Com este quasímodo cognome, seria muito
difícil identificá-lo, mesmo morando numa cidade como “Alcântara do Maranhão” –
de povo mesquinho, invejoso, e que tenta se assenhorear ilicitamente de tudo o
que não lhe pertence – sem admitir protesto por parte de quem se arroga do
direito de defender-se com unhas e dentes, como se fosse uma atitude assumida
por trogloditas prístinos!...
Somente em Alcântara – MA, sem
perplexidade, este fato se reitera, que é o de ostentar invídia mórbida, –
ocorrendo com uma trivialidade surpreendente --, e chegando a suplantar as mais
hediondas mazelas localizadas em muitos quadrantes do planeta – Terra.
O Mestre Diquinho aparatava hábitos
bizarros. Era, como ninguém, afeito às divisões do tempo integral, não
assentindo quaisquer promiscuidades inerentes aos diferentes tipos de ações, reações
e afazeres. E, palindromiava sempre a mesma frase, principalmente quando dizia
o que ouvira desde o período pueril: “a ocupação bane o ócio, expurgando-o por
completo – sem deixar laivos de repugnância iminente”!...
Pelas manhãs, de modo irrefutável, o
propalado senhor Diquinho, um sessentão sem eira nem beira, posturava-se na
qualidade de professor leigo, ministrando aulas em casas particulares –
sobremodo de pessoas conhecidas –, evitando com isso novos conflitos. Cuidava
apenas da seguinte trilogia erudicional: Português, Matemática, Conhecimentos
Gerais (abrangendo, também, noções basilares de Ciências Naturais, sobremodo o
que se refere ao corpo humano – com suas estruturas – células, tecidos, órgãos,
sistemas ou aparelhos).
O mestre de antanho ostentava esdruxulias
dantescas, sobremodo no ínterim dedicado ao elucidatório do texto em questão.
Ensinava todas as séries do antigo e nostálgico “Curso Primário”. Em um único
salão, parecia aplicar uma verossimilhante análise combinatória. No canto – 1,
de esconso, reunia em par os vinte alunos do 1º ano; no canto nº2, também à
esquerda, congregava 15 discentes do 2º ano, no canto – 3, ainda de soslaio,
coligia mais 13; no 4º, que ficava igualmente à direita, coligava 11
estudantes; no 5º canto, situado no centro do salão, mantinha apenas os
remanescentes – 6 aprendizes – e que, de fato, eram aqueles que receberiam o
diploma correspondente à fase basilar na qual os conhecimentos adquiridos fossem bem consolidados, podendo
chegar à indelebilidade, – enquanto rememorada --, até a senescência.
Diquinho cobrava tudo, sem deixar escapar
um acento, uma vírgula. Apreciava os sábados com suas sabatinas alternativas.
Um, inapelavelmente, era dedicado aos acertos e desacertos da vetusta
aritmética. Usava para tanto, sem acatar reclamações dos alunos. Trazia no
bolso três palmatórias: pequena, média, grande. A extensão de cada uma não era
o suficiente, mas o calibre diametral no que concerne à espessura, de fato,
correspondia às expectativas do insólito Diquinho!...
Não admitia erros: “nem de verbos – nem de
números”. Ele mesmo aplicava a palmatoada merecida. A vermelhidão que ficava na
palma da mão do aluno desatento, demonstrava a intensidade reiterativa da sua
própria cincada. Se a pergunta vinha expressa em números mais elevados,
pressupunha-se que a férula, em caso de equívoco, agia com maior
esbravejamento, – determinando as quantificações do processo avaliativo e,
concomitantemente, a qualidade do aprendiz – “se realmente estava aprendendo,
definitivamente, a lição do mestre, sem que houvesse nenhum tipo de olvidamento
no decurso prolongado do tempo”. A base eruditiva mantinha-se inviolável em
todos os pontos de maior plausibilidade assimilatória.
Nessa época de castigos pesados, todos
aprendiam a lição. Ninguém se queixava de traumas nem de tantos outros
sensibilismos hiperbólicos. O escopo vetorializava-se mesmo, beneficiando a
família, a escola e o mercado de trabalho, dando-lhes os posicionamentos
privilegiados. E, dessa forma, educava-se a criança, e essa educação ia se
disseminando para outros períodos subsequentes, sendo a postremeira lição
remanescente e inolvidável!
Esse tal Diquinho, para alguns alunos
insubordinados, era um tipo de peste execrável; pois, sem titubear, colocava-os
prosternados em tampas de leite “Nestogeno”, contendo agrupamentos
combinatórios de vários caroços de milho. E, nessa posição cilicial, permaneciam
por longo tempo – sem gritar – até que aprendessem as tabuadas e os verbos
regulares, irregulares, anômalos,
defectivos e abundantes!...
Quando saíam do suplício, davam-nos a
impressão especiosa de uma possível inserção realizada por esses frutos secos
em suas epidermes patelares. De imediato, a vislumbração assomava-se, em função
de usarem calças curtas complementadas com meias de algodão que lhe atingiam o
terço médio da fíbula!...
