Atravessar o
mar – num singrar das águas da “Baía de São Marcos” – ora vindo para São Luís,
ora indo em direitura à sua Terra Natal – Alcântara, Heidimar fora, dessa
forma, o marinheiro da destinação que ele próprio traçara ao longo dos anos!...
A Providência Divina não permitira que ele
fosse tragado por uma dessas ondas que surdem, de modo abrupto, no percurso das
travessias perigosas – num pasmo de um boqueirão aberto em cabal abismo!
Geralmente, durante trinta dias, Heidimar
passava vinte e sete dias em Alcântara, e, apenas três dias, permanecia em São
Luís do Maranhão. De fato, aprendera com os nossos ancestrais a lição de
radicar-se na gleba que o vira nascer, não aderindo a deletéria ideia de
abandoná-la no decurso temporal – como muitos o fazem no ramerrão existencial!
Palmilhou por longo tempo sobre as pedras
desalinhadas do calçamento, ascendendo e descendendo a “Ladeira do Jacaré”,
indo em direção ao “Porto do Jacaré”. Só em andar por essas pedras em total
desalinho o andante alcantarense estaria na iminência de ser excruciado por um
resvalo, que o aduziria ao chão, fatalmente, com uma probabilidade de
cominuições do esqueleto ósseo.
Isso não lhe expungia o desiderato que
nutria por Alcântara, berço natal dos seus devaneios acendrados. A população
alcantarense, em sua maioria não ostentava, de modo avassalador, o abjeto
sentimento de invídia, mormente em se tratando do que era alheio, -- de modo
geral –, mas com o objetivo de assenhorear-se (lídimos usurpadores das
propriedades de pessoas estranhas).
Heidimar, em suas expressões somíticas,
não deixava ressumbrar a herança que recebera do seu avô Antonino da Silva Guimarães.
Nesse caso, se meu bisavô tivesse consciência dos seus energúmenos descendentes,
talvez não se atrevesse quanto ao ato de adquirir várias propriedades:
sobrados, casas térreas (pequenas, médias e grandes), terras, terrenos etc.
Quem diria que o próprio Heidimar, algum
dia na vida, se apaixonasse por minha tia Terezinha Cerveira Muniz!... Nesse
tempo, o ato de ser homossexual dissimulado não era aceito pela sociedade
machista do final da década de quarenta do século XX. Simbolizava, destarte, um
estigma de proporções descomunais. E, sendo assim, representaria o ícone
peremptório de uma ferradura quente a encostar na pele do animal, e cuja
cicatriz permaneceria para sempre.
Este fora um dos motivos do término do
namoro, segundo as más línguas das pessoas tacanhas de uma Alcântara em exício,
afora os aparatos que usara no momento em que acompanhava uma das procissões da
Igreja do Carmo – em Alcântara do Maranhão. Ao passar rente à janela da casa do
meu avô materno – Pedro Cerveira, Heidimar ostentava as sobrancelhas tiradas,
os lábios rubinados, almofadinhas nas laterais de ambos os quadris, dando-lhe
um aspecto de quem costuma portar glúteos volumosos – de uma mulher de nádegas
avantajadas!...
Desde aquele átimo, em que a minha tia,
sua namorada de algum tempo, presenciara descomunal degradação moral,
despachou-o de uma vez por todas!... Ele, o próprio Dima, como era chamado no
contubérnio, encenou chiliques diversificados. Carpiu, por longo tempo,
ressumbrando convulsões especiosas – exibindo olhos cerrados – como se fosse
uma premonição de morte iminente. Foram solicitadas duas enfermeiras,
amplamente gabaritadas, para massagear-lhe os membros superiores e inferiores.
De fato, o infeliz namorado, sem
perplexidade, pranteava ostensivamente, num ato de desespero incontrolável.
Deveras, o mocetão Dima prometia a si mesmo embarcar no dia seguinte para São
Luís, com a finalidade de atirar-se debaixo do primeiro carro que passasse,
porventura nas apropinquações que margeiam a vetusta – “Rampa Campos Melo”.
