terça-feira, 10 de março de 2020

AS TRANCAS DO MEU AVÔ MARCIAL

            Meu avô, que sempre fora o marinheiro da destinação, nascera em Pinheiro -- MA, no final do século dezenove. Outrossim, os seus ascendentes portugueses sofriam do sistema nervoso -- de ambos os lados -- e dessa maneira não poderia escapar dessa imane herança maldita!
           Prendeu-se ao Comércio -- de corpo e alma -- tanto assim, sem hipérbole, abria- o às seis horas em ponto, e, somente trancava as suas portas onze horas da noite. Era um apego exacerbado, visto que a sua clientela era diminuta. Restringia-se quanto à demanda de produtos. As suas mercadorias usuais eram farinha, açúcar, arroz, feijão etc. Nas prateleiras vislumbravam-se peças de fazenda, sendo a maioria do tecido brim, o qual ostentava sua predileção maior, uma vez que seus ternos, quase sem exceção, eram todos confeccionados com essa fazenda. Vestia-os, diariamente, quando partia em direitura à Casa de Comércio. 
        Na concepção dele, indubitavelmente, não havia domingos nem feriados! Com certeza, todo dia teria que se fazer presente no balcão, não importando os regulamentos da folhinha. Mas havia um dia durante o ano inteiro em que cerrava as portas, e esse amanhecer correspondia ao Corpus Christi, o qual se fazia presente quanto ao acompanhamento da procissão, disposta em fila indiana, respeitosamente e em cabal silêncio, desde o encetamento até a peroração.
          Quanto ao uso das trancas da sua comedida Casa de Comércio, somente ele sabia dos psicodelismos que tinha de enfrentar diariamente, sobremodo no horário em que as fechava -- onze horas da noite -- como costumava se exprimir ao falar com os mais íntimos. Outrossim, eram nove portas de tamanho descomunal. Ele ia de canto a canto de parede, colocando as trancas de ferro -- uma a uma -- em suas argoletas transversais. E, para que isso ocorresse, meu pai Walter Ricardo -- punha o petromax à altura de suas linhas sincipuciais. Também, no decurso do tempo, sentia a extrema necessidade de mudar o candeeiro a querose, com camisinha e bombeamento --da mão direita para a esquerda -- fazendo que cada braço descansasse um pouco, visto que permanecia três minutos em cada porta!
          Apenas Marcial Ramalho Marques -- de modo incólume -- , seria capaz de posicioná-las adequadamente, sem que houvesse afastamento de um único milímetro. Esse episódio meticuloso se processava no interior da Casa de Comércio -- Ramalho Marques. Doravante, sem perda de tempo, vamos acompanhar o ritual que ocorria do lado de fora do mencionado estabelecimento de comercialização. Destarte, Walter Ricardo voltava a pôr o petromax à altura de ambos, obedecendo a linha sincipucial da cachimônia. E, dessa maneira,  meu avô ia experimentando porta por porta. Colocava em cada uma as duas mãos cerradas, e ia sacudindo uma a uma, para que tivesse a cabal certeza de que todas estavam, deveras, fechadas, e sem perigo iminente de invasão por parte de pessoas estranhas e inescrupulosas, com desfaçatez a toda prova.
     O mesmo ritual se processava ao chegar na Casa Residencial. Com o petromax erguido, o seu filho ia dando iluminação suficiente, para que ele experimentasse todas as janelas e portas da casa de moradia, numa atitude peremptória de quem aprecia o que se denomina de segurança. As janelas mais altas, testava-as através de um longo abridor dos ferrolhos de janela, que era um simples pau com  abertura na extremidade mais larga, facilitando, desse jeito, o volver dos ferrolhos mais inclinados!
    Todavia, sem muita tardança, outros rituais iam acontecendo no interior da Casa Residencial, numa atitude de quem vive sempre estarrecido. Essas manias, quer queiramos ou não, eram salutares no que concerne a preservação íntegra da casa onde morava juntamente com ambas as famílias -- a sua e a do filho -- Walter Ricardo.
