Doutor Ladislau, formado em Filosofia pela
Universidade de Sorbonne, situada em Paris, e cujo fundador foi Robert de
Sorbon, costumava dirigir-se à cidade do Rio de Janeiro, principal centro das
festividades momescas, todos os anos, mormente no mês de fevereiro. Aprendera
em companhia do seu querido bisavô a apreciar as tresloucadas folias do
satânico Rei Momo.
O jovem
Ladislau, geralmente, mandava aprestar com antecipação uma nova fantasia – mais
dispendiosa e com mais gala, caso a comparássemos com o pretérito. O seu
propósito era de que não ostentasse verossimilhanças com os atavios das orlas
do tecido anterior, banindo, dessa forma, quaisquer reiterações que, de modo
fortuito, pudessem surdir no postremeiro comenos.
O seu
bisavô Arnaldo, sem medo de errar, dissera-lhe o seguinte: “meu dileto bisneto,
não há jocosidades que corroborem o estilo de masculinidade ou, então, o
feminismo da fantasia a ser exibida durante esses três dias, onde as aparências
se promiscuem de maneira indiferenciada!”
De
fato, o moço preferia o vestuário apropriado para o disfarce utilizado no
“Carnaval” e noutras festas, nas quais, sem distinção, a joia era adulterada ou
de pouco valor, e, dessa forma, não preenchendo a elucubração da obra que
desobedeceu as regras fixas de um simulacro trinominal: capricho, polidez e
etiqueta.
Mesmo
após o passamento do seu bisavô Arnaldo, o doutor Ladislau, laureado com o
título de conde, não desprezava os festins carnavalescos realizados nos salões
engalanados com perfumes, confetes e serpentinas. E, ao som do frevo, ia
dispersando as energias excruciantes que lhe atormentavam os neurônios
cerebrais.
Dessa
forma, mantinha os seus desideratos lídimos: coroa de louros, láureas, prêmios,
galardões, homenagens, coligindo em um único e exclusivo vocábulo – laurel.
Realmente, a semântica vernacular aparatava diversas gradações de opulência,
que é a pompa máxima de um artista que, ainda, reminiscenciava uma imane
delusão no decurso do viver oriundo de uma insólita convivência trilógica:
vivência, experimentação e sofrência!
Ladislau deu uma parada quanto ao
desfile de suas diferentes exornações momescas, no instante em que contraíra
varíola(alastrim ou bexiga) nas apropinquações da data do seu natalício,
correspondendo ao sexagésimo nono ano. Até então, fruíra a sua necessidade
frenética de se sentir vestido numa inusitada vestimenta colorida de
alacridade. Sentia-se lúbrico quando se perlustrava diante do espelho de três
faces, e lobrigava a superfície epidérmica,
estando toda ela absconditada – da cachimônia até as cúspides dos artelhos.
Ao
completar quarenta anos, recebera a comenda de conde, que é um título de
nobreza, ou de simples distinção, entre visconde e marquês.
O conde
Ladi, como era conhecido na intimidade, gostava de ouvir a letra e música de
Jair Rodrigues – “Encontrei hoje cedo no meu barracão, minha roupa de conde no
chão!” Outrossim, as cores da roupa de conde são claras, mormente na região do
tronco; ao passo que, sem maiores hesitações, as demais topografias corporais
podem receber outras colorações, dependendo do clima e de outras manifestações
requerentes ao uso em determinadas ocasiões cerimoniosas...
A
depressão nervosa adquirida pelo filósofo e conde Ladislau, era amplamente
plausível, porquanto a varíola é uma enfermidade febril infectocontagiosa,
aguda, com erupção cutânea pustulosa, por vezes, com manifestação epidérmica,
que deixa cicatrizes típicas, bem evidentes, também conhecida por bexigas,
bexigas negras ou alastrim. Outrossim, foram dez anos de sucumbência
psicológica! As orações, também, ajudaram-no a melhorar, já que fruía,
negativamente, uma cabal úmbria—como se o sol obliterasse por completo em seu
viver de sofrência continuada!
Damiana, a mucama de meia centúria de apropinquações, era o seu
valhacouto nos ínterins mais agrurosos. Estava sempre à cata de banir-lhe as
imprecações, as quais recrudesceriam as acrimônias que o acometeram durante um
decênio durante um decênio – de repleto padecimento psicossomático.
O
conde, finalmente, devaneara regressando ao seu regalo precípuo, que
significava o todo em si mesmo. Dentro de sua individualidade, sentia-se como
se fosse a própria escola de samba a exibir, sem limites, o seu extremo
fanatismo. Nessas circunstâncias de altíssima cegueira, pode desaparecer uma
cidade do mapa, e ter-se-á carnaval nas demais, as que remanesceram no
absconditismo das próximas catástrofes.