O
seu estado de histeria, com paroxismos palindrômicos heteróclitos, metia pena
aos assistentes que se aproximavam dele, fechando-lhe num círculo concêntrico e
hermético, e, desse modo, deixando-o como se fora o centro basilar de todas as
atenções; pois, o guapo rapaz necessitava de acuramentos prementes. Então, sem
remediar, precisaria ser internado na “Colônia Nina Rodrigues”. Lá, com
certeza, seria ablandiciado pelo eletrochoque e várias outras aplicações
medicamentosas. Todos nós, amigos e inimigos, queríamos vê-lo vivo – banido de
um vetusto e possível sonho de morte!...
Após quinze dias de internação no
nosocômio do “Monte Castelo”, recebera alta. Logo, sem perplexidade, rumara em
direitura ao “Cais da Sagração”, já que a canoa do mestre Guribu, ancorada
junto ao cais, esperava somente pela sua deliberação. Mantinha-se estático e
totalmente inerme – antes que pusesse o pé no interior do madeirame da pequena
canoa. O velho marinheiro acendeu um sorriso imiscuído ao laivo de fumaça do
toco de charuto – localizado no canto da boca! Felizmente, a embarcação ia,
pouco a pouco, se afastando dos aclives e declives da ladeira do porto – numa
expressão plangente de adeus – em todas as direções e sentidos...
O energúmeno do Heidimar, em plena ignição
da fase de mocidade, não pensava em outra coisa, malgrado fosse um devaneio
estúrdio, aduzia sempre consigo o volitivo de embarcar novamente para o
continente europeu, a fim de perpetrar o seu obcecado desiderato, que era o de
desfilar em salão reservado, notadamente, para as moças lésbicas, as que ficam
confinadas em recinto apropriado, exibindo as minudências dos díspares
aparatos. Os modelos se alternam em suas apresentações, agradando ou
desagradando a gregos e troianos.
Não passava mais de seis meses em
continente europeu, em face do temor que aparatava com relação aos castigos
impingidos pelo meu avô – Marcial Ramalho Marques. O seu austero pai não lhe
dispensava os maus procedimentos. Nesse tempo, o homossexualismo simbolizava o
maior de todos os estigmas coligidos. Ninguém desideraria ter um filho
efeminado, ressumbrando caracteres de moça maquiada e almofadinha – da cabeça
aos pés! O velho comerciante, meu avô querido, jamais o penitenciara. O decano
Ramalho Marques sentia-se macho da cabeça aos pés. Não admitia meios termos,
tais como dedos abertos e mãos escancaradas, perninha retrocruzadas, punhos
quebrados e demais ademanes suspeitos!... Lá fora, em continente distante,
fazia, decerto, de modo extrapolante, todos os tipos ignominiosos de salacidades.
A Europa permitia-lhe tal comportamento procaz, e, com certeza, essas más
notícias, sem hesitação, nunca chegariam aqui. Nesse tempo, estávamos em 1950,
metade correspondente à centúria do século XX. A mídia submergia em
tenebrosidades inerentes às desinformações. Os continentes pareciam
reconditados quanto ao transmitir de suas variegadas e alvissareiras mensagens.
No Brasil, as famílias, em pleno machismo,
execravam os seus descendentes amulherados. Deveras, eles sofriam os
preconceitos de uma sociedade machista, tendo por centro basilar a repulsão das
diversificadas maneiras de apresentar-se em público, sem que houvesse
recrudescimentos sobre os modos de comportar-se nos mais variados planos –
vertical, horizontal, inclinado, em decúbito ventral, dorsal, ressupino etc.
Cada passo, em quaisquer sentidos trajetoriais, tinha uma conotação própria,
somatorizando um conjunto de desajustes consecutivos e desarranjos
persecutórios.