Pelo turno Vespertino, destituía-se da
condição de “Mestre Primariano”, e assumia o papel, – em principio –, nunca
dantes lobrigado, que era o de jornal ambulante da cidade de Alcântara – MA,
uma terra em que o fuxico corre de boca
em boca, falaciando em seus trâmites, e, de modo concomitante,
ressumbrando as recrudescências dos acontecimentos do hesterno, do hodierno e
do crástino – numa lídima epidemia grassante, não havendo exórdio nem peroração
para que chegasse ao peremptório inumante.
O Diquinho era o próprio jornal de
Alcântara. Apreciava o disse-me-disse, a intriga, o leva-e-traz constante, sem
que deixasse vazar nenhuma minudência. Colecionava-as em pequenos blocos de
papel que conduzia nos bolsos da calça. Escrevia essas anotações a lápis, com
uma caligrafia de causar inveja com relação às garatujas dos doutores, os quais
nunca souberam o que é educação nesse sentido, notadamente em se tratando dos
caracteres de uma bela escrita!
De longe, no assomamento do seu próprio
vulto descendo a ladeira da Rua das Mercês, já se presumia o que ele vinha a
contar para o meu avô – Marcial Ramalho Marques. Conforme a notícia, no que
concerne ao grau de provocação
insuportável, estugava os passos, e punha os dedos da mão direita a segurar o
cinto da calça – meio frouxa – quase a desabar no meio da rua; enquanto o seu lado
esquerdo, totalmente penso, dava-nos um aspecto falacioso de uma muleta com
pontas – simplesmente ostentando os devidos apoios dos artelhos – como se
quisessem perceber as diferenças proeminentes das incertas pedras que compunham
o paralelepípedo em pleno desgaste centurial.
Lembro-me, com nostalgia, daquela noite de
1961, em que meu avô Marcial, segurando-me por uma das mãos, fazia com que eu
girasse em círculos concêntricos pelo balcão da sua “Casa Comercial”, -- indo e
voltando sem parar! De repente, na penumbra da noite; logo na ladeira abaixo,
assoma a imagem do Mestre Diquinho. Gritei ao meu avô, dizendo que aquele homem
de cabelos encanecidos e de mente ensandecida estava caindo aos poucos, como se
uma força divina estivesse a controlar o grande tombo iminente. Mas, isso não
ocorrera jamais, pois era uma maneira que arrumara para açodar as pessoas, principalmente quando ele se
preparava para contar uma grande intriga!...
– Disse-lhe, a princípio, o seguinte: - Seu
Marciá, deveras, fique sabendo que o Santas Paulinas anda chamando o senhor de um
grande sacana!... – Meu avô – Marcial Ramalho Marques, que vivia, diuturnamente,
armado, replicou num encetar de uma ação violenta – dando um soco no petromax,
exatamente no que estava bombeando, jogando-o no meio da rua. Nesse ínterim
súbito, caso Diquinho não tivesse a destreza de afastar o corpo, cairia
juntamente com candeeiro, -- que remanesceu em tassalhos! O velho fuxiqueiro ficaria aleijado ou
morreria na hora; já que o impacto do soco foi tão brutal, que lhe provocou
sangria no terço-médio superior da mão direita. Meu avô era de muita coragem,
deixando o sangue fluir até a formação do coágulo – sinal de cessação da
hemorragia, que fora decretada em função do golpe sofrido, assim que entortou o
êmbolo do petromax, aparatando camisa e manga cintilantes.
Volte lá, agora, e diga para esse
desgraçado que eu estou esperando por ele -- até 11h da noite -- aqui na “Casa
Comercial”, com todas as portas escancaradas! – Se ele for homem, esse canalha,
que desça o mais rápido possível, que o enfrentarei arrostadamente. Ele subirá
a ladeira apoiado numa única perna, pois a outra ficará paralisada para
sempre!... Permaneceu, como sempre, o Santas Paulinas, um facínora pusilânime,
a ostentar um comportamento de “um cachorro que late mas não morde!”
O Diquinho sabia de todas as noticias más
e boas, que eram divulgadas na cidade de Alcântara – MA, sendo um palrador
enérgico. Fazia toda essa fuxicada de graça, somente para fruir do prazer
mórbido de fazê-lo.
Às noves da noite, partia em direção à
casa onde residia, e, ao adentrar o primeiro salão, não perdia tempo quanto ao
ato de dirigir-se à tenda que construíra num velho quartinho – situado no fundo
do quintal – para converter-se numa lídima entidade, e, assim sendo, confabular
com os seus guias espirituais – alguns dos seus orixás –, pedindo-lhes proteção
no sentido de enfrentar novas aventuras periclitantes, mas que nenhuma fosse a
responsável direta pelo ceifamento da sua vida, dividida em três capítulos – de
mestre leigo, de licuteiro intrigante e de bruxo enlutado!...
Wilson Cerveira
Gosto muito de ler seus artigos amigo Dr. Wilson, fazem bem para o intelecto, estimulando a imaginação através de cenas vividas.
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