quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

UM MENTECAPTO ALÉM DA INSÂNIA

    Izídio, personagem de má destinação, perdera, catastroficamente, antes do carnaval os seguintes entes queridos: pai, mãe, irmãos, esposa, filhos, netos e bisnetos. Isto ocorrera na quarta-feira, dois dias antes do primeiro baile de máscaras. Desta feita, muito diferente das demais, ensandecera cabalmente, e não percebeu que ficara sozinho, pois todos seriam sepultados no mesmo cemitério, ocupando espaços contíguos de covas em comum!...
     Desde garoto, Izídio trazia o carnaval para si, de modo arraigado, buscando o gládio acirrado das jocosidades momescas e do ritmo arrebatador dos tambores, das cuícas, dos atabaques, tamborins e demais acessórios de percussão proporcionados pelas baterias, com os seus respectivos puxadores dos sambas-de-enredo!... De fato, ele era a simbologia máxima de um hiperfanatismo, transpondo todos os cerceamentos coligidos nos percursos impérvios das sendas energúmenas, nas quais prevalecem os mais horripilantes desvairos de uma folia estroina e sem limites...
     Realmente, a partir da quarta-feira pela manhã, um dia antes da imane hecatombe, já havia consumido de uma garrafa de aguardente, sem solicitar a presença de algum acompanhante. Deveras era pândego por natureza, pois patrocinava as mais heteróclitas patuscadas, não importando onde estivesse a exercer as suas patologias infrenes absconditadas no interior das exornações que compunham as indumentárias carnavalescas das estúrdias que praticara a vida toda neste período correspondente aos festins satânicos de Baco e Dionísio, exemplares de todos os ébrios inveterados!...
     Comprovadamente, bebia até cair em um grande porre, que o deixava prosternado por quarenta e oito horas ou mais... Assim que recobrava às condições de quem encetava os estremunhamentos surdidos na evagatória de um percuciente inumamento de hidroxilas em grande quantidade, percorrendo-lhe a circulação sanguínea, deixando em asfixia cerebral os numerosos neurônios – transmissores da acetilcolina – comandantes gerais do equilíbrio neuromotor – em conexão com os demais órgãos componentes do sistema orgânico.
     Presume-se que, quando recebera a macabra notícia da morte coletiva de todos os seus entes queridos, Izídio sofrera um delíquio, no qual pudera constatar uma EQM (experiência quase morte).
     Persuadiram-no de que seria salutar a expiação, através das sensórias coligidas, corroborando a veracidade da imane barbárie, já perpetrada, promovida pela ominosa destinação do aniquilamento!...
     Por sinal, o fatídico Izídio havia sido excruciado por um abrupto delíquio, sem que pudesse perceber a recrudescência sindrômica. Decerto, estaria sendo lancinado por outra EQM. Porventura fosse a postremeira sincope no decurso impiedoso de todas as suas agruras existenciais.
     Naquele átimo, indistinto, nada mais valer-lhe-ia alguma condição de continuidade vital, já que perdera – de uma só vez – todos os membros de sua família, abrangendo ascendentes e descendentes. E, dessa forma lúrida, como conseguiria suportar a desesperadora situação de insulamento pleno?!...
     A componência da orquestração familiar e da sua imponente maestria, ambas haviam expiado várias obliterações súbitas, sem que a destinação dilucidasse as minudências inopinadas do descomunal inopinamento.
     Feneceria, intimamente, caso visse os cadáveres reunido dos seus entes queridos, ocupando o espaço de um único jazigo, recatando-os para a eternidade, num adeus material para nunca regressar fisicamente.
     Deveras, sem perplexidade sobeja, teríamos com exclusividade, ressudar a seguinte veracidade: somente a alma, após determinado período no purgatório, salvar-se-ia em decorrência dos ultimatos clementes da Divina Providência. Destarte, estaríamos submetidos à regência maior, celestial em todas as dimensões atinentes aos mais lídimos acendramentos vislumbrados.
     Ao adentrar ao manicômio, prosseguira indefinidamente o período momesco. Todo dia ele desfilava, dando uma impressão especiosa, em detrimento da sua própria pessoa, – folião vesânico – um maníaco dos batuques e das fantasias carregadas de um “Momo” – estúrdio em todos os etológicos por ele exibidos!...
     Um dia, já no final de novembro, amanhecera estendido no pátio do nosocômio destinado a pessoas com distúrbios mentais de diferentes níveis – do menos intrincado ao mais complexo de todos. Morrera com o mesmo traje em que fora recebido na casa de Orates – uma belíssima fantasia carnavalesca!


                                  Wilson Cerveira

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