Após percorrer vários países estrangeiros
– não somente aprendendo diversos idiomas, – mas em tudo que se possa evagar de
mais bizarro--, resolve voltar ao rincão alcantarense. Nesse caso, naquele
ínterim, ele aventava certa azáfama, ressumando uma insaciedade a toda prova!
Ia trilhando os pontos nevrálgicos da senda exótica, à qual tivera a devida
solicitude de traçar-lhes os íngremes e os meândricos que aduzem ao
despenhadeiro ignoto. Desde então, mesmo acordado, um sonho de morte o
perseguia – do extrínseco para o intrínseco, e vice-versa. Numa dessas
madrugadas, nas quais as guilhotinas suportam o açoite estrepitoso do vento
forte, fortíssimo, dando a impressão de querer-lhes as devidas sucumbências
extirpativas, numa degradação cabal de um percuciente excídio!...
Ainda aturdido, não obstante caminhasse
sobre o desalinho das pedras que recobrem, espaçadamente, a ladeira da praia
que vai dar acesso ao “Porto do Jacaré”; Heidimar esculpira a sua própria
palingenesia, exarando o desiderato de vir a ser inumado no mesmo chão que lhe
servira de substrato – desde aquele dia em que dera as primiciais passadas,
agarrado na saia da senhora sua mãe – onde ambos tentavam, um voltado para o
outro – quase em trambolhões – atravessar em diagonal a praça situada no
extenso “Largo da Matriz”.
Deveras, sem questionamentos a posteriori,
rumara sempre em direitura aos pródromos inexpugnáveis da eterna puerilidade.
Como é intrincado presumir – desde a prematura faixa etária – o que ocorrerá em
crástino longínquo – sem colimador capaz de apontar os alvos certeiros, não
remanescendo sequer as lacunas dos impérvios itinerários!
Nem as sibilas mais solertes saberiam os
paradeiros dos seus oráculos! Todos os vaticínios ficariam obiciados perante o
langoroso olhar de esconso. O prantear tornar-se-ia constante em todas as
vertentes geométricas. Ninguém mesmo teria a condição pressagial de olvidar os
percalços existentes nas coleantes veredas, em que o meandrismo impera em
múltiplos vetores, tangenciando os ínvios atalhos e os impérvios criptogramas
sepulcrais!...
Havia, decerto, incompatibilidades
temperamentais entre meu avô – Marcial Ramalho Marques – homem de caráter
machista – e a pessoa do seu filho – Heidimar Guimarães Marques – sujeito
efeminado por inteiro, sem que ressumbrasse laivos de uma presumida
masculinidade. Ambos não tinham a mínima afinidade, pois eram dois opostos que
se baniam em cabal ramerrão.
O pai Marcial, o deus da guerra, estava
sempre pronto – em quaisque momentos – para chamar-lhe a atenção, exprobrando-o
rispidamente. No pensar de Ramalho Marques: “homem, de fato, não abria os
dedos.” Mesmo pegando uma xicara de café, tinha por obrigação recolher os
demais dedos, cerrando-os no aconchego da palma da mão. Deveras, ambas as mãos
estariam posicionadas sob a forma inteiriça de um brutal soco. Tanto assim, sem
pestanejar, que, em sua casa de comercio, treinava as articulações seccionais
das falanges, infligindo uma série de cascudos consecutivos no madeirame do
balcão. Os seus dedos ostentavam grossura e esfolamento.
Heidimar fora, então, trabalhar nas
Missões Canadenses. Em casos de reorganização do francês para o português,
ressumava sagacidade, pois entendia bastante acerca das técnicas de conversão,
pois, aprendera, com o passar do tempo, absorver as lições que lhe eram dadas
pela Irmã Luíza Tereza. As missões tinham por basilar centro a cidade de
Alcântara do Maranhão; porém, sem perplexidade, estendia-se a vários
interiores, mormente aqueles que admitissem seu modo de agir e catequizar a
maioria da população. Talvez, o mais difícil de tudo isto fosse habilitar-se no
idioma Francês.
