O enigma está no ato de ouvir o nome de
quem se encontra ausente. Não se sabe até que ponto a ausência marca a
presença. E este fator, com características realistas, tem seus estigmas
impressos na memória, independendo do grau de perfeccionismo a que fora
intentado, durante a captação do som emitido através da própria imagem
concentrada em seus pensamentos reiterados de obsessão diuturna.
Era, pontualmente, a hora do Ângelus, em
que fora redita pelo monsenhor Florisberto, com certa pausa na pronúncia, a
postremeira lista nominal dos falecidos, não importando sequer as
características fenotípicas adquiridas no telúrico. Todos já haviam partido
para estudar a geologia dos campos santos, com exceção daqueles que ainda
ostentavam tendências ateístas.
A
senhora Diures, que morava nas contiguidades da casa do psiquiatra Egberto,
fora a primeira a escutar dos lábios do pároco esta divulgação tristíssima. Em
seus pensamentos – dissera ela – morreu o tão delicado profissional das
ciências médicas, cognominado, carinhosamente, por uma expressão relevante: “o
queridíssimo Egbertinho”.
Houve uma paradoxia quanto ao ato de
transmissão da macabra notícia. Quem morrera, de fato, fora dona Florisberta, a
senhora mãe do doutor, que já vinha aparatando um certo mal secreto, devido a
complicações de enfermidades prístinas e inerentes à sua faixa etária.
Egberto, Clínico Geral e Psiquiatra, era o
seu unigênito – o mais querido – arrimo de família. Um não poderia deixar o outro
sozinho, mesmo que contrariasse o soneto de Júlio Salusse, intitulado: CISNES (Um
dia um cisne morrerá por certo...)
Dona Diures sorvia o hálito de rosas em
cabal fenecimento. Vislumbrava, através de um delírio-alucinatório, um esquife,
contendo em seu interior o corpo da Senhora Florisberta, a estimada mãe do dr.
Egberto – superprotegido desde o nascimento até a fase de sazonalidade. Todos,
mormente os moradores da casa onde habitava, chamavam-no de príncipe,
aparatando os regalos de maior opulência.
Dona Florisberta não era a pessoa que se
afigurava no intercurso das ondas cerebrais da senhora Diures; o que, deveras,
lhe vinha na exaustão do evagatório, em suas percuciências labirínticas, simbolizava
a efígie do Egberto, coberta de luto da cabeça aos pés, estando localizada no
interior do ataúde! ...
Num heteroclitismo a toda prova, o médico
estaria com os seus dias de vida contados. Dava a especiosa aparência de uma
pena de morte, onde o verdugo, em sua soledade intrínseca, registrava o tempo
na turbidez de um relógio abscôndito. Já se ouvia, de maneira falaciosa, o
ranger estentório de quem morre, sem que se soubesse a destinação malograda de
um velho marinheiro, perdido ao sabor das ondas tempestuosas de um mar bravio,
cujas ondas desmoronam as descomunais vacuidades entre um escarcéu e outro,
numa turbulência ascendente.
A evagação causava insânias naquele presságio
da efêmera momentaneidade. Exatorialmente, os dias estariam assinalados em
tinta preta em todos os calendários. Realmente, Egberto pereceria no dia 3 de
novembro de 2004, no exato dia em que a senhora sua mãe completara dois anos,
tempo esse dedicado, segundo a Divina Providência, para o compulsar das
anotações geológicas referentes aos campos santos.
Os áugures saberiam exprimir a marcha
destinatória, e, destarte, a ressumbração predispor-se-ia a uma direitura
correlacionada ao evento nefasto. A ave de mau augúrio pousaria sobre a cumeeira
da casa, numa indicação prévia de luto iminente. Sim, Dona Diures parecia
adivinhar as minudências das sinas abruptas, no preciso átimo em que velas e
marinheiros se expungem em mar aberto, no qual os vagalhões se obliteram,
sutilmente, na soturnidade somatorial dos tempos priscos.
Os sinos não dobraram com percuciente
funebridade, apenas os badalos premoniciaram, com tristura estigmatizante, a
próxima data fatídica, em que se celebrariam as exéquias do Dr. Egberto (à cata
de adendos plausíveis, poder-se-ia exarar que ele, de fato, aparatava anomalias
comportamentais recrudescentes! ...)
Em determinada noite de 2004, resolvera
participar de uma esbórnia, sendo acompanhado por diversos elementos de má
índole. E, no decurso dessa curra, fora escorchado pelos réprobos comparsas.
