sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ENTRE O BRILHANTISMO E A SÍNDROME CEREBRAL


     Perquire-se há muito tempo, sem cerceamentos, o que vem a ser genialidade, e, ainda, não se detectou o lídimo vetorial resultante, capaz de dilucidar a implexidade desta imane síndrome fulgurante.
     A genialidade atende as demandas atinentes aos maus gênios, aos bons gênios; aos gênios do bem, e, também, aos gênios do mal. E, sendo assim, a prodigiosidade máxima transcende aos limites de quaisquer normalidades. Deveras, ressuma o que se denomina de “transtorno de desenvolvimento”. É, de fato, a síndrome salutar dos gênios!... Não é uma patologia propícia, mas uma extra normalidade plausível!...
     Os gênios, de modo geral, estão nas estremaduras propinquatórias da síndrome do transtorno do desenvolvimento. Então, esta fenomenologia rutilante da mente incrementa-se em direção ao construtor, e, de igual modo, com relação ao destruidor peremptório. E, comprovadamente, a inteligência aguçadíssima, transpondo todas as estremaduras da hiper-capacidade, tem as cifras indicatrizes dos itinerários impérvios, capazes de ressumbrar os enigmas postremeiros do elucubrático.
     Segundo Temple, Einstein (1879 a 1950) só aprendeu a falar aos três anos e não manifestou nenhum sinal de genialidade na infância. Como muitas crianças autistas, era hábil em decifrar charadas e quebra-cabeças. Ele próprio admitiu: “Algumas vezes pergunto a mim mesmo: Como pude ter sido o único a desenvolver a teoria da relatividade? A razão, segundo creio, é que um adulto normal jamais pararia para pensar a respeito de problemas de espaço e tempo”.
     Esporadicamente, transtornos do desenvolvimento são acolitados de senso estético acendrado, capacidade de fazer cálculos complicados e memória colossal. Isto se deu com o americano Leslie Lemke que, aos dezesseis anos, tocou com perfeição o concerto nº 1 para piano de Tchaikovsky, depois de ouvi-lo uma única vez em um filme que passou na televisão. Ele nunca tinha tido aulas de piano, é cego e aprendeu a andar apenas aos quinze anos, pois teve paralisia cerebral. Aos sessenta anos, toca vários estilos musicais no instrumento e faz concertos nos Estados Unidos e na Europa, nos quais improvisa e executa algumas composições próprias.
     Morto em 2006, o escocês Richard Wawro, diagnosticado com altísmo, surpreendeu um professor de arte com os desenhos que fazia quando ainda era criança. Reconhecido por vários críticos de arte, é descrito como artista que reúne “a precisão de um mecânico e a percepção de um poeta”.
     Por fim, o americano Kim Peek inspirou o personagem interpretado por Dustin Hoffman no filme Rain Man (1988). Ele memorizou mais de doze mil livros entre a Bíblia e toda a obra de William Shakespeare. Era capaz de ler duas páginas de um livro ao mesmo tempo, uma com cada olho, e reter todas as informações. Também, conseguia dizer o dia da semana em que qualquer pessoa nasceu com base na data de nascimento, e sabia os títulos de milhares de peças de música clássica -- além do nome do compositor e a sua data de nascimento. Tinha dificuldades motoras e dependia de ajuda para tomar banho e fazer suas necessidades básicas até a sua morte, em 2009, aos 59 anos.
     Lemke, Wawro e Peek são casos de síndrome de savant, uma rara e intrigante combinação de deficiência e brilhantismo intelectual relacionada a transtornos de desenvolvimento. E, nesse casso, exames com neuro-imagens mostram que a síndrome está atrelada a alterações no hemisfério esquerdo cérebro. Mesmo assim, sabe-se pouco sobre a síndrome de savant, apesar de alguns casos aparecerem na literatura científica desde o século XVIII.  Em 1789, o médico americano Benjamim Rush descreveu a incrível habilidade de cálculo de Thomas Fuller, um rapaz com deficiência mental que nunca havia tido aulas de matemática. Quando perguntaram a ele quantos segundo um homem teria vivido ao completar 70 anos, 17 dias e 12 horas de vida,  ele deu a resposta correta de 2.210.500.800 em um minuto e meio, levando em conta 17anos bissextos. Um século depois, o médico John Langdon Down, conhecido por identificar a síndrome que leva seu sobrenome, descreveu 10 casos de savants ao longo de três décadas em que trabalhou em um centro psiquiátrico em Londres.
