sexta-feira, 22 de março de 2013

O RETRATO INCÓLUME DO MEU AVÔ PATERNO -- UM PANEGÍRICO A SUA MEIA-CENTÚRIA DE TRESPASSAMENTO


    Quem é, de fato, esse homem – de terno de brim – e de estatura mediana, portando um petromax pendurado em sua mão esquerda, com o sincipúcio em plena calvície, e que assomava ao suporte de proteção da soleira da porta?!... Este homem, senhores, era o meu avô paterno: Marcial Ramalho Marques, que ostentava na cintura um revólver calibre-38 – de cano longo – da marca “Taurus” portando um tambor repleto de balas substitutas, para casos de extrema emergência; enquanto a sua mão direita mantinha, como desiderato idiossincrásico, a irretocável posição de soco!...
      A imagem que evoco é a mesma que ficou absconditada em meu subconsciente, desde janeiro de 1957, quando percebi primicialmente que estava diante do ícone inequívoco e lídimo do meu avô paterno, que me punha sobre o balcão, e, segurando em minhas mãos, passeava comigo devagar em direitura das extremidades, indo e voltando sucessivas vezes!
     O homem que vos falo é o mesmíssimo que, após colocar as trancas nas portas internas de sua casa de comércio, vinha para o lado externo, sem pestanejar, e com o devido escopo de experimentar – de baixo para cima --- todas as portas laterais e frontais – cerradas de modo hermético, sem deixar frinchas para réstias de luz reticencial!...
      Esta é a réplica legítima do senescente senhor, o qual comia frutos ou doces caseiros à meia-noite, para, em seguida, cochilar na cadeira preguiçosa do varandão, indo até as duas horas da madrugada, tempo em que ouvia a voz de Dadá: -- meu padrinho! – padrinho!... Não se esqueça de que está passando da hora do senhor se recolher em seu tradicional aposento de dormir, obedecendo a direitura horizontal do descanso do corpo inteiro!
     Três horas depois, pontualmente às cinco horas, ainda em pleno dilúculo, Dadá reitera o vocativo, agora na porta do quarto, lembrando-lhe que estava na hora de levantar. E, quebrando a resistência do estremunhamento, punha-se de pé no encostado da cama, junto ao candeeiro que se localizava sobre o banco alto, e que permanecia em estado bruxuleante por longo tempo de espera! Em seguida, buscava a cadeira de palhinha ao seu redor, para que pudesse enfiar as meias em ambos os pés. E, ainda, meio reclinado na lateral do guarda-roupa, empurrava, ritmicamente, as pernas meio grossas, e, destarte, facilitaria o acesso da calça até chegar ao nível circular do cinto. Postremeiramente, vestia a camisa de manga longa, colocando-a por dentro da calça. E, por final, no encerramento do ritual da indumentária, e, acrescendo um arremate aos demais aparatos, ele recobria-se, de modo cerimonioso, com o consagrado paletó de brim, exibindo uma cor cinza pronunciada!
      Às seis horas, sentado na cadeira-preguiçosa, estando situada na varanda interna da casa de morada, dirigia um longo olhar em direção à mesa, e, de modo simultâneo, lobrigava o vetusto abafador absconditando o bule. Então, sentava-se à mesa com o objetivo de degustar algumas torradas e pedaços de pão torrado. Tinha por vezo mergulhar cada fatia no próprio café preto, conservando-lhe as reais características do produto, tais como: cor, sabor e cheiro legítimos – segundo ele próprio afirmava em alto bom som.
     Às seis horas e trinta minutos, numa exação a toda prova, já estava posicionado na soleira da porta da rua, examinando as reais possibilidades de egressão, traçando uma direitura entre a casa residencial e a de comércio, esta última localizada no final da própria Rua das Mercês, onde residia desde o ano de 1934.
     Mesmo que houvesse bátega, o seu objetivo maior seria o de chegar ao comércio estugando os passos, e, consequentemente, deparar-se com as suas duas clientelas de espectadores: a real e a espectral, e ambas ansiavam por sua chegada, pois tinham como desiderato precípuo o atendimento sem dilação!