Dr. Egberto não previa jamais, por mais
que o tempo fosse cruel e inexorável, que aquela estava sendo a sua postremeira
noite na face do telúrico, ostentando ainda todo o arcabouço ósseo e demais
órgãos e glândulas do sistema endócrino. Desideraria fruir por todos os poros e
orifícios orgânicos. Felações e inoculações profundas é que não lhe faltavam.
Cada sujeito far-lhe-ia um tipo de correspondência biunívoca – da mais
prazerosa até a mais ciliciante de todas. Era uma lídima ablução de sêmen
generalizante, não poupando tampouco as articulações dos membros superiores e
inferiores.
Os cinco facínoras estavam todos
empunhando armas brancas, que foram postas nas ripas que sustentavam o
substrato da cama, servindo de anteparo imprescindível com relação ao assento
do colchão. As molas subiam e desciam, obedecendo a propulsão dos corpos
submetidos a esfregaços revoluteantes, a fim de que resistissem notadamente a
variância dos respectivos pesos atinentes aos seus glúteos e demais
alardeamentos genitais, os quais exibiam paroxismos palindrômicos
insaciatórios. Nesse caso, não existiam meios locupletórios cabais! Tanto assim,
que, sem hesitações contundentes, as insânias fruitivas do regalo iam se
proliferando incomensuravelmente.
Os escroques extorquiam-lhe os cartões de
crédito, os de saque, os de poupança, além dos dois automóveis seminovos,
guardados na garagem do imenso quintal pertencente ao casarão antigo, que ainda
ressumbrava um seriado de janelas com as dimensões correspondentes às vetustas
portas de bacuri, portando trincas, argolas, aldrabas e demais apetrechos
úteis. Em princípio, amarraram-no na cama, usando todos os tipos de grilhões,
tanto para as mãos como para os pés; e, assim como, correntões de ferro de
grosso calibre para o resto do corpo, empertigando-o de modo cerceatório, com
probabilidades restritas e concernentes a uma respiração ofegante, ressumando
um sindrômico exacerbante de uma iminente asfixia.
Ninguém desideraria uma empatia
verossimilhante. Jamais o sujeito resistiria descomunal lancinância, mesmo que
todo o seu sangue fosse esvaído do organismo, obliterando quaisquer estesias,
sobremaneira as que percorrem os meandros dos nervos, músculos, tecidos, órgãos
e interligamentos entre os vários sistemas do organismo.
De fato, o silêncio sepulcral das bocas,
braços e pernas atadas; e, com a soturnidade horripilante da noite macabra,
tendo ainda o hermetismo do ambiente, decretou-se definitivamente uma
carnificina anatômica perpetrada na extensão do corpo do psiquiatra, o qual
estava sendo acossado pelo mais cruel de todos os cilícios! ...
Dr. Egberto não mereceria uma sina tão
hedionda, repleta das mais percucientes barbáries. Naquele átimo fatídico, cada
bandido ia exercendo as suas horrendas nequícias em vários pontos e regiões do
soma. As armas brancas agiam, de modo feroz, como ocorre nos açougues,
extirpando-lhes as vísceras, resseccionando as alças intestinais, abrangendo as
ablações de órgãos e as exéreses completas dos demais sistemas.
O conjunto anatômico do esqueleto ficou
disperso pelos aposento da casa, comprovando um esquartejamento, com todos os requintes
de malignidade estigmatizante, nunca dantes experimentados. A putrefação
encetou a impregnar os ares internos e externos, não deixando margens para que
houvesse uma respiração salubre – dentro dos limites do salutar!
A vizinha se reuniu para pedir
providências às repartições atreladas à Vigilância Sanitária. Os peritos do
Instituto Médico Legal foram vocacionados até o local. A deterioração orgânica
havia progredido além dos limites, obiciando um arquétipo de esquadrinhamento
pormenorizado pelos médicos legistas. Não se sabia ao certo aferir as causas
que induziram tamanha iniquidade. Deveras, sem perplexidade, houvera um
latrocínio. Os aposentos estavam esvaziados de objetos e demais pertences, e,
em lugar deles, existiam cominuições do seu próprio corpo, completamente
mutilado, num estado de irreconhecimento cabal. Todas as identidades foram
consumadas no término desses catorze dias de criminalidade abscôndita, na
ausência absoluta de testemunhas e testemunhos.
Wilson Cerveira
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