É de bom alvitre exarar que, como o autismo, a síndrome de savant é cinco vezes mais frequente em homens. Pode ter origem genética ou ser adquirido algum dano cerebral ou doença que atinge o órgão, como encefalite. As faculdades despertadas são, em sua maior parte, muito específicas e correspondem a áreas do hemisfério direito associadas a habilidades simbólicas, artísticas, visuais e motoras. Por isso, a maioria deles se destaca na música, arte, formas de cálculo e atividades que demandam aptidões mecânicas e especiais. Em contraste, apresentam deficiência nas capacidades ligadas ao hemisfério esquerdo, mais sequenciais, lógicas e simbólicas, como a linguagem e a especialização da fala.
     Pode-se, no entanto, corroborar que savants com aptidões musicais como Lemke, conseguem distinguir sons com perfeição e tocam instrumentos com facilidade impressionante. Alguns são capazes de criar composições complexas. Por algum motivo, a genialidade musical vem muitas vezes acompanhada de cegueira e deficiência mental. Um dos mais conhecidos savants foi Blind Tom (“Cego Tom”) Bethune, que viveu de 1849 a 1908. Naquela época, chegou a ser referido como “a oitava maravilha do mundo”. Embora não falasse mais que umas poucas palavras, era capaz de tocar muito bem mais de 7(sete) mil peças para piano, inclusive várias de suas próprias obras, algumas delas gravadas pelo músico John Davis e lançadas em CD.
     Os autistas visuais savant, por sua vez, dominam formas artísticas, embora geralmente se expressem por meio  de desenhos e esculturas. O americano Alonzo Clemons, por exemplo, consegue esculpir, em menos de 20 minutos, réplicas de cera de animais que vê na TV. Seus modeles são exatos em pormenores e proporções. Também, por arquétipo, temos a americana Ellen Boudreaux, cega, que pode se orientar em florestas densas e outros espaços que não conhece, sem que bata em objetos. Ela tem percepção perfeita da passagem , conquanto não tenha acesso a um relógio, mesmo em braile. Essa  habilidade se desenvolveu no dia em que sua mãe a deixou ouvir o serviço de hora  certa por telefone. Depois de escutar por certo tempo a voz gravada dizer a hora e os segundos. Ellen, aparentemente, acertou seu relógio interno. Desde então, é capaz de dizer a hora com precisão de segundo, não importando a estação do ano.
     Em alguns casos analisados, o conhecimento sindrômico dos savants está relacionado a uma memória, especiosamente, ilimitada, baseada na reiteração habitual. Às vezes, o armazenamento de informações, entretanto, não é acompanhado da compreensão do conteúdo. Alguns dos primeiros observadores chamaram esse fenômeno, oportunamente, de “memória sem reconhecimento”. Já Down usava a expressão “aderência verbal” para caracterizá-lo. Um de seus pacientes era um menino que leu nada menos que os seis volumes que compõem a obra História do declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon ---, ele conseguia  recitá-los de trás para frente, palavra por palavra, posto que fizesse isso ser ter qualquer compreensão do que se tratava.
     Finalmente, estamos diante de uma estarrecedora narrativa, onde temos a ensancha de contemplar a infinitude existente neste orbe enigmático, que fica situado nas estremaduras do brilhantismo e da síndrome do transtorno do desenvolvimento.

                                                  Wilson Cerveira

Um comentário:

  1. Anônimo24/11/12

    A superdotação tem sido objeto de atenção de muitos cientistas e educadores. Pena que em nosso Estado, os prodígios não sejam amparados por políticas públicas que detectem e potencializem suas capacidades.
    Carlos H. G. Medeiros

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