Na década de mil novecentos e setenta,
nos três primeiros anos, eu cursava o antigo “Científico” no “Colégio dos
Irmãos Maristas”. E, nesse tempo, para curiosidade dos meus anos de mocidade,
vocacionou-me com atenção o anúncio que vinha sendo reiterado no rodapé da
página de rosto do Jornal Pequeno. Se não me delude a memória, reitero-o com as
mesmas palavras. Ei-lo, então: “Procura-se, com certa urgência, um eficiente
cobrador, desses que exercem determinada pressão e medo, ambos agindo de modo
incisivo sobre a imagem conspurcativa do devedor”. Na sob linha, com letras em
negrito, prosseguia a exaração seguinte:
- quem souber do paradeiro desse tipo solerte de pessoa, informe-o
açodadamente ao advogado Carmelindus Calietus, que há muito o procura na cidade
de São Luís do Maranhão, desde o dia em que viera da Itália.
Quem o trouxer a tiracolo, indubitavelmente, será muito bem
recompensado; pois, com certeza, estaria ressarcindo de alguma forma plausível
um prejuízo exacerbante, e, de maneira simultânea, acumulado no decurso
temporal dos anos de uma exaustão procrastinatória!
Laurieto que, apesar da provectude, ainda deambulava pelas ruas
ludovicenses, ostentava o desiderato relacionado ao preenchimento das três lacunas
ocupacionais: a idade, a aposentadoria compulsória, adindo também a parca
pecúnia recebida, não só por ele, mas pela maioria da população de
trabalhadores diuturnos, que ainda estão estritamente vinculados aos
descomunais descontos mensais repassados para os cofres extorquidores do INSS (INSTITUTO
NACIONAL DE SEGURIDADE SOCIAL). Esse dito órgão, melhor dizendo, vem sofrendo
as influências malévolas dos governantes facínoras e de seus comparsas --
respectivos sujeitos ardilosos – tanto os corruptos como aqueles que se acham
na condição de corruptores inveterados!...
Eliozodo, o cobrador de pálpebras decaídas sobre ambos os olhos, fora
apresentado ao advogado Calietus pelo servidor Laurieto, que, indiretamente,
necessitava de abarganhar estabelecida pecúnia, a ser paga mensalmente, de
maneira parcelada, pelo advogado, e, desse modo justificaria o seu árduo
trabalho de cobrador de aluguéis, batendo de porta em porta. Sabia como bater,
sem fazer alarmes, e obedecia a hora certa, longe do estremunhamento do
devedor. Às vezes, sem perplexidade, se absconditava nos cantos das ruas que
faziam obliquidade com a respectiva rua do devedor, e não lhe dava a mínima
chance de não ser visto; e, que, destarte, evitaria o pagamento a ser efetuado
no dia que constara na cláusula do contrato verbalizado cartorialmente. Os mais
resvaladiços devedores eram vigiados por ele na porta do Banco, exatamente no
período destinado ao pagamento do funcionalismo público e das demais autarquias...
Zodo, como era conhecido pelos mais íntimos, aparatava um aspecto físico
externo de sujeito mal encarado; pois, na penumbra – quase noite – seria capaz
de estarrecer até a presença da senhora sua mãe. Nascera feio, de uma feiura
medonha, que seria capaz de provocar fobia na própria penumbra que fechava a
postremeira luz do dia, dando-lhe um aspecto penumbroso para uma asfixia
noctâmbula, logo no adentramento da perpetua agonia, facultando uma execração
máxima sem empatia meritória.
Os que os perlustravam tinham, de imediato, a falaciosa impressão de que
estavam a vislumbrar o próprio energúmeno, sobremodo em dias de sanha
percuciente. Parece-me que vivia banido de todos e do próprio orbe, imensidão
que o condenava, peremptoriamente, na condição de feiura portadora de uma
altíssima rejeição quanto ao formato de sua genética teratológica.
Com o decurso inclemente dos anos, ninguém apresentaria carência
sedutora de apropinquar-se dele, notadamente no que concerne ao ato de querê-lo
na circunstancia experimental de companheiro, amigo, amante etc. A sua
monstruosidade física, alarmaria a sua própria sombra, à medida que a logica
efigie se projetasse longitudinalmente no chão, como se quisesse tamponar os
pertuito somatoriais da casa onde morava, cujo assoalho estava todo carcomido,
dando a especiosa miragem de um casco de jabuti, amplamente cominuido no
basilar de seu antebraço indumentário!...
Quando o Dr. Carmelindus Calietus examinara minuciosamente o cobrador
mais rigoroso que até o momento se conhecera, -- não só em São Luís --, mas em
todo o Estado do Maranhão, ficou pasmo ao perlustrá-lo pela prototíssima vez.
Os seus olhos aparatavam as pálpebras decaídas, e devido essa anomalia,
ostentava uma visão restritiva, a que vai do joelho aos pés. Para que pudesse
enxergar os membros superiores do cliente, teria, no mínimo, de posicionar-se
em decúbito ventral, prosternando-se aos seus pés, numa atitude de quem obsecra
remissão pelas cincadas perpetradas, assim como no dever da aplicação de uma
possível resipiscência!...
O contrário, porventura, seria mais plausível; pois quem deveria
permanecer em decúbito ventral seria o devedor, clamando-lhe clemência e
fleugma quanto ao ressarcimento imediato da dívida a ser prementemente
resgatada até o final das vinte e quatro horas do postremeiro dia do
aprazamento do aluguel que fora estipulado em cartório com presença de várias
testemunhas e testemunhos!...
Realmente, Eliozodo, o cobrador irreverente, não pedia vênia para
adentrar aos ambientes de maior perigo de vida. Tinha porte de arma, e desde a
sua adolescência aprendera a atirar com precisão milimétrica, -- um atirador de
elite que seria capaz de dividir, anatomicamente, uma mosca ao meio, de modo
simétrico, separando com exação os membros inferiores dos superiores.
Zodo, como era cognominado pelos mais íntimos, não passava de um
monstrengo com aparência verossimilhante ao Quasímodo – protagonista do
“Corcunda de Notre Dame”—de Victor Hugo. Deveras, causava impressão fatídica de
repulsa a quem, de surpresa, o via pela protótipa vez. O sujeito devedor
pensava logo ser ele, sem a mínima hesitação, um baita matador de aluguel,
desses sicários que estendem o corpo da vítima na horizontalidade da peremptória
inumação irreversível!...
Não era um mau caráter, mas simplesmente um cobrador de aluguel
eficiente, fazendo com que a adrenalina do devedor recrudescesse; pois, o
submetia a um estado de aflição, sobremodo quando estava ao seu lado, na
iminência de receber o aluguel da respectiva propriedade, independendo de ser
casa térrea, sobrado, terreno, sítio, chácara, fazenda, áreas de criação e
plantio etc.
Wilson Cerveira
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