Damiana
apresentava versatilidade desde a fase de adolescência! Aprendera a costurar
muito bem, tendo por égide preceptora os acuramentos dispersados pela senhora
sua mãe – dona Guilhermina, uma das mais eficientes costureiras de São João de
Corte, interior da cidade de Alcântara – Ma.
A Dami,
como era chamada carinhosamente, fazia a função de um factótum. De tudo,
irrestritamente, sabia um pouco. E, dessa maneira, não se apertava diante dos
afazeres; pelo contrário, economizaria a sua própria pecúnia, não
prodigalizando com relação a terceiros – exploradores de primeiríssima
grandeza.
Das
fantasias, todas feitas pela Damiana, reunia o binômio: conde e carnavalesco (num
abrangimento de várias exornações). Se somatorizássemos as anteriores quanto ao
valor pecuniário, esta transcendia pela pomposidade de sua aparência e pela
opulência diversificada dos numerosos adereços afixados no decurso extensivo do
vestuário – de elevadíssimo engalanamento.
O
filósofo que ostentava o título de nobreza, morava no terceiro andar do
Edifício Andaluzia. Tanto assim, para melhor segurança, habituou-se a dispensar
o serviço prestado pelo elevador do prédio. Subia e descia, descia e subia,
várias vezes durante o dia, aliando o útil ao agradável; pois ia exercitando a
musculatura do calcanhar, das pernas (mormente de ambas as panturrilhas), assim
como, sem pestanejar, abrangendo, também, as musculaturas dos adutores das
coxas: direita e esquerda. Certamente, prescindiria o auxílio das vetustas
muletas de braço, as quais lhe dariam a firmeza necessária quanto à mobilidade
salutar dos membros inferiores.
O
carnaval de fevereiro de 2016, num total antagonismo, ia se aproximando aos
poucos, trazendo no ar a mortificação dos lídimos e eufóricos ritmos do
tradicional frevo pernambucano. Parecia mexer com todas as alacridades
reconditada no intrínseco dos brincantes, verdadeiros fanáticos doentes, que se
preparavam o ano inteiro, amealhando devagar as pequenas pecúnias, no
ressudamento de aprestamentos a toda prova de caráter desideratório.
A
nonagenária Damiana, uma década mais provecta engomava, acuradamente, e com
solicitude a olhos vistos, a fantasia mais bela e, igualmente, a mais onerosa,
se tomarmos como parâmetro analógico as demais dezenas de diferentes modelos e
coloridos, -- que foram usados em diversos carnavais armazenados nos museus das
imagens e dos sons, arquivos implacáveis quanto aos registros dos sucedimentos
priscos.
Com que
dificuldade, a pobre e senecta mucama, -- com a ajuda da Divina Providência --,
conseguiu ascender degrau por degrau, parando em cada lanço de escada, com o
propósito único e exclusivo de chegar ao terceiro andar do prédio.
Colocou
a fantasia do filósofo e conde Ladislau, da mesma forma, sem que deixasse
quaisquer amarfanhamentos quanto ao posicionamento da peça de roupa estendida
no espaldar da cadeira, -- tal qual uma ombreira posta na horizontalidade
sequencial do sustentáculo de madeira do guarda-roupa. Perfumou-a, de cima para
baixo, com aspersões intermitentes de aromas parisienses. Assim sendo, a
indumentária tornar-se-ia impecável, sem que revelasse vinco nas entrelinhas
das costuras cruzadas.
O
egrégio filósofo passou mais de uma hora, com a máxima diligência, colocando em
cada região do corpo as peças que iriam compô-lo por inteiro – da cabeça aos
pés. Dessa maneira, ninguém seria capaz de vislumbrar um estigma sequer da
bexiga que o acometera.
Desde
então, começara a perder a volição quanto ao ato de se apresentar em público.
De máscara, acompanhada de óculos escuro, véu negro, camisa fechada até o
último botão, cerceando cabalmente a garganta...
Não
pressentira que o fatídico o rodava circularmente. Ao descer a escada, já
completamente pronto, desequilibrara-se em função de um súbito delíquio, e veio
rolando escada abaixo, fraturando os ossos – alguns remanescendo em esquírolas;
outros, sendo deixados com fraturas simples expostas. Infelizmente, no rés do
postremeiro degrau, fora encontrado morto, ostentando hemorragias internas e
externas, numa poça de sangue, que fora absorvida pela própria fazenda da
camisa. Fora colocado no féretro, portando a derradeira fantasia, homenageando
o seu octogenário natalício. E, decerto, fora inumado cerimoniosamente, para
que pudesse ser recepcionado pelas épulas bacterianas!...
Wilson Cerveira
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