quarta-feira, 4 de março de 2015

PREMATURAS CINZAS DE MOMO

     Cadê o “Momo”?!... – o rei do carnaval de antanho – personificando a própria festa da carne lascivial, e que, de maneira surpreendente, adentra a um estádio valetudinário precoce, estigmatizando as antinomias abstrusas e heteróclitas de um cabal combalimentos?!... Em se tratando do “Rei do Carnaval”, é mais comezinho localizá-lo em local impróprio, bem distante da sua condição de entronização, que é o cerne dos prístinos salões momescos.
     Para tristura de cunho percuciente, foram ressumados em uma determinada rua deserta os hálitos das obsoletas esbórnias, celebradas, euforicamente, com a presença de confetes, serpentinas, lança-perfumes importados, simbolizando o somatorial de sensórias promíscuas e repletas de produtos narcotizantes.
     Havia, decerto, nas décadas priscas o promanar do clima carnavalesco!... O ar, deveras, ficava impregnado diante das alacridades momescas. Assim sendo, confeccionava-se desde a máscara até chegar ao perfil da mascarada, uma mulher de ancas avantajadas, e que vestia uma indumentária de forma sacular com estamparias aberrantes!...
     O ritmo hilariante era o de brincar de fofão, diuturnamente, para que ninguém o reconhecesse durante as suas andanças cambaleantes pelas principais ruas da cidade de “Torvelinhos”. E, no decorrer das madrugadas chuvosas, o Rei Momo, sem hesitação de maior monta, participava integralmente dos tradicionais bailes de máscara, onde os sexos ficavam ocultados debaixo dos longos macacões – com aspecto que recordava um chambre fundilhado portando mangas largas e compridas.
     Hodiernamente, não se podia mais manter a consagração dos vetustos “bigorrilhos”, pois seria uma excêntrica deambulação exterminativa, em que os facínoras estariam ali, formando grupos promíscuos reconditando vários tipos de pistolas automáticas de alta precisão!... Por final, em plena tartamudez, cominuir-se-ia o “Momo” – de modo energúmeno – remanescendo sob a forma de uma espectral poeira cósmica!
     Inumou-se a efígie do tal “Momo”, esquartejando-o através dos itinerários do passado, dando-nos a especiosa impressão de um Judas Iscariotes. Nestes dias de sarça ígnea, extorquiram-lhe até o trono, -- todo engalanado --, que recebia as cabeças inebriantes, estando todas prontas para saracotear com jocosidades desenvoltas as implosões comemorativas com relação ao impressionante festival da carne – o nosso tradicional e inviolável carnaval – que, pouco a pouco, adentrava ao período jugulatório de uma provável obliteração efetuada com o decurso desses estropiamentos ocorridos sequencialmente, nestas duas protótipas décadas do século XXI.
     Com procacidade reiterativa, os maus elementos tentavam deludir, -- com propagandas de cabal desfaçatez --, a continuidade de um teratológico “MOMO”, que feneceu, à sorrelfa, prematuramente, -- faz alguns anos --, antes mesmo que as marchinhas e os frevos pernambucanos encetassem os epinícios preludiais de um carnaval fantasmagórico e festejado com pândegas, tomando conta do espaço das mais importantes avenidas, as quais integram o desfile opulento das mais concorridas escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro e demais capitais!...
     Lá, no grande RJ, sim, corre-se indubitavelmente todo tipo de risco sobre risco, abrangendo desde as armas brancas aos explosivos randômicos. E, de repente, poder-se-ia, em caso de incúria, ser surpreendido por uma bala perdida, indo, sorrateiramente, alojar-se indevidamente na caixa craniana ou no tórax do homem de bem, e que, às vezes, já houvera transfixado as estruturas internas, sendo o crime perpetrado por um bandido de altíssima periculosidade!...
     Até os bichanos ficariam desesperados diante de tanta algaravia, -- sem precedentes --, pois, também, esses irracionais já experimentaram o pavor dos aviões arremessando focos luminosos direcionados, com o objetivo de localizar ou afugentar os réprobos sujeitos, os quais se manifestaram por meio da perpetração de percucientes criminalidades, adrede, consecutadas; em virtude das impunidades reinantes, e que são proporcionadas pelo exacerbantíssimo dos crimes hediondos, adrede, praticados pelos facínoras dispersos em todas as cidades brasileiras, além de albergar o orbe; excluindo, como dissera outrora, uma pequena parcela da humanidade – a quem se denomina de pátria!...
