quinta-feira, 2 de abril de 2015

O MESTRE DIQUINHO

     Com este quasímodo cognome, seria muito difícil identificá-lo, mesmo morando numa cidade como “Alcântara do Maranhão” – de povo mesquinho, invejoso, e que tenta se assenhorear ilicitamente de tudo o que não lhe pertence – sem admitir protesto por parte de quem se arroga do direito de defender-se com unhas e dentes, como se fosse uma atitude assumida por trogloditas prístinos!...
       Somente em Alcântara – MA, sem perplexidade, este fato se reitera, que é o de ostentar invídia mórbida, – ocorrendo com uma trivialidade surpreendente --, e chegando a suplantar as mais hediondas mazelas localizadas em muitos quadrantes do planeta – Terra.
     O Mestre Diquinho aparatava hábitos bizarros. Era, como ninguém, afeito às divisões do tempo integral, não assentindo quaisquer promiscuidades inerentes aos diferentes tipos de ações, reações e afazeres. E, palindromiava sempre a mesma frase, principalmente quando dizia o que ouvira desde o período pueril: “a ocupação bane o ócio, expurgando-o por completo – sem deixar laivos de repugnância iminente”!...
     Pelas manhãs, de modo irrefutável, o propalado senhor Diquinho, um sessentão sem eira nem beira, posturava-se na qualidade de professor leigo, ministrando aulas em casas particulares – sobremodo de pessoas conhecidas –, evitando com isso novos conflitos. Cuidava apenas da seguinte trilogia erudicional: Português, Matemática, Conhecimentos Gerais (abrangendo, também, noções basilares de Ciências Naturais, sobremodo o que se refere ao corpo humano – com suas estruturas – células, tecidos, órgãos, sistemas ou aparelhos).
     O mestre de antanho ostentava esdruxulias dantescas, sobremodo no ínterim dedicado ao elucidatório do texto em questão. Ensinava todas as séries do antigo e nostálgico “Curso Primário”. Em um único salão, parecia aplicar uma verossimilhante análise combinatória. No canto – 1, de esconso, reunia em par os vinte alunos do 1º ano; no canto nº2, também à esquerda, congregava 15 discentes do 2º ano, no canto – 3, ainda de soslaio, coligia mais 13; no 4º, que ficava igualmente à direita, coligava 11 estudantes; no 5º canto, situado no centro do salão, mantinha apenas os remanescentes – 6 aprendizes – e que, de fato, eram aqueles que receberiam o diploma correspondente à fase basilar na qual os conhecimentos  adquiridos fossem bem consolidados, podendo chegar à indelebilidade, – enquanto rememorada --, até a senescência.
     Diquinho cobrava tudo, sem deixar escapar um acento, uma vírgula. Apreciava os sábados com suas sabatinas alternativas. Um, inapelavelmente, era dedicado aos acertos e desacertos da vetusta aritmética. Usava para tanto, sem acatar reclamações dos alunos. Trazia no bolso três palmatórias: pequena, média, grande. A extensão de cada uma não era o suficiente, mas o calibre diametral no que concerne à espessura, de fato, correspondia às expectativas do insólito Diquinho!...
     Não admitia erros: “nem de verbos – nem de números”. Ele mesmo aplicava a palmatoada merecida. A vermelhidão que ficava na palma da mão do aluno desatento, demonstrava a intensidade reiterativa da sua própria cincada. Se a pergunta vinha expressa em números mais elevados, pressupunha-se que a férula, em caso de equívoco, agia com maior esbravejamento, – determinando as quantificações do processo avaliativo e, concomitantemente, a qualidade do aprendiz – “se realmente estava aprendendo, definitivamente, a lição do mestre, sem que houvesse nenhum tipo de olvidamento no decurso prolongado do tempo”. A base eruditiva mantinha-se inviolável em todos os pontos de maior plausibilidade assimilatória.
     Nessa época de castigos pesados, todos aprendiam a lição. Ninguém se queixava de traumas nem de tantos outros sensibilismos hiperbólicos. O escopo vetorializava-se mesmo, beneficiando a família, a escola e o mercado de trabalho, dando-lhes os posicionamentos privilegiados. E, dessa forma, educava-se a criança, e essa educação ia se disseminando para outros períodos subsequentes, sendo a postremeira lição remanescente e inolvidável!
     Esse tal Diquinho, para alguns alunos insubordinados, era um tipo de peste execrável; pois, sem titubear, colocava-os prosternados em tampas de leite “Nestogeno”, contendo agrupamentos combinatórios de vários caroços de milho. E, nessa posição cilicial, permaneciam por longo tempo – sem gritar – até que aprendessem as tabuadas e os verbos regulares,  irregulares, anômalos, defectivos e abundantes!...
     Quando saíam do suplício, davam-nos a impressão especiosa de uma possível inserção realizada por esses frutos secos em suas epidermes patelares. De imediato, a vislumbração assomava-se, em função de usarem calças curtas complementadas com meias de algodão que lhe atingiam o terço médio da fíbula!...
