quarta-feira, 26 de junho de 2019

LÁGRIMAS PUNGENTES




     Lecreu, sem hesitação, fora o nome que recebera na Pia Batismal. A partir, de então, o seu fadário aparatava todas as assertivas convincentes. Entretanto, não é o caráter nominal que predestina o indivíduo. Há um somatorial de fatores intrínsecos e implexos!
     A princípio, o menino Lecreu fora matriculado na Escola Militar, para que fizesse os cinco anos atinentes ao Curso Primário. Sabe-se, de antemão, que é um Centro Educacional de maior referência quanto ao aspecto de formação dos bons princípios, os quais estão solidificados sob um ética basilar paradigmática. Realmente, aprendera polidez e etiqueta em seus diferentes enunciados extrínsecos. Contudo, não conseguiu a sazonalidade de como pensar sob uma diretriz de raciocínio escorreito. Tudo nele melhorava com o tempo, menos a capacidade de refletir sobre o valor do ser humano, principalmente quando este se encontrava em momento de perigo iminente.
     De fato, Lecreu terminara o propalado Curso Primário, que era o sustentáculo básico para a continuidade posterior de todos os seus estudos... Lecreu termina de ingressar no antigo Ginásio dos Irmãos Maristas, em Recife – Pernambuco. Todo o seu comportamento externo melhorou muito, no entanto, a sua maneira de pensar e de agir permanece indelével. Não cede a nada. Tampouco auxilia o colega nos cruciais momentos de dúvidas. Permanece austero e pedante. Sente-se dono absoluto de todas as situações ressurgentes. Parece ser sempre dono da verdade inquestionável!...
     A sua postura no colégio era de sentar-se bem na frente dos demais colegas, como se quisesse ignorar os demais. Foi se tornando um egocêntrico de primeiríssima grandeza. A sua personalidade foi se degenerando aos poucos. Alguns colegas mais solertes apelidaram-no de “rei da cocada preta”! Ficava revoltado quando alguém o mencionava através desse epíteto, o qual ele considerava mais atrevido, para aplicar-lhe um soco no rosto. Isso só não acontecera devido o colega ser lépido quanto ao ato de afastar a face da imane probabilidade do soco articulado.
     Ao terminar o ginásio foi condecorado com uma medalha de ouro, ao passo que, sem perplexidade, os demais colegas da turma a receberam tanto de prata quanto de bronze. Aí, indubitavelmente, medrara o mais sórdido de todos os sentimentos – a inveja!
     Nesse caso, seria necessário utilizar a psicoterapia junguiana. “A análise junguiana trata da alma das pessoas como uma renda”, define Dulce Helena Briza, psicóloga analítica e membro fundadora do Instituto Junguiano do Paraná e do Instituto de Psicologia Analítica de Campinas (SP). “Trata-se de uma viagem pelo desconhecido, o inconsciente, que por meio de mergulhos em camadas mais profundas retira o ‘ouro’ para uma vida mais saudável e produtiva”.
     A psicóloga junguiana Viviani Burke complementa que o principal objetivo da psicologia analítica é auxiliar o indivíduo no seu caminho rumo à individualização, já que para Jung, desde que nascemos, ingressamos neste processo individual de autoconhecimento, da busca por si mesmo e da sua verdade essência. Eis, então, que busquei este ensaio para dar-lhes melhores dilucidações acerca de um processo psicanalítico de altíssima complexidade.
     Em alguns momentos, explica Viviani Burke, a pessoa pode se desviar desse caminho de individuação por conta de angustias, medos, insegurança, bloqueios e transtornos, logo, o papel da terapia analítica é auxiliar o indivíduo a lidar com os seus conteúdos inconscientes, trazendo-os à luz da consciência para que estes sejam compreendidos, ressignificados, integrados e, com isso, desenvolva a sua individualidade e tenha uma vida, reiteradamente, mais autêntica, equilibrada e saudável.
     Lecreu, portador de uma esquizofrenia paranoica, prossegue com a ideia de ser sempre o primeiro aluno da turma, independente de quaisquer concorrentes. E, realmente, fora nesse ano de 1965. O ginásio dos Irmãos Maristas lhe atribuiu uma medalha de ouro, contendo o seguinte dizer: “Honra ao Mérito”. De fato, alcançara o primeiro lugar da turma em todas as matérias. Fora um exemplo salutar para todos os seus colegas. Os de maior invídia, ficaram tristes com esse resultado individualista.
     A linha do Lecreu encetou a ter uma predestinação edificante, pois – a maioria – não acolheu o resultado com aprazimento, já que ele parecia mais uma evidência em pessoa, querendo eclodir em quaisquer situações, como sendo o resolutor de todas as circunstâncias reinantes.
     Agora mesmo, tendo o seu lugar assegurado como o primeiro aluno da classe – garantiria banir as suas imanes azáfamas neste imbróglio vital !...
     No ano seguinte, começou, então, o Científico, pretendendo avançar muito mais com os seus projetos, uma vez que, com a desmedida ambição, pretendia fazer um curso superior de destaque entre os que, também, almejavam galgar um lugar ao sol – destaque de disputa invidiosa.
     Roberto, o mais displicente, requeria a prestimosidade da besta, pois não conseguia, isoladamente, vencer e ultrapassar todos os óbices que lhe serviriam de problemas irresolúveis durante a vida de trabalhador incansável!
     O dissimulante e discente Lecreu, de modo insofismável, permanecia com suas falcatruas recrudescentes. Quando tirava uma nota mais baixa, persuadia o professor, de tal modo, para que fizesse uma outra prova com ele, ou, nesse caso, uma arguição oral. Pois, a sua intenção era manter-se sempre na vanguarda. Queria ser sempre o monitor. Os demais, por mais que não quisessem viriam na retaguarda. Destarte, vinha, pouco a pouco, se fechando sob o comando dos preceitos egocêntricos. Se existissem incômodos, decerto, estes pertenceriam a outros elementos invidiosos.
