Levegildo, soçobrado em cabal tacitez,
fora eximido de quaisquer estrupícios, frêmitos e mexericos – alarmantes ou não
– desde o ínterim em que fora fecundado e gerado no terço médio das trompas de
Falópio; e, adendando, para melhores dilucidamentos, durante a sua permanência
de nove meses no interior do útero materno.
Ao nascer, diferenciou-se das demais
crianças, não emitindo vagido sob a forma de pranto. Depois, vinha sendo
cercado pelas solicitudes maternas. Foi refocilado, quiçá, pelo choro
coincidente de outra criança, nascida logo depois na casa contigua, que era a
bisneta da senhora Florentina. Sabe-se, de antemão, que o ato de chorar é
extremamente necessário durante o parto, já que é o basilar imprescindível para
a abertura simultânea das massas pulmonares, representando uma oportunidade de
desprendê-las ao nascer.
Desde que nascera, tinha a santa paciência
de esperara os horários das mamadas e dos mingaus, sem que emitisse um choro
deblaterativo. Comportamento esse, totalmente diferente das demais crianças da
maternidade. Aguardava também quando se encontrava com a fralda molhada de
urina ou suja de excrementos. Por sinal, não incomodava as enfermeiras de
plantão tampouco a senhora sua mãe e as respectivas babás.
Durante o banho, com água quebrada da
frieza, que é uma expressão muito usada pelas famílias interioranas, o
recém-nascido Levegildo sorria um sorriso do tipo compassivo! Não batia as
pernas e os pés no volume de água contida na banheira. Ao redor da bacia não
deixava que se visse a vislumbração de alguns pingos d’água. O local em volta
permanecia seco, não dando a demonstração da existência de ablução do corpo
inteiro.
Levegildo era uma criança saudável e
providencial, pois não ocupava ninguém para que lhe pudesse calçar as meias, e,
em seguida, enfiar-lhe os sapatos. As demais crianças do “Jardim de Infância”
esperavam os providenciamentos das suas mucamas. A dependência de espera, assim
como o círculo vicioso, ambos estavam formados, atendendo as demais crianças.
O pequeno Levegildo não se fazia notar.
Exibia sempre, em quaisquer locais que estivesse, a ad-rogação de uma fleugma
impressionante. De fato, não era percebido em momento algum; tanto assim que
pisava nas pontas dos pés, dando a falsa efígie de um detetive à cata de adendo
de buscas informativas imprescindíveis. Cursou todo o “Curso Primário”, sem que
desse algum trabalho para a sua professora. Aparatava versatilidade em todas as
matérias, não deixando que suas notas ficassem abaixo de oito. Afeiçoava-se
mais no interregno compreendido a partir de nove até dez. Fazia distinção tanto
nas sabatinas intercaladas entre tabuada e verbos. Sobressaía sempre com
louvor, ocupando o primeiro lugar com relação aos demais colegas. Todos os
anos, sem exceção, recebia uma medalha de honra ao mérito.
Aprazia-lhe como algo fulgurante tal
condecoração, pois ressumava o grande esforço perpetrado durante todo o ano,
abrangendo todas as matérias contidas no curriculum escolar vigente no final da
década de sessenta do século XX, previamente determinado pela Secretaria de
Estado da Educação.
Não incomodava ninguém – nem a ele
próprio! Quando tomava banho, forrava o banheiro com um tipo de fibra têxtil,
que amortizava os pingos de água caídos sobre o piso do banheiro. Dava-nos a
aparência penumbrosa da inexistência de qualquer criatura no interior do
lavabo. Quando fazia as suas necessidades fisiológicas imprescindíveis,
hermetizava-se completamente, não deixando ressudar o impacto das dejeções no
fundo aquoso do sanitário. Para tanto, sentava-se na parte superior e circular
do vaso, facilitando a descida silenciosa dos excretas através das paredes
indinadas do aparelho adequado ao ato defecatório. As mercaptanas pareciam sair
filtradas, sem acústica e sem odor. Obiciava serviços de má postura. Dessa
maneira, assentava-se à beira do túmulo, e, por algum tempo respirava por ambos
os lados das narinas.
Os demais membros da nova Diretoria do
Lítero, sem titubeação, devem prestar a devida atenção, já que não sofriam,
aparentemente dos dois grandes males que assolam os dias de cruenta
hodiernidade.
Não admitiria escutar ruídos, zumbidos e
quaisquer outros efeitos sonoros. Tinha-se por exemplo basilar em tudo que
fazia com esmero. Eximia-se de quaisquer promiscuidades de seus estridentes,
sobremodo os que não transmitem a vacuidade sentimental dos dislates
proporcionados por aqueles que usam como defesa a palinódia, periodicamente
transformada em caracteres degenerescentes.
Onde
estivesse – perto ou longe – Levegildo não causava nenhum, por acaso, tipo de
estrépito. Quando se utilizava do aparelho mictorial, fazia-o de tal forma, que
não se ouvia o jato de urina cair sobre o resto de água contido no fundo do
vaso. De modo verossimilhante, deixava que a massa fecal resvalasse pelas
inclinações do assento sanitário lentamente, até que chegasse ao fundo. Nada se
percebia, e, com isso liberava a expressão produzida: “Não deixava marcas no
fundo do vaso”.
De quando em vez, vinha-lhe a nefasta nota
fatídica. Um dos seus colegas de Primário, o João José, acabara de expirar
fisicamente – “para nunca mais regressar sob a forma materializada”. No mundo
das almas, decerto, não teria mais as preocupações reinantes. De fato, segundo Coelho
Neto, “a eternidade é um oceano sem praias”. As novas almas soçobrariam pela
imensidão do orbe espiritual. Sim, na vacuidade anímica não haveria
apropinquações de grupos visando objetivos comuns. Contubérnios surdiriam em
tempo prolatório. Nada mesmo se divagava, a não ser que fosse a voz cavernosa a
eclodir entre os túmulos cerrados e semicerrados.
Tudo o que realizava era com extrema
solicitude, não remanescendo pegadas. Eles, alguns apenas, analisavam os
estigmas labirínticos deixados na areia; enquanto o Levegildo não imprimia
marca naquilo que realizava com acertado bom gosto.
Não se sabia, ao certo, de quem eram os
traços! Perdia uma boa parte do seu tempo, remodelando um calendário que se
adaptasse as mais heteróclitas nuances.
Wilson Cerveira
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