     Pelo turno Vespertino, destituía-se da condição de “Mestre Primariano”, e assumia o papel, – em principio –, nunca dantes lobrigado, que era o de jornal ambulante da cidade de Alcântara – MA, uma terra em que o fuxico corre de boca  em boca, falaciando em seus trâmites, e, de modo concomitante, ressumbrando as recrudescências dos acontecimentos do hesterno, do hodierno e do crástino – numa lídima epidemia grassante, não havendo exórdio nem peroração para que chegasse ao peremptório inumante.
     O Diquinho era o próprio jornal de Alcântara. Apreciava o disse-me-disse, a intriga, o leva-e-traz constante, sem que deixasse vazar nenhuma minudência. Colecionava-as em pequenos blocos de papel que conduzia nos bolsos da calça. Escrevia essas anotações a lápis, com uma caligrafia de causar inveja com relação às garatujas dos doutores, os quais nunca souberam o que é educação nesse sentido, notadamente em se tratando dos caracteres de uma bela escrita!
     De longe, no assomamento do seu próprio vulto descendo a ladeira da Rua das Mercês, já se presumia o que ele vinha a contar para o meu avô – Marcial Ramalho Marques. Conforme a notícia, no que concerne ao  grau de provocação insuportável, estugava os passos, e punha os dedos da mão direita a segurar o cinto da calça – meio frouxa – quase a desabar no meio da rua; enquanto o seu lado esquerdo, totalmente penso, dava-nos um aspecto falacioso de uma muleta com pontas – simplesmente ostentando os devidos apoios dos artelhos – como se quisessem perceber as diferenças proeminentes das incertas pedras que compunham o paralelepípedo em pleno desgaste centurial.
     Lembro-me, com nostalgia, daquela noite de 1961, em que meu avô Marcial, segurando-me por uma das mãos, fazia com que eu girasse em círculos concêntricos pelo balcão da sua “Casa Comercial”, -- indo e voltando sem parar! De repente, na penumbra da noite; logo na ladeira abaixo, assoma a imagem do Mestre Diquinho. Gritei ao meu avô, dizendo que aquele homem de cabelos encanecidos e de mente ensandecida estava caindo aos poucos, como se uma força divina estivesse a controlar o grande tombo iminente. Mas, isso não ocorrera jamais, pois era uma maneira que arrumara para açodar  as pessoas, principalmente quando ele se preparava para contar uma grande intriga!...
     – Disse-lhe, a princípio, o seguinte: - Seu Marciá, deveras, fique sabendo que o Santas Paulinas anda chamando o senhor de um grande sacana!... – Meu avô – Marcial Ramalho Marques, que vivia, diuturnamente, armado, replicou num encetar de uma ação violenta – dando um soco no petromax, exatamente no que estava bombeando, jogando-o no meio da rua. Nesse ínterim súbito, caso Diquinho não tivesse a destreza de afastar o corpo, cairia juntamente com candeeiro, -- que remanesceu em tassalhos!  O velho fuxiqueiro ficaria aleijado ou morreria na hora; já que o impacto do soco foi tão brutal, que lhe provocou sangria no terço-médio superior da mão direita. Meu avô era de muita coragem, deixando o sangue fluir até a formação do coágulo – sinal de cessação da hemorragia, que fora decretada em função do golpe sofrido, assim que entortou o êmbolo do petromax, aparatando camisa e manga cintilantes.
     Volte lá, agora, e diga para esse desgraçado que eu estou esperando por ele -- até 11h da noite -- aqui na “Casa Comercial”, com todas as portas escancaradas! – Se ele for homem, esse canalha, que desça o mais rápido possível, que o enfrentarei arrostadamente. Ele subirá a ladeira apoiado numa única perna, pois a outra ficará paralisada para sempre!... Permaneceu, como sempre, o Santas Paulinas, um facínora pusilânime, a ostentar um comportamento de “um cachorro que late mas não morde!”
     O Diquinho sabia de todas as noticias más e boas, que eram divulgadas na cidade de Alcântara – MA, sendo um palrador enérgico. Fazia toda essa fuxicada de graça, somente para fruir do prazer mórbido de fazê-lo.
     Às noves da noite, partia em direção à casa onde residia, e, ao adentrar o primeiro salão, não perdia tempo quanto ao ato de dirigir-se à tenda que construíra num velho quartinho – situado no fundo do quintal – para converter-se numa lídima entidade, e, assim sendo, confabular com os seus guias espirituais – alguns dos seus orixás –, pedindo-lhes proteção no sentido de enfrentar novas aventuras periclitantes, mas que nenhuma fosse a responsável direta pelo ceifamento da sua vida, dividida em três capítulos – de mestre leigo, de licuteiro intrigante e de bruxo enlutado!...

                                                                                    
                                                    Wilson Cerveira 

Um comentário:

  1. Marzia2/4/15

    Gosto muito de ler seus artigos amigo Dr. Wilson, fazem bem para o intelecto, estimulando a imaginação através de cenas vividas.

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