quinta-feira, 22 de agosto de 2019

ÓDIO SEM MOTIVO


     
     Doutor Calístenes, em companhia de suas duas bengalas, acabara de atravessar a “Praça dos Prazeres”. Porventura, uma região de sua mente ia obliterando o estado de perclusão. Nessa ensancha, pensaria que, possivelmente, expiasse as limitações do seu próprio corpo. Desde então, a partir dos quarenta, ficara a depender de um par desses artefatos, os quais serviriam para impulsioná-lo em direitura à vanguarda. Também, não perdera o hábito de ler quaisquer notícias, mesmo que o papel divulgatório estivesse no chão. Com que sacrifício arrostava as dificuldades oferecidas pelo ramerrão existencial. Há poucos dias, lera o artigo que falava do ódio improcedente. Mais tarde, tornou a lê-lo, com acuramento, uma vez que, decerto, a memória ia expungindo, pouco a pouco, redundando no olvido sempre presente.
     Hoje mesmo, de maneira inopinada, Ladislau veio-lhe fazer uma visita amistosa. Após prolongado silêncio, dirigiu a palavra ao Dr. Calístenes. De fato, o referido médico psiquiatra era um leitor assíduo de vários psicanalistas. Destarte, fundamentava-se quanto à discussão do mais bárbaro psicopatismo reinante. Também, há anomalias mentais diversificadas. Não se pode, peremptoriamente, determinar qual é a pior de todas, pois a extensibilidade é progressiva e comutativa.
     Deveras, na concepção de ambos, Eletério era um tipo heteróclito, com predisposição ao mais grave descontrole mental. Qual seria o mesmo, -- perguntar-se-iam, já que existem muitas barbáries, as quais se dispersam por todo o orbe. A criminalidade é um desvairo impressionante, independentemente de quaisquer linhas de transmissão.
     Dr. Calístenes depreendia a disfunção gerada pelo arguto e arredio senhor das estúrdias, que era um homem dedicado apenas aos hábitos diários ocorrentes na própria casa, onde morava, perfazendo um interregno de tempo correspondente a seis decênios. Assim, processava-se a vida do caseiro – Eletério. Então, o próprio psiquiatra e psicanalista recordava-se de que o caseiro fora o assassino atroz – do homem que o protegia. Mesmo sendo rapazola de pouco tempo, perlustrava-se que ele se enchia de raiva incomum, quando contemplava uma fisionomia execrável em toda sua concepção de vida humana. Quase todos nós, íamos acompanhando os passos etológicos – de natureza patológica – relacionados ao âmbito de valetudinariedade que o acometera abruptamente!...  De quem herdara imane rejeição? – Decerto , pertenceria à raiz paterna ou  materna, e, talvez, ambas contribuíssem para que  ele odiasse, gratuitamente, pessoas que ostentavam traços fisionômicos que lhe causavam extrema e intransigente ojeriza.
     O sujeito Eletério passara trinta anos recolhido na cadeia pública da cidade de Alcântara do Maranhão. Nesse caso, ele estava a expiar o crime que perpetrara contra o seu próprio pai adotivo e patrão – Elisidério. De fato, o impostor ou implicante resolvera dar cabo à existência continuada do patrão, matando-o com foice, para, em seguida, cominuí- lo. Colocando os seus fragmentos dentro de um cofo! Posteriormente, arremessou em direção à descomunal sarça, tendo, antes de tudo, amarrado o aparato com vários cordões de barbante!...
     Ao receber o propalado indulto, que é o tal ato de clemência governamental, concedendo desculpa ou remissão parcial – pelo ato perpetrado criminalmente, Eletério prosseguia paranoica no que se refere a efígie enigmática. Absconditava-se em sarças para observar acuradamente, de modo hiper-obsessivo, a passagem perfunctória de um certo número de transeuntes, durante aquelas manhãs de percuciente hesitação, em que as pessoas se deslocavam em direitura à Avenida dos Consolos, a qual passava no centro dessas duas sarças de fogo cálido!...
     A sua rejeição quanto ao rosto pertencia a um determinado grupo de infensos gratuitos, ou seja, ascendentes de várias gerações!... Algumas delas lembravam algumas verossimilhanças de um grau de parentesco bem distante, ultrapassando a vigésima camada genealógica; conquanto não houvesse nada que corroborasse geneticamente. Outras, em número mais restrito, aparatavam as imagens execráveis que o perseguiam diuturnamente, aduzindo-o ao estado de vigília patológica...
      Eletério, há muito, decerto, não aparecia em público, para que não fosse reconhecido, e, a posteriori, morto. Há meia centúria, sem perplexidade, os crimes hediondos permaneciam intactos na mente, sobretudo em concernência ao grau de afinidade amistosa...
O seu pai adotivo e patrão – Elisidério, com máxima convicção, ainda possuía alguns parentes bilaterais, formando um eixo dicotômico expressivo. E, também, a sua efígie ficasse a pulular diuturnamente, e remanescesse à cata de algum outro, que viesse tomar-lhe as devidas perquirições supracitadas...
     As suas premonições ressumbravam uma bala perdida vindo, paulatinamente, atingir-lhe a cabeça ou o tórax – com destinação ao órgão cardíaco. Naquele momento em diante, expungir-se-iam, de maneira peremptória, os seus caracteres físicos. Ninguém da família do perecido redarguiria a este arquétipo humano!... Todos encontravam-se predestinados e com o direito de exarar os auxílios prestados através de uma cadeia de terceiros... Todos, sem exceção, regiam com maestria a sua delirante orquestra, uma vez que o maestro, coluna vertebral de toda a arte sinfônica, garantiria as minudências do ato mantenedor e harmônico dos belíssimos clássicos...
     Eletério cismou com o Ladislau, amigo íntimo do Dr. Calístenes, quando dissera de modo altissonante: “Este sujeito, cujo nome de Batismo, fora registrado em cartório com as letras de Elisidério, seria capaz de cometer outro trucidamento. Desta feita, com as características de um baita estroina, que procurava alguém, somente pelo bel prazer de matar, sem que houvesse motivo algum!...
     De nada mesmo, adiantariam as mesuras, os bons tratamentos, uma boa oferta em pecúnia, e tudo mais!... A psicopatia obsessiva compulsiva não permitiria tal procedimento. Matar-se-iam os homens, sem motivo e sem razão alguma!... Simplesmente por uma rejeição patológica com relação aos seus laivos fisionômicos, os quais ressumam sempre inocuidade cabal.
     O psicopata – o mais perigoso de todos – é aquele que mata a pessoa sem reconhecê-la e sem apreciar-lhe as numerosas virtudes que ela aparata no seu intrínseco!
     Desse modo, o inexplicável e o ininteligível, ambos ficam por conta do fragilismo da própria psiquiatria nos dias hodiernos. Esse ramo importantíssimo da Ciência – neste somatorial de redes neuronais – fica a dever revelações mais contundentes, e capazes de mitigar as perturbações mentais que acalentam os neuropatas, deixando-lhe uma porção infinita de meandros interligadores, propugnando as teorias dos mais ferrenhos, sobremodo os que não querem reconhecer essa descomunal vacuidade, abrindo espontaneamente a palma da mão, para a execução solene da melancólica música da férula!...
                                                      

                                                                        Wilson Cerveira

    

Um comentário:

  1. Bela narração de como acontecem os crimes praticados por um psicopata.

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