sexta-feira, 6 de novembro de 2015

SILENCIOSA PRESENÇA ESFÍNGICA

     Levegildo, soçobrado em cabal tacitez, fora eximido de quaisquer estrupícios, frêmitos e mexericos – alarmantes ou não – desde o ínterim em que fora fecundado e gerado no terço médio das trompas de Falópio; e, adendando, para melhores dilucidamentos, durante a sua permanência de nove meses no interior do útero materno.
     Ao nascer, diferenciou-se das demais crianças, não emitindo vagido sob a forma de pranto. Depois, vinha sendo cercado pelas solicitudes maternas. Foi refocilado, quiçá, pelo choro coincidente de outra criança, nascida logo depois na casa contigua, que era a bisneta da senhora Florentina. Sabe-se, de antemão, que o ato de chorar é extremamente necessário durante o parto, já que é o basilar imprescindível para a abertura simultânea das massas pulmonares, representando uma oportunidade de desprendê-las ao nascer.
     Desde que nascera, tinha a santa paciência de esperara os horários das mamadas e dos mingaus, sem que emitisse um choro deblaterativo. Comportamento esse, totalmente diferente das demais crianças da maternidade. Aguardava também quando se encontrava com a fralda molhada de urina ou suja de excrementos. Por sinal, não incomodava as enfermeiras de plantão tampouco a senhora sua mãe e as respectivas babás.
     Durante o banho, com água quebrada da frieza, que é uma expressão muito usada pelas famílias interioranas, o recém-nascido Levegildo sorria um sorriso do tipo compassivo! Não batia as pernas e os pés no volume de água contida na banheira. Ao redor da bacia não deixava que se visse a vislumbração de alguns pingos d’água. O local em volta permanecia seco, não dando a demonstração da existência de ablução do corpo inteiro.
     Levegildo era uma criança saudável e providencial, pois não ocupava ninguém para que lhe pudesse calçar as meias, e, em seguida, enfiar-lhe os sapatos. As demais crianças do “Jardim de Infância” esperavam os providenciamentos das suas mucamas. A dependência de espera, assim como o círculo vicioso, ambos estavam formados, atendendo as demais crianças.
     O pequeno Levegildo não se fazia notar. Exibia sempre, em quaisquer locais que estivesse, a ad-rogação de uma fleugma impressionante. De fato, não era percebido em momento algum; tanto assim que pisava nas pontas dos pés, dando a falsa efígie de um detetive à cata de adendo de buscas informativas imprescindíveis. Cursou todo o “Curso Primário”, sem que desse algum trabalho para a sua professora. Aparatava versatilidade em todas as matérias, não deixando que suas notas ficassem abaixo de oito. Afeiçoava-se mais no interregno compreendido a partir de nove até dez. Fazia distinção tanto nas sabatinas intercaladas entre tabuada e verbos. Sobressaía sempre com louvor, ocupando o primeiro lugar com relação aos demais colegas. Todos os anos, sem exceção, recebia uma medalha de honra ao mérito.
     Aprazia-lhe como algo fulgurante tal condecoração, pois ressumava o grande esforço perpetrado durante todo o ano, abrangendo todas as matérias contidas no curriculum escolar vigente no final da década de sessenta do século XX, previamente determinado pela Secretaria de Estado da Educação.
     Não incomodava ninguém – nem a ele próprio! Quando tomava banho, forrava o banheiro com um tipo de fibra têxtil, que amortizava os pingos de água caídos sobre o piso do banheiro. Dava-nos a aparência penumbrosa da inexistência de qualquer criatura no interior do lavabo. Quando fazia as suas necessidades fisiológicas imprescindíveis, hermetizava-se completamente, não deixando ressudar o impacto das dejeções no fundo aquoso do sanitário. Para tanto, sentava-se na parte superior e circular do vaso, facilitando a descida silenciosa dos excretas através das paredes indinadas do aparelho adequado ao ato defecatório. As mercaptanas pareciam sair filtradas, sem acústica e sem odor. Obiciava serviços de má postura. Dessa maneira, assentava-se à beira do túmulo, e, por algum tempo respirava por ambos os lados das narinas.
     Os demais membros da nova Diretoria do Lítero, sem titubeação, devem prestar a devida atenção, já que não sofriam, aparentemente dos dois grandes males que assolam os dias de cruenta hodiernidade.
     Não admitiria escutar ruídos, zumbidos e quaisquer outros efeitos sonoros. Tinha-se por exemplo basilar em tudo que fazia com esmero. Eximia-se de quaisquer promiscuidades de seus estridentes, sobremodo os que não transmitem a vacuidade sentimental dos dislates proporcionados por aqueles que usam como defesa a palinódia, periodicamente transformada em caracteres degenerescentes.
     Onde estivesse – perto ou longe – Levegildo não causava nenhum, por acaso, tipo de estrépito. Quando se utilizava do aparelho mictorial, fazia-o de tal forma, que não se ouvia o jato de urina cair sobre o resto de água contido no fundo do vaso. De modo verossimilhante, deixava que a massa fecal resvalasse pelas inclinações do assento sanitário lentamente, até que chegasse ao fundo. Nada se percebia, e, com isso liberava a expressão produzida: “Não deixava marcas no fundo do vaso”.
     De quando em vez, vinha-lhe a nefasta nota fatídica. Um dos seus colegas de Primário, o João José, acabara de expirar fisicamente – “para nunca mais regressar sob a forma materializada”. No mundo das almas, decerto, não teria mais as preocupações reinantes. De fato, segundo Coelho Neto, “a eternidade é um oceano sem praias”. As novas almas soçobrariam pela imensidão do orbe espiritual. Sim, na vacuidade anímica não haveria apropinquações de grupos visando objetivos comuns. Contubérnios surdiriam em tempo prolatório. Nada mesmo se divagava, a não ser que fosse a voz cavernosa a eclodir entre os túmulos cerrados e semicerrados.
     Tudo o que realizava era com extrema solicitude, não remanescendo pegadas. Eles, alguns apenas, analisavam os estigmas labirínticos deixados na areia; enquanto o Levegildo não imprimia marca naquilo que realizava com acertado bom gosto.
     Não se sabia, ao certo, de quem eram os traços! Perdia uma boa parte do seu tempo, remodelando um calendário que se adaptasse as mais heteróclitas nuances.

                                             Wilson Cerveira

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