quinta-feira, 28 de novembro de 2019

ATITUDES DESVAIRADAS I

        Kalimiosto ostentava por prazer mórbido a seguinte direitura:prestar a máxima atenção quando passava por sua casa, tangenciando a porta, e , depois, ia se abduzindo ao longo do largo que a margeava de ponta a ponta. Era uma fixação insólita -- um lídimo desvairio!... Seus olhos perlustravam os passantes -- indo dos pés a cabeça! Gereba, violonista dos bons, era o apelido de José Curselino. Então, Curselino andava, diuturnamente, acompanhado pelo seu violão. Por onde se dirigia, sempre o conduzia. Para ele, sem hesitação, era um lídimo prazer em fazê-lo pelas ruas de São Luís do Maranhão. Mas, com relação ao senhor Kalimiosto, um baita de um psicopata -- isto não passava de uma aporrinhação em mais alto grau, pois transferia tudo aquilo para si, numa atitude repelente e de mau gosto peremptório. De fato, esse senhor -- de aspecto sorumbático -- aparatava uma uma desempatia descontroladíssima. Não se punha no lugar do outro; pelo contrário, o outro é que tinha de se colocar no lugar dele. O patologismo agia de modo reptativo e sufocante  em todos os aspectos vislumbrados ao logo da trajetória valetudinária.
        Em junho de 1925, especificamente no dia 17 de julho, comemorava-se o tal badalado e estróina vitalício do senhorzinho Kalimiosto, um doente mental muito implexo, que desafiava a própria área da psiquiatria, ramo da ciência mental que ainda se digladiava para ressumbrar determinados comportamentos cabalísticos.Tanto assim, que não sabia dilucidar os motivos aparatosos injustificáveis que conduziam uma pessoa, seja ela quem fosse, a ter rejeição cabal pela outra, independente de quaisquer circunstâncias plausíveis, somente pala simples e improcedente aparência física. Isto levaria o indivíduo psicopata a eliminar o outro, o qual não sabia a sua devida procedência, pois lobrigou-o pela primeiríssima vez!...
        O tempo de espera aparata suas ciladas e ardis, já que não aguarda por muito, para que o caso emerja de modo inopinado. O dia do tão recantado aniversário do Kalimiosto apropinquava-se cada vez mais. Não haveria procrastinação por mais de setenta e duas horas. Os quitutes seriam conduzidos de mão em mão, até a sua residência, localizada no Portal dos Apicuns, uma vez que, sem titubeação, era a primeira de todas, portando o número 1 no pórtico superior. A casa era lobrigada desde ao longe, visto que se posicionava bem de esquina. Os seus parceiros, ou até mesmo comparsas é que tomavam a deliberação de conduzir as diversas iguarias de pratos!... Também, responsabilizavam-se pela bebidas -- das mais variadas -- não esquecendo jamais de levar no mínimo uma grade de cachaça, portando no rótulo a palavra "Pitu". Era um aniversário prolongadíssimo, terminando, exageradamente, no terceiro dia de farra intensa!... Ninguém, nunca, em tempo algum conseguiria fazer a deglutição, sem que houvesse a respectiva degustação de quem aprecia o sabor cálido ou ardente do álcool Nesse momento de prazenteio orgânico, os hepatócitos do figado não mediam esforços para combater as inúmeras hidroxilas, evitando, destarte, a decretação de cirrose pela glândula hepática.
        Nada incomodaria os numerosos garçons que foram contratados pelos convivas, pois o anfitrião, de maneira antagônica e heteróclita, não gastava um tostão do seu bolso! Os convidados participavam integralmente de todas os dispêndios, acrescendo além do mais, o furto perpetrado pelos diversificados penetras deseducados, ostentando caras totalmente desconhecidas, perante todos aqueles elementos conhecidos há muitos anos. O Kalimiosto, desde a mocidade, dependurava-se nos ombros calejados dos amigos e pseudo-amigos, quando se encontrava em ambiente festivo. Arrumava um jeito todo matreiro de escafeder-se das desproporcionais despesas executadas durante os átimos de pândega ou patuscada!...
      De fato, chegou o dia do aniversário do senhorzinho Kalimiosto. Posicionou-se  na soleira da porta para receber os convivas. Todos iam chegando portando um prato na mão direita, assim como, uma garrafa na mão esquerda. O cumprimento era feito através de uma inclinação com a cabeça até atingir a base do pescoço. Cerimoniosamente, o ruflar das roupas de linho engomadas e dos sapatos  de pelica com salto proeminente. Antes de tudo, imperava um silêncio, quase sepulcral, visto que o gramofone estava a tocar baixo. A algaravia, que é uma fala ou escrita árabe, muito comum em pândegas dessa natureza. Então, esta linguagem muito confusa, incompreensível, fazia parte integrante do ambiente patusco.