Assim sendo, investiu bastante quanto a
essa prestimosa ajuda que recebera – dos trinta aos cinquenta anos de idade. Os
encargos que lhe foram confiados desde o encetamento, até o átimo de
combalimento, sempre foram cumpridos integralmente. A durabilidade depende do
conservador e de seus séquitos. Sabemos, de antemão, que uma missão ostenta
óbices durante o seu percurso ao largo tenebroso do telúrico.
Parecia clamor de vaticínio em sua vida, a
existência constante de um vetusto sonho de morte. Sonhara, ainda acordado, que
a sua tia Procória da Silva Guimarães Sobrinha, conhecida familiarmente por
Bembém, estaria a um passo da eternidade. Ouvira-lhe o vocativo, amiúde,
desiderando a presença dos sobrinhos ao redor do seu leito de morte. E,
deveras, esse devaneio transformara-se em realidade. Ela, minutos antes de dar
o prostremeiro suspiro vital, pronunciou em voz alta: Meu Pai!..., e olhando de
soslaio, conseguiu vislumbrar as imagens de ambos os sobrinhos.
Bembém falecera devido a carência de
maiores acuramentos. Tinha por habito dormir na própria cadeira, ao derredor da
mesa, onde fazia as refeições, principalmente no período noturno. De modo
inopinado, tombou da cadeira, vindo a bater com a lateral do corpo, sobremodo
com o rosto, aparatando equimoses pela face e demais regiões do corpo. Caso não
fosse esse acontecimento, chegaria à casa dos nonagenários, uma vez que, sem
hesitação prolatória, ostentava esse tempo vital. Sua tia Procória ultrapassou
a faixa etária das nove décadas. Não seria bizarrice alguma, por parte dos seus
familiares, reiterar os atavismos registrados em diferentes tempos.
Desta feita, Heidimar fora nomeado para ocupar
a função de restaurador do “Museu de Alcântara”. De fato, sem hesitação,
auferira tamanha façanha. Para tanto, transferiu muitas relíquias da família
Guimaraes, repassando-as para o museu, uma vez que, a referida casa de
recordação, indubitavelmente, demonstrava uma vacuidade de 90%. Apenas dez
peças compunham os arquivamentos do pretérito. Fê-lo, adrede, acompanhando o
transitar do tempo. Pouco a pouco, os espaços vazios foram se preenchendo.
Realmente, gostava do que fazia!... Ultrapassou as oito décadas, tempo suficiente
para que solicitasse sua aposentadoria. A decrepitude fora tomando conta de si
mesmo, sem que quisesse se entregar!...
A pneumonia surpreendera-o, recrudescendo
ainda mais o seu enfisema pulmonar. Nesse caso, houve necessidade premente de
hospitalização. Nesse interregno, Socorro, minha esposa, sonhara com o meu pai,
pedindo-lhe que fosse até onde ele, conduzindo um ramalhete, com a finalidade
de perpetrar o atavio do ambiente no qual ele se encontrava – Socorrão I, no
centro da cidade de São Luís. Na semana seguinte, ele expirava, no dia 13 de
junho – Dia de Santo Antonio, e, dessa forma, comprovou-se a temática de um
“sonho de morte”.
Wilson Cerveira
Heidimar Guimarães Marques foi o último representante da outrora elevada nobreza alcantarense. Soube conduzir com sabedoria o Museu Histórico de Alcântara, durante a sua administração, e era profundo conhecedor da saga alcantarense. Sua partida deste plano empobrece a memória e a cultura do Maranhão. Espírito refinado, pessoa educadíssima, verdadeira personalidade da cultura maranhense, sempre solícito e com um sorriso permanente no rosto. Um verdadeiro gentleman. Que a terra lhe seja leve!
ResponderExcluirTexto interessantíssimo sobre hábitos cotidianos na sociedade maranhense do século passado.
ResponderExcluirA relação dicotômica entre pai e filho é enriquece o texto.
Carlos H. G. Medeiros