      Quando ele adentrava ao casarão onde residíamos, geralmente, eu já estava dormindo, pois ostentava tenra idade. O seu chegar à sorrelfa fazia com o relógio de pêndulo badalasse onze e meia da noite, como era afeito a exarar; conquanto saibamos que o certo é vinte e três horas e meia.  
     Aqui, nesta cidade de Alcântara- MA, tudo é diferente com relação as demais; pois quem manobra os alcantarenses são os fantasmas que se acumulam em suas residências de portas e janelas praticamente cerradas!   
     Meu avô, antes de tudo, dormia na cadeira de lona, durante trinta minutos. Assim sendo, sua afilhada e filha adotiva -- Margarida Silva -- providenciava colocar sobre a mesa de jantar -- o que realmente ele queria: doce de buriti, murici; doce de batata doce ou doce de jaca etc. Quando não, representava o próprio fruto, cortado  ou dividido em suas respectivas fatias ou bagas. Assim, sem hesitação, ia degustando pouco a pouco cada especiaria!... Passava uma hora e meia sentado ao redor da mesa. Saboreava com lentidão! Além do mais, remanesciam no interior da sua cavidade bucal uma meia dúzia de dentes, bastante combalidos.
    Após essa  ceia módica, voltava a sentar-se na cadeira de lona. E, quando a pêndula batia duas horas da madrugada, a prestimosa afilhada chamava- lhe a devida atenção, iterando amiúde: -- meu padrinho, meu padrinho, vocacionava em voz estridente, dizendo -- chegou a hora de transportar-se lá para dentro -- para seu quarto de dormir. Agora sim, tirava o paletó; em seguida, a camisa de manga comprida; as calças, e, igualmente, o revólver calibre 38, cano longo, que trazia aconchegado ao cinto à altura da cintura. Em seguida, num gesto desabrido, puxava a calça e os sapatos, dando a impressão que queria arrancá-los de uma só vez!...
    Ademais, antes de dormir, afeiçoou a dar tiros, apoiando o cotovelo no parapeito da janela do quintal em direitura aos diversos pares de bananeiras que se cruzavam no fundo da extensão da casa residencial. Sabia que poderia ser surpreendido a qualquer momento, por um bandido foragido da Penitenciária de Alcântara -- MA. Geralmente, desferia seis  tiros, abrangendo os pontos mais estratégicos onde poderiam estar localizados.
      Quando pensava que iria se deitar um pouco na cama, os relógios da imane casa, sem distinção, já badalavam quinze minutos para as  cinco horas da manhã. Desse modo, encetava  a se ajeitar; quando Margarida silva, colaboradora assídua, começava a bater na porta do quarto do meu avô: meu padrinho, meu padrinho -- cinco horas em ponto, e está na hora exata de levantar-se. Ele já havia vestido o seu tradicional terno de brim,e, também, colocado na cintura, através do cinturão, o seu revólver de calibre -- 38-- cano longo!
       Seis horas, já estava  na soleira da porta da rua, após ter tomado o seu café preto com uma única banda de pão torrado! Também, após três minutos, já se encontrava no interior da Casa de Comércio. Lá sim, antes de abrir as portas, retirando tranca por tranca de cada argola, suscitava o comenos ou a diminuta ensancha para confabular com os seus espectros. De modo que, sem hesitação, somente abria as portas da Casa de Comércio -- Ramalho Marques -- quando a pêndula batia sete horas, uma vez que havia chegado às seis horas em ponto. Quando chovia forte, calçava uma bota à altura do joelho, e conduzia consigo um descomunal chapéu de chuva, impedindo que as gotas de água de chuva lhe molhasse as barras inferiores do surrado terno da marca brim!...
          





            

Um comentário:

  1. Excelente texto meu amigo. Fizestes um breve relato, mas muito interessante e rico em detalhes de parte do que poderia ser um capítulo de um livro com as memórias do seu avô, trazendo a luz também eventos o bons momentos de tempos que não se vivem mais.

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