        Naquela ensancha, ninguém evagara a durabilidade daquele natalício! Na cachimônia sincipucial do anfitrião solerte e estróina em todos os sentidos e direções plausíveis! -- Kalimiosto previa, sem hesitação, que aquela festança hiperbólica permaneceria durante setenta e duas horas -- três dias -- que é o passamento total de uma anestesia geral. Como se diz na gíria, rolaria tudo, menos do que se possa divagar no momento de declinar os feitores da maledicência. Sim, de maneira cabal, era uma fuzarca intensa e completa, abrangendo todas as possíveis luxúrias. Cigarros, charutos e cachimbos encetavam suas fumaças em diversas linhas vetoriais, dando a nítida impressão de um arco-íris entreaberto. Alguns tragavam quase  de uma só vez, eliminando uma chaminé espessa de fumo; outros, menos deseducados e sôfregos,  iam eliminando filetes de fumo crestado -- o qual se encaminhava em direitura à rótula da janela semiaberta para o lado esquerdo. Destarte, a nuvem de fumos divergentes, sem perplexidade, tomava conta do espaço aéreo, fazendo um labiríntico ziguezague em todas as direções e sentidos!...
     Para acrescer ainda mais, as garrafas contendo álcool iam sendo abertas, pois a necessidade de beber -- por parte dos convivas aumentava com o passar efêmero ou  fugaz das horas. Alguns tomavam as suas talagadas de cachaça em copo branco; enquanto outros utilizavam o próprio gargalo da garrafa. Não sei como continham a respiração numa regulação deglutatória do tipo degustativa! Os tambores rufavam em cada canto das salas do casario antigo. Buscavam ritmos diversos, alcançando o cadenciado do candoblé. E, com isso, buscavam as nossas origens -- um tanto olvidadas no subconsciente de todos os presentes naquela natividade reiterativa.
        O que estava faltando era o emérito violonista cognomina de Jereba, cujo nome lídimo era José Curselino -- o grande Curselino das noitadas de boêmia!  Deveras, esse grupo era partidário do hedonismo, que é uma doutrina egoísta que preconiza a valorização do usufruto do prazer imediato, não importando as consequências, mesmo em detrimento de outrem.
        Jereba ao adentrar no  casarão do Kalimiosto, foi, de logo, dedilhando as cordas do violão, buscando o compasso harmonioso do parabéns a você! Todos os que se reuniam em torno do anfitrião, indubitavelmente, ficaram álacres, menos o patológico Kalimiosto. A protótipa tentativa que lhe veio à memória foi de cunho iconoclasta . Não mais queria vê-lo em companhia daquele empecilho, que nada mais era do que o próprio violão do Curselino. O que  poderia redundar, uma vez que, sem hesitação, ambos localizavam-se em ângulos diagonais. Jereba estava nas proximidades da janela, enquanto o senhorzinho maligno se posicionara na lateral da porta que  dava acesso ao terraço, que ficava em pleno descampado da rua que o tangenciava por todos os lados!... 
       Kalimiosto era partidário, também da iconoclastia, que significa a destruição dos ícones, ou seja, uma pessoa iconoclasta é aquela que desmascara heróis e nomes consagrados. Um grande exemplo de iconoclastia foi a semana de arte moderna de 1922. É, igualmente, uma doutrina que se opõe ao culto das imagens pela igreja.
           Senhor Kalimiosto -- o grande psicopata -- solicita a presença do Jereba para junto de si, numa aparente e dissimulada atitude de amizade!... José Curselino, ou, simplesmente, Curselino apropinqua-se do anfitrião, num comportamento de docilidade. Aliás, deveria ser o contrário! O senhorzinho vesano trouxe para junto dos seus membros inferiores um banquinho; e, nele pôs os seus pés. Em seguida, pediu o violão do Curselino para colocar logo abaixo dos seus calcanhares, a fim de que desse retidão ao curso da panturrilha. Sequencialmente, vocacionou os fotógrafos, e, logo após, deprecou aos presentes que cantassem em coro o parabéns a você! O vozerão aumentava ainda mais pelo número proliferativo de participantes! Os mais senescentes ostentavam uma voz mais lânguida e de timbre menor. Ao passo que, sem dubiedade, os mais novos aparatavam toda uma potência na voz, sobressaindo ainda mais a sonoridade do tão conhecido congratulatório. Mandou que repetissem três vezes. E, na terceira, começou a bater com os calcanhares nas cordas que se localizavam no circular do violão. Pouco a pouco, foi levantando as pernas e batendo com mais força no violão -- até cominuí-lo totalmente.
             Assim  sendo, José Curselino partiu em direção ao destruidor, num ímpeto extremo de raiva incontida. A multidão segurou os membros inferiores do violonista Curselino, e bradava de modo altissonante: respeitem a senectude deste senhor Kalimiosto, pois ele não sabia o grande mal que estava causando para aquele que ele considerava seu amigo!... O José ainda alcançou a ponta da gravata do desvairado! Tentava enforcá-lo vagarosamente, pois ele jamais iria pagar-lhe o imane prejuízo! O Jereba fazia do seu violão o viver diário, cobrando gorjetas a quem o pedisse para tocar uma música antiga -- assoalhada no subconsciente tal qual  jazigo! Era o seu ganha pão, pois não tinha outro trabalho, e não sabia quaisquer outras coisas, a não ser tocar violão a quem o solicitasse. As cordas do seu violão falavam plangentemente a mais merencória de todas as melodias ouvidas nas diversas de rádio.
