quarta-feira, 9 de novembro de 2016

MESTRES E DOUTORES SEM LIVROS

     Hodiernamente, há vários subterfúgios tentando justificar a omissão do ato de conduzir livros. Ei-los: mãos vazias facilitam a defesa de quem se vê acuado por bandidos que surdem, abruptamente, de maneira arrostada. Também, existem escusas relacionadas aos possíveis desvios da coluna vertebral. Geralmente, surgem, com frequência, naqueles que não sabem equacionar o peso, e resolvem aduzir a carga para um dos antebraços!
     O correto seria o seguinte: pesá-los antes de conduzi-los, com o intento de dividir igualmente o peso correspondente ao conjunto de pequenos, médios e grandes compêndios. E, é, por isso, sem hesitação, que o velho Aquiles, o mestre dos mestres, ostentava uma balança própria para aferir esses volumes atinentes a diferentes disciplinas.
     Deveras, Aquiles atravessava as ruas e avenidas, portando de cinco a oito livros nas laterais dos antebraços, com os cotovelos apoiados na região superior dos hipocôndrios: direito e esquerdo, respectivamente. Desse modo, sem perplexidade, ocupava ambas as mãos, e mantinha em posição correta os discos vertebrais.
     Neste modernismo heteróclito, os aparelhos tecnológicos ocupam os espaços reservados aos livros, absorvendo, milimetricamente, a contar das entrelinhas: cognosias esparsas e informações diversificadas sobre determinados assuntos. Tanto assim, sem dubiedade, o dispositivo móvel, a bem da verdade, deveria ser programado para agir como receptor das sindicâncias basilares, assim como, de modo contundente, as perquirições atinentes. Destarte, expungir-se-iam as perscrutações perfunctórias!
     A princípio, o livro pesa no bolso daqueles que não ostentam afinidade em adquiri-lo com o objetivo exclusivo de ler atenciosamente “página por página”, para que possam emitir uma opinião abalizada do que fora assimilado no longo decurso do tempo de estabelecida hermenêutica. Muitos somente leem, mas não se expendem quanto ao ato de interpretar os parágrafos componentes do texto em apreço.
     As máquinas, com seus modernicismos metamorfoseantes, adulteram de diversos modos o que estava sendo aspirado pelos mais estudiosos discentes. Não conseguem conciliar a leitura com a escrita, lacerando a libração necessária para uma proficiente aprendizagem deletéria com relação aos malévolos sujeitos, quase todos sacripantas, e despreparados para exercer as suas atividades docentes e discentes.
     Há uma vacuidade com relação a existência mostruária dos livros. As bolsas estão esvaziadas, ao passo que, sem maiores aparatos, os aparelhos eletrônicos se multiplicam em notebooks e netbooks, e tantas outras parafernálias, as quais tem por finalidade comutar a presença do livro. Esses instrumentos reúnem informações generalizadas, mas, em tempo algum, nunca substituirão os próprios canhenhos – muito mais simples – sem digressões correspondentes aos opúsculos.
     A própria biblioteca está munida de aparelhos de DVD e seus respectivos discos. Vislumbram-se alguns livros didáticos já utilizados em anos pretéritos. O manuseio é exíguo, sendo feito através da ação deletéria das traças!...
     De quem são espectros enfileirados nas estantes, ainda em caixas lacradas, com o vetusto lacre vermelho, a exibir coletâneas recém-chegadas do estrangeiro, trazendo a tiracolo inusitados exemplares científicos?!...
     Essas especiosidades eram engendradas pelo Nicoleide, sujeito que coligiu a aglutinação nominal dos seus pais: a mãe, cognomina-se Leide; enquanto o pai, bastante arguto, desde a infância, denominava-se de Nicolau.
     Dr. Nicoleide, na estremadura de sua solércia, enchia as caixas de livros usados; ao passo que, no continente externo do papelão, aparatava dia, mês e ano, recentemente, escritos com letras rúbidas e góticas, para que a conspicuidade comprovasse uma veracidade falaciosa!...
     Grampeadas, por ordem cronológica, estavam as notas fiscais ob-reptícias, as quais expendiam os testemunhos de quem vislumbrou o ato aquisitivo, pelo simples fato de ser um bibliófilo, ostentando dezenas e dezenas de livros, quase todos os dias da semana, com raríssimas exceções. Preferia alimentar o espírito ao corpo, numa coalescência harmônica e testemunhal!...
      Os livros, compêndios que exigem força para que sejam deslocados de um local para outro, necessitam, estritamente, de inauditas perquirições cabais, quase sempre editoriais, no exato átimo das reproduções desses manuais, que nos vem dilucidando as mais apuradas e acendradas elucubrações percucientes!...




                                                  Wilson Cerveira


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