizes basilares das responsabilidades assumidas literalmente, e, com o proposito de edificá-los no transcorrer dos anos atrelados aos ditames das aprendizagens somatorizadas.
    Somente no recinto colegial, conseguia-se equacionar a implexidade existente naquele ínterim cognoscível, visando à divisão integral do tempo, e, dessa forma, não restringiria a cronologia atinente às matérias de menor preferencia, em que pese os graus diferenciais de suas importâncias. E, melhor dizendo, essa proeza só se obtém na instituição de ensino, porquanto não conseguiríamos fazê-lo de modo uniforme, sem que houvesse a mínima propendência quanto a este possível tipo de escolha curricular.
    Em função dessa razão temporal, de permeio imprescindível, sentia-se a imane dificuldade quanto à defecção dos díspares meios de experimentação, estando todos direcionados aos estabelecimentos de altíssima qualificação, sendo primazias dos vetustos, com exclusividade, para os discentes – de outras plagas – que ostentavam combalidos conhecimentos relacionados aos ramos das diversas disciplinas, independentemente de serem básicas ou não, mas que influenciavam de modo contundente, sobremaneira os fluxogramas de quaisquer testes seletivos de aproveitamento escolar do prístino.
     A escola tradicional, inquisitorialmente consubstanciada, não se prestava a trabalhos supostos nem arranjos redundantes de notas atribuídas a seus educandos. Não havia mixórdias intermediárias. As avaliações prendiam-se apenas em provas mensais: primeira semana do mês, na metade da quinzena e no final de cada período de trinta dias. Além disso, havia os testes relâmpagos, programados para o final de cada aula, que eram aplicados nos dias em que os alunos estavam mais desatentos e impulsivos. As notas se dispunham sob a tutela da média aritmética: somavam-se os números obtidos e, em seguida, dividia-se a quantidade geral pelo número respectivo das aferições realizadas. A média resultante não sofria alteração apropinquativa, e os mestres deixavam-na integral: 6,8(seis e oito décimos) ou, então: 60,88(sessenta e oitenta oito centésimos). Caso não obtivesse os pontos necessários, o discípulo ficaria reprovado pela carência de somente hum décimo ou hum centésimo. Nesse caso, havia tremores e medos premonitórios e postremos, sem apelativos tergiversantes. A ilação poderia ser fatal, beneficiando a pessoa do aprendiz, sobretudo em porvindouro longínquo, sem reflexos evagatórios assinalantes.
     A quantificação do conhecimento pronunciava-se em dimensão maior, -- ressumando um tipo de concurso que visava uma análise individual, mantenedora do próprio escolar, ascendendo-lhe a possibilidade de incrementar as erudições pretéritas – em terreno solidificante do saber.
     O senhorio se fazia sentir desde um simples olhar do mestre. Os discentes flexionavam-se para cumprimentá-lo, facilitando, sobremodo, a transcrição de inusitados apontamentos imprescindíveis. A autoridade professoral denotava a apreciação cautelosa dos seus alunos, sobremodo no que concernia ao aspecto de obedecer-lhe os itinerários dos assuntos abordados durante as diversas aulas expositivas.
      Os despertadores e as sinetas assomavam no ângulo superior das cátedras, servindo para medir o tempo das arguições dissertativas, obiciando infringimentos de quem não havia aprendido corretamente a lição, e, também, aprestado os deveres de casa e suas várias implicações no âmbito da cognosia. E, destarte, os preceptores buscavam novas direituras ilustrativas, e, ainda, se lembrariam dos que necessitam de neófitos ensinamentos, sobrevindos de alguma formulação de um possível estribamento salvaguardado.
     Aprendiam-se verbos regulares, irregulares, anômalos, defectivos e abundantes, aplicando-se o método da palmatória ou da régua, -- a todo aluno que não se preparasse para competir com os demais, errando, sistematicamente, os verbos sorteados para aquele acontecimento gramatical, abrangendo uma das classes de palavras variáveis.
     Destarte, aportava-se, também, em direitura inversa, aos umbrais da aritmética, usando a mesma metodologia. Dependendo do nível de aprendizagem, buscava-se uma das quatro operações como referência ao entrevero algarítmico. Os que acertavam iam castigando, com reguadas na palma da mão, aqueles que não fixavam os resultados das contas formuladas: adição, subtração, multiplicação e divisão.
     Na escola tradicional, obedecendo ao compasso sequencial de aproveitamento cognitivo, tinha-se – por encetamento – a tarefa chamada de “Cópia”, aonde você ia transcrevendo as palavras do texto – de modo fac-símile – observando, com rigor, as letras componentes das sílabas que formavam as suas grafias. O aplicatório durava os dois semestres do primeiro ano do antigo “Curso Primário”.
     No segundo ano primário, a evolução do saber permitia que fôssemos mais longe, alcançando o estágio do “Ditado”, aonde íamos tomando o hábito de prestar a devida atenção na pronúncia das palavras, a fim de que as repassássemos para o canhenho. Esta nova fase exigia, além da visão e do tato, a audição como fator complementar da neófita instrução.

     Ao adentrarmos à série seguinte, o ritual do “Ditado” reiterava-se na tentativa de consolidar saberes anteriores e posteriores. E, quando saíamos do terceiro ano, já estávamos aprestados para galgar as sendas da “Redação”, requerendo, através de formulações divagatórias implexas, a aplicabilidade do tirocínio e da coordenação do pensamento, para que arquitetássemos a montagem sequencial das frases que comporiam os parágrafos e textos atinentes ao assunto abordado com certo grau de aclaramento, podendo – ou não – ser de caráter minucioso.

                                Wilson Cerveira

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