sexta-feira, 26 de agosto de 2016

REPTAÇÕES DE MARIA QUITÉRIA

 Precisamente, no dia 04 de setembro de 1980, eu ia subindo os aclives da Rua dos Afogados, em companhia de minha tia de segundo grau – Maria Quitéria Cerveira. De repente, de modo sutil, toca-me na ossatura superior da cintura escapular do braço esquerdo, como se quisesse fazer-me alguma perquirição colapsal. E, para não tardar-lhe o ponto nevrálgico da própria ansiedade, deixei-a liberta, pronta para fazê-la com toda a premência do orbe.
     Meu sobrinho, diga-me se nesta rua, nestas intermediações, temos algum consultório oftalmológico? Já que não esteja enxergando dentro dos padrões da acuidade visual plausível, precisaria ser atendida por um oftalmologista competente, capaz de sanar esta síndrome paroxística palindrômica a que me acometera, notadamente o olho esquerdo.
     Tia, conheço um tal de Walterlino Crucilíneo. Pelo nome, temerariamente, parece não entender patavina. Segundo um velho adágio, não devamos analisar uma criatura pelos seus caracteres fenotípicos tampouco compulsando a onomástica. Um sujeito de sobrecenho cerrado, pode ostentar um coração dócil!
     Inopinadamente, paramos confronte ao portão do seu prédio, caracterizado por uma placa grande, com letras góticas, altamente vocacionais.
     Ao cumprimentar com a mão esquerda o Oftalmologista Walterlino Crucilíneo; sem que deixasse escapar as raízes da sua proposição, inquiriu-lhe a probabilidade de escutar-lhe, com minudências, a dissecação anatômica de todos os elementos componentes da estrutura visual.
     O tal oftalmologista perguntou-lhe: o que a senhora deseja? Em princípio, para encetamento de uma posterior consulta, desideraria dar-lhe uma aula de anatomia, uma dissecação minuciosa sobre o globo ocular, conquanto vislumbre o seu diploma de graduação e outros cursos de pós-graduação afixados aqui na parede do seu gabinete de atendimentos – prescrições, receituário e requisições são laboradas nessa pequena escrivaninha de sua propriedade particular, em anexo ao ambiente de trabalho. Caso o senhor se sinta dono absoluto da verdade cientifica, solicito-lhe, de imediato, a minha cédula de cem cruzeiros, a qual repassei diretamente, e o senhor enfurnou-a na gaveta superior do cofre de parede. Não tardemos quanto à solução de adesão, ou rejeição, à proposta que lhe fizera, quando ergui o pé na soleira da porta, transpondo os umbrais dos aposentos que aduzem os pacientes a chegarem a esta cadeira apropriada e cercada de objetos que especulam as diferentes deficiências visuais.
      Venerável senhora enfermeira do “Ana Neri” – Maria Quitéria Cerveira, digo-lhe, de antemão, que jamais houvera me prostrado aos pés de quem quer que seja!... A idade, quanto mais avançada, adquire as suas primazias, em que pese os estorvos presentes em diferentes circunstancias heteróclitas.
     Em decorrência dessa aula, antes da consulta, teria que despachar os cinco outros clientes, dando sequência aos posteriores atendimentos.
     De fato, a aula duraria no mínimo cinquenta minutos. Possivelmente reminiscenciaria as perguntas atinentes ao velho sistema de sabatinamento. Deveras, noventa minutos de exposições e questionamentos mais trinta minutos de consulta oftalmológica, teríamos um somatorial cabal de duas horas. Realmente, havia aberto uma exceção – dessas que se costuma perpetrar – uma durante a vida, e a outra, somente em homenagem póstuma.
     Maria Quitéria, a mais preparada enfermeira do Instituto Ana Neri, era de um brilhantismo ímpar. Impressionava quaisquer especialistas. Ostentava uma memória fotográfica em todos os setores atinentes às diversas secções de mais percuciente anatomia topográfica. Minudencias ocupavam os escaninhos indeléveis da memória daquela mencionada senhora, conhecida através do contubérnio – com a denominação de “Dona Cotinha”.
     A enfermeira, quando acurada cognitivamente, podia sobrepujar quaisquer das especialidades médicas. A única coisa que difere é a titulação – que é expressa em papel pergaminho – com registro estabelecido consoante a lei regimentar vigente.
     Em detrimento do esforço praticado, o indivíduo estudioso passaria a expiar um pouco de tudo o que jamais perpetrara. Nesse caso o autodidata perde pontos em todas as disciplinas regulamentadas nos respectivos estatutos. E, por ilação incontinente; o concorrente é, então, excruciado nas diferentes regências da grade curricular.




                                                                          Wilson Cerveira   

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