quinta-feira, 14 de maio de 2015

UM CASTIGO QUASE MORTE

     Manhã de 1968, aula do Irmão Hipólito, o maior aplicador de castigos, notadamente quando o aluno não tinha condições de apresentar dissertação sobre o capitulo que ele determinara na aula anterior. A protótipa providencia era colocar o discente em pé, voltado para a parede, obedecendo a posição vertical erecta, com os calcanhares colados, ostentando um livro de História do Borges Hermida, suspenso até a altura da cabeça, fixando os olhos no sequenciar das frases componentes – sem alteração ordenativa das palavras, na ausência cabal de uma possível sinonímia, não dando azo a uma possível reinterpretação do texto no sentido de compor o sistema de parafraseamento (paráfrase). 
     O castigo quase morto incorreu na pessoa do aluno alcunhado de “Bispo”, nome que recebera após ter sofrido um imane desastre de carro, aduzindo a um tipo de incisão circular na região superior das têmporas, dado a falaciosa impressão de estar aparatando um solidéu a ocupar a extensão periférica do sincipúcio.
     Esse tal Bispo, indisciplinado por natureza, deseducado a partir da casa onde vivera a receber as primeiras desinformações e maus exemplos como herança de pior qualificação. Ele era, segundo a herança genética quantitativa, um negro de cor clara, estando a usufruir a sua terceira repetência, indicativo de sua postremeira ensancha de permanecer no “Colégio Maranhense dos Irmãos Maristas”.
     Decerto, aquele aluno não poderia preterir o comenos de permanecer no colégio Maristas, já que havia limitação de dois anos de reiteração na mesma série. Segundo o parecer do Mestre Hipólito, a retórica dava-lhe o fulcro de lembrar trechos dos textos arguidos, tendo como fontes principais os livros de História ou o de Geografia do Brasil.
     Quase todos os dias, o vulgo bispo, aluno das notas baixas, baixíssimas, ia percorrendo as diversas salas de aula, sendo acolitado por outros colegas irresponsáveis. Irmão Hipólito conduzia-os, de forma indisposta, em sua companhia, perfazendo uma turma de alunos malandros, sem a ínfima condição para o ato de estudar as disciplinas escolares!   --  Com certeza, naquela manhã de outubro de 1968, o Irmão Hipólito, desde o momento protótipo do estremunhamento, já apresentava uma fortíssima acidez acompanhada de uma enxaqueca fortíssima, cuja dor hemicraniana dava a impressão de dividir-lhe o sincipúcio em dois hemisférios corporais distintos.
     Irmão Hipólito não se deixava abater quando lhe vinha à ideia a permanência na sala de aula. Na metade da manhã a sua cabeça ainda rolava, apontando uma tontura de quem vai adentrar ao paroxismo denominado de delíquio. De fato, não poderia ser diferente, pois os seus nervos estavam a aflorar, somatorizando várias exacerbações acumulativas...
     Ao chegar à sala de aula, prossegue com o ritual da famosíssima arguição, chamando os alunos sorteadamente, pelos seus respectivos números de eleição quanto ao ato vocacional de natureza alternativa. Ei-los: números 1, 10, 20, 35, 38; todos em pé, ao redor da cátedra magisterial, sendo o numero 10, o do bispo – Paulo Salustiano, o primeiro a ser expendido. Ele, como sempre, tremia tal qual vara verde, pois desaprendia a lição já vista preteritamente, em decorrência de suas reprovações!
     Ninguém o conhecia pelo nome de Paulo Salustiano Figueiras da Mota. Todos o chamavam de “bispo”, o apelido que recebera, e quero aqui fazer alusão, após o desastre que o abatera, deixando a incisão da calota ao redor da sua carapinha, formando uma cintura em forma de solidéu sobre a proeminência sincipucial.
     Num dia de fortíssima azia, Ir. Hipólito colocou-o de castigo, como sempre o fazia, de cara para a parede, com o livro de História aberto no capítulo em que não conseguira aprender a lição (a incúria era o seu grande mal). A punição, na minha época de estudante, requeria determinados posicionamentos. O corpo – abrangendo cabeça, braços e pernas – manter-se-ia na posição erecta de sentido, sem que houvesse deflexão das partes componentes da estrutura esquelética.
     Realmente, simbolizava um paradigma para todas as idades, uma herança imorredoura para quem quisesse obedecer aos princípios basilares da educação, que, quando adquirida, é a única cousa que remanesce nos momentos peremptórios e postremeiros de existência vital!...

     Finalmente, reitero em dizer que tudo isto ocorrera numa determinada manhã do segundo semestre de 1968, quando o Ir. Hipólito, -- , “Mestre Angular” no âmbito da História e da Geografia, surpreendeu-o, de esconso, desobedecendo as suas ordenanças quanto ao posicionamento corporal que lhe fora infligido. Um, apenas, desses escarmentos, de modo geral, serve para erectar o esqueleto, mantendo os calcanhares colados em suas lateralidades; ao passo que a cabeça fique erguida à altura de uma linear distância contida nos ângulos que distanciam a perpendicular de ambas as coxas: direita e esquerda. O conjunto dá-nos a especiosa impressão de amarras reais cingidas.
     A fotografia fabricada, com a faculdade perlustrativa, ressumbra-nos um sujeito, no caso o próprio aluno alcunhado de “bispo”, com as mãos em ângulo hermético à altura da cintura, e as pernas em compasso aberto, bastante separadas, como se partissem para uma aventura sinistra de uma inopinada hérnia escrotal, com vastas possibilidades de estrangulamento.
     Para mostrar-lhe a posição correta, levantou-se à sorrelfa da cadeira; e, sem que percebesse, arrebatou-o com uma acertada rasteira. Em consequência, por heteroclitismo, fê-lo levitar a certa distância da força gravitacional, tendo como fadário a destreza de pegar-lhe em uma das mãos, girando como se fosse um disco voador, esgueirando a gravidade do seu corpo, amplamente suspenso, girando em forma circular, com cabal impregnação de energia flutuatória.

     A expectativa sensorial formada naquele ínterim era outra, totalmente diferente das anteriores. Suponhamos que o Mestre Hipólito não conseguisse manter o corpo do “estudante”, rotatoriamente, por algum tempo, sempre soerguido, sem que houvesse a mínima probabilidade de soltar-lhe das mãos! De outro modo, projetá-lo-ia fatalmente de encontro as espessas paredes da sala. E, nesse caso, seria uma catástrofe fatídica, pois, com lamúrias, o esquartejaria, de maneira cominuída. De fato, adentraríamos ao tétrico, quando o vislumbrássemos, após a tragédia, plenamente metamorfoseado, de maneira mirabolante e enigmática, tendo como resultante insofismável a cognominação de inusitado “bispo jabuti”.

                                          Wilson Cerveira

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