quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

ATITUDES DESVAIRADAS III

            O velho Olegário, se não me falha a memória, vinha trazendo nas cordas  vocais um pseudo microfone embutido! A sua voz denunciava tal artifício esfíngico. De fato, quem o ouvia a certa distância, tinha a impressão de que ele estava falando diretamente no microfone, o qual costumava trazer pendurado no pescoço por um pequeno laço de cordão grosso. Como aprendera usar tal recurso, já que a complicação era das maiores, testemunhadas em dias hodiernos, onde a técnica sobrepuja todos os meios improvisatórios.

     José das Cabras, cognome de Olegário Mariano, vinha trazendo um vozeirão inexplicável, como se realmente tivesse mandado instalar um microfone sem fio na garganta. A sua voz dispersava-se de modo a um timbre auditivo correspondente a uma escuta de alguns metros de comprimento e largura.Deveras, as pessoas ficavam boquiabertas perante tal proeza ou façanha de timbre vocálico.

     Realmente, o Olegário morria de amores por um microfone, mesmo que não funcionasse a contento de suas expectativas. Colocava no pescoço tal qual uma gravata, que é imprescindível para aqueles que gostam de usar ternos diariamente...

         O maluco do homem não podia ver microfone! Endoidecia no mesmo instante em que lobrigava tal aparelho sonoro. Esquecia de tudo, até do alimento! A sua família morria de fome, pois ele não ganhava absolutamente nada, pelo fato de manusear o respectivo aparelho -- amplificador de um determinado eco a certa distância, podendo ser ouvido até em países estrangeiros. A telefonia em dias hodiernos, aparata os mais  labirínticos artifícios, que fornecem as quantificações altissonantes!...

         Todos os sábados, sem exceção, corria o risco de ser testado pelos diversos riscos que a vida oferece. Em tempos de chuva intensa, atravessava a esburacada avenida com água que lhe ultrapassava os joelhos, molhando-lhe os testículos decaídos  através da idade. Para um homem de mais de setenta anos, tudo isto não passava de uma imane insânia, no seu mais elevado grau de distúrbio mental!

         Ninguém sabe, porém, quem é o mais louco de todos os seres humanos. Todos são portadores de distúrbios ou disfunções mentais. Outrossim, gostar do que faz é obra rara nestes dias de intensas patuscadas ou pândegas desabridas! As protérvias prosseguem indefinidamente, e fica-se sem saber qual seria o mais louco de todos os loucos existentes em urbes e orbes!...

      Sem saber ao certo que atitude tomar; se bem que soubesse que todas eram de percuciente estúrdia, não poderia eximir-se do microfone -- artefato preparado por ele -- e colocado no pescoço como se fora um cordão de pérolas preciosas. Poderia lhe faltar tudo, menos o tal do microfone !...
       João Francisco, cognominado José das Cabras, era o pai de Olegário Mariano. De fato, o filho herdara do seu genitor essa mania por microfone. Quando se falava em alguma outra cousa, vinha-lhe logo à memória o transmissor e receptor de vozes, abrangendo curta, média e longa distância.
         A família de ambos ostentava muitos descendentes. Outrossim, quase todos estavam desempregados. Viviam em função de minguados salários mínimos. Em detrimento da maioria, a minoria ia escapando no ato  de contar cédulas para a aquisição de alimentos. Deveras, o Olegário Mariano aparatava sempre o objeto de seus devaneios. O aparelho acústico preenchia as suas descomunais vacuidade. As azáfamas iam se dispersando ao longo do tempo, fazendo com que esquecesse completamente os gêneros de primeiríssima necessidade.

          Os mais novos não entendiam nem aceitavam essa obsessão do avô. Queriam ver o alimento na mesa, com a finalidade  de preencher-lhes o vazio estomacal. Realmente, o homem da fome não depreendia a desatenção dos netos para com a pessoa dele. Para os menores, o tal aparato não existiria, já que sabiam da carência proporcionada pela falta de alimento -- por menor quantidade que fosse!...

        De repente, surgiu-lhe a estúrdia percuciente, e desta feita ele queria alimentar-se através de um tubo, desses que ostentam a dissimulada aparência de microfone!...
            
        Olegário Mariano, indubitavelmente, apegou-se de todo ao microfone, esquecendo todos os demais serviços inerentes à manutenção da própria casa. A mulher, os filhos e os netos passavam necessidade. Pois, o microfone lhe proporcionava um prazer patológico, totalmente destituído de quaisquer pecúnia. De fato, a emissora de rádio perpetrava uma cominação imputável. A delação seria  necessária, mas ele tinha medo de perder o contato com o microfone. Ele mesmo já fabricava de cartolina, de papel comum. Os seus lábios precisavam patologicamente desse instrumento. As notícias, de modo geral, seriam repassadas ao público daqui e de lugares distantes.

       Olegário preparou um quarto para guardar todos os seus aprestamentos. Nesse recinto, fechado a cadeado, ninguém adentrava, a não ser ele -- Olegário Mariano. Improvisou diversos furos, capazes de penetrar em cada um, isoladamente, um microfone artificial. Perfunctoriamente, ia  exercendo a sua valetudinariedade. Ao redor do recinto, ouvia-se o choro clamoroso de toda uma família, decerto, a passar precisão. O alimento, por último, era comprado através de espórtulas dos próprios e resumidos amigos, os quais dispunha ao longo da vida. Sábado, partia para locupletar o seu esquipático desejo, e o reproduzia ao chegar.

            Falava ao mundo por meio de onirismos existentes; tanto assim, sem dubiedade, sentia-se orgulhoso ao fazê-lo. Mesmo dessa maneira, ia convocando as emissoras distantes, para que repassassem as devidas notícias! Realmente, a cada pregão ia dissimulando ainda mais a sua aspiração: -- ia morrer com um microfone à altura do aparelho bucal. 

            Delirava noite e dia, independentemente, de quaisquer circunstâncias!... E, de repente, ouve-se um grito espantoso!... O apaixonado pela radiofonia, Olegário Mariano, indubitavelmente, enforcou-se com o próprio fio do microfone que trazia ao redor do pescoço!...



            

            








            
            




2 comentários:

  1. Parabéns amigo, apesar de tantas adversidades segue produzindo.

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  2. Anônimo2/3/20

    Bom texto. Trata das questões sociais e das dificuldades dos dias. Luís Carvalho.

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