Precisamente, no dia 04 de setembro de 1980, eu ia
subindo os aclives da Rua dos Afogados, em companhia de minha tia de segundo
grau – Maria Quitéria Cerveira. De repente, de modo sutil, toca-me na ossatura
superior da cintura escapular do braço esquerdo, como se quisesse fazer-me
alguma perquirição colapsal. E, para não tardar-lhe o ponto nevrálgico da
própria ansiedade, deixei-a liberta, pronta para fazê-la com toda a premência
do orbe.
Meu sobrinho, diga-me se nesta rua, nestas
intermediações, temos algum consultório oftalmológico? Já que não esteja
enxergando dentro dos padrões da acuidade visual plausível, precisaria ser
atendida por um oftalmologista competente, capaz de sanar esta síndrome
paroxística palindrômica a que me acometera, notadamente o olho esquerdo.
Tia, conheço um tal de Walterlino
Crucilíneo. Pelo nome, temerariamente, parece não entender patavina. Segundo um
velho adágio, não devamos analisar uma criatura pelos seus caracteres
fenotípicos tampouco compulsando a onomástica. Um sujeito de sobrecenho
cerrado, pode ostentar um coração dócil!
Inopinadamente, paramos confronte ao
portão do seu prédio, caracterizado por uma placa grande, com letras góticas,
altamente vocacionais.
Ao cumprimentar com a mão esquerda o
Oftalmologista Walterlino Crucilíneo; sem que deixasse escapar as raízes da sua
proposição, inquiriu-lhe a probabilidade de escutar-lhe, com minudências, a
dissecação anatômica de todos os elementos componentes da estrutura visual.
O tal oftalmologista perguntou-lhe: o que
a senhora deseja? Em princípio, para encetamento de uma posterior consulta,
desideraria dar-lhe uma aula de anatomia, uma dissecação minuciosa sobre o
globo ocular, conquanto vislumbre o seu diploma de graduação e outros cursos de
pós-graduação afixados aqui na parede do seu gabinete de atendimentos –
prescrições, receituário e requisições são laboradas nessa pequena escrivaninha
de sua propriedade particular, em anexo ao ambiente de trabalho. Caso o senhor
se sinta dono absoluto da verdade cientifica, solicito-lhe, de imediato, a
minha cédula de cem cruzeiros, a qual repassei diretamente, e o senhor
enfurnou-a na gaveta superior do cofre de parede. Não tardemos quanto à solução
de adesão, ou rejeição, à proposta que lhe fizera, quando ergui o pé na soleira
da porta, transpondo os umbrais dos aposentos que aduzem os pacientes a
chegarem a esta cadeira apropriada e cercada de objetos que especulam as
diferentes deficiências visuais.
Venerável senhora enfermeira do “Ana
Neri” – Maria Quitéria Cerveira, digo-lhe, de antemão, que jamais houvera me
prostrado aos pés de quem quer que seja!... A idade, quanto mais avançada,
adquire as suas primazias, em que pese os estorvos presentes em diferentes
circunstancias heteróclitas.
Em decorrência dessa aula, antes da
consulta, teria que despachar os cinco outros clientes, dando sequência aos
posteriores atendimentos.
De fato, a aula duraria no mínimo
cinquenta minutos. Possivelmente reminiscenciaria as perguntas atinentes ao
velho sistema de sabatinamento. Deveras, noventa minutos de exposições e
questionamentos mais trinta minutos de consulta oftalmológica, teríamos um
somatorial cabal de duas horas. Realmente, havia aberto uma exceção – dessas
que se costuma perpetrar – uma durante a vida, e a outra, somente em homenagem
póstuma.
Maria Quitéria, a mais preparada
enfermeira do Instituto Ana Neri, era de um brilhantismo ímpar. Impressionava
quaisquer especialistas. Ostentava uma memória fotográfica em todos os setores
atinentes às diversas secções de mais percuciente anatomia topográfica.
Minudencias ocupavam os escaninhos indeléveis da memória daquela mencionada
senhora, conhecida através do contubérnio – com a denominação de “Dona
Cotinha”.
A enfermeira, quando acurada
cognitivamente, podia sobrepujar quaisquer das especialidades médicas. A única coisa
que difere é a titulação – que é expressa em papel pergaminho – com registro
estabelecido consoante a lei regimentar vigente.
Em detrimento do esforço praticado, o
indivíduo estudioso passaria a expiar um pouco de tudo o que jamais perpetrara.
Nesse caso o autodidata perde pontos em todas as disciplinas regulamentadas nos
respectivos estatutos. E, por ilação incontinente; o concorrente é, então,
excruciado nas diferentes regências da grade curricular.
Wilson
Cerveira
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