     Incorre que o egocentrismo é o maior de todos os males preconceituosos. A pessoa vive, inteiramente, em função de si própria. Tudo que ela aparata é superior aos demais indivíduos. Sente-se, então, dona do orbe. A sua convivência, sobremodo em internatos, é deletéria sob todos os pontos de vista. Até a sua maneira de olhar reflete superioridade. Quando tira uma fotografia acompanhada com outras pessoas, suprime as demais, só enxergando a sua própria pessoa. E, também, quando se põe defronte do espelho, ladeada por dois elementos, elimina ambos, ficando apenas com os seus traços fisionômicos na memória. Desperta, igualmente, apenas comodismos. Tudo se torna causa de reclamação constante. Quer ser sempre o vencedor em todas as situações reinantes. Não admite divisões, pois somente o inteiro a ela pertence. Nas congratulações, cabe-lhe a maior de todas as dádivas. Tem sempre alguma cousa para adendar ao acerto registrado. Não admite correções, de hipótese alguma, tampouco repreensões de terceiros.
     Finalmente, o acadêmico de Medicina – Lecreu --, após tanta procrastinação, colou o grau na profissão que abraçara. Daí, por diante, teria que se submeter a vários cursos de especialização – tanto aqui no Brasil quanto na França. Escolhera como paradigma a psiquiatria. Num mundo em que há milhões de deprimidos e outros tipos de patologias associadas ao sistema nervoso, jamais poderia expungir do seu diário essa extrema necessidade de ajudar a todos, sem exceção, que sofrem desse arquétipo de conturbação nervosa.
     Após trinta anos de atendimento diário, não haveria meios de prescindir os estudos correlatos desses imanes óbices do sistema nervoso, conduzindo esses pacientes a um período de internação prolongada.
     Entretanto, o Dr. Lecreu adquirira um péssimo hábito, provavelmente, em decorrência do seu próprio descalabro – denominado egocentrismo em grau maior. Tudo refletia em si: das pequenas a grandes cousas. Sentia-se dono das boas e más coisas, não importando o quanto tempo iria despender para amainar desproporcionalidades e desatenções exacerbantes!...
     Quiçá, o Dr. Lecreu congregasse em sua pessoa duas graves patologias: abulia e aprosexia. Nesse caso, o esburnimentos ou má vontade vinha somatorizar-se a cabal desatenção para com o que estivesse ocorrendo ao redor de si próprio. E as demais patologias que reunia em seu organismo, o qual já vinha sendo orquestrado por uma baita depressão nervosa!...
     Em que pese ser Ortopedista, não atendia a desastres automobilísticos. Somente, quando a colisão se dava com o automóvel dele. Isso ressumbra o quanto era egocêntrico e de má índole. A sua maior preocupação não estava com a pessoa que vinha dirigindo o outro carro; mas com o prejuízo financeiro que lhe seria imposto pela oficina mecânica. O máximo que poderia fazer era o de encaminhar o homem do volante para um Pronto Socorro mais próximo, para que ele recebesse os primeiros atendimentos emergenciais.
     Na casa do Traumatologista o que não faltava eram diferentes modelos de veículo. Numa família de quatro pessoas, havia uma completa correspondência biunívoca. Outrossim, até o caseiro ganhou como presente de aniversário um carro.
     Aos domingos todos se dirigiam a uma chácara distante, que era de inteira propriedade da família, desde o tempo do seu bisavô paterno.
     Cada qual ia no seu carro. Tipo de megalomania excrescente. O postremeiro veículo a se deslocar da imane garagem da mansão, sem perplexidade, era o do imponente Ortopedista egocêntrico. As vidraças do carro davam uma tonalidade de cor hermética. Além de tudo, gostava de óculos de lentes bem escuras. Desse modo, nada se vislumbrava ao derredor. Decerto, a lobrigação se tornava extremamente difícil. Os fatídicos passavam-se despercebidos. De fato, o tal do Médico ególatra não atendia sequer nenhum vocativo. As pessoas iam morrendo tragicamente, sem que houvesse atendimento médico. Poderia morrer a senhora mãe do Ortopedista, e, mesmo assim, ele se comportava como um lídimo xenófobo. A partir de então, tornava-se mouco, perdia a visão e a voz, de maneira sorrateira.
     Num determinado domingo, de modo inopinado, houve um terrível desastre – à margem do caminho – fatalizando minutos depois, sem que ele soubesse, a mulher e os filhos do Médico. O seu telefone foi acionado uma série de vezes, por um vizinho que conhecia a família do Médico. Realmente, ele perdia, somatorialmente todos os membros de sua família: a esposa e dois filhos de menor idade. Tinha por cronicidade um péssimo hábito: “O telefone poderia tocar desesperadamente, mas ele nunca atendeu de modo algum. A sua omissão fora responsável pelo não socorro, após o sinistro. Se houvesse atendimento de imediato!... Realmente, não houve socorro emergente!... Caso tivesse havido, livraria a mulher e o casal de filhos da morte!...
     Como se podia elucidar o ato de viver num orbe, notadamente, na urbe, onde as pessoas são insensíveis e indiferentes. Se o Traumatologista agia assim com os seus próprios familiares, como se poderia divagar o pseudos paradigma com relação aos estranhos!...
     A predestinação veio com todos os ardores infernais. Pois, somente um indivíduo satânico poderia se comportar de uma maneira acerba e com todas as premonições nequiciais. Sobremaneira, sem hesitação, acatar-se-iam todas as iniquidades mundanas!...



                                    
                                    Wilson Cerveira Marques



                                                                        






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