Joaquim, amigo
íntimo, foi visitar Napoleão, que se encontrava internado num dos leitos do
Hospital Português, exatamente no meado da década dos anos de 1955. Ao chegar
na soleira da porta apresentou ao vigilante suas credenciais, porém com datas
preclusas. Mas como ultrapassava a faixa etária das cobranças, isto é,
aparatando o aspecto de octogenário, foi-lhe concedida a entrada. À sorrelfa,
com o prestimoso auxílio de um enfermeiro, conseguiu transpor os percalços labirínticos
dos largos corredores que se cruzavam em diagonal perante os seus olhares
cintilantes.
Ao chegar ao
quarto de número 178, bateu com um sinal característico, conhecido pelo vetusto
amigo, que não tardou a abrir-lhe a porta, para que ele adentrasse. Fez - lhe uma breve visita, orientada pelos
leves toques do seu relógio de algibeira, o qual herdara do seu bisavô. Que
relógio de funcionamento especial! No hodierno, as maquinarias tem prazo de
expiração limitado. Algumas duram doze meses, enquanto as demais vencem no
interregno de três a cinco anos. Os automóveis aparatam, geralmente, esse tempo
de durabilidade. Se houver alguma desídia, as peças vão se oxidando, e,
concomitantemente, as comutações vão se tornando cada vez mais difíceis. Isto
tudo é para elucidar que o automóvel usado pelo Napoleão, decerto, era o de
marca Prefex, de durabilidade muito maior, ultrapassando a casa dos vinte
anos!...
Não vamos
digressionar muito, regressemos de imediato ao assunto correlacionado à visita
do tipo amistosa, que acontecia com frequência no prístino. Ao se apropinquar
do seu filho Ricardo, perscrutou-lhe, de chofre, o que estava ocorrendo com o
seu pai Napoleão, homem sexagenário. Paulatinamente, foi dilucidando o forte
soluço que o acometera na cidade de Alcântara – MA.
Persistente
soluço, pois não havia nada que o contivesse. Bebia água em pequenos goles,
tentando, também, privar de modo vagaroso a respiração ofegante. O seu filho
Ricardo, que morria de amores pelo seu pai Napoleão, não hesitou um só átimo em
transferi-lo de avião teco-teco, num frete todo especial, para as dependências
do Hospital Português, situado na Rua do Passeio, em São Luís do Maranhão.
Nesse tempo, a
cidade ludovicense aparatava três médicos de reputação ilibada: Dr. Carlos
Macieira, Dr. Djalma Marques e Dr. Genésio Rego. É uma trilogia de cabal
erudição científica. A junta médica perquiria acuradamente a síndrome
paroxística palindrômica do paciente, que, no caso, era um soluço de aparência
interminável, constituindo dessa forma o que cognominamos, também, de ossos da
dor, devido aduzir a um desconforto insuportável!...
Praticamente, foi
uma semana de luta, para que eles pudessem compulsar os efeitos deletérios
desse soluço infindável. A junta médica pesquisava o dia inteiro buscando
soluções plausíveis para amainar descomunal descalabro orgânico. Os três
famosos médicos eram idôneos, tanto assim, que mandavam apanhar compêndios
médicos em países evoluídos do continente europeu.
O filho Ricardo
andava de um lado para o outro, com os sobrolhos cerrados, acendendo um cigarro
após outro. Nesse tempo, o hábito de fumar era comum entre a maioria das
pessoas, sobretudo quando estavam submetidas a uma fortíssima carga de natureza
emocional compulsiva!...
Corria uma botaria
num dos interiores de Alcântara – MA, narrando que um indivíduo morrera de um
fortíssimo soluço no momento em que dormia sob efeitos de psicotrópicos!
O senhor Napoleão
tremia da cabeça aos pés, toda a vez que relembrava esse macabro episódio
sinistro. Logo, para afugentar-lhe o pesadelo buscava proteção, prosternando-se
aos meus pés de Nossa Senhora da Conceição, a sua santa de extrema devoção.
Os remédios se multiplicavam, para que os soluços fossem
mitigados. Dr. Djalma Marques atestava uma hiperacidez gástrica severa. O pH,
que é o potencial de hidrogênio iôntico, houve um rebaixamento substancial,
chegando a uma variação entre 0,5 a 1,0%. Então, teria que tomar uma dosagem de
hidróxido de alumínio associada a uma dosagem de hidróxido mais a simeticona.
Outrossim, os protótipos das vinte quatro horas não estavam surtindo o efeito
desejado.
Dr. Carlos
Macieira mandou que acrescentasse ao longo do dia três copos de leite congelado
desnatado, com a finalidade de reforçar a possível neutralização do pH,
aumentando-lhe para 3.5. Desse modo, coma continuidade de uso ascenderia mais
ainda, decrescendo os impulsos do soluço renitente.
Esse tratamento
alcançou um intervalo de tempo considerável.
As despesas se proliferariam a cada dia, haja vista os imanes dispêndios
cobrados pela Sociedade Humanitária Primeiro de Dezembro, pertencente a u
antigo grupo de portugueses radicados aqui em São Luís –MA.
Ao passo que o Dr.
Genésio Rego supervisionar as dosagens, com o objetivo de manter a integridade
dos demais órgãos agregados ao sistema digestório. Dessa maneira, o soluço
poderia ir cedendo aos poucos, lentamente...
Dr. Genésio Rego
resolvera combinar, alternadamente, antiácidos com anti-úlceras. Pela manhã
cedo, tomaria, em jejum, anti-úlcera. Às nove horas, salivaria um antiácido.
Também à tarde, três horas usaria outro antiácido sublingual. À noite, antes de
dormir, tomaria outro anti-úlcera – comprimido de 40mg. Dessa maneira,
cabalmente organizada, os medicamentos, segundo Genésio Rêgo, atuariam no
organismo do cliente Napoleão.
O que precisava,
com premência, era a redução da acidez, causa principal do soluço interminável.
Os meios muito ácidos facilitam à formação de percucientes soluços. A tendência
ao acúmulo de pH ácido em excesso, facilita sobremodo a continuidade do soluço.
Também, disse ele – vou estabelecer uma dieta alimentar pastosa e líquida.
Tomaria um litro de leite gelado durante às vinte e quatro horas, arroz mole –
sem tempero algum – e após um copo de água de coco verde. Desde então, a
sensação de soluço fora diminuindo aos poucos – com interregnos maiores – dando
parcimoniosamente a dita solução ao grave caso de soluço intermitente.
Wilson Cerveira
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