quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

FAZ UM ANO SEM DADÁ

     Muito dificilmente, em dias de acrimoniosa crucia, alguém teria a primazia não só de conhecer Margarida Silva, mas de tê-la ao seu lado, estando sempre disposta a atender quaisquer solicitações que a ela fossem feitas. E essa generosa criatura fora batizada – constando tanto no batistério quanto na certidão de nascimento – o nome de Margarida Silva (Dadá). Observando o necrológio depreendem-se plenamente os motivos que me levaram a chamá-la de Dadá. Reitero, e jamais sofreria qualquer exaustão em exarar o seguinte: “tudo o que eu lhe pedia, – por mais difícil que parecesse a todos --, ela conseguiria, após algum tempo, se bem que lhe custasse uma estrênua propugna acirrada”.
     Estava ela presente no momento do meu nascimento, em que eu fora colocado numa banheira de porcelana contendo uma série de peças de puro ouro – colares, pulseiras, anéis etc – para que uma ligeira ablução, minutos após a aminha expulsão do útero materno – naquela madrugada de vinte e cinco de dezembro de mil novecentos e cinquenta e três, precisamente quando o relógio de pendulo assinalava 3h:15mim:22s – e que a partir daquele átimo celebravam-se dois natais – o de Jesus Cristo, filho de Deus Pai; e da simples criança que era eu mesmo e que traria o nome de Wilson Cerveira Marques.
     Dadá, decerto, fica sabendo de que não me esqueci dos favores que me prestaste, desde as primícias da minha tenra idade, colocando em movimentos repetitivos os brinquedos de corda – dos mais requintados, – os quais eu recebia do meu avô Marcial –, que os comprava todas as vezes que vinha a São Luís (tendo como local de hospedagem o vetusto “Hotel Ribamar”) situado na esquina do “Beco da Pacotilha”, localizado num dos sobrados de Antanho, talvez o primeiro que fora erguido no mesmo renque dos demais casarios da Praça João Lisboa.
     Margarida, a prestimosa Dadá, desobstruía as cordas de alguns brinquedos; e, ao mesmo tempo, aplicava corda nos que se encontravam inermes, mergulhados nas penumbras alojadas nos cantos das salas e quartos, nesgas onde se achavam esparsos esses objetos fabricados pela tecnologia laborativa da metade do século XX, aproximadamente no interregno da década de 1940, e, de também na peroração dos anos de 1950.
     Tu eras de tanta confiança, que a senhora minha mãe, Nély Cerveira Marques, permitia que me levasses até a praia de banho. Lá chegando, não me soltavas um só momento dos teus braços. E, em caso de banho, prendia-me numa das mãos, deixando a outra livre, para que eu pudesse brincar um pouco com a areia da praia, construindo pequenos montes,  como se fossem abrigos para armazenar brinquedos de pequena expressividade, valhacoutando-os da ação esquálida do sol -- no decorrer do tempo de exposição aos raios ultravioleta.
     Os papagaios de papel ou pipas, se erguiam através de metros de linha, alcançando considerável altura na atmosfera. De quando em quando eram cortados perversamente por sujeitos que usavam uma goma de tapioca contendo fragmentos minúsculos de vidro socado em pilão de madeira.
     De longe, Dadá, de modo apreensivo, percebia os meus alaridos de aborrecimento e o meu choro convulsivo clamando pela presença dela com urgência. Não haveria dúvida quanto a sua chegada repentina ao local. Vinha acompanhada de tesouras graúdas portadoras de lâminas cortantes. E, sem pedir vênia ia cortando as linhas de pipas pertencentes aos demais brincantes. Todos ficariam sem os artefatos de empinar; e, sendo assim, tudo partiria do zero, decretando, com certeza, um prejuízo generalizado para os aficionados. Todos os moleques a respeitavam, pois conhecia seus familiares. Então, esses provocadores se acalmavam diante do sucedido, e nada diziam.
     Às vezes, portava um pequeno chicote na cintura e um pau, de aproximadamente 100 cm, para aquebrantar os mais afoitos ou, então, muito dificilmente, amainar o ímpeto de algum outro sujeito que mostrasse valentia, no momento em que a agressividade falava com fremências de loba faminta e sem controle, pronta para mostrar as falhas do domador no ato de ministrar-lhe certa educação comportamental.
     Em tudo, sem pestanejar, ela estava pronta para atender-nos – do café ao serviço mais incomodativo e pesado. De fato, foi feita para carregar o fardo até o calvário peremptório de nossas existências consumadas!...