     Nos carnavais pretéritos existem batalhas de flores, ou, então, de confetes, dispersando-os por todo o salão festivo, deixando-o plenamente exornado!... A brincadeira continuava pelas ruas da cidade, e consistia basicamente num pomposo passeio realizado por carruagens ou automóveis engalanados, que transportavam grupos de pessoas fantasiadas. Ao se cruzarem, os foliões lançavam uns sobre os outros, pequenos buquês de flores, confetes ou serpentinas procurando copiar os modos civilizados do carnaval de Nice.
     A inauguração, no Rio de Janeiro, do eixo da Avenida Central --- Avenida Beira-Mar, em 1906, daria grande impulso às diferentes brincadeiras que buscavam ocupar o novo espaço urbano construído para o usufruto da burguesia.
     O projeto de um carnaval sofisticado e exclusivo da elite; porém, acabara esbarrando no proverbial escárnio das precoces cinzas, as quais dariam um toque de porvindouro inumamento ao galhardo espairecimento dos salões ataviados de confetes e serpentinas!...
     O carnaval do prístino era o período conhecido pela quantidade de festas de toda sorte de estilos, principalmente bailes de máscaras, desfiles de samba e folia de rua. Todas essas mixagens sonoras são exuberantes quanto ao sexo, drogas e diversos tipos de fantasmagorias!...
     Ao passo que, sem hesitação corroborativa, eram os correspondentes períodos de festas profanas, em todas as regiões onde eram comemoradas, e que se iniciavam, geralmente, no dia de Reis ou Epifania, e se estendiam até quarta-feira de cinzas, dia em que encetavam os jejuns quaresmais.
     Os três dias imediatamente anteriores à quarta-feira de cinzas, dedicados a díspares sortes de diversas folias, -- folguedos populares --, com disfarces variegados e máscaras de todos os modelos, abrangendo desde os mais simples aos mais esdrúxulos, aduzindo a um estúrdio apoplético de confusões, trapalhadas e desordens!...
     Entrudo pode ser definido como uma série de jogos e brincadeiras populares, introduzidas no Brasil pelos portugueses no século XVI, que também foram associadas no carnaval brasileiro. Pode ser considerado como a fase de gestação do carnaval popular de rua. A etiologia do vocábulo em referência está atrelada aos bonecos gigantes feitos de madeira e tecido, que faziam parte destas brincadeiras carnavalescas portuguesas no período final da Idade Média ( por volta da centúria XV).
     No Rio de Janeiro do século XVII o “Entrudo”, na máxima acepção, simbolizava estas brincadeiras da época momesca, e que eram muito comuns. Existiam vários tipos de brincadeiras e jogos que variavam de bairro para bairro. Já no séc. XVIII, os entrudos passaram a ser um pouco mais organizados e podiam ser divididos em dois tipos: Entrudo Familiar e Entrudo Popular.
      Eram jocosidades e ludos mais moderados, em todos os aspectos plausíveis, com objetivo de entretenimento social. Ocorriam geralmente nas casas de famílias ricas dos centros urbanos. Numa das mais populares brincadeiras, os moços da época faziam uma espécie de guerra com limões. O jogo não era violento e não tinha por finalidade machucar, mas apenas estabelecer laços de amizade.
     Os entrudos populares ocorriam nas ruas das cidades, principalmente nos bairros mais populares. Quase sempre, sucediam lídimas guerrilhas de ovos, água suja, urina, frutas podres, etc. Tinham um caráter agressivo e despudorado.
     O debilitamento da tradição carnavalesca deu-se a partir de meados do séc. XIX. Os maiores coniventes foram os próprios governantes e autoridades, que, de pouco a pouco, à socapa, foram obliterando as reais características populares, qualificando-as como insolentes e deletérias aos morigerados comportamentos sociais. Em várias cidades, o entrudo popular foi proibido; porém, somente nos protótipos anos do séc. XX que ele perdeu a sua legítima pujança! Embora não se ouça mais falar em entrudo, em muitas regiões do Brasil ainda são comuns, na época do Carnaval, as guerras de água e frutas podres, sobretudo entre crianças e jovens de regiões mais pobres.
     Por curiosidade, podemos citar que numa pequena cidade localizada no interior do Tocantins, -- apesar da expunção do entrudo --, ainda existe o jorro d’água, auspiciado por pesadas mangueiras, com participação coletiva de crianças, jovens, adultos e idosos. E, desse modo merencório, temos apenas o reminiscencial penumbroso daquilo que se chamou no passado de verdadeiro carnaval!...


                                                          Wilson Cerveira

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