sexta-feira, 11 de abril de 2014

A DESAQUISIÇÃO DO HÁBITO DA LEITURA

    Não há tempo para abrir o livro, mas surde o átimo de deixá-lo fechado. Há, nesse caso, uma ação reciproca – de natureza deletéria – que ofende o sujeito e o objeto. O primeiro, de modo indubitável, estuga a deleção dos neurônios; o segundo, vítima incondicional do sujeito, padece com o advento das carcomas produzidas pela umidade, falta de ventilação, luminosidade etc, e, também, a carência de manuseio proporciona ambiência adaptativa para traças, piolhos de livro, carunchos e diversas variegações de mofos e bolores, com a presença maculatória de pigmentos que demonstram a coloração especifica hifas micelares, dependendo da natureza basilar do agente fúngico.
    Os olhos perlustram letreiros, capas de revistas, manchetes de jornais, títulos de negociatas, resultados esportivos, formas diversificadas de modelos, nomes referenciais de etiquetas nacionais e estrangeiras, imagens desnudas, mortas e em completo estado de putrefação.
    Os sons, principalmente em forma melodiosa, comutam substituir quaisquer textos contidos nos livros didáticos e paradidáticos. Tomam uma amplitude máxima, não permitindo a leitura da ultima frase que encerra o parágrafo do escrito em tela. Cantarolam-se os manuscritos etiológicos e semânticos, divagando-se a presença de sujeitos desveladores, pois usufruem dos aprazimentos causados pela música erudita, em que as partituras falam da importância sequencial das interpretações dos vocábulos em suspense.
   Comprimem-se as ideias no espaço disponível para a escrituração dos logogrifos, absconditando sentimentos secretos, onde as fruições transudam pelas frinchas intumescidas.
     A leitura, para deleite dos mais degenerescentes, está sendo feita pela inoculação de pequenos artefatos sonoros localizados, concomitantemente, em ambos os ouvidos. Também, de modo escalafobético, é realizada por meio da decodificação das imagens, antes e depois dos seus variegados estágios prodrômicos de sucumbência!... Tem-se a pseudoimpressão de que a resultante é a própria geratriz encetadora, a qual sofrerá interpenetração dos aparatos ícones. O texto, propriamente dito, ficará em estado de latência, obedecendo ao ritmar da mesma folha que o recebeu em suas primeiras grafias. Por melhor que esteja representado, os botões infernizantes da tecnologia superam-no, indiferentemente, como se não houvesse contextualização, do que está sendo ostentado com primazia quanto aos díspares paradigmas de hermenêutica hodierna!
     A desatenção dos deseducandos, sem maiores escárnios, se dirige com exclusividade desidiosa, para as notícias divulgadas pela mídia. Os assuntos são de deleteriedade a toda prova, não restando o ato da participação do fator educacional abrangente. Somente as desobrigações far-se-ão presentes, sem que haja a constituição de compromissos preestabelecidos, a fim de que sejam laborados com perspicácia.
     Neste ano fatídico – da copona mundial da bola – o futebol ressudará o láudano, que é a solução hidroalcoólica do ópio e outros ingredientes. Realmente, ele tomará todos os espaços disponíveis!... Os meios de comunicação não divulgarão quaisquer outras notícias!... A criminalidade, por mais hedionda, e as demais catástrofes passarão para o plano secundário, terciário e quaternário das imanes incúrias!... A epidemia será o futebol, e o texto da pelota será composto de todos os pormenores, e, em seguida, codificado e decodificado consoante as suas propendências pebolísticas, onde os jogadores buscam recursos para a plena oficialização das partidas a serem realizadas diuturnamente, ocupando, simultaneamente, todos os aparelhos do mundo das comunicações, numa lídima ginástica cognominada de cópula peloteira mundial!...
     Ilativamente, o desábito da leitura passa a imperar, de modo desidioso, pois os sons e as imagens, em cabal mixagem, expressam em psicodelismos estremunhantes, com testemunhos, os textos do futebolismo – sobretudo os que deveriam ser reorganizados e concatenados, dando-nos o parecer definitivo das ideias abstrusas, que, por mais exasperantes, ainda exprimem uma aparente e questionável normoanormalidade!

                                     Wilson Cerveira



Um comentário:

  1. Márzia Neitzke14/4/14

    Infelizmente, o que vivemos é o declínio da valorização da cultura e de outros hábitos, que tornam o ser humano mais perceptivo; mal sabem os desavisados que os neurônios foram feitos para serem utilizados, assemelhando-se a qualquer outro músculo do nosso corpo, que na falta de estimulação; atrofiam.
    A ausência da leitura é hoje sentida em diversos momentos, que vão desde uma simples entrevista de emprego, uma conversa informal, quando casualmente ouvimos as pessoas se comunicando; até nas laudas de discursos de altos executivos e governantes, somos obrigados a permitir que firam nosso tímpanos e fazer a retina sofrer, ao convivermos com aberrações no emprego da palavra...........

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