   Para o encetamento, confabularia com os assistentes espectrais – os mesmos que lhe causavam distúrbios de comportamento. Quem o visse naquele instante de percuciente demudação, pensaria, decerto, que ele fosse outra pessoa!... Sua voz era um lídimo grunhimento! Andava de um lado para outro, de modo estroinado, e, simultaneamente, ia batendo no balcão, aplicando verdadeiros carolos ao longo da madeira do empedernida, constituída de pau d’arco. Em determinado momento, sentia-se vilipendiado por uma assacadilha, e tentava desferir prjéteis na vacuidade negra que se lhe deparava, sobretudo no ínterim em que estava em cabal delírio-alucinatório. Infelizmente, esses fantasmas não podiam ser nutridos ao ribombar das balas!
   Neles, sem perplexidade, perlustrava a sua própria imagem, desde o ponto tangível no qual sofrera o excruciamento das protótipas cominuições do hecatômbico exício peremptório, ostentando os ares agressivos de quem estabelece uma direitura atitudicional.
   Durante o dia, sem hesitações cabíveis, demandava as exequibilidades dos rituais, que consequentemente eram ordenados em sequências predeterminadas, para que fossem cumpridas as diferentes etapas das disseminantes e variegadas comutações metamorfoseantes!
   As peças de fazenda se dispunham nas prateleiras obedecendo à combinação proporcional de cores – passando por todos os matizes – até chegar aos esbatimentos de progressividade plausível.
   As sacas de arroz, feijão, farinha e tantas outras, e sem maiores titubeações, ele as recolocava solicitamente umas sobre as outras, deixando que houvesse diferença entre as muitas superfícies de sobreposição. Era, de certo modo, uma análise combinatória bem acurada, para que pudesse vislumbrar a certa distância. Assim, enumerá-las-ia, precisamente, no que concernisse ao seu somatorial quantitativo.
   Após algum tempo dilatatório, recalcularia os demais dispositivos numéricos oferecidos pelos mais sofisticados observadores de reserva. Assim sendo, seria salutar demonstrar a capacidade de perpetração dos pequenos afazeres comerciais vigentes.
   Nas prateleiras posteriores, ainda conseguia armazenar nos desvãos os múltiplos documentos mercantis. Também, havia uma camada de interstício obicial, dificultando a localização dos títulos e demais documentos, a despeito de estarem numerados acuradamente, e com indicação literal variante.
   O seu almoço e jantar eram enviados em marmitas, uma vez que não misturava nenhum tipo de alimento nos recipientes. Comia-os no prato de louça, como se isolasse no interior do organismo as substâncias constituintes dos diferentes nutrientes, obedecendo ritualisticamente a sequência da complexa racionalidade degustatória.
     Depois, sem dilucidações convincentes, permanecia um bom tempo em pé, junto ao balcão, como se estivesse a cumprir uma penitência que lhe fora ordenada pela própria consciência.
     De fato, era todo militar no vestir, no comportar-se e em todas as resistências esboçadas. Testava os jejuns e as insônias prolongadas, digladiando-se em todos os sentidos e direções vetoriais. Sentia, no ar, o presságio de um clima de guerra súbito, como se as protótipas deflagrações estivessem em cabal iminência catastrófica!
     Os tempos são inexoráveis em todas as dimensões: hesterno, hodierno e crástino. Nada consegue resistir a ação deletéria do tempo. Ele varre com sua nequícia avassaladora todos os prístinos pertinentes a eras longínquas – desde as epigenesias inimagináveis!
     Ninguém consegue ser detentor do tempo! Ele exerce o excídio de quem ostenta o vaticínio de um tigre faminto, no exato átimo em que entra em contato direto com presa, não deixando como testemunho as remanescências do próprio esqueleto fragilizado!
     O coração do meu avô – Marcial Ramalho Marques – não suportou essa imane refrega, que é a própria vida, onde as hastas sofrem o roçagar impiedoso dos brandimentos diuturnos. E, na madrugada do dia 14 de março de 1963, inesperadamente, fora vítima de um infarto fulminante!...
     Deste homem impulsivo, mas generoso, ainda precato na intrinsidade da memória as postremeiras lembranças dos símbolos de natal e dos brinquedos de corda, sempre em triplicata, com os quais me presenteava todos os anos de minha infância inolvidável!

                                                Wilson Cerveira

Um comentário:

  1. Anônimo25/3/13

    Caro Wilson,
    Vejo que teu avô além de merceeiro era um típico caubói do interior.

    Grande abraço.
    Erinaldo

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