        O violonista -- José Curselino, conquanto não tivesse tendências, adentrou a um estado de depressão nervosa. Foi, diretamente ao psiquiatra, e este lhe receitou remédios, tais como Esc(escitalopram), Amytril, Rivotril --2,5mg/ml. Estabeleceu a tabela de horários, e requereu que regressasse ao consultório antes que completasse trinta dias!
        E, sem hesitação, ele voltou ao consultório médico, requisitando outros remédios, principalmente os que o conduzissem ao estado de letargia prolongada!...
          Kalimiosto, produto de uma insânia hereditária, estrugia, de dentro do banheiro, as seguintes palavras, aliás, frases como esta:  "Eu quis te libertar deste teu violão, um lídimo empecilho, o qual vinha te mantendo no egocentro de uma soledade diuturna! Tu não conseguias andar livremente, oscilando os braços e movimentando-os, com eximição da cintura escapular. Com certeza, trazias os nervos, notadamente os que dão acesso ao pescoço em imane tenacidade. Chegaria a um determinado -- não sei quando, que apresentaria rigidez em toda essa musculatura superior, afetando de modo eximitório os deslocamentos dos membros superiores!...
    José Curselino, o grande Jereba, ouvia, com ódio intenso, essas expressões promanadas através de lições reditas pelo estúrdio implantado nas percuciências do cérebro, atinente ao degenerado Kalimiosto -- um baita de um psicopata -- posto em estado de liberdade -- sem a mínima condição de fazê-lo, pois representava uma cominação para a própria sociedade de consumo exprobratório!
          Jereba foi, novamente ao recinto do Psiquiatra Lameu, e disse-lhe o seguinte: doutor, eu não me dei bem com o Esc(escitalopram) nem com o Amytril (amitriptilina). O único que me faz, ainda dormir ao menos duas horas em vinte e quatro, foi o Rivotril gotas -- 2,5mg/ml. Desideraria de que o senhor comutasse os dois primeiros. Essa permutação, sumamente necessária, vai me ajudar a dormir um pouco mais -- ao menos quatro horas em vinte e quatro!...
     Kalimiosto resolveu transferir-se de casa, deixando uma placa indicatória: " Estou viajando para atender as necessidades prementes do meu filho, residente no Rio de Janeiro."
         O provecto senhor, juntamente com os demais alcoólatras, transferiram-se para um bar, situado na Rua Joaquim Távora, também chamada de Rua de Nazaré. Lá permaneceram por mais três dias, enchendo, cada vez mais, o bar de garrafas vazias, as quais se amontoavam nas paredes laterais. Ele lobrigava, de quando em quando, sem saber como sair desse descomunal dispêndio exorbitante. A tentativa dele era a de inverter os papéis -- passando de anfitrião para conviva. Desse modo, eximir-se- ia de quaisquer faturas, indistintamente da quantidade de líquidos alcoólicos ingeridos. Naquele  comenos, todos estavam além de bêbados, numa anormalidade cambaleante! João Menestrel era o mais lúcido de todos, embora já houvesse consumido, aproximadamente, duas grades de cerveja da marca "Antártica", isoladamente...
           De repente, num suspiro profundo, Kalimiosto vai até o portão que dá acesso à Rua de Nazaré. Por coincidência, o carteiro passa gritando pelas entregas urgentes de correspondências. Uma delas, sem que o carteiro lha entregasse, saiu sorrateiramente do seu próprio bolso esquerdo, pertencente ao terno de linho branco. E, em prantos copiosos, com voz sôfrega, e tremendo dos pés à cabeça, adentra outra vez ao tradicional bar do Narciso, e, desta feita, exclamando em voz altissonante, e, também, soluçando aflitivamente: Vocês não sabem a dimensão da catástrofe que ocorrera comigo, agora mesmo: "Meu filho, único herdeiro, fora estraçalhado por um trem, quando tentava atravessar-lhe o trilho!... Todos vieram lhe dar pêsames, e o convocaram para ir em direitura a casa onde morava por mais de meia centúria!....

                                                                Wilson Cerveira           
             
            
                
                           
          
         
              

Um comentário:

  1. Senhor Wilson, que bela narrativa da história de um psicopata desvairado destruindo o ganha pão de um pobre tocador/cantor que sem malícia e num descuido deixou seu violão ser destruído por um maluco que aparentemente o estava acolhendo em sua festa.

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