sábado, 8 de junho de 2019

UM SOLUÇO INTERMINÁVEL




      Joaquim, amigo íntimo, foi visitar Napoleão, que se encontrava internado num dos leitos do Hospital Português, exatamente no meado da década dos anos de 1955. Ao chegar na soleira da porta apresentou ao vigilante suas credenciais, porém com datas preclusas. Mas como ultrapassava a faixa etária das cobranças, isto é, aparatando o aspecto de octogenário, foi-lhe concedida a entrada. À sorrelfa, com o prestimoso auxílio de um enfermeiro, conseguiu transpor os percalços labirínticos dos largos corredores que se cruzavam em diagonal perante os seus olhares cintilantes.
     Ao chegar ao quarto de número 178, bateu com um sinal característico, conhecido pelo vetusto amigo, que não tardou a abrir-lhe a porta, para que ele adentrasse.  Fez - lhe uma breve visita, orientada pelos leves toques do seu relógio de algibeira, o qual herdara do seu bisavô. Que relógio de funcionamento especial! No hodierno, as maquinarias tem prazo de expiração limitado. Algumas duram doze meses, enquanto as demais vencem no interregno de três a cinco anos. Os automóveis aparatam, geralmente, esse tempo de durabilidade. Se houver alguma desídia, as peças vão se oxidando, e, concomitantemente, as comutações vão se tornando cada vez mais difíceis. Isto tudo é para elucidar que o automóvel usado pelo Napoleão, decerto, era o de marca Prefex, de durabilidade muito maior, ultrapassando a casa dos vinte anos!...
     Não vamos digressionar muito, regressemos de imediato ao assunto correlacionado à visita do tipo amistosa, que acontecia com frequência no prístino. Ao se apropinquar do seu filho Ricardo, perscrutou-lhe, de chofre, o que estava ocorrendo com o seu pai Napoleão, homem sexagenário. Paulatinamente, foi dilucidando o forte soluço que o acometera na cidade de Alcântara – MA.
     Persistente soluço, pois não havia nada que o contivesse. Bebia água em pequenos goles, tentando, também, privar de modo vagaroso a respiração ofegante. O seu filho Ricardo, que morria de amores pelo seu pai Napoleão, não hesitou um só átimo em transferi-lo de avião teco-teco, num frete todo especial, para as dependências do Hospital Português, situado na Rua do Passeio, em São Luís do Maranhão.
     Nesse tempo, a cidade ludovicense aparatava três médicos de reputação ilibada: Dr. Carlos Macieira, Dr. Djalma Marques e Dr. Genésio Rego. É uma trilogia de cabal erudição científica. A junta médica perquiria acuradamente a síndrome paroxística palindrômica do paciente, que, no caso, era um soluço de aparência interminável, constituindo dessa forma o que cognominamos, também, de ossos da dor, devido aduzir a um desconforto insuportável!...
     Praticamente, foi uma semana de luta, para que eles pudessem compulsar os efeitos deletérios desse soluço infindável. A junta médica pesquisava o dia inteiro buscando soluções plausíveis para amainar descomunal descalabro orgânico. Os três famosos médicos eram idôneos, tanto assim, que mandavam apanhar compêndios médicos em países evoluídos do continente europeu.
      O filho Ricardo andava de um lado para o outro, com os sobrolhos cerrados, acendendo um cigarro após outro. Nesse tempo, o hábito de fumar era comum entre a maioria das pessoas, sobretudo quando estavam submetidas a uma fortíssima carga de natureza emocional compulsiva!...
     Corria uma botaria num dos interiores de Alcântara – MA, narrando que um indivíduo morrera de um fortíssimo soluço no momento em que dormia sob efeitos de psicotrópicos!
     O senhor Napoleão tremia da cabeça aos pés, toda a vez que relembrava esse macabro episódio sinistro. Logo, para afugentar-lhe o pesadelo buscava proteção, prosternando-se aos meus pés de Nossa Senhora da Conceição, a sua santa de extrema devoção.
Os remédios se multiplicavam, para que os soluços fossem mitigados. Dr. Djalma Marques atestava uma hiperacidez gástrica severa. O pH, que é o potencial de hidrogênio iôntico, houve um rebaixamento substancial, chegando a uma variação entre 0,5 a 1,0%. Então, teria que tomar uma dosagem de hidróxido de alumínio associada a uma dosagem de hidróxido mais a simeticona. Outrossim, os protótipos das vinte quatro horas não estavam surtindo o efeito desejado.
     Dr. Carlos Macieira mandou que acrescentasse ao longo do dia três copos de leite congelado desnatado, com a finalidade de reforçar a possível neutralização do pH, aumentando-lhe para 3.5. Desse modo, coma continuidade de uso ascenderia mais ainda, decrescendo os impulsos do soluço renitente.
     Esse tratamento alcançou um intervalo de tempo considerável.  As despesas se proliferariam a cada dia, haja vista os imanes dispêndios cobrados pela Sociedade Humanitária Primeiro de Dezembro, pertencente a u antigo grupo de portugueses radicados aqui em São Luís –MA.
     Ao passo que o Dr. Genésio Rego supervisionar as dosagens, com o objetivo de manter a integridade dos demais órgãos agregados ao sistema digestório. Dessa maneira, o soluço poderia ir cedendo aos poucos, lentamente...
     Dr. Genésio Rego resolvera combinar, alternadamente, antiácidos com anti-úlceras. Pela manhã cedo, tomaria, em jejum, anti-úlcera. Às nove horas, salivaria um antiácido. Também à tarde, três horas usaria outro antiácido sublingual. À noite, antes de dormir, tomaria outro anti-úlcera – comprimido de 40mg. Dessa maneira, cabalmente organizada, os medicamentos, segundo Genésio Rêgo, atuariam no organismo do cliente Napoleão.
     O que precisava, com premência, era a redução da acidez, causa principal do soluço interminável. Os meios muito ácidos facilitam à formação de percucientes soluços. A tendência ao acúmulo de pH ácido em excesso, facilita sobremodo a continuidade do soluço. Também, disse ele – vou estabelecer uma dieta alimentar pastosa e líquida. Tomaria um litro de leite gelado durante às vinte e quatro horas, arroz mole – sem tempero algum – e após um copo de água de coco verde. Desde então, a sensação de soluço fora diminuindo aos poucos – com interregnos maiores – dando parcimoniosamente a dita solução ao grave caso de soluço intermitente.




                                                                       Wilson Cerveira

    
    
      

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