     Sempre fui castigado por alguma morbidez orgânica. Caso estivesse doente, fazia questão de passar a noite inteira deitada no chão, debaixo da minha rede de lona, estendendo a mão sobre a minha coluna vertebral, estando eu em decúbito dorsal. Ia e vinha, passando suavemente os dedos em cada vértebra do meu esqueleto, indo da primeira cervical até a postremeira, que é a coccígea. A reversibilidade se fazia algo necessário; tanto que, na minha exação, eu não admitia um só sentido, uma só direitura como forma definitiva e irreversível! Exigia ambas as mãos, sem cessar, durante um interregno temporal de, no mínimo, trinta minutos. E, assim, com a musculatura do braço lânguida, Dadá não media esforços em permanecer debaixo da rede, enrolada num lençol de pano grosso, como se estivesse sempre de plantão, pronta para qualquer “choramingo”. Tornaria a realizar a mesma tarefa anterior, com a mesma satisfação, conduzindo-me a um próximo período de sono, a fim de que a madrugada se completasse em toda sua extensão, e, consequentemente, o dia raiasse sob a intensidade de um sol convidativo quanto ao ato de aprestar a condição de despertar do estremunhamento.
     Ali, nada mais era que o antigo restaurante do Bairro do Filipinho – o de esquina – o principal em relação aos demais. As árvores, ao longe, após o muro confronte, reminisciavam as penumbras lúgubres que se reconditavam ao redor do arvoredo que compunha o pomar da casa do meu avô paterno – Marcial Ramalho Marques, em Alcântara. Ele era um homem guerreiro por natureza, pois simbolizava o aparatoso “Deus da Guerra”, em sua magnitude extra exponencial, sem pestanejar com relação a quaisquer estremaduras reinantes!...
     Quando eu era criança, tive que pagar uma promessa feita pela senhora minha mãe – Nély Cerveira Marques – ao glorioso São Benedito. Ao meu lado, disposta para qualquer auxílio imediato, encontrava-se Margarida Silva, a minha querida Dadá, pronta para carregar-me durante uma boa parte do percurso realizado pela procissão, festejada solenemente e em ação de graça ao aniversário do miraculoso santo. Sim, não tínhamos perplexidade, que foi ele que me pôs curado, depois de sucessivas preces fervorosas feitas pela senhora minha mãe, quando se prosternou aos pés do glorioso São Benedito – de modo obsecrativo!
     O fogão de lenha mal recebia as primeiras madeiras apodrecidas, para que o fogo ateasse mais rápido. Dadá olhava para o céu aflita, pois naquele dia eu viria em companhia da senhora minha mãe, para São Luís do Maranhão, através de um frete feito pelo meu avô Marcial, com a autorização da “Companhia Aérea Aliança”, com a finalidade de vir até o campo de pouso de Alcântara, um dos seus vários teco-tecos; talvez o do experto piloto Galdêncio, a mesma aeronave que fazia linha com a cidade de Guimarães, já que tinha um contrato assinado com os padres e freiras canadenses.
     Se o avião estivesse com o horário previsto para às onze horas, subíamos em direitura ao campo desde às nove horas da manhã. De fato, ela me acostumou com muito mimo; tanto assim, que não hesitava em carregar-me, de modo árduo, nos ombros, levando-me satisfatoriamente, transpondo os cômoros da ladeira da Rua das Caravelas, tomando, de maneira definitiva a estreita senda que dava acesso ao improvisado campo de pouso, -- quase sempre cheio de bois e cavalos --, que impediam a aterrissagem, fazendo com que o avião monomotor sobrevoasse diversas vezes a cidade histórica de Alcântara do Maranhão, sobremodo o espaço compreendido entre a Igreja do Rosário e o tal campo de pouso, bastante arriscado!...
     Assim, daria tempo suficiente para que os enxotadores de animais os banissem daquele interregno reservado para esses pequenos aparelhos voadores.
     Se eu fosse contar toda a história de Margarida Silva, a extraordinária e imprescindível Dadá, teria, no mínimo, que compor dois volumosos compêndios. Ela, realmente, era uma criatura generosa e de uma prestabilidade insólita, não sabendo dizer “não” a ninguém, conquanto não conhecesse bem a pessoa que estava lhe pedindo algum favor. De qualquer maneira, fazia-o, quase sempre de graça, pois não estipulava preços nem tampouco especulava interesses de ordem pessoal!
     Margarida Silva, a minha Dadá, foi um exemplo de criatura cristã a ser seguido neste mundo cruento, no qual as desvirtudes e as deseducações passaram a imperar em todos os recantos do planeta – Terra, não obedecendo as linhas poligonais de um excêntrico sistema vetorial descaracterizado em sua terminologia, onde direção e sentido não perfazem a lídima direitura almejada ao longo da trajetória apenas pontilhada de perpétuas saudades, já que nos dizeres do egrégio Coelho Neto, -- “a eternidade é um oceano sem praias”.


                                          Wilson Cerveira

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